SOL

Algumas dicas para professores...

    

Hoje trazemos à vossa reflexão um texto irónico de Vasco G. Moura sobre a “epopeia” dos professores para “salvar a pele” e algumas estatísticas sobre os resultados escolares, publicadas no site da Inspecção Geral de Ensino. Que é que ambas tem em comum? Nada! A não ser a evidente impotência dos professores em conseguir realizar a sua missão com sucesso. Que escola temos? Para onde vamos?

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Palavra de honra que eu não fazia tenções de, tão cedo, voltar a falar da ASAE. Mas as notícias emocionantes do último fim-de-semana funcionaram como catalisador e espevitaram brilhantemente o meu zelo cívico.

Já aqui há tempos o respeitável inspector-geral da ASAE tinha dito, no Expresso da Meia-Noite, que alguns agentes do seu serviço surgem de carapuça nas feiras porque poderia ser desagradável para eles, que por vezes são vizinhos de gente ligada aos feirantes, serem reconhecidos na vida de todos os dias.

Esta forma de assegurar um bom ambiente convivial de vizinhança e a informação sobre o treino do pessoal da ASAE com serviços secretos e polícias estrangeiras é que produziram em mim o déclic triunfal. Eis a solução para muitos problemas!

Pensei logo nos professores. Se receberem treino de manejo de armas e de explosivos, operações de comandos, pantominas de assalto e circulação de capuz negro, não apenas ficam ao abrigo da deterioração eventual das suas relações de vizinhança e proximidade, como podem cumprir muito mais eficaz e corajosamente a sua insubstituível missão.

Os professores têm sido vítimas das mais inqualificáveis violências, quer da parte de alunos, quer da parte dos pais deles. Pois bem, se tiverem preparação militar, aprenderem a manejar uma pistola de guerra ou uma bazuca e se apresentarem nas escolas de cabeça coberta e com uniforme acolchoado correspondente, as vantagens saltam aos olhos:

Primeiro, sentirão as orelhas e o nariz muito mais agasalhados, o que não é despiciendo atentas as inóspitas condições de alguns estabelecimentos de ensino.

Segundo, não podem ser reconhecidos, o que facilita as substituições, por exemplo, quando o professor de Matemática falta e a aula de Matemática é dada pelo de Educação Física, com óbvia solução de muitos problemas de gestão de pessoal. Sem contar que ficam ao abrigo das agressões intempestivas dos encarregados da educação. Quando um aluno é castigado, tem más notas ou chumba sem apelo nem agravo, como é que eles vão saber de que professor se trata? Como é que hão-de ir à escola tirar-lhe satisfações, insultá-lo, partir-lhe a cara, ou mesmo fazer-lhe uma espera traiçoeira, pelo lusco-fusco, à porta de casa?

Terceiro, com esse musculado adestramento, os professores podem manter o respeito e a disciplina muito mais facilmente. Não só pela razão saudável de que os alunos ficarão deveras acagaçados ante uma figura mascarada que lhes explica que não foi o Marquês de Pombal quem descobriu o caminho marítimo para a Índia ou tenta dar-lhes a perceber que o nome predicativo do sujeito não é um disjuntor, mas ainda porque é muito mais difícil, se não de todo impossível, ajustarem contas com o docente cá fora.

E, quanto aos incidentes ocorridos no próprio espaço da aula, os resultados serão igualmente positivos: se o menino Zacarias tentar agredi-lo, ou se o menino Eleutério se lembrar de dar cabo da carteira ou do computador, ou ainda se se puser a tirar macacos do nariz e a beliscar o rabo do menino Teodoro até espirrar sangue, o professor, convertido em atirador especial, pode puxar da Parabellum e acertar na cabeça do menino Zacarias ou do menino Eleutério sem correr o risco de atingir o inocente menino Teodoro ou a omoplata frágil da menina Cátia Vanessa.

Depois de duas ou três cenas deste género, não pode haver quaisquer dúvidas de que o aproveitamento escolar melhorará exponencialmente e de que todos os professores, mesmo os que prestam serviço nas escolas mais problemáticas, podem viver descansados e sentir-se plenamente realizados na carreira que escolheram.

O mesmo princípio pode ser adoptado noutros serviços de interesse público. Ocorrem-me os revisores da Linha de Sintra, os condutores dos autocarros nocturnos e muitos outros.

Tudo o que é preciso é que passe a haver regulamentos que tornem isto possível. Depois, não terão sido os professores quem fez os regulamentos, tal como acontece com a ASAE que se limita a cumpri-los. E finalmente viveremos numa democracia digna desse nome e da actuação mascarada de quantos lhe prestam serviço.

 

Vasco Graça Moura, in DN 16Jan08

 

http://dn.sapo.pt/2008/01/16/opiniao/mascaras_e_servico_publico.html 
 

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In http://www.ige.min-edu.pt

Taxa de retenção no ensino básico - 10,7%

Taxa de transição / conclusão no ensino secundário - 68,9%

Número de alunos por computador com ligação à Internet, no ensino público - 12,8%

Taxa de pré-escolarização - 78,4%

   

    

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Os professores são de confiança!

   

    

Os professores são a profissão em que os portugueses mais confiam e também aquela a quem confiariam mais poder no país, segundo uma sondagem mundial efectuada pela Gallup para o Fórum Económico Mundial (WEF).

   

Os professores merecem a confiança de 42 por cento dos portugueses, muito acima dos 24 por cento que confiam nos líderes militares e da polícia, dos 20 por cento que dão a sua confiança aos jornalistas e dos 18 por cento que acreditam nos líderes religiosos.

Os políticos são os que menos têm a confiança dos portugueses, com apenas 7 por cento.

Relativamente à questão de quais as profissões a que dariam mais poder no seu país, os portugueses privilegiaram os professores (32 por cento), os intelectuais (28 por cento) e os dirigentes militares e policiais (21 por cento), surgindo em último lugar, com 6 por cento, as estrelas desportivas ou de cinema.

A confiança dos portugueses por profissões não se afasta dos resultados médios para a Europa Ocidental, onde 44 por cento dos inquiridos confiam nos professores, seguindo-se tal como em Portugal os líderes militares e policiais, com 26 por cento.

Os advogados, que em Portugal apenas têm a confiança de 14 por cento dos inquiridos, vêm em terceiro lugar na Europa Ocidental, com um quarto dos europeus a darem-lhes a sua confiança, seguindo-se os jornalistas, que são confiáveis para 20 por cento.

Em ultimo lugar na confiança voltam a estar os políticos, com 10 por cento.

A nível mundial, os professores são igualmente os que merecem maior confiança, de 34 por cento dos inquiridos, seguindo-se os líderes religiosos (27 por cento) e os dirigentes militares e da polícia (18 por cento).

Uma vez mais, os políticos surgem na cauda, com apenas 8 por cento dos 61.600 inquiridos pela Gallup, em 60 países, a darem-lhes a sua confiança.

Os professores surgem na maioria das regiões como a profissão em que as pessoas mais confiam.

Os docentes apenas perdem o primeiro lugar para os líderes religiosos em África, que têm a confiança de 70 por cento dos inquiridos, bastante acima dos 48 por cento dos professores, e para os responsáveis militares e policiais no Médio Oriente, que reúnem a preferência de 40 por cento, à frente dos líderes religiosos (19 por cento) e professores (18 por cento).

    

(publicado pela Lusa, 25/01/2007)

  

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O NOVO ESTATUTO DO ALUNO: ESPERAR PARA VER?

   

Foi finalmente publicado o novo Estatuto do Aluno (ver aqui). Depois dos inusitados debates e criticas em torno do regime de faltas destes, parece que tudo ficou como “eles” queriam, os chumbos por faltas vão deixar de existir. Tudo para se garantir que nenhum aluno reprove ou abandone a escola, objectivos “louváveis”.

Deixamos aqui um texto retirado da imprensa, publicado há já algum tempo mas que mantêm toda a actualidade. Afinal que escola estamos a construir? Uma escola “inclusiva” que aceite e inclua TODOS os alunos, não deve ser igualmente uma escola exigente? Que responsabilidades cabes agora à escola e às famílias para assegurar que todas estas alterações não são uma “fantochada” para denegrir a imagem da escola pública?

