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Hopkins nunca falha

Anthony Hopkins já é lendário quando ainda tem uns filmes para fazer. A meu ver, há um pequeno clube de actores inderrubáveis: Anthony Hopkins, Jack Nicholson, Al Pacino, Robert de Niro ou – tem dias – Jeremy Irons são capazes do absolutamente melhor. Se o cinema tem génios, génios são eles.
Hopkins nasceu actor há 70 anos. Nas distinções inglesas, conheceu a vida pelo lado blue-collar; nada de definitivo, porque é Sir com a largueza de vistas da Rainha. Logo em criança, tornou clara a sua afinidade pelo drama em sentido técnico – e fez o caminho das pedras (e das glórias). Primeiro, a London’s Royal Academy of Dramatic Art. Depois, o National Theatre. Durante uma década, foi sujeito à provação do teatro exigente – o clássico. A diferença é que os bons actores ingleses são os que passam pelo crivo de Shakespeare e depois não ‘morrem’ na tela. Ou seja, sabem representar e não se habituam a declamar. São versáteis e nem por isso deixam de ser autênticos. Hopkins chegou à Broadway por alturas do 25 de Abril. Continuou no teatro de categoria, aceitou fazer televisão e não lhe caíram os parentes na lama, até que chegou 1992. Ou seja, o ano em que inventou Hannibal Lecter e recebeu o Óscar. Já lá vai um tempo e ninguém se esqueceu.

Eis como ter sido Ricardo Coração de Leão ou Claudius não impede um grande actor de ser o que der e vier – até um canibal assassino e manipulador em série. A versatilidade é isso; o que distingue um actor dos seus papéis é que ele pode ser um após outro e não ficar preso a nenhum.
O que é que Hopkins tem que outros não têm? Gravidade, sensibilidade e profundidade. Se pensarem um bocadinho, tudo, nele, vai dar a estas três características. A voz, os olhos, o movimento e a representação têm uma lentidão que impõe respeito. Uma consistência que intimida. E, quando é preciso, uma surpreendente habilidade para comover. Tudo isto volta a acontecer em Ruptura.

Para começo de conversa: vá Deus saber que ‘aperfeiçoamento’ levou a que o título original – Fracture – terminasse, na versão portuguesa, em Ruptura. Suponho perceber a intenção (e a presunção). Mas o filme é muito mais sobre uma falha do que sobre um corte. Analisa o sistema, mais do que uma ética.

Hopkins é, desta vez, um engenheiro perverso – sem ironia, que o mundo está perigoso –, minucioso, rico e, sobretudo, infeliz. Durante duas horas, Hopkins tem pela frente o outra vez excelente Ryan Gosling (já era excelente em Half Nelson), vestindo a pele de um delegado do Ministério Público. No sistema americano, a taxa de condenações conta para a avaliação dos delegados. Bom delegado é o que consegue que o réu vá para a cadeia ou assuma a culpa e negoceie a pena. Ryan tem 97% de sucessos e uma percentagem indefinida de escrúpulos a menos. No sistema americano, o Ministério Público submete-se a votos. Donde, Ryan tem o Promotor do Estado à perna: as suas falhas serão contabilizadas pelo chefe pela simples razão de que o chefe tem de prestar contas aos eleitores. A personagem de Ryan é soberbamente construída – ambicioso, competente, pesporrente, combativo, insolente, speedado e, finalmente, não inteiramente destituído de sentimentos. Na relação entre estes dois sujeitos não direi quem leva a melhor. Cito, apenas, a advertência de Hopkins, quando o encara: «Você tem um ponto fraco, o seu ponto fraco é ser um vencedor».

Uma das virtudes do filme é ser focado num duelo de almas. Tudo o mais é relativamente acessório. Tão acessório que, de uma assentada, o argumentista, logo de início, ‘despacha’ duas personagens: a interessante mulher de Hopkins – que fica em coma – e o polícia que é destacado para investigar a tentativa de homicídio. Azar dos Távoras, este polícia vai descobrir que a vítima era, nem mais nem menos, o seu date habitual. Nunca mais recupera do choque. O realizador sabe da poda: tem a escola de Hill Street Blues e de L.A. Law. Prepare-se para um policial ritmado com passagens pelo tribunal.

Este filme é sobre o direito ou sobre a moral? Em abono da tese moralista há algumas evidências – o dilema entre a carreira e a justiça, a opção entre a derrota em tribunal e a corrupção da prova, a tensão entre a eutanásia e a possibilidade vital. Mas o filme não deixa de ser uma boa lição de direito. Sobre a importância dos factos – e não das conjecturas – para construir uma acusação; sobre a legibilidade dos sistemas jurídicos que, por serem democráticos, preservam a todo o custo direitos, liberdades e garantias dos suspeitos; e sobre a questão final, onde a essência do bem e do mal se coloca com um talento jurídico salvífico. Sendo proibido julgar duas vezes uma pessoa pelo mesmo crime, o que resta da justiça se à primeira não há razoabilidade para condenar e, depois, a evidência já seria suficiente para condenar? Para quem ache – é o meu caso – que o direito penal é o assunto mais sério que os legisladores entregam nas mãos dos juristas, Ruptura é uma fita instrutiva.

Como frequentemente sucede nos policiais densos e bem pensados, uma simples desatenção pode cortar o fio à meada. O argumento é subtil e o direito, já de si, não é simples. A complicação da história (nos limites do aceitável) tem, aliás, uma metáfora – a casa de Hopkins, um modelo de design, está cheia de fabulosas máquinas, as Rube Goldberg machines – de uma geometria aparentemente insolúvel e funcionamento dependente da exacta precisão das peças e dos pesos. Digo que é uma metáfora porque o próprio Hopkins assume que, em qualquer criação humana, por exponencial que seja a genialidade, há sempre uma vulnerabilidade. «Basta olhá--la de perto», diz ele. Ora, no planeamento do crime, por maior que seja a sofisticação, há sempre (ou quase) uma falha. É da persistência na procura dessa falha que este filme trata.

Publicação: sábado, 26 de Maio de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

terça-feira, 29 de Maio de 2007 13:15 by Arrebenta

# re: Hopkins nunca falha

Querida, os únicos génios do Cinema são os da lâmpada, quando a lâmpada se funde e a sala fica totalmente às escuras, recriando o espantoso ambiente do defunto "Olympia", onde as longas, as médias e as curtas metragens se desenvolviam na... plateia, lembra-se?...

Tudo o resto são Manoeis de Oliveira mal-assumidos, longas cópulas de tartaruga, com um tela enrugada, senil e pobre. :-)

domingo, 3 de Junho de 2007 14:31 by Melita

# re: Hopkins nunca falha

OLá,

Anthony Hopkins...é um génio no meio de outros tantos , onde a expressão:

A genialidade, bem como a santidade, não se herda de  Berdiaev se aplica bem :)

segunda-feira, 4 de Junho de 2007 14:42 by cjfgf

# re: Hopkins nunca falha

hhmmm... esqueceu-se do Daniel Day-Lewis (aparentemente na pré-reforma)

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