Notícias de um Leste incerto
Há um mistério inexplicável na persistente inclinação da ‘comunidade internacional’ – um eufemismo que esconde a balança de poder sob a sigla de instituições que se pretendem moderadoras – para fabricar países. O último país inviável que já está na sala de partos chama--se Kosovo.
Os Balcãs são a fractura da Europa e só isso bastaria para tratar deles com elementares cuidados. Como a Europa é incapaz de garantir a sua própria segurança, fica nas mãos de quem providencia os meios de ataque e defesa. Foi Clinton quem decidiu o bombardeamento de Belgrado. Agora é Bush quem determina a independência do Kosovo. No primeiro caso, invocava-se o fim do genocídio. No segundo, proclama-se o início da liberdade. Mas repito – no coração da Europa, é a América que estabelece a lei (ou a falta dela) e a ordem (ou a desordem).
É evidente que, na história mais recente dos Balcãs, não há inocentes. Talvez seja certo que haja culpados mais culpados do que outros. Sim, os sérvios chacinaram os muçulmanos; mas não é verdade que os bósnios também se entretiveram a eliminar os católicos e os ortodoxos? Sendo a história escrita pelos vencedores, a Sérvia perdeu quase tudo. A questão, hoje, é outra: os sérvios não foram já suficientemente humilhados?
O Kosovo é um país inviável e a ‘comunidade internacional’ sabe disso. A Grande Albânia é uma metáfora hilariante de extrema miséria e do crime mais organizado – e a ‘comunidade internacional’ não o ignora. Pergunta-se: que tem o mundo a ganhar com um ‘país’ que não tem condições económicas mínimas para sobreviver sozinho? E pergunta-se depois: o que tem a Europa a ganhar com o despertar de um ‘Anschluss’ albanês, completamente periférico para as principais potências mas suficientemente desestabilizador para a região?
Enfim, façam-se mais duas perguntas. Que sentido faz dar Estado, estatuto e bandeira a uma nação islâmica no meio dos Balcãs? Estando o mundo como está – perigoso – a Europa, no Kosovo, corre o sério risco de se enganar nos aliados. E já agora, alguém tem dúvidas que uma só peça que se mexa nos Balcãs tem, obviamente, consequências regionais e internacionais? Basta pensar nas ‘repúblicas’ russificadas que o Kremlin quer internacionalizar no seu antigo território. Terão, no caso do Kosovo, o precedente útil (e inquietante). A Europa, nesta questão, arrisca-se a criar vários problemas e não resolver nenhum.
Bush andou pela Europa ‘de cá’ e terminou na Europa ‘de lá’. Enquanto se demorou na Alemanha e em Itália, não faltaram as manifs hostis e as violências costumeiras. Quando passou por Praga, Tirana e Sófia foi recebido com aplausos e agradecimentos. O que separa estas duas Europas? A história – nas suas constantes e nos seus factos.
Quanto à constante, devia ser evidente mas não é. Quanto mais um país ‘libertado’ está perto da Rússia, mais amigo se faz da América. Chama-se a isso procurar o melhor amigo em face da vizinhança incómoda (e imperial).
Menos seguida – ou compreendida – é outra lição do séc. XX. Para uma multidão de checos, húngaros, búlgaros, polacos, romenos, eslovacos, eslovenos, croatas, bósnios, até sérvios e ainda os letões, os estónios e os lituanos – e uns milhões de alemães – a II Guerra Mundial só acabou em 1989. Ou seja, são nações que passaram da resistência aos nazis – e, nalguns casos, de cumplicidade com eles – para a resistência aos comunistas – e, nalguns casos, para a cumplicidade com eles. São países que ‘perderam’ o séc. XX – viajaram direitinhos da dominação pelo Terceiro Reich para a sujeição ao Pacto de Varsóvia. Só conheceram outra vida quando o muro caiu.
A opinião pública, na Europa ‘de cá’, já se esqueceu da ajuda americana. A Europa ‘de lá’, (ainda) não. Eles – e não os respectivos avós – sabem do que falam.
Algo me diz que os gémeos polacos vão acabar mal. Admito que não seja fácil encerrar a questão da memória depois de quarenta anos de regime totalitário. Mas institucionalizar a vingança e levá-la aos extremos a que estão a conduzi-la em Varsóvia é um péssimo sinal.
Os gémeos acham-se investidos por uma espécie de mandato divino de ‘purificação social’. João Paulo II, para citar um polaco que não tem lugar modesto na história, nunca aconselhou essa revanche. Cultivava o perdão que Deus manda e conhecia o suficiente da natureza humana. Por exemplo, a impossibilidade de todos os polacos serem santos ou, no caso, mártires. Os gémeos andaram pela resistência, mas não consta que tenham biografia heróica. Walesa, Geremek, Popieluszko e – sobretudo – Wojtyla, têm. Só isso mereceria um certo respeito.
Os gémeos metem-se com toda a gente – com os funcionários públicos, com os professores, com os escritores, com os arcebispos, com os magistrados, com os outros políticos e até com personagens infantis. Não só querem retirar Goethe, Dostoievski e Kapuscinski dos currículos escolares como, agora, pretendem convencer o mundo de que Walesa – depois de Geremek – era um colaboracionista, nada mais do que um informador dos serviços secretos comunistas. Um vulgar bufo com bigode, portanto.
Claro que Walesa é um ícone e não um estadista. Mas não fora ele em Gdansk e a cortina de ferro teria durado muito mais tempo – nenhum de nós sabe quanto.
A manipulação da memória é um acto detestável de propaganda (em que os comunistas eram catedráticos). A criminalização de Walesa – e dos intelectuais católicos que fizeram o Solidariedade – é uma barbaridade.