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Justificadas ou injustificadas, as faltas dos alunos do ensino básico e secundário deixam de ter consequências, a não ser a realização de uma ou várias provas de recuperação para os estudantes que excedam os limites de faltas definidos por lei. Esta é a mais polémica medida que consta da proposta do novo Estatuto do Aluno dos ensinos básico e secundário.

Às denúncias públicas de que os socialistas pretendem, desta forma, camuflar, a ulteriori, os números do abandono e do insucesso escolar, o PS defende-se, argumentando que quer "uma escola pública inclusiva", dando nova oportunidade de aprendizagem aos alunos que queiram regressar à escola e que não os exclua "por conta, apenas, de um determinado número de faltas". Para o grupo parlamentar do PS, "o objectivo deve ser o combate ao absentismo, reagindo imediatamente à ausência do aluno da escola, cativando-o para o estudo e para o seu rápido regresso". Em defesa da proposta, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Albino Almeida, entende que se deu um passo em frente. "É uma medida generosa porque permite dizer ao aluno que a escola está sempre aberta", afirma, convicto de que a questão do excesso de faltas injustificadas será "a excepção e não a regra".
A controvérsia instalou-se depois de serem conhecidas as alterações que o PS introduziu à proposta do Governo, aprovada na generalidade em Abril passado. A retenção no mesmo ano de escolaridade, ou a inibição de frequência das disciplinas para os estudantes que se encontrem fora da escolaridade obrigatória e tenham excedido o limite de faltas injustificadas, deixou de existir, ao contrário do que constava na proposta inicial do Governo. Agora, são as escolas a ter de resolver o absentismo com provas de recuperação para os alunos que excedam o limite de faltas, justificadas ou não. Por regulamentar estão as consequências para os alunos que continuem a faltar e não prestem essas provas (ver texto ao lado).

Do PSD ao BE, as críticas são unânimes: o novo estatuto não vai resolver o problema da violência e da indisciplina, não premeia a assiduidade e volta a colocar as escolas sob pressão.

"É uma machada no regime de avaliação contínua, que ainda é considerada a base da avaliação nas escolas. Estas normas subvertem este regime", critica o deputado comunista João Oliveira, antecipando desde já que o PCP votará contra. Para o PSD, que defende um plano especial de acompanhamento para os alunos absentistas, monitorizado por gabinetes de apoio em cada agrupamento escolar, a proposta do PS "é um erro brutal". "Dantes dizíamos "estamos tapados por faltas", agora os alunos vão passar a dizer "vou à prova"", ironiza o deputado Emídio Guerreiro, acusando os socialistas de quererem artificialmente "melhorar as estatísticas do abandono e insucesso escolar". De "erro histórico" fala também o deputado do CDS/PP, José Paulo Carvalho, para quem a proposta do PS só premeia "o laxismo e diminui o grau de exigênca".
"O PS está interessado em baralhar as estatísticas", ajuíza por seu lado a deputada do BE Ana Drago, considerando que "se o objectivo é o de dar mais oportunidades, então deveria contemplar-se alguma forma de acompanhamento especial" para alunos que abandonam a escola ou persistentemente faltam. "O PS não quis incluir isso na lei. É o chutar do problema para as escolas, que devem resolver tudo. E com que instrumentos?", pergunta.

  

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A (nova) Avaliação dos professores já está aí publicada!

  

O Governo aprovou em 26 de Outubro passado um novo diploma para a avaliação de desempenhos dos professores, mas só agora foi recentemente tornado público em Diário da Republica. Recomenda-se vivamente a sua leitura a todos os docentes!

Transcreve-se, a seguir, uma notícia publicada na imprensa há dias, sobre este tema:

 As regras são para aplicar já este ano lectivo: todos os professores dos ensinos básico e secundário e também do pré-escolar deverão ser avaliados de dois em dois anos, determina o decreto que regulamenta o processo de avaliação de desempenho dos docentes, ontem aprovado em Conselho de Ministros. A opinião dos dois maiores sindicatos do sector é unânime: o modelo é "altamente burocrático" e não vai melhorar a qualidade de ensino. Antes pelo contrário, asseveram.

Mais de um ano depois de se começar a falar num novo modelo de avaliação dos professores - ainda no âmbito da revisão do Estatuto da Carreira Docente, iniciada em Julho de 2006 e concluída em Janeiro passado -, o processo está terminado. "A expectativa do Governo é que se realizem avaliações ainda este ano, sobretudo em relação aos docentes que estão no segundo ano do período previsto para a sua progressão na carreira", disse ontem a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.
O decreto estabelece que os professores sejam avaliados em três fases. Num primeiro momento, o próprio docente preenche uma ficha de auto-avaliação; logo a seguir, é a vez do coordenador do departamento disciplinar, que avaliará o desenvolvimento das aulas, os materiais pedagógicos produzidos e a relação do docente com os alunos. Por fim, a avaliação é feita pelos conselhos executivos, que aferem a participação dos docentes na vida da escola ou os graus de responsabilidade e de assiduidade demonstrados por cada um.
Para o secretário-geral da Federação Nacional de Professores, Mário Nogueira, esta "concentração de poderes" é "inaceitável". "Na prática, há um avaliador do professor e depois um avaliador do avaliador", reage. "É uma situação pesada, porque coloca os professores sob escrutínio permanente", completa João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional dos Sindicatos da Educação.

Mário Nogueira volta à carga para atacar o carácter "burocratizante" do modelo de avaliação. "Todos os anos vai haver meio milhão de aulas assistidas, de dois em dois anos 150 mil entrevistas a professores... As escolas vão trabalhar não em função dos seus alunos mas sim em função do preenchimento de papéis", acusa. João Dias da Silva lança outra acha para a fogueira. "Este modelo de avaliação tem um carácter essencialmente punitivo e não de melhoria de práticas." Os dois dirigentes concordam que, ao estabelecer quotas para os dois níveis de classificação mais elevados dentro de cada escola, o ministério está a deixar de fora o mérito dos professores. "O que se pretende é que fiquem baratinhos e não progridam na carreira", aponta Mário Nogueira.
O decreto determina que os professores sejam classificados em função de 30 parâmetros - e que incluem, entre outros, o abandono escolar e o sucesso dos alunos, algo que os sindicatos criticam. Excelente, Muito Bom, Bom, Regular e Insuficiente são as notas possíveis.
A progressão na carreira está dependente de uma avaliação igual ou superior a Bom. Várias notas de Insuficiente podem determinar a não renovação do contrato ou a reconversão profissional.

  

Digam da vossa justiça!

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Deixo aqui um link (em pdf) para o Decreto Regulamentar: http://www.spgl.pt/cache/bin/XPQ3jTwXX3454eV28FetSMaZKU.pdf

  

  (cortesia do blogue Anterozóide) http://antero.wordpress.com/

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UM DESABAFO PREMONITÓRIO?

    

Pela persistente oportunidade de que se reveste este desabafo/depoimento publica-se o texto de uma carta enviada à Ministra da Educação, a propósito do clima de indisciplina que graça nas nossas escolas.

Claro que as “soluções” que o ME parece ter no bolso para este problema são um Estatuto do Aluno recauchutado e um novo modelo de gestão das escolas, assente na figura do director/reitor que já está em discussão pública e que abordaremos em próximo post.

Estaremos condenados a assistir ao insucesso da própria ESCOLA?

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Senhora Ministra,

  

Sou a Fátima e sou Professora.

Não, o P maiúsculo não é engano; é mesmo assim.

Tenho 57 anos, 30 dos quais dedicados a ensinar adolescentes. (sou  Professora do 3º ciclo).

Duas das características da minha personalidade são precisamente ser disciplinada e disciplinadora.

NÃO AGUENTO MAIS!

A humilhação que alguém da minha idade sofre hoje em dia perante turmas de jovens mal educados e mal formados não tem medida.

Nunca como nos últimos 3/4 anos, eu senti na pele o que é remar contra a maré tentando não só transmitir conhecimentos quer de Inglês quer sobre a vida.

A sociedade está doente, a família está doente, o governo está doente. Todos têm estado doentes e sem cura à vista.

A senhora ministra  já algum dia se confrontou com alunos (9º ano, fora da escolaridade obrigatória) dentro de uma sala de aula a soltarem gases e a atirarem-lhe bolinhas de papel enquanto está a escrever no quadro?

A senhora ministra já porventura sentiu a frustração de entrar numa sala de aula e haver num grupo de 26 alunos apenas 4 que a respeitam e que apreciam o seu trabalho?

