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Era assim a matança do porco!

Matança do porco

 

Era uma festa anual preparada com todos os pormenores e alguma antecedência.

Com o sentido de aprovisionamento de iguarias para o quotidiano das refeições, era uma forma de reunir a família em que todos, de um modo geral, participavam nos afazeres do evento da matança do porco.

Regra geral, era sempre no Inverno dado que a baixa temperatura desta estação era fundamental para que a operação de salga que ocorria 24 horas após a morte do animal, fosse feita sem deterioração das carnes e resultasse uma conservação de sucesso e, certamente, carne saborosa

Preparação

A engorda do porco era a tarefa principal, feita com alimentos escolhidos e confeccionados com critério, pois era um factor importante para que o bom sabor da carne não desiludisse quem a comesse. Havia redobrados cuidados com a criação do animal até para evitar que contraísse doenças e na pior das hipóteses colocasse em causa a realização do evento, na data prevista.

Entretanto, havia tarefas específicas que cabiam respectivamente à dona e ao dono da casa .

Cedo, a dona da casa começava a sua parte, seleccionando e guardando cuidadosamente tecidos de roupas velhas pois naqueles dias iriam ser muito úteis. Entretanto, fazia o inventário de loiças, talheres e outras utilidades domésticas que devia comprar para que pudesse receber em casa a família e de nada se envergonhasse.

Outra aquisição excepcional eram os “adubos” para a matança (ainda hoje não percebi porque lhe chamavam adubos). Eram os temperos para os enchidos (colorau para os chouriços e erva doce e cominhos, para as morcelas) além de outros temperos para a comida, pimenta, canela, e, claro não falando do que se produzia em casa, cebolas, alhos, louro salsa, etc….!

Também nesta altura se reforçavam os mimos, os aperitivos: figos, nozes, queijo da região além das filhoses e bacalhau frito que se faziam para a desjejua de quem vinha mais cedo ajudar no dia da matança e no dia da desmancha, dia seguinte.

A limpeza da casa era das últimas tarefas pois tudo tinha que estar a brilhar ainda mais naqueles dias.

Aos homens da casa outras tarefas os esperava, menos minuciosas mas nem por isso menos penosas.

Uma delas era a apanha dos chamuscos ( uma espécie de mato com características de elevada  combustão e temperatura) que eram apanhados, secos e devidamente acondicionados. Tinham ainda a responsabilidade de tratar das ferramentas e utensílios a utilizar naquele dia. Era preciso afiar a picadora e as raspadoras para tratar o dito friamo (a) (porco ou porca).

Outra tarefa era verificar o estado do tabuleiro de madeira que servia para aparar as tripas e  o chambaril, uma espécie de boomerang que é talhado de um ramo de oliveira, em regra com aquele formato e no qual é dependurado o porco, durante 24 horas, no lugar mais fresco da casa para descanso e arrefecimento até ser desmanchado e salgado.

Mas para quem era festa - desde o inicio dos preparativos era excitante - era  para as crianças que acompanhavam cada passo e em especial o reforço da despensa e a sua preservação Eles  eram curiosos e gulosos, espreitavam a oportunidade para ver e provar o que por lá havia mas quase sempre sem sucesso…JMas, valia a pena esperar, também porque, afinal, eram dois dias de animada brincadeira com os primos. Quase sempre acontecia algum episódio com as suas invenções!

Finalmente, o dia chegava, quase sempre a um Sábado para que não se perdessem dois dias úteis de trabalho no campo ou alguma profissão. Aliás, esta data só era adiada quando se tratava de uma fêmea que às vezes trocava as contas aos donos e entrava em lua e tinha que se esperar pelo fim do ciclo, ou corria-se o risco das carnes ficarem com alteração do gosto e ninguém arriscava.

Era uma festa para a pequenada, que tinham naqueles dias companhia para brincar e rancho melhorado para saciar, finalmente, a gulodice, porque naquela época anos cinquenta sessenta do século XX, não havia esbanjamento, tudo era muito ponderado e distribuído.

 Desde o momento em que os adultos preparavam o porco, o abriam e limpavam, para pendurar a escorrer e a arrefecer, as crianças não deixavam o pedaço – sempre à espera que viesse de lá uma febra, para assarem num espeto improvisado de oliveira ou loureiro, e ei-las, em volta das brasas a fazer o seu petisco, apesar de nem sempre com sucesso porque a cozinha estava ocupada pelas mulheres que se atarefavam a fazer o almoço e a  tratar das tripas que, após o almoço, iriam ser lavadas na corrente do ribeiro mais próximo.

Durante a tarde, acompanhavam o programa dos mais velhos, até porque a noite começava cedo. Os homens jogavam às cartas e as mulheres preparavam o jantar, até porque, à noite vinha sempre mais alguém.

O que não faltava era a concertina ou o banjo, para acompanhar as cantigas em que todos participavam e quase sempre acabava em bailarico. Nesta altura já as crianças dormitavam ou fingiam que dormiam para facilitar a decisão de ficarem com os da casa para o dia seguinte. Os mais velhos preparavam-se para ir cada um para suas casas quando não ficavam para o dia seguinte também em especial em noite de temporal. É que, naquela época não havia transporte a não ser de burro, boi, ou muar e as famílias viviam, em regra, a consideráveis distâncias.

Hoje, esta tradição, foi apagada pelo progresso, a luz chegou a todos lares, mesmo os mais recônditos. A salga foi substituída pelo frio e o calendário das matanças do porco, deixou de  se fixar no Inverno acontecendo em qualquer altura.

É mais cómodo! É menos lúdico!!

Posted: quarta-feira, 16 de Novembro de 2011 20:21 por portocego

Comentários

portocego said:

Quando o tempo arrefecee caem as primeiras chuvadas há duas coisas tipicamente provincianas que me ocorrem: uma é a matança do porco, a outra é a caça ao "tartulho",ou cogumelo. Lembranças de uma infância já afastada...:)

# Novembro 16, 2011 20:33

OlindaGil said:

Obrigada pelos textos que nos tens oferecido nestes anos de blogosfera.

Que a festa de aniversário do meu blogue te deixe um pouco mais feliz e que muitos mais se possam seguir são os meus sinceros votos. Depois do bolo vai o champanhe, Chim-chim! Brindemos!

# Dezembro 17, 2011 11:38
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