As duas Américas
Miranda, caso a sua carregada agenda permitisse, teria votado nos Democratas sem pestanejar. Se alguma das suas dedicadas ‘assistentes’ lhe perguntasse porquê, ela fulminaria a pobre com aquele olhar de quem não admite dúvidas e acha bizarro ter de dar explicações:
– Só há um Bush com estilo. É a Bárbara e não se candidata.
Algures noutro lado da América, Richard, o azarado chefe da família Hoover, anda tão irritado com a vida que, por ele, nem se dava ao trabalho de lá ir. A política mora em Washington e o Iraque fica num sítio qualquer ainda mais longe; o que lhe interessa é que o negócio emperrou e o mundo insiste em ignorar o seu talento. Mas se lá fosse, votaria como fiel (e desanimado) Republicano. Por um motivo básico:
– Eu acredito nos Nove Passos para o Sucesso. O Presidente, com a bênção de Deus, também acredita.
Estou a ficcionar, óbvio. Miranda Priestly, aliás Meryl Streep, é a poderosa, carismática, gelada, focada e infeliz directora da Runway, aliás Vogue americana. Ou seja, a quinta essência da moda em Nova Iorque e a trendsetter do mundo em pessoa. Tom Wolfe encontrou, há uns anos, uma definição para os liberais de Manhattan (em Nova Iorque todos são liberais, incluindo os conservadores): um divertido mundo de artistas, individualistas, accionistas e europeístas, onde se misturam o luxo, a arte e às vezes a coca, muito sex in the city e carradas de profissionalismo vertiginoso, mais ginásio, claro, muito ginásio para bilionários ou candidatos a. Chamava-lhes exquisite left.
Na outra tela de cinema, vive Richard Hoover, aliás Greg Kinnear. A família é do Novo México, onde os WASP – white anglo-saxon and protestant – qualquer dia são menos do que os hispânicos. Sulistas típicos (no Sul todos são conservadores, incluindo os liberais), os Hoover pertencem à classe média americana, vivem entre esperanças e hipotecas, gostam de concursos televisivos e têm uma Volkswagen ‘pão de forma’, tipo carrinha, agora diz-se monovolume. É nesta família que está o génio do filme. Os sociólogos chamariam aos Hoover uma família «disfuncionalmente normal»: tomam juntos o pequeno-almoço e fazem programas em conjunto, mas os mundos são todos diferentes, e as discussões (e os silêncios) inevitáveis. No caso concreto, Richard é, digamos assim, um produto falhado dos livros de auto-ajuda (daí os ‘Nove Passos para o Sucesso’, espécie de oração laica que contém respostas esticadas para cada ‘situação’); a mulher, Sheryl, é lúcida, prática e compreensiva, mas está-lhe a perder o respeito com tanto desaire. Há ainda o filho que conhece Nietzsche, quer ser da Força Aérea e fez voto de silêncio até lá entrar, pelo que não diz nada, nadica de nada; e a filha, Olive, que parece mesmo Hillary Clinton em criancinha, é simetricamente precoce e tem uma existência vidrada em concursos de beleza, alimentando o improvável sonho de ganhar um. Também há um cunhado gay, especialista em Proust e com tendências suicidas e um avô completamente passado e niilista.
Em suma, dois filmes, duas famílias, dois géneros e duas Américas.
Habitualmente, vou ao cinema com um critério ordenado – primeiro o realizador, depois os actores. É um bom preconceito: raramente um grande realizador falha; frequentemente actores e actrizes de primeira aceitam argumentos de segunda. Nestas duas histórias americanas, o critério dos realizadores não elucida muito – ambos têm mais futuro do que passado. David Frankel vem da televisão, o casal Jonathan Dayton e Valerie Ferris revelou-se nos videoclips. Já o critério da actriz funciona e confirma-se – não perco um filme com Meryl Streep e devo confessar que a única razão – quase a única, vá – para ver O Diabo Veste Prada é precisamente Meryl Streep. O acting dela é, mais uma vez, fora de série; até faz esquecer o resto que, não sendo penoso, é banal, banalíssimo. Em Uma família à beira de um ataque de nervos crescem (e muito) a australiana Toni Collette (vão lembrar-se de Muriel’s Wedding) e Greg Kinnear (fez outro papelão em The Matador).
Já agora, dois detalhes senão três. Também é possível escolher um filme pelas referências; na dúvida, o próprio título ajuda (ou não). Enquanto o primeiro tem tudo para, no embrulho, seduzir – seja pelo lado Diabo, seja pelo lado Prada –, o outro foi vítima, em Portugal, de um assassinato facial. Ainda estou para descobrir a mais remota relação entre Little Miss Sunshine e a tal família à beira de um ataque de nervos, um título desastrado que indicia má cópia ou pior comédia. Quanto a prémios, não estranharia que Meryl Streep e só ela fosse nomeada, e já seriam 14 vezes. Little Miss Sunshine também pode ter uma oportunidade nos Óscares, logo neste ano em que a safra é pobre. É suficientemente indie, alternativo e palatável para surpreender em Sundance ou vencer em Hollywood.
Last but not the least: os fins são importantes. Não entrando em pormenores, esclareço apenas que o final – ou a última meia hora – de Little Miss Sunshine é arrebatador e hilariante. Já os últimos 5 minutos da versão fita Prada são irremediavelmente previsíveis e aborrecidamente moralistas.
Voltando à América, agora no day after das eleições. Miranda podia ter chegado ao escritório e mudado os planos da revista. Lembrou-se de encomendar uma reportagem leve com a sua amiga Nancy Palosi – uma milionária liberal de São Francisco que vai ser a terceira figura do Estado. Uma coisa levezinha, tipo ‘The fashionable Democrat’. Mais a Sul, Richard acordou com a derrocada e não parece impressionado. Afinal, evangélicos são todos. E qualquer homem de negócios sabe que, quando o Presidente e o Congresso estão em choque frontal, as leis não passam e o Governo não gasta – e isso até é bom para a economia.