A senhora ministra já sentiu o que é passar 26 horas semanais na escola, sem um gabinete onde possa trabalhar, gastando tempo precioso, ociosamente, porque não há isolamento possível para efectuar tarefas de responsabilidade?

A senhora ministra já alguma vez fez uma aula de substituição a uma turma de 5º ano em que mal entra, um aluno de 10 anos lhe diz: “Vai-te f……?”

A senhora ministra não dá instruções claras no sentido de estas situações não acontecerem?

Alguém no seu ministério a vai ofender quando se encontra no seu gabinete a trabalhar?

Sabe, senhora ministra, a Fátima de 57 anos de idade, professora de Inglês há 30, hoje levantou-se às 5,30 h da madrugada para ter o comportamento que sempre teve ao longo de anos de ensino: entregar aos seus alunos o teste que fizeram há menos de uma semana.

Fi-lo com gosto, mas revoltei-me com a falta de sensibilidade que a sua equipa revela relativamente aos professores que estão na faixa etária dos 50/60 anos.

A Escola, enquanto instituição, não respeita os Professores nem o seu trabalho, impondo-lhes que façam omeletes sem ovos, que giram os seus sentimentos (só porque são adultos e têm a obrigação de ter treinado a sua inteligência emocional!) de acordo com a má educação de muitos alunos.

O descontentamento generalizado dos Professores da minha idade leva a que, num mísero intervalo de 10 minutos entre aulas, o tema das conversas seja sempre a nossa angústia, a nossa impotência perante a realidade do nosso dia-a-dia.

A nossa força encontramo-la uns nos outros e nos desabafos que trocamos.

A senhora ministra por acaso alguma vez viveu a realidade de uma escola nos moldes em que ela se encontra hoje?

Não pode imaginar como reagiria, porque muitas vezes os nossos dias são perfeitamente surreais.

No meio de tudo isto, como fica a nossa família? Sim, senhora ministra, porque nós também a temos.

É indescritível a sensação que se tem quando se dá tudo e não se recebe nada em troca.

Senhora Ministra: se tem alguma sensibilidade, por amor de Deus, inverta este estado de coisas, a bem da sanidade mental de muitos dos Professores.

Quando a senhora ministra foi aluna não respeitava os seus professores?

É que toda esta situação actual tem muito a ver com atropelos e desrespeito que se tem pela liberdade dos outros.

Edite um manual que ensine as pessoas a respeitarem-se e não faça publicar um estatuto que, conhecendo nós, Professores, a realidade actual, apenas vai aumentar a nossa impotência perante situações de indisciplina e o nosso stress.

Sei que não lerá este desabafo, mas creia que fiz os possíveis por retratar fielmente o estado de alma de milhares de Professores em Portugal.

Os profissionais de qualquer sector de actividade querem-se motivados para serem produtivos.

Temo que a produtividade dos Professores atinja níveis indesejáveis, muito por culpa de todas as injustiças, humilhações, desrespeito de que temos sido alvo, não só pelos alunos e suas famílias, mas também por quem teria a obrigação de nos proteger e nos proporcionar um bom ambiente de trabalho.

Para terminar este meu desabafo, peço apenas que não façam o país acreditar que situações de indisciplina coma as que relatei ou estados de alma como os que referi são pontuais.

NÃO SÃO e nós, Professores de todo o Portugal, que vivemos esta realidade todos os dias, sabemos bem que elas são recorrentes e perversas para o ensino e para o país do futuro no qual espero ainda participar.

  

Maria de Fátima Portugal (mfatimaportugal@clix.pt)

   

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Deixem os professores em paz

(Um professor precisa de uma sólida preparação de base, prestígio junto da comunidade e autonomia de acção)

  

Pela oportunidade que ainda tem, reproduz-se aqui um artigo de Maria Filomena Mónica, publicado no jornal “Público”, de 1 de Novembro passado.

Porque esta socióloga e escritora não é suspeita de “ser amiga” dos professores do ensino não superior, o artigo tem uma relevância maior. Só é cego quem não quer ver o estado (de espírito) dos professores, a profunda desmotivação acumulada ao longo dos últimos anos. A revisão do seu ECD e a publicação recente da regulamentação da sua avaliação de desempenho terão sido a machadada final (?)…

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Não conheço muitos professores do ensino básico e secundário, mas o contacto que, ao longo dos anos, venho mantendo com alguns e o facto de ter netos a frequentar a escolaridade obrigatória permite-me ter uma ideia mínima do que se passa nas escolas. Aliás, se não me posso pronunciar com mais profundidade sobre estes graus de ensino não é responsabilidade minha, mas das leis que o Ministério da Educação promulga.

Há quatro ou cinco anos, ofereci-me para, durante um ano lectivo, leccionar História em qualquer grau de ensino não superior, coisa que um jurista do ministério me explicou ser impossível, por ter "habilitações a mais". O meu plano era analisar o ambiente de uma escola da periferia de Lisboa com o objectivo de, no final do ano, escrever um livro. Pelos vistos, faltava-me percorrer o calvário a que estes docentes são sujeitos.

É fácil deitar a culpa dos males do ensino para cima dos professores. No sossego do lar, eu própria o fiz, mas as coisas chegaram a um ponto que o ataque a esta classe, especialmente se vindo do ministério, é indecoroso. Para se ser bom docente, são precisas três coisas: uma sólida preparação de base, prestígio junto da comunidade e autonomia de acção. A isto pode juntar-se a paixão pelo que se lecciona, um ideal que nem todos podem atingir. Ora que vemos? O Estado prepara mal os docentes (obri­gando-os a frequentar cursos mal estruturados e estágios baseados em cursos recheados de jargão inútil), mina o seu status profissional e pretende regulamentar tudo o que se passa na sala de aula. Não estou a falar do Curricula, que, esse sim, compete ao poder central elaborar, mas das centenas de despachos normativos, regulamentos e grelhas que atulham as caixas de correio das escolas. Depois de lhes ter dado uma educação deficiente, de ter transformado a sua carreira num pesadelo, de lhes ter retirado a possibilidade de inovar, o Estado dá-se ao luxo de os olhar com desconfiança.

Estou consciente de que, como em todas as profissões, há ovelhas ranhosas dentro da classe. Mas este problema só pode ser resolvido por uma direcção escolar compos­ta de forma diferente e por um sistema de ensino mais flexível do que aquele que existe. Para mal dos nossos pecados, nenhum governo teve coragem para alterar o esquema de organização das escolas, muito menos para deitar abaixo o bloco monolítico que para aí anda a cam­balear. Um director empenhado faz sempre a diferença. Tendo começado bem, a actual ministra derrapou e o primeiro-ministro lembrou-se de usar o velho truque de tentar isolar o sindicato das suas bases. Jamais defendi actuar este de forma imaculada - considero até que a maior parte das suas ideias é errada -, mas a degrada­ção do ensino não é fundamentalmente culpa sua, uma vez que o sindicato só interfere porque o poder o deixa. Finalmente, a aparição, no dia 8 de Outubro, de polícias há civil na sede do sindicato na Covilhã, de onde levaram documentos relativos a uma anunciada manifestação contra o engenheiro Sócrates é inadmissível. Só um país apático aceita as conclusões idiotas que, após um chama­do "inquérito", o Governo tornou públicas.

Deixo de lado as paranóias do primeiro-ministro para me centrar no tema deste artigo. Para além de terem de leccionar programas imbecis, de passarem a vida a girar de uma escola para outra, de serem sujeitos a avaliações surrealistas, os professores são obrigados a aturar alunos malcriados. Há tempos, um professor contou-me ter sido agredido por um aluno de 17 anos, tendo-me em seguida explicado que decidira não responder à letra ao matulão, porque isso implicaria um processo disciplinar contra ele, docente, e não contra o aluno. Mas não é apenas a violência, mas a apatia que mina a escola. Recordam-se daquela reportagem da RTP1, em que se via uma turma onde, farta de ouvir a lição, uma miúda se punha a varrer o chão? É com isto que, dias após dia, muitos docentes se defrontam.

