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Tenho saudades do Januário!!!

O JANUÁRIO

 

O Januário, figura lendária, habitante da serra, era  papão e bonzinho, conforme as conveniências. Era assim:

Entre as duas aldeias, na descida da serra para a casa dos padrinhos havia uma mina (antiga nascente de água) tipo gruta, um pouco abaixo do lugar das Corgas, encravado na serra da Ireira onde (diziam) vivia o Januário.

Os sons emitidos à entrada da gruta faziam eco, eram ampliados e descaracterizados - era a voz do Januário - passatempo de quem por lá passava e, para a menina, funcionava como barreira impeditiva de algum regresso inesperado em horas de birra ou de saudades dos pais  ou dos padrinhos.

Atravessar a serra sozinha é que não se atrevia porque, diziam os primos: se tu foges para tua casa, o Januário logo te apanha e não te deixa passar.... Até é capaz de por lá ficar contigo…, já aconteceu com outros “cachopitos” que foram desobedientes. Depois, os pais e a família deles ficaram tão tristes, até os encontrar... !

Nem queremos pensar nisso...!

E lá vinha uma choradeira da carpideira de serviço (Ricardina), quase sempre, bem encenada e não menos convincente.

Mas o que mais convencia a menina dos caracóis era o lado bonzinho do Januário gostava muito das crianças bem comportadas, já se sabe, e sabia recompensá - las por isso.

Vejam só: - À noite subia ao telhado da cozinha do padrinho Daniel e, quando a menina sentada no seu cantinho ou no seu joelho, às vezes já dormitando, ouvia-se um ruído e todos exclamavam: - lá vem o Januário …Xio…! Xio…! - Fazia-se silêncio, só o crepitar da lenha a arder se ouvia, e os rebuçados começavam a cair.

Uma coisa intrigava a menina, é que, o primo Manuel chegava sempre depois do Januário passar e não assistia ao mistério….

Se algum dia o sono vencia, ou o Januário se atrasava, quando todos dormiam profundamente, ele até deixava os doces no travesseiro da menina.

 Que saudades do Januário!

É que o Januário foi uma figura inventada e representada. Tal e qual.... o primo Manuel que, ao regressar do trabalho, noite fora, ainda tinha a pachorra suficiente para subir ao telhado da cozinha e deixar cair sobre o colo da menina os doces que, com carinho, comprava.

Era uma espécie de ritual que todos comungavam e guardavam em silêncio.

Mas, há um tempo para tudo e a menina foi para a escola (ponto de honra de seus pais) e em sua casa ficava agora mais tempo. Só em tempo de férias ia a casa dos padrinhos. Um dia sentiu que todos estavam tristes porque o Januário também deixara de aparecer. Foi para outra terra, quem sabe? Diziam.

Na verdade só mais tarde a menina teve conhecimento de quem representava a figura do Januário, quando já era rapariguinha, porque antes, ninguém tinha coragem de lhe desvendar o mistério e de falar da sua inesperada partida. É que ele emigrou e por lá ficou…. para sempre!

Quando anos depois descia e subia a encosta da serra em visitas periódicas aos padrinhos ( “folares”, na Páscoa ou de “bolinhos”, nos Santos), ainda sonhava que um dia ao descer a serra pelos caminhos serpenteados, encontraria o Januário.

Tem final...

Posted: sábado, 24 de Janeiro de 2009 22:29 por portocego
Arquivado em: ,

Comentários

PedroPenedo said:

Uma maneira muito interessante de «educar» as crianças com o Januário.

Subir ou descer a serra envolvia certos perigos e recompensas.

Voltar a menina seria bom!

# Janeiro 25, 2009 3:37

Lucat said:

Olá Daniela.

Seria tão bom que todas as crianças pudessem ter um Januário na sua vida, mas na versão dos rebuçados :)

Não estava nada à espera deste Januário. Pensava que seria um velhinho casmurro e resmungão da terra!! Foi uma revelação surpreendente.

Onde quer que ele esteja, acredito que será sempre recordado com carinho por aqueles que com ele conviveram.

Beijos grandes,

Luísa

# Janeiro 25, 2009 11:41

portocego said:

Boa tarde Pedro e bom Domingo.

Tem toda a razão,andamos por vezes a inventar métodos para educar e a solução ali tão à nossa mão. Eu acho que naqueles tempos (claro que havia excepções e muitas) mas havia nas famílias tempo para envolver as crianças e até uma certa pedagogia natural que resultava lindamente.

