O amor segundo Constance
Também não é para embandeirar em arco: o filme é bom – ou por outra, o livro é óptimo – mas não é retumbante nem memorável. Estou a falar de Lady Chatterley, de Pascale Ferran.
A ilusão de óptica é proporcional às esperanças de Paris no cinema residente. Explico-me: há muitos anos que o cinema francês entrou em greve de talento e crise de popularidade. Uma Binoche e um Reno só amenizam a dor mas não quebram o declínio. A tela também é o reflexo da língua. Prova disso são os espanhóis: não têm jeito nenhum para se expressar em qualquer língua estrangeira, continuam a ‘dobrar’ inenarravelmente os filmes e, no entanto, já assentaram praça no cinema global. É uma tendência que vai de par com a espantosa projecção do castelhano na América. Aos franceses caiu em sorte outro destino: a francofonia tornou-se periférica e a francofilia já não é um fenómeno maciço – mesmo as elites que a professam parecem residuais, excepto cá. Nestas condições, é difícil impor um cinema com identidade.
Pascale Ferran levou a sua adaptação de D. H. Lawrence à Academia dos Césares e recolheu cinco. Percebe-se o esforço: Lady Chatterley está acima da média do cinema francês mais recente. Até se pode compreender este patriotismo selectivo: o romance não é francês mas o filme é uma visão francesa de amores ingleses. Só com benevolência quanto aos Césares – também os houve péssimos – e quanto aos candidatos – há safras que não encantam – é que pode adivinhar-se, para esta fita, uma carreira internacional.
A favor desta versão de Lady Chatterley vão três pontos que posso confirmar e um outro que não posso infirmar. À cabeça: Marina Hands é uma deslumbrante e competente Constance Chatterley, uma jovem das classes ‘possidentes’ – jargão marxista em rarefacção – que descobre o sexo (e o afecto) através de Parkin, o ‘caseiro’ – jargão reaccionário com problemas de adesão à realidade – que se transforma primeiro no seu amante e, a seguir, numa espécie de cúmplice infiel ou namorado fiel, consoante se prefira. Outro talento deste filme é a abundância majestática da imagem (ou da imagem sobre a natureza). Pascale Ferran não se coíbe nem se contém: o bosque, o rio, a flor, a folha, a chuva e o sol são o cenário principal de um romance que raramente abandona os domínios de uma casa de campo inglesa. A própria casa é acessória; o adultério nasce em plena natureza e é lá que estabelece residência. Há momentos em que o filme literalmente pára. São momentos em que se transforma em pintura. Não deve ser por acaso que Pascale Ferran, nas suas entrevistas, confessa ter-se inspirado no Van Gogh de Pialat. Enfim, há outra coisa inspiradora neste filme. Vai a crédito do livro mas é pudicamente revelada no filme. A história de Lady Chatterley, tal qual D. H. Lawrence a escreveu, era libertadora e modernista. A Constance acontecera uma vida muito infeliz; Parkin vai ajudá-la a perceber o corpo e, provavelmente, a obsessão (ou a paixão). É preciso recuar à Inglaterra que sucedeu à Rainha Vitória e às bondades levemente fabianas sobre os conceitos de classe, para localizar a história. É nesse território (e com esse simplismo) que a história se desenvolve. O mérito de Pascale Ferran é filmar naturalmente, e em certa medida defensivamente, tudo isso que não é nada pouco na vida de três almas – ela, ele e o amante.
Há quem atribua a Lady Chatterley uma exacta fidelidade ao livro. Isso, não sei: há muitos anos li a versão publicada e – creio – censurada. Mas o filme baseia-se noutra versão, entre as várias que D. H. Lawrence fez. Por exemplo: lembrava-me de um amante que era militar e prolixo; na sala de cinema descobri um amante que era ‘guarda de caça’ e bastante calado.
Contra esta versão de Lady Chatterley há, no entanto, óbices consideráveis. O primeiro de todos é que o espectador tem de se munir de uma bárbara paciência. São cento e setenta (!) minutos de filme – o que é manifestamente um exagero.
E como a acção é bastante pessoal, o enfado constitui uma probabilidade razoável. Por outro lado, a adaptação demora-se em diálogos que, de quando em quando, são enervantes porque são muito banais. E esta avaliação até será benigna: há mesmo diálogos infantis, não havendo sombra de criança na fita. O equilíbrio entre sensibilidade e inteligência está longe de ser conseguido. Tenho a certeza que americanos ou ingleses teriam contado a mesma história de outro modo. Basta recordar as Pontes de Madison County. Não é um filme efervescente nem sequer evanescente. O ambiente também é bucólico e íntimo. Mas o produto final era – é – inesquecivelmente emocionante. Lady Chatterley será bonito e às vezes belo. Mas emocionante não achei que fosse.
O detalhe ideológico – no livro não é tão detalhe como isso – também não é especialmente iluminante. O marido de Constance tem uma mina, os mineiros vivem abaixo de cão, chega a haver uma conversa pueril sobre o socialismo e por um triz não acontece uma ‘traição de classe’. Mas é só isto. E isto, sendo escasso, parece dispensável.
Fui ver Lady Chatterley com uma amiga que é adoravelmente cosmopolita e pragmática. Resultado: detestou, se é que não adormeceu. Eu, ainda assim, sou mais tolerante e gostei. Mas não adorei. Os críticos mandam-nos a correr ver Lady Chatterley e eu percebo porquê. Mas devo advertir sobre os defeitos do filme em nome da defesa do consumidor.