30 nos, quando os meus filhos entraram para o ciclo preparatório (actuais 5.° e 6.° anos), numa escola pública (a Manuel da Maia), ao lado do Casal Ventoso, quase todos os alunos pertenciam à burguesia. O ambien­te que ali se respirava reflectia a cultura que as crianças traziam de casa: mesmo quando não livresco, o Ethos era hierárquico. Com a evolução da sociedade portuguesa - e não o devemos lamentar - tudo isto mudou. Muitos dos alunos provêm agora de meios sócio-económicos baixos e são fruto de gerações de analfabetos. É com crianças educadas à base de telenovelas e de "saberes" aprendi­dos na rua que os professores têm de lidar. Como se isto não bastasse, a escola é forçada a desempenhar funções que, em princípio, lhe não competiria, tais como cuidar de miúdas que engravidam aos 13 anos e de rapazes que consomem drogas.

Não quero pensar no que é a vida de uma jovem, com filhos pequenos, que diariamente tem de fazer quilómetros, a fim de chegar ao estabelecimento escolar para o qual foi "destacada" (só o termo me horroriza!) onde é obrigada a enfrentar crianças para quem o ensino é uma maçada. Em geral, sou pouco condescendente com as "baixas" justificadas por atestados que confirmam doenças psíquicas, mas, no caso dos professores, tenho que abrir uma excepção. Só no último mês, deparei-me com duas professoras que se tinham ido abaixo. Nenhuma ensinava, repare-se, em zonas socialmente turbulentas: uma leccionava numa aldeia perto de Viseu, a outra em Évora. O que as afectara fora a ausência de independência dentro da sala de aula: ambas se sentiam marionetes numa peça que não tinham escrito. Sem programas bem feitos, sem manuais decentes, sem incentivos para se ac­tualizarem, a vida dos professores transformou-se num inferno.

  

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O INFERNO DE SER PROFESSOR

  

    

Por cortesia do bloguer REFLEXO (http://sol.sapo.pt/blogs/REFLEXO/default.aspx) deixamos aqui um testemunho de uma colega sobre ser professor, hoje em dia. Um texto que deve merecer a nossa melhor atenção…

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Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: - Que se ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares, práticas sexuais de risco, etc.

Escolhi ser professora de forma livre, consciente, apaixonada. Sonhava, desde miúda, com livros cheios de mistérios para desvendar, olhares curiosos, inter-actividade e ambientes constantemente renovados. No início da minha carreira, há mais de vinte anos! Cada novo ano vestia-se de curiosa ansiedade.

Fazia planos, idealizava actividades, projectava tarefas, concretizava climas de aprendizagem e, embora trabalhasse muito, sentia-me gratificada pelo meu desempenho. Lembro ainda os alunos, tantos! Sei-lhes o olhar, ainda que tenha esquecido os nomes. No meu ano de estágio, senti-me realizada profissionalmente! O que eu aprendi! Como era fantástico, ao fim da tarde, juntarmo-nos para, em grupo de trabalho, analisarmos práticas, reformularmos, partilharmos ideias sob a orientação sábia mas muito amiga das Dr.ª. Graciete Leitão e Leonor Ferreira.

Não nos reuníamos para nos lamentarmos, para nos agredirmos, para temermos a avaliação. Não! Eram momentos de efectiva partilha e aprendizagem. Então, era bom ser professora.

Era, para mim, na época a viver um momento pessoal muito difícil, um privilégio poder ser professora. Os tempos correram, depressa demais para o meu gosto, e, hoje, olho com profunda tristeza o meu quotidiano profissional.

Não pretendo que ninguém tenha pena de mim, quem tem pena é galinha e eu até detesto penosas! Mas apetece-me partilhar angústias e este é o espaço onde, por enquanto, a minha essência pode correr livre de pressões ou receios.

Hoje, ser professor é ser-se humilhado, agredido, menosprezado quase diariamente. A ministra da educação, a sua equipa, o próprio primeiro-ministro, têm revelado total desprezo pelos professores, e têm conseguido virar a opinião pública contra aqueles que são as peças fundamentais da construção de um país.

Para se ser um bom professor, não tenho dúvidas, é preciso, para além de uma consistente formação científica de base, ter-se autoridade, autonomia e respeito. Nada disto Portugal dá aos professores!

Hoje, neste Portugal que nos escurece a visão agitando a bandeira europeia, as escolas, as públicas, são, frequentemente, o depósito de miúdos a quem os professores devem ensinar. Estes miúdos não são mais, como há 40 anos, gente que reconhece o valor do saber, gente que reconhece a autoridade do adulto.

Muitas vezes, são apenas miúdos que cresceram com a televisão como referência, sozinhos com o computador, sem hábitos de trabalho ou sequer sem regras mínimas de socialização. A estes miúdos, diz a televisão (e por vezes os pais) que a escola é uma porcaria e o professor, ou professores, um funcionário pago para os aturar. Aos professores de hoje, dá-se um horário cheio de tempos de coisa nenhuma, camuflados por siglas pomposas, para lhes lembrar que são funcionários públicos e, por isso apenas, devem permanecer no local de trabalho um x número de horas por semana. A estes mesmos professores, exige-se que cumpram programas que, frequentemente, são excessivamente teóricos, obsoletos e longos. A estes mesmos professores, que por acaso até são pessoas também e têm vida particular, exige-se que mudem todos os anos de quarto alugado, que abandonem filhos e família, que façam quilómetros sem fim para, apenas, não perderem o emprego.

Aos mesmos professores, retira-se a autoridade conferindo, aos alunos, o poder de fazerem o que mais lhe apetecer. Pede-se aos professores que registem, de preferência diariamente, as faltas dos alunos, que as enviem aos pais para que... as mesmas possam ser justificadas! A estes professores chama-se medíocres e nabos quando, ao publicarem-se os rankings, se mostra que as escolas privadas são melhores do que as públicas!
Portugal é um país que não merece os professores que tem. Com certeza haverá maus professores. Há maus profissionais em todas as áreas. Mas não são, de certeza, a maioria. A maioria dos professores portugueses devia ser condecorada pela resistência, pela capacidade de sobrevivência, pela Arte de constante renovação da esperança. Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: - Que se ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares, práticas sexuais de risco, etc. Nas escolas de
hoje há clubes de saúde, clubes europeus, clubes de solidariedade, clubes de alimentação, clubes de ciência, clubes de tudo aquilo que se possa imaginar porque, na escola de hoje, cabe tudo! Só começa a não haver espaço para se ser professor...
 

Maria Luísa Moreira

(Publicado originalmente in "O Distrito de Portalegre")

 

Nota – o próximo post será um outro olhar, um olhar externo sobre a condição docente, um texto de Maria Filomena Mónica, já igualmente publicado na imprensa.

  

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O Professor Titular

    

Para descontrair, transcreve-se a seguir um texto publicado originalmente no jornal A BOLA. Não há dúvida que Scolari e Lurdes Rodrigues devem ter andado na mesma escola…

Deixamos também aqui, com a devida vénia, um cartoon do dono do blogue Anterozoide, um artista gráfico com um notável sentido de humor que recomendamos vivamente.

   

As nossas escolas lançam-se, definitivamente, na arrojada experiência do mundo da bola. Com uma Ministra apostada em ser um género de Scolari da Educação, o Ministério investe na divisão sectarista entre (professores) titulares e suplentes.

Os titulares serão, então, convocados à luz de uma escolha surpreendente. Mais importante do que saber dar aulas e ter sucesso na relação educativa com os alunos, interessará saber como pisar a alcatifa dos gabinetes, ter prática de carreira burocrática fora da sala de aulas e, acima de tudo, não ter tido lesões que obriguem a paragens mais ou menos longas no Campeonato, mesmo que por culpa de qualquer sarrafada alheia.

A táctica é, pois, não ter vida para além do dever. O destino é entregar a titularidade professoral aos mais dignos ratos de sacristia. Por isso, não bastará saber marcar golos. E, tal como em alguns clubes de futebol manhosos, é preciso não esquecer de elogiar o presidente e ser de uma fidelidade canina ao treinador.

(Vítor Serpa, Director do jornal)

  

 

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Professores à beira de um ataque de nervos: em que mundo vivemos?

  

    

Não vimos aqui falar das questões humanas subjacentes…

Não viemos aqui gritar, e olhem que bem nos apetece, “parem com esta… que já chateia tanta falta de humanidade!

Não vimos aqui fazer um desabafo, nem um protesto.

Não. Vimos fazer um alerta!

Vimos aqui falar das questões pedagógicas e formativas, que surgem como consequência destes factos de que venho falar.