Voltar a menina...! Eu penso que estou muitas vezes a voltar a menina. Há sempre uma tendência para voltar a lugares onde fomos felizes.

# Janeiro 25, 2009 13:43

portocego said:

Viva Luisa,

Então, pensava que o Januário era um velhote? Bem podia ser porque havia por lá figuras bem bizarras que fariam qualquer papel de Januário na perfeição.

Eu penso mesmo que o que me gravou toda esta história nas minhas entranhas foi exactamente o Januário ser quem foi.Ele continuará sempre com um lugar especial nas minhas memórias de menina.

Beijinhos e bom Domingo,

Daniela

# Janeiro 25, 2009 13:52

dissidencias said:

Olá Daniela,

Mas que história fantasmagórica... uiii...

É como a história do policia mau e do policia bom...

Beijinhos

dissidencias

PS: Estou envolvido em mais uma terrível polémica... desta vez com a comunidade gay... Meto-me em cada uma...

# Janeiro 26, 2009 1:56

portocego said:

Dissidências,

Na minha história tudo estava em harmonia até havia o "bom papão".

Já na sua história humorística, não havendo fantasmas, fê-los emergir. Esse tipo de fantasmas gostam de pretextos para dar nas vistas.Não vejo por que estar preocupado. Ou a razão é outra? Censura à vista???. Depois dizem que era "o outro"...!

Uma boa semana.

# Janeiro 26, 2009 13:59

Blanco said:

Daniela:

Estava com tanta curiosidade de saber do Januário, e só agora cá vim. Estive no domingo com uma enxaqueca e nem pensar em vir ao computador..

Com que agrado li esta passagem tão ternurenta que marca, sem dúvida, para sempre a vida.

Cuidados para evitar idas à serra, porque perigoso, e a ternura dos doces à noite. Um Januário que te terá dado, pela "mão" dos teus padrinhos, a noção que há sempre algo de bom dentro de cada um de nós.

Beijinhos

# Janeiro 27, 2009 11:25

bp63 said:

Se calhar estou a ser repetitivo, porque já o devo ter dito, mas um dos motivos que me traz aqui a este lugar é o facto de ele me aportar a um imaginário que se aproxima e se afasta, simultaneamente, do meu. O facto de invocar uma certa ruralidade de um tempo perdido, traz-me algumas reminiscências daquilo que foi a minha e que já pulverizou nas mós dos dias. Só que essa mesma ruralidade, ao ser tão serrana (beirã?) foge-me completamente, pois os meus horizontes desfaziam-se mais em longas planícies e olivais.  

Por isso é com agrade que leio estes pedaços de tempo em prosa, algo entre o conto e o relato, em que vou tentando imaginar como seria mesmo esse cheiro da serra.

O Januário foi o corolário de uma série te textos que publicou (e que, por estar atrasado na leitura,  li de seguida). Não sei se já os fechou, mas se foi, foi em beleza. Trazer esta personagem, meio mítica, meio real, com um toque de suspense, foi muito bom.

Abraço

# Janeiro 27, 2009 20:46

portocego said:

Olá Blanco,

É indescritível, apesar dos pormenores que aqui trouxe daquelas minhas vivências de infância, o que sinto de felicidade e gratidão a todos que me fizeram crescer, principalmente, nos meus primeiros e cruciais anos de vida.

Sem berços de ouro, mas com muito carinho de todos os lados.

Quando vejo mal tratar crianças ou passarem privações fico em agonia porque afinal, é preciso tão pouco para fazer uma criança feliz.

Beijinhos de bem haja,

Daniela

# Janeiro 27, 2009 21:19

portocego said:

Olá Bp63,

Como se diz na minha terra, o mal e o bem à face vem. E, na minha face está chapado esse contentamento de receber um comentário tão elogioso como o seu, sobre um trabalho que pensei e escrevi com tanto carinho.

É que, para além de todo o sentimentalismo e vivências que projecto no que escrevo, é bom sentir que agrada a terceiros e que, por isso, terá alguma qualidade na forma.

É ainda gratificante, sentir que transmito valores, cultura, costumes tradição populares de uma região do país, que de outra forma nunca seriam conhecidas.É tão agradável...!

Um grande abraço de bem haja.

Daniela

# Janeiro 27, 2009 23:13

OlindaGil said:

Vim fazer revisões.

Beijinhos

# Novembro 4, 2009 11:25

portocego said:

Obrigada por teres vindo! E Obrigada pela revisão que colocaste no teu blogue.

Beijinhos

# Novembro 4, 2009 15:24
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