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Zodiac ou o elogio de thriller

Há quem não tenha paciência para policiais. Eu bem pelo contrário. Não só adoro policiais como sou dedicadamente militante do género. Vejo os bons, passo pelos medianos e nem os maus me maçam. Um thriller competente funciona como um poço de virtudes. É como levar a inteligência à ginástica e fazer um exame à memória. Acessória ou principalmente, é como um zoom sobre a natureza humana e o que ela (também) é.

Zodiac foi menos publicitado do que algumas fitas menores que estão por aí. No entanto, basta ser um espectador atento para constatar uma discreta – e rara – unanimidade. Abre-se o Diário de Notícias, vai-se à página dos críticos, consulta-se a tabela e contam-se as estrelinhas. Zodiac tem quinze. Cinco de Eurico de Barros, cinco de João Lopes, cinco de Nuno Carvalho. Eu não sigo necessariamente este critério cósmico e às vezes até leio as estrelinhas bem às avessas – quando me ‘encanita’ a idolatria por realizadores que eu não percebo (problema meu). Mas Zodiac merece: é um belíssimo policial. Fui vê-lo no final de um dia tremendo e saí de lá muito mais leve. Um thriller também é uma medicina contra o stress.

Comecemos pelos factos. A história existiu realmente e David Fincher não se põe a inventar. Seguiu, portanto, o caminho mais difícil – o da fidelidade. Não se entregou nas mãos daquela escola muito americana, segundo a qual «a verdade – esse detalhe – não pode estragar uma boa história». A contenção de Zodiac é ainda mais destacável porque ao limite dos factos adiciona outro. Na vida real, há crimes sem solução. Na tela, é arriscado conduzir o espectador até ao ponto crucial da dúvida insolúvel. Zodiac podia ter esse problema e não usa adornos para o disfarçar. Com uma nuance: é certo que a polícia deu com os burrinhos na água naquela investigação, mas não é certo que o culpado não tivesse estado na mira, em face e diante das barbas da autoridade. Acontece. E isso dá outro interesse ao filme: Zodiac não é apenas a história de um serial killer mais esperto do que a polícia. É a demonstração de que a verdade – ou a justiça – tem uma obscura e burocrática lentidão. Até na América e não só com homens comuns – basta lembrar o assassinato de Kennedy em Dallas. O carisma de Zodiac é essa demora.

Outra coisa é saber se a verdade é empolgante. Como já se percebeu, Zodiac é um filme aparentemente documental e longamente narrativo. São 2 horas e 40 minutos irritantemente sem um pequenino intervalo. Zodiac é exaustivo, excessivo, complicativo, derivativo, difícil, detalhista, intrigante e, porém, interessante. Diria mesmo mais: muito interessante. Há quem preveja que Zodiac vai a caminho dos Óscares – é possível. Há quem o compare ao inesquecível Seven – e é verosímil.

O espectacular e sombrio Seven – Brad Pitt, Morgan Freeman e Kevin Spacey, lembram-se? – vai em linha recta até ao explicativo e muito sóbrio Zodiac. É natural: ambos têm a assinatura de David Fincher, os dois procuram um assassino em série, um e outro têm – por razões diferentes – um gran finale. Está demonstrada, para lá de qualquer dúvida razoável, a competência de Fincher. Era condição necessária. Realizadores incompetentes não fazem policiais inquietantes.

Um thriller tem regras básicas e Zodiac não falha nenhuma delas. O crime precisa de uma certa ‘arte’. O motivo implica alguma sofisticação – antropológica, sociológica, psicológica ou meramente lógica. A definição do suspeito não deve ser linear e, se o for, não temos um filme sobre o quem, temos um filme sobre o porquê. É ainda aconselhável que a distribuição de evidências (ou provas) seja doseada no tempo e surpreendente na direcção. Qualquer destes ingredientes – mais o final – existe em profusão no relato de Fincher. Os primeiros homicídios – sobretudo os casais de namorados – são cenicamente perturbadores. O móbil do assassino é estranho mas isso vai a crédito do mistério. O realizador, a polícia e o espectador desconfiam de sucessivos suspeitos – e não deixa de ser um entretenimento eliminar hipóteses plausíveis. O enredo dá muitas voltas, tem vários nós e nem tudo o que parece, é (embora tudo o que é, pareça). O resultado é que Zodiac é um filme que prende. Talvez tenha meia hora a mais. Mas o que é isso se os factos ‘perduraram’ ingloriamente mais de vinte anos?

Claro que nada disto seria brilhante com actores frouxos. David Fincher costuma rodear-se bem. Zodiac tem duas apostas especialmente bem sucedidas. Acontecem, ambas, na redacção do San Francisco Chronicle. Uma é o jornalista de investigação – avant la lettre – que o caso consome até à decadência. Robert Downey Jr. faz esse papel – e faz um papelão. O outro é um cartoonista tímido, obsessivo e, por fim, luminoso. Jake Gyllenhaal tem um desempenho sempre a subir – tão discreto no início que a sua função no filme chega a ser equívoca, tão decisivo a partir de certa altura que o fim seria outro se ele não existisse. Por aqui se percebe, aliás, o charme deste filme. Habitualmente, contam-nos a história de um assassino. Em Zodiac, contam-nos o itinerário duma investigação. É uma verificação prática do desfalecimento do Estado perante o crime – o Estado multiplicado por agências, condados, competências, arquivos e vontades frequentemente incomunicáveis.

Mais de trinta almas terá morto o tipo vulgar que escrevia cartas cifradas e assinava – daí o título – Zodiac. O Estado não o apanhou senão em seis. E nem sequer foi o Estado que o derrotou. Todas as personagens são pessoas vulgares, gente comum e figuras anónimas. Este detalhe é outra essência de Zodiac: o filme não faz a menor concessão a qualquer tipo de glamour. Um policial pode ter todas as estrelinhas do mundo e não ter uma só estrela no seu cadastro.

Publicação: sábado, 2 de Junho de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

sábado, 9 de Junho de 2007 22:08 by LaBruyere

# re: Zodiac ou o elogio de thriller

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CARTAZ de CANDIDATOS CDS/PP À CML

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Porque será que o cartaz de apresentação dos Candidatos à CML do CDS/PP tem uma Senhora parecida com a Dra. Maria José Nogueira Pinto?

Mais Eleitores confundidos?

domingo, 10 de Junho de 2007 2:18 by PauloPedroso

# re: Zodiac ou o elogio de thriller

Há quem queira fazer dos outros mentecaptos só  para poder fingir que possui um discernimento superiormente fora do comum.

domingo, 10 de Junho de 2007 17:43 by sergiosse

# re: LaBruyere

Acabou de confirmar a minha dúvida. Na semana passada enquando estava parado no trânsito deparei-me, ao meu lado esquerdo, com o cartaz da equipa do cds. E realmente ao primeiro olhar distraído pareceu-me a MJNP.

Mas nem apelando à confusão os vai safar. Será quase preciso um milagre conseguirem  um vereador e conseguir 2 já é um mito.

Caso consigam um vereador acontece uma de duas coisas:

1ª Telmo correia renuncia à liderança parlamentar da bancada.

2ª Telmo correira renuncia ao mandato de vereador em prol da liderença.

Como é obvio mandará ao ar o lugar de vereador.

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