Há dias, apareceu mais uma notícia (“D.N.” de 18 de Outubro – ver aqui) de uma colega obrigada a trabalhar em condições de saúde debilitada devido a cancro… três neste caso, sendo um deles na língua, que sangra constantemente devido ao esforço para falar.

   

As questões que pomos são estas:

1º - Que crianças estamos a formar, ao terem que assistir a esta violência sobre uma pessoa, neste caso a sua professora do 1º ciclo, onde as relações afectivas são mais estreitas e permanentes?

Cidadãos insensíveis à dor alheia?

2º - Que cidadãos estamos a formar, ao presenciarem a falta de direitos dos cidadãos de direito, mesmo quando a lógica e os conceitos de fraternidade ou simplesmente de bom senso diriam que deviam estar protegidos deste tipo de esforço e até mesmo de humilhações …

Cidadãos apáticos?

3º - Que qualidade pedagógica pode ter o trabalho de um professor que se encontra doente com uma doença altamente debilitante?

Que empenho, que capacidade de inovar poderá ter este docente doente?

Como poderá ele ter a paciência e a persistência que o processo de ensino-aprendizagem exige?

4º - Que continuidade pedagógica poderá garantir um professor, que faltará frequentemente, ou porque está cansado e desgastado (as últimas energias foram-se a resolver o conflito surgido entre o “zezinho” e o “manelinho” que são crianças e não se apercebem da gravidade da sua briga), ou porque foi ao médico, ou porque foi a um tratamento, ou porque na sequência dos mesmos está tonto e nauseado incapaz de se deslocar de casa à escola, ou porque simplesmente o ânimo não permite?

   

Sabemos que o PM se comprometeu a rever a lei nesta matéria, que esta foi revista, mas as situações desumanas continuam.

   

Que fazer?

É preciso reforçar a solidariedade com estes professores, assegurar-lhes o apoio jurídico e moral quando estes lhes faltarem.

É claro que foram provavelmente seguidas as normas legais, os processos correram, terá havido algo ou alguém que falhou em todo este processo. Mesmo assim não é tolerável esta desumanidade, é preciso agir, impedir que casos destes continuem a surgir na imprensa e a impor-se ao nosso quotidiano. UMA VERGONHA!

   

É preciso que Conselhos Executivos e Sindicatos passem a ter um papel mais activo neste aspecto?

   

Claro que sim, mas eu, tu, nós, temos também um papel a desempenhar, falando, opinando, forçando a mudança…

   

É preciso e é URGENTE avisar toda a GENTE, como diz o Fanhais…

Ou como canta Zeca Afonso “O que é preciso é avisar a malta”

   

Dá-nos a tua opinião, iremos fazê-la chegar a quem de direito.

    

Arminda Figueiredo  Blogue activo: http://sol.sapo.pt/blogs/desabafosdaminda/default.aspx

Fernando Ferreira  Blogue activo: http://sol.sapo.pt/blogs/pessoalissimo/default.aspx

  

  

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ESTUDO ACADÉMICO

   

    

Caros amigos e colegas

A pedido da bloguer Olinda Gil publica-se um texto com objectivos académicos para o qual se solicita a colaboração de todos os comentadores deste blogue.

Obrigado.

O gestor do blogue (Fernando M. Ferreira)

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Para todos os amigos leitores deste blogue

Como sabem este ano lectivo decidi desenvolver mais o meu blogue http://sol.sapo.pt/blogs/OlindaGil/default.aspx na perspectiva de um blogue de disciplina, no âmbito da parte prática do trabalho que estou a realizar.

Estes blogues de disciplina são blogues criados e mantidos por um professor e participados pela turma, cujo principal objectivo é dar continuidade ao espaço de sala de aula mas de forma colectiva, onde todos podem participar  escrevendo posts e comentários, colocando questões, publicando trabalhos, etc.

A participação de todos os alunos, de pais e de outros leitores da blogosfera confere a este tipo de blogues uma dinâmica que os enriquece, pelo que considero que este é um dos tipos de blogue com mais potencialidades no ensino e em que mais se deverá apostar futuramente. Assim, resolvi fazer a minha tese/monografia sobre a temática dos blogues educacionais e pretendo a vossa ajuda com comentários e contribuições acerca do tema.

Resumo - Este estudo irá debruçar-se sobre o recurso aos blogues na comunicação educacional e ao seu papel pedagógico interactivo. A escola não pode recusar abrir as suas portas a esta nova realidade social e cultural - a blogosfera - pois será irremediavelmente ultrapassada pela dinâmica protagonizada pelas novas tecnologias de comunicação caso persista na recusa da aceitação dessa realidade.

Enquanto actores da mudança educacional, os professores deverão ser os utilizadores e impulsionadores das novas ferramentas e materiais que a sociedade exige para conjugar a dinâmica tecnológica com o novo paradigma educacional. Perante esta realidade, há ainda um desfazamento entre a escola actual e as mudanças tecnológicas. É certo que a escola tem de manter uma certa lealdade ao legado científico e cultural, mas isso não pode constituir um obstáculo para adiar ou travar o futuro.

Nesta óptica, uma liderança transformacional da escola terá de acompanhar as mudanças operadas na sociedade, as descobertas científicas, os novos modelos de acesso à informação e à construção do saber, e colocar todo esse manancial ao serviço da dinamização e do enriquecimento da comunidade escolar.

E já agora gostaria de saber a vossa opinião acerca destas questões:

1- Será que os professores estão devidamente informados sobre as possibilidades de comunicarem num ambiente de trabalho virtual?

2 - Poderão os bloguistas do Post-it@EDUC responder às necessidades e desejos dos seus leitores?

3 - Que suporte está a ser dado do ponto de vista formativo, cultural e social quando os professores frequentam acções de formação?

4 - Quais os entraves que poderão surgir em relação a estas novas ferramentas?

5 - Qual a relação dos efeitos da interactividade com os fenómenos sociais?

6 - Quais os sistemas defensivos utilizados pelos professores na blogosfera?

 

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Escolas para o Século XXI

      

   

Divulga-se, a seguir uma iniciativa da Comissão Europeia como o objectivo de envolver as comunidades educativas e, em particular os professores, na discussão de alguns dos temas que mais impactos têm, hoje em hoje, nas políticas de educação e emprego. A Europa é actualmente um grande espaço aberto à interacção entre os educadores e os projectos educativos que visem transformar o ensino e dotá-los dos meios humanos e tecnológicos adequados à concretização do seu principal desígnio: uma educação básica exigente e de qualidade para todos os cidadãos.

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A Comissão Europeia lançou uma consulta pública sobre os desafios que se apresentam às escolas que integram a União Europeia. A iniciativa dirige-se a todos os que se interessem pelo tema.

Os Estados-Membros são responsáveis pela organização e conteúdos do sistemas de ensino e o papel da União Europeia é apoiá-los, nomeadamente, com iniciativas como o programa de aprendizagem ao longo da vida ou o Programa de Trabalho "Educação e Formação para 2010", por facilitarem a troca de experiências e informações e a divulgação de melhores práticas.

A Educação está no centro dos esforços da União Europeia (UE) para melhorar a competitividade e coesão social. Alguns dos desafios e das questões mais importantes que se reflectem no bem-estar dos indivíduos e numa melhor sociedade estão relacionados com a qualidade da Educação.

A Comissão Europeia (CE) decidiu lançar esta consulta pública com o objectivo de identificar os aspectos do ensino escolar em relação aos quais pretende desenvolver uma acção conjunta, de apoio aos Estados-Membros, tendo em vista a modernização dos respectivos sistemas de educação.

O documento preparado pela CE, e que serve de base a esta consulta pública, levanta uma série de questões cruciais para o futuro das escolas na Europa, designadamente as competências-chave, a inclusão social e o papel dos professores, para as quais se solicitam contributos de todos aqueles que se interessem pelo desenvolvimento da educação escolar na Europa.
Quem estiver interessado em participar nesta consulta pública deverá ler o relatório de consulta, escolher as questões a que pretende responder, e expressar então a sua opinião em qualquer língua oficial da UE. Ao todo são oito questões que incidem sobre a organização das escolas, as competências e a motivação dos alunos, o contributo das escolas para o crescimento económico da Europa, o abandono escolar e a diversidade cultural, entre outros temas.

