Notícias de outras Lisboas
Lisboa deve mais ao Manuel Reis do que a muitos ministros, vereadores ou até presidentes. Clarificando: Manuel Reis fez mais pela modernidade de Lisboa do que várias Câmaras juntas e variadas.
Sim, a modernidade. No módico sentido de, em Lisboa, se fazerem projectos com gosto, arte, sofisticação e espírito do tempo, Manuel Reis é responsável por quatro ou cinco exemplos que esticaram, e esticaram muito, o nosso índice de cosmopolitismo. Primeiro – se bem me lembro – foi a Juan Gris, na Travessa da Queimada. Depois foram o Frágil e o Pap’ Açorda, já não sei por que ordem. A seguir, a Loja da Atalaia. E mais o Lux e a Bica do Sapato e o que mais há-de chegar. Um culto do design como liberdade ordenadora – parece uma contradição mas não é. Um sentido da estética como exibição pura, depurada – ou despojada – de conceptualização. O elogio do profissionalismo, hábito tão pouco frequente no ‘desenrasca’ português. Uma certa ideia de requinte nos produtos que se oferecem, sejam móveis, sejam antiguidades, sejam menus, sejam mercearias ou outras coisas assim. Tudo isto é possível e existe no que Manuel Reis faz. E se ele foi capaz, mais gente há-de ser. E é.
Mais umas notas que não são – acho eu – despiciendas. Os cem metros que vão do Lux à Delidelux são o deleite do que Lisboa podia ser desde a Expo até Algés – passe o exagero. É caso para dizer que um Manuel Reis vale por cem Administrações do Porto de Lisboa. I mean: o conceito pretoriano que a APL tem do melhor território da cidade – a zona ribeirinha – é uma apropriação de soberania e um desastre nos resultados. O que poderia ser a mais fantástica zona urbana de uso comum, expressão de uma luz que é única e da ‘democratização’ do rio, é uma linha incoerente com quilómetros de depósitos, armazéns, entulhos, degradações e depredações, alguns intervalos banais e uns (poucos) espaços de génio. Ainda me lembro de quando a APL decidiu que a Bica do Sapato tinha de pôr umas vitrinas ‘translúcidas’ – e medonhas – que, pura e simplesmente, a isolavam do rio. Só na moleirinha da burocracia é que estas coisas são possíveis. Ou no Estado das capelinhas.
A outra coisa que Manuel Reis provou, sem forçar, é que o mercado – e não o Estado – é o verdadeiro promotor de uma espécie de fusão social. Se o conceito não metesse medo, percebia-se melhor: basta ver e saber ler a espantosa capacidade que os projectos de Manuel Reis têm para atrair almas inconciliáveis, tribos inimagináveis, géneros inimitáveis, estilos irredutíveis e atitudes imperdíveis. Não há melhor indicador de pluralismo social. Tudo isto, note-se, por conta e risco de Manuel Reis e dos seus sócios. É o risco deles que fez andar o negócio; não é o subsídio nem a pedinchice. Aliás, algo me diz que Manuel Reis só pede ao Estado, sejam Governos, Câmaras ou Administrações, o mais básico: que não atrapalhem.
Entendamo-nos. Há muitos anos que me apetecia fazer este elogio da ‘obra urbana’ de Manuel Reis. Conheço-o e admiro-o. Mas passam meses sem o ver (e agora ainda mais). Nunca me pediu nada e o que eu lhe devo são alguns bons conselhos de design. Nunca lhe perguntei em quem votava, nem se votava. Tenho a fundada suspeita que a resposta seria uma decepção: não me parece que navegue pelas minhas águas. É-me indiferente. Quando soube que ele, o Alberto Caetano e Bárbara Coutinho iam fazer o Museu do Design (colecção Capelo) fiquei resolutamente feliz. Com a crise na Câmara nem sei no que isso deu. Mas seria bom que desse em alguma coisa, tivesse princípio, meio e fim. Porque eles – no caso, ele, Alberto Caetano e Bárbara Coutinho – são uma garantia de sensibilidade: não assinam qualquer coisa e preferem a coincidência entre a fama e o proveito dos seus projectos.
Falta explicar o princípio da oportunidade. Falar de Manuel Reis e de Lisboa agora, porquê? Porque há eleições para a Câmara, diriam mentes tortuosas e espíritos conspirativos. Nada mais irreal – nem sei quem me disse, mas alguém me disse que o Manuel Reis faz parte da prolixa, e muito plutocrata lista de apoiantes de António Costa. A razão é muito mais prosaica. Terça-feira, a Bica do Sapato fez anos. Eu gostava de lá ter ido mas não consegui – estava, por gosto e função, a ver o debate televisivo dos candidatos à Câmara. Não se pode ter tudo ao mesmo tempo.
Na véspera, tinha ido ver The Lovebirds, ao São Jorge, na sessão de abertura do Lisbon Village. Um festival de cinema digital que é uma tentativa – uma oportunidade – de explicar à clientela o que o cinema, mais dia menos dia, vai ser.
Fui porque gosto de cinema e não me incomoda o digital. Também fui porque à frente deste Lisbon Village está um amigo meu (e mais uma equipa): Marco Espinheira. Por ali passa uma certa ideia (interessante) de indústria cultural, uma certa relação (descomprimida) entre cultura e mercado e um fortíssimo (e geracional) sentido de risco. Se o Lisbon Village pegar, Lisboa será um bocadinho menos periférica (o cinema português também).
Entre outras coisas do programa apetece--me rever o 1900 de Bertolucci. Só os italianos – Visconti melhor do que ninguém – são capazes de aliar uma leitura (relativamente) marxista da história a uma opulenta e (absolutamente) aristocrática narração das personagens e dos ambientes.
O filme da inauguração deixou-me embaraçado. São várias histórias de amor passadas em Lisboa: umas entendem-se e têm graça, outras não se entendem de todo. Persiste, no cinema português, o velho problema do argumento. De The Lovebirds fica o (muito) comovente e (bastante) hilariante empréstimo de Fernando Lopes à categoria dos actores. É um empréstimo divertido e conseguido. Também fica o parto no táxi ou a imagem derradeira em que Maria Nobre Franco sai – mas não se vê – do hospital. Ficam momentos assim – mas um filme é mais do que alguns momentos assim. Mesmo quando terá sido feito em pouquíssimo tempo.
Em todo o caso, a abertura foi melhor este ano e o S. Jorge – que saudades do ‘gong’, do intervalo e do foyer – estava cheio, mais cheio do que há um ano. Há uns anos que se nota: qualquer coisa está a mudar na ‘procura’ de cultura em Lisboa. É meio caminho andado para termos melhor ‘oferta’.