SOL

À la recherche du temps perdu

Um país onde 85% dos eleitores votam sem qualquer obrigação de o fazer é um país que gosta de política (e ainda acredita em si próprio). Chapeau.
Um país onde se queimam carros e partem montras porque o resultado da eleição não foi exactamente o desejado – é um país muito difícil de governar.
Esta ideia de queimar carros e partir montras por desporto, capricho ou ressentimento foi, aliás, muito bem observada por Nicolas Sarkozy: «se fossem queimar os vossos carritos ficavam igualmente felizes e não prejudicavam ninguém», dizia ele num comício algures. E na verdade, está bem dito.
Este ódio especial à viatura e ao vidro é um sucedâneo moderno de um costume não especificamente francês mas genealogicamente muito deles: o doutor Guilhotina nasceu, viveu e morreu lá, e achava que o assassinato súbito era até indolor, poupadinho na maldade, económico no sofrimento. Eu que acho que a Revolução Francesa serviu de inspiração para vários terrores, constato uma coerência sociológica nestes comportamentos – não havendo rei nem rainha, só há bens utilitários para estragar.

Aliás, o Maio de 68 também tem que se lhe diga. É injusto homologar a revolta contra Sarkozy e a ‘revolução’ contra De Gaulle. É certo que ambos venceram nesse facto mais discreto e secreto que é o voto. Também é verdade que ambos representavam a ‘ordem’ face à desordem. Mas entre os que queimam carros e os que ocupavam a Sorbonne há pequenas diferenças que não são despiciendas. Uns são filhos de pobres, outros – muitos, pelo menos – eram filhos de ricos. Os de agora andam perdidos, os de então pretendiam achar-se. A violência suburbana não se presume tão sofisticada como a universitária. Naquele tempo, os operários lixaram-se: a gauche caviar deixou-os no mato sem cachorro e a teoria de revolução em cadeia faliu como o dominó que tomba. Desta vez, quase metade dos operários votou Sarkozy. O que é que eles têm a ganhar com archotes e fogueiras?

De resto, ao contrário do que se diz, o Maio de 68 foi relativamente bem sucedido. L`imagination au pouvoir, era a promessa (e como promessa, era genial). Não há dúvida que os tiffosi de Maio chegaram ao poder, embora perdessem inevitavelmente alguma imaginação. Daniel Cohen Bendit é um eurodeputado insinuantemente centrista. Glucksmann optou por Sarko, Bernard-Henri Levy teve uma ‘visão’ com Ségo. Sartre, o maitre-à-penser, morreu há muito tempo. E enquanto vivo, não se podia queixar: rentabilizou a revolução como ninguém, a ponto de ser mais célebre e famoso do que Aron, que teve muitas vezes razão e não lhe deram. Até o Libé passou para as mãos de um herdeiro – progressista, é certo – da casa Rothschild. Entretanto, perdeu a graça e os leitores envelheceram. Aconteceu ao Maio de 68. Acontece-nos a todos.

Verdade seja dita, honra seja reposta. A vitória de Sarkozy foi uma certidão de óbito do Maio de 68 (muito póstuma). Mas o Maio de 68 já tinha morrido e sido enterrado sem especial glória.
Quem melhor perceberia por que é que Sarkozy ganhou era um intelectual que morreu há um mês. Chamava-se René Remond e foi quem mais estudou Les Droites en France, título da sua excelente tese (1).

Toda a vida, em França, houve três direitas. Na versão de Remond, a direita bonapartista, a direita orleanista e a direita legitimista. O bonapartismo é, em certa medida, um cesarismo. O orleanismo é, mais coisa menos coisa, um centrismo. Os legitimistas são isso mesmo – o Ancien Régime. De Gaulle era bonapartista: confundiu a República consigo próprio. Giscard era orleanista: não herdou o mau carácter do Orleans original e foi um modernizador. E os que pensam que Le Pen é um fenómeno do tempo, enganam-se: é uma versão populista, como Boulanger já tinha sido, do pensamento contra-revolucionário que vai de De Maistre a Maurrans. Donde, tudo isto tem uma história, implicada em muitos ódios, diversas trincheiras e infinitas rivalidades. Na versão contemporânea, Bayrou era orleanista – ‘feito’ com a sucessora da ‘revolução’ – e Sarkozy mitigadamente, o bonapartista. Já não sei quem considerou a direita francesa la plus bête du monde. Mas sei que Sarkozy foi muito inteligente – juntou os votos, não juntando as ideias.