Os contributos deverão identificar as acções que os participantes julgam ser necessárias para assegurar a qualidade de ensino em toda a UE. Os contributos deverão ser enviados até dia 15 de Outubro por e-mail para o endereço electrónico eac-schools-consult@ec.europa.eu.

Os resultados desta consulta pública serão depois analisados e sistematizados em Novembro, para apresentação na conferência "As escolas face a novos desafios", organizada pela presidência portuguesa da União Europeia.

 

Mais informações: ec.europa.eu/education/school21/consultdoc_en.pdf

 

 
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COMO EU A ENTENDO...

    

Do Boletim do Sindicato dos Professores do Norte transcreve-se aqui uma carta-aberta à actual Ministra de Educação, por uma professora da Escola EB 2,3 Dr. Pedro Barbosa, Viana do Castelo.

Afinal SER professor passou a ser um título? Ou é, antes de mais, uma profissão, uma relação pedagógica? A ler e reler…

*****

Um dia destes colocaram, no placar da Sala dos Professores, uma lista dos nossos nomes com a nova posição na Carreira Docente.

Fiquei a saber, Sr.ª Ministra, que para além de um novo escalão que inventou, sou, ao final de quinze anos de serviço, PROFESSORA.

Sim, a minha nova categoria, professora!

Que Querida! Obrigada!

E o que é que fui até agora?

   

Quando, no meu quinto ano de escolaridade, comecei a ter Educação Física, escolhi o meu futuro. Queria ser aquela professora, era aquilo que eu queria fazer o resto da minha vida. Ensinar a brincar, impor regras com jogos, fazer entender que quando vestimos o colete da mesma cor lutamos pelos mesmos objectivos, independentemente de sermos ou não amigos, ciganos, pretos, más companhias, bons ou maus alunos. Compreender que ganhar ou perder é secundário desde que nos tenhamos esforçado por dar o nosso melhor.
Aplicar tudo isto na vida quotidiana.

Foi a suar que eu aprendi, tinha a certeza de que era assim que eu queria ensinar! Era nova, tinha sonhos...

O meu irmão, seis anos mais novo, fez o Mestrado e na folha de Agradecimentos da sua Tese escreve o facto de ter sido eu a encaminhá-lo para o ensino da Educação Física. Na altura fiquei orgulhosa! Agora, peço-te desculpa Mano, como me arrependo de te ter metido nisto, estou envergonhada!

Há catorze anos, enquanto, segundo a Senhora D. Lurdes Rodrigues, ainda não era professora, participava em visitas de estudo, promovia acampamentos, fazia questão de ter equipas a treinar aos fins-de-semana, entre muitas outras coisas. Os alunos respeitavam-me, os meus colegas admiravam-me, os pais consultavam-me. E eu era feliz. Saia de casa para trabalhar onde gostava, para fazer o que sempre sonhara, para ensinar como tinha aprendido!

Agora, Sr.ª Ministra, agora que sou PROFESSORA, que sou obrigada a cumprir 35 horas de trabalho, agora que não tenho tempo nem dinheiro para educar os meus filhos. Agora, porque a Senhora resolveu mudar as regras a meio (Coisa que não se faz, nem aos alunos crianças!), estou a adaptar-me, não tenho outro remédio: Entrego os meus filhos a trabalhadores revoltados na esperança que façam com eles o que eu tento fazer com os deles. Agora que me intitula professora eu não ensino a lançar ao cesto ou a rematar com precisão à baliza, não chego, sequer a vestir-lhes os coletes.

Passo aulas inteiras a tentar que formem fila ou uma roda, a ensinar que enquanto um "burro" mais velho fala os outros devem, pelo menos, nessa altura, estar calados. Passo o tempo útil de uma aula prática a mandar deitar as pastilhas elásticas fora (o que não deixa de ser prática) e a explicar-lhes que quando eu queria dizer deitar fora a pastilha não era para a cuspirem no chão do Pavilhão. E àqueles que se recusam a deita-la fora porque ainda não perdeu o sabor? (Coitados, afinal acabaram de gastar o dinheiro no bar que fica em frente à Escola para tirarem o cheiro do cigarro que o mesmo bar lhes vendeu e nunca ninguém lhes explicou o perigo que há ao mascar uma pastilha enquanto praticam exercício físico). E os que não tomam banho? E os que roubam ou agridem os colegas no balneário?

Falta disciplinar?

Desculpe, não marco!

O aluno faz a asneira, e eu é que sou castigada? Tenho que escrever a participação ao Director de Turma, tenho que reunir depois das aulas (E quem fica com os meus filhos?). Já percebeu a burocracia a que nos obriga? Já viu o tempo que demora a dar o castigo ao aluno? No seu tempo não lhe fez bem o estalo na hora certa?

Desculpe mas não me parece!

Pois eu agradeço todos os que levei!

Mas isto é apenas um desabafo, gosto de falar, discutir, argumentar com quem está no terreno e percebe, minimamente do que se fala, o que não é, com toda a certeza, o seu caso.
Bastava-lhe uma hora com o meu 5ºC. Uma hora! E eu não precisava de ter escrito tanto! E a minha Ministra (Não votei mas deram-ma. Como a médica de família, que detesto, mas que, também, me saiu na rifa e à qual devo estar agradecida porque há quem nem médico de família tenha - outro assunto) entendia porque não conseguirei trabalhar até aos 65 anos, porque é injusto o que ganho e o que congelou, porque pode sair a sexta e até a sétima versão do ECD que eu nunca fui nem serei tão boa professora como era antes de mo chamar!

Lamento profundamente a verdade!

Viana do Castelo

Ana Luísa Esperança

 

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E começou assim?.

    

  

 

 

 

  

  

  

   

Com 21 anos acabei o curso e no mês de Outubro seguinte fui colocada numa aldeia do Barroso para onde me desloquei no dia anterior ao começo das aulas, o dia 7 de Outubro.

Cheguei ao centro da povoação por uma estrada de terra batida, já cheia de “rilheiras” (sulcos profundos) e só estávamos no Outono! Seria muito pior com a continuação do mau tempo, como teria ocasião de ver. No largo principal havia um cruzeiro e mesmo na sua frente, ficava a casa onde iria morar durante esse ano lectivo.

A minha casa! No rés-do-chão havia o único comércio da aldeia, ou melhor, uma tasca e nunca melhor dito, visto que a única coisa que tinha para vender era o vinho. A restante mercadoria vinha de Espanha com quem passei a dividir fronteira e de onde comecei também a abastecer-me.

No 1º andar ficava a residência propriamente dita. Tinha três divisões: o primeiro compartimento era uma “sala” rectangular, a toda a largura da casa e cuja parede da direita fora talhada na rocha mãe e depois rusticamente aparelhada. Mobilavam este espaço ao longo dessa parede, duas imensas caixas de castanho, e por cima delas, algumas pilhas de cobertores de “papa” (feitos nos teares manuais, da lã virgem das ovelhas, pesados e quentinhos tingidos ou não). No lado contrário ao pé  da janela, uma mesa pequena de pinho e um lavatório de ferro. Ao canto uma bacia grande de zinco com fundo de madeira, para a higiene pessoal.

Para o interior desta divisão ficava então o meu quarto, com a mesma parede de granito talhada na rocha viva. Uma cama”francesa” de madeira e a mesa-de-cabeceira. Do outro lado uma pequena sala, do mesmo tamanho que o espaço anterior. Só lá cabia uma mesa e duas cadeiras.

Tinham-me dito que havia casa de banho e vim depois conhecê-la descendo as escadas. Era uma como uma pequena guarita onde havia uma sanita e um espelho pendurado na parede. Eis o meu palácio! Bem o podia dizer, pois àquilo que tinha ouvido falar…

 E fui lá feliz!

Não me faltaram logo visitas que me trouxeram um cântaro de água (água canalizada já era pedir de mais!), e também pão fresco comunitário dando-me mostras de simpatia, pois em muitos anos era eu a primeira professora de “fora”.

No dia seguinte ouvi as crianças à minha porta para me ensinarem o caminho. Lá fomos. Confesso que me agoniei um pouco ao pisar com os meus sapatos da cidade, a rua lamacenta e suja das “vezeiras” (grandes rebanhos comunitários e manadas de gado vacum com o respectivo” boi da povoação” que por ali passavam o dia todo). Mas disse comigo: - Pr’á frente é que é o caminho!

Subimos uma pequena rua e adivinho a escola pelo branquejar do edifício.

