Martin, Jack e Leonardo
Comecemos por três pareceres que não consensuais – mas são os que me parecem. O primeiro: Martin Scorsese é quase sempre muito bom. O segundo: Leonardo DiCaprio é quase sempre bastante mau. Terceiro: Jack Nicholson é o melhor actor de cinema do mundo, se a opção tomar em consideração o que é constante e não – como é costume – o que é versátil.
Vamos por partes. Scorsese é capaz de tudo e do seu contrário. Da extrema violência, siciliana e mafiosa, da máxima sensibilidade, elegante e majestosa, do suspense com alma no medo e detalhe no terror, da vida in (comum) das pessoas in (comuns), do branco e do preto sem adornos quando o propósito é simplesmente brutal, dos encarnados que enchem o olho quando o objectivo é meramente sanguinário ou romântico, da comédia, do drama e do policial, do biográfico, do histórico e do documental, do novelesco, do musical e do estritamente pessoal.
Quando de um realizador se pode citar não um, não dois, não três, mas vários múltiplos de muitos e bons filmes, só Hollywood está em condições de o desprezar; nós, o público, não podemos. Puxando pela memória sem esforço, eu faria uma lista privativa que é imponente – usando os títulos frequentemente insólitos em português, lembraria Taxi Driver, New York, New York, O Touro Enraivecido, Nova Iorque Fora de Horas, A Cor do Dinheiro, o Cabo do Medo, Goodfellas, A Idade da Inocência, Gangs de Nova Iorque e, agora, Entre Inimigos. Concorde-se ou discorde-se: quem pode negar o talento de Scorsese?
Há um filme que não acrescento e outro que saliento. Não acrescento A Última Tentação de Cristo e o motivo, ao contrário do que pensariam almas apressadas, não é um preconceito religioso, é exacta e modicamente um conceito estético. O meu critério para apreciar arte não é ideológico; continuo a achar que só a gritaria valorizou um filme que, esteticamente, não era tentador (pelo menos, ao nível do padrão de exigência de Scorsese). É justamente o bom critério – estético, artístico, sensitivo –, que me leva a salientar outro filme. A Idade da Inocência jaz, há treze anos, no baú das melhores sensações, aquele lugar especialíssimo que cada um de nós tem para guardar as suas memórias de cultura. No caso, a memória transbordante de um filme que é encanto em estado puro.
Passemos a DiCaprio. Já não sei que bom jornal inglês dizia, há umas semanas, mais ou menos isto: Leonardo DiCaprio arruinou os dois últimos filmes de Scorsese e só um ‘italiano’ teimoso e de mau feitio como Martin é – filho de sicilianos, note-se (e nota-se) – não o percebeu. Os Gangs, apesar de tudo, sobreviveram à mala pata. Mas é um facto pouco controverso que O Aviador afocinhou penosamente por causa de Leonardo. Eu o que digo é que DiCaprio não tem verosimilhança como personagem nem densidade como actor, ou seja, falta-lhe aquela luminosa capacidade para ‘fazer’ um carácter e interiorizar uma circunstância que distingue os bons actores, os únicos que são competentes a viver outras identidades sem nos deixar a mais leve – e às vezes pesada – impressão de serem imitadores, insonssos ou falsos.
Foi com essa desagradável impressão que eu saí da história que pretendia ser a história de Howard Hughes. Também sei que o Titanic é um debute lixado de ultrapassar; mas há qualquer coisa em DiCaprio que faz dele um eterno bebé Nestlé, mais apropriado para publicidade silenciosa.
Preciso de Winston Churchill ou Oscar Wilde para me redimir. Um e outro são totalistas das citações mais extraordinárias (ainda que nem sempre verazes), preciosas em caso de emergência. Dizia o mais que divertido Winston: «Engolir as minhas próprias palavras nunca me causou uma indigestão».
É isso mesmo: a verdade é que, inesperadamente, a minha opinião sobre DiCaprio começou a mudar desde que fui ver – confesso que desconfiado – o último Scorsese, a última tentativa de Scorsese com DiCaprio. Entre Inimigos na versão oficial, porque estamos a falar de uma segunda versão. Pode parecer um milagre mas não é – o filme sobrevive a DiCaprio; diria mesmo mais, o filme vive bem com ele. Pode ser que tenha começado aqui uma carreira de passado (não) prometedor.
Também pode ser o efeito da companhia. Jack Nicholson já leva 48 anos de carreira e não há papel de duro, durão, louco ou vilão em que não seja congenitamente superior. Okapa, diriam os cépticos – mas ele é sempre the tough guy. Nem sempre. Ainda que fosse, eu admiro a constância – há nele uma solene altura sobre o bem e o mal, uma cáustica indiferença pelos despojos da luta, uma incrível magnitude da força, um condescendente desdém dos mansos e dos moles, uma compulsiva legitimidade que é independente da autoridade, enfim, uma segurança maciça no que faz, e que faz sempre de maneira enxuta, demolidora, consistente e irónica (e portanto inteligente) que, a meu ver, admite pouca comparação.
Sou, portanto, um fã. Claro que não é o único esmagador quando a encomenda é o mal feito homem. Mas Nicholson esmaga mais. E ainda por cima voa sobre um ninho de cucos.
Duas recomendações para quem tenha o bom gosto de ir ver Entre Inimigos. Uma é ter paciência – são 151 minutos e malfadadamente já não há intervalos. A outra é ter (muita) atenção. Como todos os enredos que se baseiam na simetria dos opostos – um polícia infiltrado no gang, um gangster infiltrado na polícia –, a intriga complica-se e as duplicidades chegam a tornar-se barrocas.
A mim aconteceu-me receber um sms mesmo na altura de um pormenor não despiciendo. Resultado – não tenho a certeza de ter percebido tudo. Vou ter de repetir.
No entretanto, agradecia muito se alguma alma mais caridosa me fizesse chegar a sua resposta à pergunta – quem era o ‘bom’ que estava por cima dos ‘bons’ em contacto com o ‘mau’ que estava à frente dos ‘maus’?