Como se viu na primeira volta, Sarkozy conquistou o eleitorado de Le Pen sem fazer concessões a Le Pen. E como se viu na segunda volta, Sarkozy seduziu a maioria dos votos de Bayrou sem dar um lugar ao sol a Bayrou. O epitáfio da eleição podia resumir-se em três lições: Sarkozy fez bem em dirigir-se aos eleitores e não aos partidos; a extrema-direita só é forte quando a direita, na questão da segurança, é mole; e para um centrista obrigado a escolher, uma direita moderna é sempre melhor do que uma esquerda rétro (a esquerda francesa é a mais antiquada da Europa, coisa que Ségolène percebeu mas não havia nada a fazer).

Acresce um pequeno detalhe. A França é um país essencialmente burguês. Ora, um país essencialmente burguês tem demasiado a perder para namorar com aventuras. No estado de declínio em que os franceses – finalmente – perceberam que a França está, o regresso ao Programa Comum, versão soft da Frente Popular, condimentado com trotskistas em alta e comunistas em baixa, era um risco que não valia a pena correr.

Sarkozy, como os franceses, gosta de política. E há-de ter sido, certamente, um bom candidato. Conseguiu esta proeza: esteve no Governo cinco anos e foi eleito como se não tivesse estado. Como Jean d’ Ormesson explicou tão bem, talvez seja a única chance de trazer o gaullismo para o século XXI. Talvez os mais distraídos não se dessem conta, mas o novo Presidente é atlantista e o general nem por isso; é europeísta e o general tinha dias; é mais liberal do que o general e certamente menos proteccionista. Sem esta revisão, a Quinta República, verdadeira obra de autor, teria morrido de cansaço.

(1) edição da Aubier

Publicação: sábado, 12 de Maio de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

terça-feira, 15 de Maio de 2007 15:26 by rasputine74

# re: À la recherche du temps perdu

Sigo o raciocínio, mas não partilho.

Royal seria Real.

E agora Europa?

quarta-feira, 16 de Maio de 2007 5:25 by Crosslight

# re: À la recherche du temps perdu

Não me surpreende nada que uma pessoa, com o seu perfil político, pense que a vitória de Sarkozy foi uma certidão de óbito ao Maio de 68....não foi e nunca será....o Maio de 68 pode ter nascido em França, mas continua a viver, pujante, por todo o mundo....é património da Humanidade, aliás como muitos outros "Maios de 68" que ocorreram (e vão continuar a ocorrer) ao longo da História....jamais país algum poderá reclamar a sua posse, muito menos a do seu cadáver.....

A lápide que assinalasse a campa do Maio de 68 teria forçosamente que ser aquela que assinalaria o túmulo da Liberdade, da Igualdade, da Solidariedade, do Inconformismo, da Irreverência....e isso nunca irá acontecer....

sábado, 19 de Maio de 2007 20:22 by LaBruyere

# Le temp perdu...

... e começa mal, Teresa Caeiro seria a melhor escolha!

Enfim é preciso pagar os favores ...

domingo, 20 de Maio de 2007 3:14 by sergiosse

# LaBruyere

Concordo consigo em metade da sua analogia: na parte em que Telmo Correia não é, definitivamente, a melhor escolha.

Entre Teresa Caeiro e Nobre Guedes tenho dificuldades em fazer uma avaliação sobre qual o melhor posicionado.

Resta a resposta a uma pergunta: Sabendo que, obviamente, Telmo Correia não ganha as eleições e dificilmente ficará acima da 5ª posição (contando com a candidatura de Helena Roseta e sem conta com a, eventual, candidatura de Carmona), se irá conseguir conjugar o seu lugar de deputado/presidente do GP do CDS com o lugar de veriador caso o Cds consiga um mandato na câmara.

Em minha opinião mesmo que consiga um mandato na câmara irá renunciar e ser substituído por outro, implicitamente, não votado.

O mesmo fez o vergonhoso candidato do meu partido às últimas eleições a Lisboa, Manuel Maria Carrilho. Oxalá esteja muitos e bons anos fora do país. Nunca apoiei a sua candidatura e o futuro veio a demonstrar que tinhamos, no PS, um "Diz que é uma espécie de Santana Lopes". Bons ventos os levem.

Estou especialmente curioso em relação ao resultado que Sá Fernandes irá alcançar. Espero, sinceramente, que o seu esforço seja reconhecido e que os lisboetas demonstrem a sua sensibilidade em relação à posição anti-corrupção deste vereador (não sou B.E e nem o meu voto jamais iría para o Sá Fernandes. É só uma questão de reconhecer os valores de alguém).

Boa sorte a todos os candidatos, em especial ao António Costa (que lidera largamente as sondagens, embora ainda sem maioria) =)

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