Chegava até mim um coro infantil: - A Nossa Senhora já vem. A Nossa Senhora já vem. Pensei que elas brincavam com alguma imagem, mas não. A “nossa senhora” era eu! Conformei-me!

Quando olhei para o recinto escolar, “caiu-me o coração aos pés”! Pululava de crianças!

Senti uma ânsia no estômago!

Abri-lhes a porta e fiquei no umbral a respirar de ansiedade enquanto, mirando ao redor, só vi restolho e eiras de granito velho.

Dentro da sala é que eu tomei conhecimento da real dimensão do meu problema. Contei 47 crianças!

Ordeiras, sentadinhas, curiosas e uns olhitos interrogantes. Mal elas sabiam o drama que se desenrolava na minha mente.

Só tinha estagiado com turmas do 2º ano, da cidade!

21 aninhos! Entregue a mim própria arregacei as mangas e…improvisei, naqueles primeiros dias. Sabia que tinha de planificar ou não conseguiria ir a lado nenhum. Às vezes eram seis horas e eu ainda estava na escola. Nem ao recreio descansava, porque tinha sempre muito que fazer. Pelo menos nesse espaço de tempo deleitava-me com música, porque os meus alunos cantavam bonitas canções tradicionais a…três vozes! Era verdadeiramente belo!

Com a iniciação da leitura e escrita apercebi-me que uma das meninas tinha imensa dificuldade. Era a Elisabete. Vale a pena falar aqui dela:

- Era uma pequenina pastora de sete aninhos, cabelo castanho dourado, com olhos da mesma cor, meigos e confiantes. A tez chisnada pelo vento frio do monte e um sorriso amigável sempre presente.

Vestia saias rodadas, meias de lã tecidas pela mãe com desenhos nas pernas e que terminavam aos biquinhos presas nos joelhos por ligas de elástico, e galochas de borracha (bem sabia eu porquê). Por cima dos ombros uma capa barrosã de capucho, tingida de castanho, como todas as mulheres da aldeia sabiam fazer.

Ela gostava de mim. Uma empatia que nasceu logo entre ambas que me faz ainda hoje recordá-la com carinho.

Mas não aprendia a ler! Na tentativa de a ajudar, levava-a para minha casa e com as letras móveis, que sempre seriam mais apelativas, jogava com ela horas infinitas. Mas nada!

 Um dia desanimei. Mandei a criança para casa e nos dias seguintes deixei-a descansar enquanto eu repensava noutra estratégia.

Passados uns dias fui junto dela para lhe “dar” a lição. A Elisabete com o dedito leu as palavras todas. Calei-me. No dia seguinte idem. Então falei com ela e disse-lhe que lera bem mas que eu não queria que trouxesse a lição sabida de cor.

- Sim senhora.

- Quem te ensinou a lição?

- Ninguém. (de facto os pais eram analfabetos). Sou eu que levo os papéis para o monte e estudo lá. (os papéis eram letras móveis que eu lhe dera)

Tirei-me dos meus cuidados, peguei num livro e na garota e fui-lhe mostrando todas as palavras que já tínhamos aprendido. Ela lia tudo!

 Senti uma alegria indescritível! Elogiei-a muito e ela ficou feliz como eu e vaidosa.

E no caminho para casa eu nem me apercebi do fedor da rua. Ia “ruminando” a minha alegria, acariciando, (porque não?) o meu ego.

Foi a minha primeira vitória profissional! O meu primeiro grande obstáculo vencido! Era professora! Estava-me na “massa do sangue”!

  

   

Celeste Coutinho

Blogue activo: http://sol.sapo.pt/blogs/aserrana/default.aspx 

  

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A ESCOLA E A EDUCAÇÃO - Novos paradigmas

     

Pretendo registar aqui mais algumas notas e tópicos para reflexão, como resultado da análise que retiro através de alguns sinais que têm surgido nos últimos tempos ...

Não tenhamos dúvidas que há uma mudança de paradigmas. Vamos ver no que dá; mas também digo que há muito trabalho por fazer, muitas reformas propriamente ditas. Ao contrário do que querem fazer passar, penso que as verdadeiras REFORMAS ainda estarão para chegar.

Até porque, considerar Reformas as "Aulas de Substituição, "A Colocação dos professores por 3 anos (?), se é que será?", "a alteração do Estatuto da Carreira Docente (ECD) dos Professores e Educadores", ou a "(re)definição carga horária para as diferentes áreas do 1.ºciclo do Ensino Básico (EB)", será uma visão minimalista das questões da Educação. O que houve foi a tomada de algumas medidas, alterações de normas e procedimentos, que só por si não podem ser considerados Reformas. Nem resolvem muita coisa, porque há muitas questões " QUESTÕES CENTRAIS" que continuam por resolver. Vejamos o caso do novo ECD, que não passa de um FARSA, vestida de Reforma Encapotada, de visão economicista da Educação. Mas, adiante...Veremos em meia dúzia de anos, no que dá! Ou talvez antes disso.

No entanto, veremos se o enquadramento global de todas as medidas (em conjunto), quando chegarmos a 2009, poderão considerar-se Reformas ?

Na verdade, este Governo tem mais dois anos pela frente, e por isso, parece-me que não estou a ver no ano de 2009, a tomada de "certo tipo de medidas". Isto, se porventura pretendem ganhar as próximas eleições legislativas.

Por isso, digo: os próximos 12 meses serão pródigos em novas medidas e "Reformas". Vejamos apenas alguns tópicos, sobre os quais têm emitido alguns sinais:

(1) Transferência de responsabilidade, do Ensino Básico para as autarquias - o caminho já está aberto! Os representantes dos autarcas e muitos dos próprios autarcas estão ávidos de transferências, principalmente, de fundos, de verbas, e naturalmente recebem tudo isto de peito aberto...! Por outro lado, isto irá abrir caminho, para outros percursos, outros caminhos, nomeadamente, para a Privatização do Ensino! ...Quanto a este ponto, estamos conversados, nada de mais errado poderá ser feito!;

(2) Gestão das Escolas: Gestão Profissional ou Profissional da Gestão? Penso que todas as formas estão em aberto. Acho que aqui também são necessários alguns (muitos) cuidados, porque a EDUCAÇÃO não pode ser considerada uma "Fábrica de encher chouriços". No dia em for considerada como tal, que venha o melhor Gestor do mundo para fazer milagres...Mas, neste aspecto, penso que é possível (e necessário) melhorar as ditas "UNIDADES DE GESTÃO". Se for feito de forma equilibrada, claro que é possível mudar e melhorar. Já não tão céptico como há alguns anos atrás. Penso que muitas, carecem de facto, de Organização. Portanto, aqui, prefiro o termo "Modelos de Organização". Mas, como é próprio da Ciência, "Fazem-se experiências e tiram-se conclusões"! Não podemos ficar "quadrados" e "meter a cabeça na areia", temos que admitir que há muita coisa a melhorar;

(3) A Formação de Professores: Como já foi atirado para a Comunicação Social há algum tempo atrás, irá iniciar-se a Formação de (TURBO) Professores do Ensino Básico, parece que serão mais abrangentes, mais generalistas, melhor formados, enfim, serão o supra-sumo, a nata. Poderão leccionar 1.º e 2.º ciclo, e, imagine-se, serão FORMADOS pelas ESE´S (Escolas Superiores de Educação). Palavras para quê? Só não entende quem quer ... E ainda por cima, abre um caminho que, não sei se muita gente já reparou, será o alargamento do 1.º ciclo, para 6 anos. Nem mais, nem menos! É isso que está subjacente. Portanto, "mais omoletas, com muito menos ovos". Só encontro um objectivo nisto, que é a poupança de muitos milhões e milhões de euros, ou de contos, na moeda antiga. Também aqui, não podemos esquecer, a antecipação da idade de entrada das crianças no 1.ºciclo, para os 5 anos. Logo, podemos concluir que se trata de mais uma medida com um enorme alcance, mas errada. E aqui, afirmo que naturalmente, esta medida será muito bem recebida pelos pais e Encarregados de Educação. Quem tem filhos pequenos perceberá bem o que eu digo!

Jorge António

Blogue activo: http://sol.sapo.pt/blogs/REFLEXO/default.aspx 

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UMA VISITA DE ESTUDO?

