A queda hífen
A melhor definição do que é o conservadorismo deu-a, em 1962, um adorável e muito peculiar filósofo inglês. «Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o experimentado ao teórico, o factual ao misterioso, o certo ao possível, o definido ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, uma boa gargalhada agora à felicidade utópica depois» – escreveu Michael Oakeshott, um académico demasiado sério para aceitar exibicionismos na universidade ou contaminações na política.
O seu conservadorismo é muito mais ‘sociológico’ do que ideológico. Procurava-o, e achou-o, na disposição conservadora que há em todas as criaturas nalgum momento das suas vidas. Essa disposição constitui um fundo de assinalável prudência e frequente sabedoria que as sociedades usam – ou devem usar –, perante a idolatria da mudança ou a profecia da revolução. Obviamente, na definição de Oakeshott, qualquer pessoa é, pelo menos, um pedacinho conservadora e ninguém, que eu conheça, será totalmente conservador. Curiosamente, os neo-conservadores estão tão longe de Oakeshott como ele estava de Marx.
Há duas definições do neo-conservadorismo que explicam, na geração e na circunstância, o percurso desse grupo de intelectuais que foi da esquerda para a direita com uma velocidade tal que não teve vagar para se deter, nem sequer olhar, muito menos parar, no lugar reservado ao conservadorismo clássico. Jeane Kirkpatrick, a antiga embaixadora americana na ONU, conta que a primeira vez que lhe chamaram «neo-conservadora» foi em 1972. Reagiu com inolvidável estupor: nunca fora conservadora na vida. Era, sobretudo, uma Democrata em dissidência. Irving Kristol explicou-lhe, então, o sentido das palavras: «Um neo-conservador é um liberal que foi atacado pela realidade». Referia-se, em sentido americano, à origem ‘progressista’ – até trotskista, num caso ou noutro – da maioria dos neocon.
O movimento já tinha sido declarado extinto por Norman Podhoretz há vários anos quando se deu o 11 de Setembro. Os neocon regressaram, como escola essencialmente relevante na política externa. «É uma espécie de Wilsonianismo com esteróides», resumia, não sem humor, The Public Interest. Assim evocava uma linhagem convenientemente esquecida na Europa, a dos Presidentes Democratas que levaram a América à intervenção militar quatro vezes no século XX: Woodrow Wilson na primeira Guerra, Roosevelt na segunda, Truman na guerra da Coreia e Johnson na do Vietname. A promoção universal da democracia, a mudança forçada de regimes, a constituição de coligações ‘unilaterais’ não é nova nem essencialmente republicana. Por isso é que Clinton não foi propriamente delicado nos Balcãs.
O choque entre o conservadorismo clássico – inspirado em Burke – e neo-conservadorismo era mais ou menos inevitável. O mundo de Burke ‘adaptado’ ao século XXI não estranharia o patriotismo, nem a legítima defesa ianque, nem tão pouco a guerra. Mas é provável que estranhasse a doutrina da ‘revolução permanente’ no Médio Oriente, e que fosse céptico face às opções do day after em Bagdade, acima de tudo por não as considerar fundamentadas em factores históricos, culturais ou tradicionais da região.
Pegue-se na definição de Oakeshott e aplique-se à realidade. Pode considerar-se a democracia um bem planetariamente exportável quando isso, por exemplo, não é ‘familiar’ no Islão, nunca foi ideologicamente ‘experimentado’, escapa ao domínio do ‘conhecido’, representa uma ambição de ‘perfeição’ estranha à política dos Estados (e dos homens) e não augura uma estabilidade ‘próxima’? Por mais que isso custe à boa consciência ocidental, a ideia de um franchise do modelo democrático no mundo islâmico esbarra com a realidade, como esbarrou o ‘internacionalismo proletário’ nas suas inóspitas experiências africanas e, aliás, fosse onde fosse.
A 7 de Novembro, o Partido Republicano foi castigado por estas dúvidas – e por outros princípios. Desconte-se a usura do poder e a regra de que um Presidente, em segundo mandato, perde sempre uma das Câmaras ou até as duas. Mas acrescente-se o que é menos óbvio. Para os conservadores clássicos, a segurança é uma prioridade. Mas o governo deve ser limitado, a despesa controlada, a natureza respeitada e o consenso social, tanto quanto possível, preservado. Ora, a administração republicana estava a tornar-se uma pálida ideia destes princípios.
É certo que evitou um novo ataque em solo americano e só isso, para os americanos, é muito. Mas não evitou os défices excessivos, nem as emissões de carbono, nem as interferências na vida individual. Lentamente, as duas correntes mais fortes do pensamento conservador americano – os clássicos e os libertários – foram-se afastando de Bush.
Sendo óbvio que a América nunca foi de esquerda, e sendo notório que o mainstream americano está mais à direita do que há 30 anos – Reagan foi a fronteira – é ligeiramente precipitado considerar que, com a derrota de 7 de Novembro, os Republicanos estão perdidos. Parece-me uma coisa diferente: na formação da política do Grand Old Party, os neo-conservadores vão ceder o lugar e o espaço aos conservadores. Cai o hífen, mas cai mais do que isso. Não muda apenas a liderança, mudará uma parte da política.
Tanto McCain como Giuliani são moderate Republicans. Isso, na América, tem consequências. Saíram ilesos da derrocada e têm reputação no domínio da segurança. Qualquer deles pode vencer – ou ser vencido – por Hillary Clinton. Ambos farão apelo aos clássicos e nenhum regateará esforços para mostrar um Partido Republicano mais centrado, equilibrado e tolerante.
Porém, sobra uma questão. Como reagiria um Presidente americano – Hillary incluída – a um 11 de Setembro bis? Algo me diz que, para evitar a pergunta e a resposta – a América voltará, pé ante pé, a um certo isolacionismo.