   

Com o regresso às aulas as escolas ganharam de novo vida. Os pátios voltaram a ressoar com o burburinho das brincadeiras. Naturalmente, invadiu-me uma certa nostalgia. Vieram-me à memória histórias dos meus longos anos de docência, como esta que vou partilhar hoje convosco:

NUMA VISITA DE ESTUDO…

Partimos muito cedo porque o caminho era longo até Mérida, nosso destino naquela jornada. Para alguns deles, era a primeira oportunidade de atravessarem a fronteira e conhecerem terras e gentes de outro país.

O largo em frente à escola onde nos tínhamos concentrado, estava quase deserto pois ainda faltava muito para o toque da primeira aula. Os alunos ensonados acomodaram-se nos bancos do autocarro. Sabia que o silêncio duraria pouco. A excitação depressa os iria despertar e começariam os cânticos e os chistes do costume. Havia que conceder alguma liberdade pois uma saída do bairro em que estavam confinadas as suas vidas de jovens, era por si motivo de animação. Tinha preparado alguns documentos de apoio mas pensava propor-lhes a sua leitura quando, vencidos pelo cansaço, ficassem mais sossegados.

Reparei no grupo dos indianos: ensimesmados, tinham mergulhado na leitura dos documentos, alheios ao que decorria à sua volta. Se interpelados, sorriam, mas continuavam no seu canto sem se misturarem no ambiente geral. Como era costume com gente daquelas idades, começaram muito cedo a atacar os farnéis que as mães zelosas lhes tinham acomodado nas mochilas. Mais uma vez reparei no pequeno grupo: esses não comiam nem bebiam. Olhavam a paisagem, trocavam impressões entre eles, quase num sussurro. Não podia deixar de estranhar, pois era grande a sua integração na turma. Aliás, grande parte destes alunos, mantinham-se agrupados quase desde o início da sua vida escolar. Alguns eram companheiros desde o começo da escolaridade. Por outro lado, eram moços de bom trato e não existia entre eles qualquer assomo de segregação ou separatismo.

Circulei um pouco entre aquele grupo a quem me ligava o afecto de vários anos de convívio. Estas viagens eram sempre um bom pretexto para cimentar afectos, alargar o círculo das convivências. E eram também momentos importantes para concretizar e operacionalizar as aprendizagens, por vezes demasiado abstractas, que se conseguiam realizar na sala de aula. Por isso insisti sempre na sua necessidade e interesse, desde que fossem preparadas e executadas com o devido cuidado e com a planificação adequada. Sem isso, facilmente resvalavam para mera excursão, simples passeio, sem metas nem objectivos.

O facto de se dispor de um dia inteiro em contacto com uma ou duas turmas, era uma ocasião única para individualizar mais a relação com aqueles jovens com os quais estava habituado a conviver no espaço e no tempo curtos das aulas, ou nos encontros breves e esporádicos nos corredores.

Tínhamos programado uma paragem para almoço. Os jovens agruparam-se e, como era costume entre eles, logo se estabeleceu um espontâneo e comunitário sistema de trocas. Eu via-me aflito para me livrar de toda a mistura em que se transformaria uma refeição, que pretendia fosse frugal, numa misturada de acepipes e sabores que fariam perigar a minha disposição no resto da viagem.

Nessa altura dei por falta do pequeno grupo que já atraíra a minha atenção no autocarro. Procurando por eles, disseram que não tinham saído. Fui ao seu encontro. Lá estavam, na mesma quietude. Vi que não comiam. Preocupado, pensei que se teriam esquecido de trazer comida. Sentei-me oferecendo do que eu tinha e dizendo que os outros teriam o suficiente para com eles poderem partilhar. Um deles recusou e começou a explicar: que tinham pensado não vir, mas que a minha insistência e explicação os tinha convencido da importância da visita; que não sendo esta um passeio, mas uma sessão para aprender, não havia razão para faltarem.

Um tanto intrigado com aquele discurso, tentei brincar com a situação perguntando se não gostavam também de se divertirem. Que a questão não era essa. Mas que estavam em pleno mês do Ramadão e, por isso, a sua religião lhes impunha certos preceitos e restrições que eles, como bons crentes, tinham de cumprir. Chegada a hora demarcada, poderiam então quebrar o jejum ingerindo os alimentos que traziam para o efeito. Que agradeciam que eu fosse discreto e evitasse explicações junto dos outros pois não queriam tornar-se alvos de chacota, garantia que lhes dei de imediato.Aquela inesperada situação pôs-me a pensar. Desagradava-me sobremaneira que eles procurassem esconder algo que lhes era tão importante, que constituía parte integrante da sua identidade, das suas tradições e da sua cultura.

Nesse ano teríamos de abordar o tema do islamismo. Era dos assuntos que abordava com menos à vontade. Uma religião encerra vivências e sentimentos que só se entendem quando experimentados. Quando a não entendemos corremos o risco de a abordar, não com a compreensão mas com os nossos preconceitos. Ora, eu tinha uma soberana ocasião de propiciar a estes jovens uma explicação do islamismo porque viviam intensamente essa religião.

Procurei ficar a sós com eles de novo e expliquei-lhes o meu projecto. Ouviram-me com muito interesse e com visível apreensão. Insisti e prometi ajuda para se organizarem. Afinal ainda faltava muito tempo para chegar a essa matéria e eu também estava muito interessado em aprender com eles. Não tiveram como recusar.

Logo após a visita, combinei com eles um plano de trabalho: obras a consultar, documentos de apoio a elaborar, planificação da aula que lhes cabia concretizar. Começaram timidamente, acreditando muito pouco nas suas capacidades para concretizarem o projecto. Ao longo do processo muitas vezes me disseram que a investigação que iam fazendo os levava a descobrirem aspectos da sua crença de que antes não tinham conhecimento esclarecido.

À medida que avançavam foram ganhando ânimo. Foi já com entusiasmo que viram chegado o momento de intervirem.

A turma estava na maior expectativa quando se deu começo a esta aula que saía um pouco da rotina habitual.

Numa breve introdução comunicaram à turma como nascera este projecto e como tinham procedido para o concretizarem. Começaram por explicar como, apesar de serem de origem indiana, eram verdadeiros muçulmanos, termo que significava “submisso a Deus” no árabe, língua em que o profeta Maomé começara a pregar a doutrina que lhe fora revelada por Alá, deus único, verdadeiro criador de tudo o que existe. Como esta crença chegara à Índia, terra dos seus antepassados e como aí se tinha misturado com usos e costumes dessa região. Esclareceram o significado do Ramadão que corresponde a um período de 30 dias, o nono mês do calendário lunar usado pela sua religião. Que o Ramadão celebra a entrega pelos céus aos homens do Corão, guia espiritual que orienta os homens servindo de meio para obterem a salvação. Que durante o Ramadão os muçulmanos devem concentrar-se na sua fé pela contemplação, pela devoção e pela purificação. Por isso, devem abster-se de comer, beber, fumar e ter relações sexuais neste período de jejum. Devem também evitar as más acções e os maus pensamentos como a maledicência, a calúnia, o falso juramento, a mentira, a luxúria, a cobiça, a ganância. Devem frequentar a mesquita para lá rezarem, meditarem e recitarem o Corão. São cinco as orações diárias, havendo ainda a Salat-ul-tarawih oração nocturna.

No final do dia o jejum é quebrado para, depois de rezadas as orações, se fazer uma refeição chamada Iftar. Na manhã seguinte, “quando, à luz do sol, se puder distinguir um fio preto de um fio branco”, os muçulmanos regressam ao jejum.

Falaram da importância das cidades santas, referindo em particular Meca, relatando que já a tinham visitado com as suas famílias. Realçaram a grande importância que o parentesco e as relações familiares têm para os muçulmanos, procurando rezar e preparar as refeições em conjunto, procurando viver em perfeita harmonia. O grande número de dúvidas, objecções e pedidos de esclarecimento que se seguiu, foram a melhor prova do êxito da iniciativa. Mas o melhor de tudo foi ter visto o legítimo orgulho sentido por estes rapazes por terem assumido com dignidade e frontalidade a sua condição, as suas convicções, a sua cultura e as suas tradições. Todos nós que tivéramos ao privilégio de participar, ficámos mais ricos de conhecimento e mais disponíveis para sermos mais tolerantes e abertos à diferença.

                                                                    

Campo Maior, 18 de Setembro de 2007      

Francisco Galego

Blogue activo: http://alemcaia.blogs.sapo.pt

    

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