Os livros que Zita edita
Ainda não li as memórias de Zita Seabra mas uma coisa eu sei – a vida dela como editora é certamente mais divertida (e entusiasmante) do que a vida pretérita – a de militante comunista.
Sou um consumidor frequente da Alêtheia. Num país que lê pouco, a iniciação de Zita Seabra no capitalismo fez-se num mercado de risco. Tudo indica que lançar uma editora com identidade – e qualidade – foi uma aposta ganha. Para citar apenas dois exemplos de 2007, Zita Seabra trouxe aos leitores indígenas – assim diria Vasco Pulido Valente – dois intelectuais cuja divulgação parava em Madrid, como tantas outras coisas param.
Um é Paul Johnson: só os leitores portugueses do Spectator o conheceriam. É um típico conservador inglês, o que significa que é um atípico conservador na Europa. Diria mesmo mais: é um intelectual conservador, espécie abundante para lá da Mancha mas exótica no continente. Zita Seabra editou os Criadores; eu teria preferido uma versão portuguesa de Intelectuals, um fino e nada tímido retrato das ideias – e das vidas – dos intelectuais ‘progressistas’. Nunca mais esqueci o pequeno capítulo dedicado a Marx e às suas malfeitorias domésticas. Mas não se pense que o panfleto é a sua perdição: qualquer livro de Johnson é opinativo, culto, documentado e, em podendo, ácido. Por exemplo, o excelente Modern Times – uma história do século XX, dos ‘vintes aos oitentas’. Um calhamaço e peras onde, naturalmente, não há um capítulo sobre Portugal mas há um capítulo sobre a Guerra Civil de Espanha. Ficou na minha memória o detalhe de uma observação de Johnson: a propósito dos regimes autoritários da época, cita Salazar, qualifica os seus primeiros governos como ‘ditadura de académicos’ – não é falso – e conclui, rápido, que ele foi o único ditador europeu a ser derrubado não pela revolução, não pela conspiração, não pela guerra, mas por uma modestíssima cadeira. De Johnson estamos falados. Ou por outra, ainda recomendo as suas duas histórias religiosas. Uma porque a li: History of the Jews. Outra porque boas fontes confirmam o talento: History of Christianity. Se Zita Seabra decidisse publicar um ou outro, prestava um bom serviço à cultura e ao espírito crítico.
Coincidência das coincidências, esta semana aconteceu-me outro bom ‘encontro’ com Zita Seabra. Não no Parlamento nem em qualquer campanha. Prosaicamente, foi na livraria: Zita Seabra não estava lá, mas estava um livro que, inesperadamente, ela editou. Chama-se Cinco Dias em Londres e o autor é John Lukacs.
Fiquei duas vezes feliz. Descobri Lukacs no Verão passado, li-o em brasileiro e várias vezes pensei que se tivesse uma editora, não hesitava. Ainda por cima, no domingo, quando passei pela livraria, tinha precisamente acabado de ler outro livro de Lukacs, mais antigo e decisivo na sua carreira de historiador, O Hitler da História. Cito o título assim, porque o li (mais uma vez) em ‘brasileiro’ (ou em Português escrito por brasileiros).
Como já se percebeu, fiquei fascinado por Lukacs. Nasceu húngaro e tornou-se americano. Regeu História Contemporânea em Columbia e Princeton. Tinha uma mãe católica e um pai judeu. Nutre um ódio especial pelo populismo. Segue Tocqueville na previsão dos riscos demagógicos dos regimes pós-aristocráticos. Considera Churchill o mais interessante, denso e magnífico homem de Estado do século XX. Não tem complacência com o neo--conservadorismo. No essencial, valida a política social católica. Considera Burke inspirador e, por prezar os valores da estabilidade e do equilíbrio, é crítico da visão da América sobre o Médio Oriente. Estas são as opiniões de um conservador idiossincrático: irrepetível e não catalogável. Mas tendo opiniões políticas que não esconde, o trabalho de Lukacs é história, fá-lo primorosamente e especializou-se no período da II Grande Guerra.
Falemos, então, do livro que Zita Seabra editou e do outro que acabei de ler (1). Cinco Dias em Londres é um soberbo exercício de história ‘concentrada’. É o relato minucioso de um mês – nem tanto – importante na vida de Churchill. Recorrendo às fontes mais pormenorizadas e interpretando os factos com fulgurante lucidez, Lukacs escreveu um livro ‘focado’ nos primeiros dias de Churchill como primeiro-ministro. Os dias de Maio de 1940. Um tempo em que Churchill teve, contra si, quase tudo e quase todos. A desconfiança do establishment e a herança dos apaziguadores. A impreparação militar e a solidão ideológica. A frieza (política) de muitos conservadores e o cepticismo (de classe) de muitos trabalhistas. Os medos de Chamberlain e as manhas de Halifax. A incompreensão da América, a capitulação dos belgas e dos holandeses, o falhanço dos franceses. A esperança na sorte – o erro da campanha da Rússia – e o valor próprio da tenacidade. É, simplesmente, um livro luminoso.
O Hitler da História é igualmente copioso em detalhes, mas tem outra natureza. Não é uma biografia de Hitler. É uma revisão das principais questões que os historiadores souberam (ou não) resolver sobre Hitler. Lukacs discorre amplamente sobre os principais acertos (e também erros) dos biógrafos de Hitler. É moderadamente elogioso com Fest, crítico com Nolte, parecido com Kersaw, admirativo com Zitelmann. Vai a fundo na demonstração de como os principais revisionistas são fraudulentos e manipuladores. Coloca questões terrivelmente pertinentes para tentar perceber o que aconteceu na Alemanha a partir de 1918.
A questão central e decisiva: Hitler era um reaccionário ou um revolucionário? Lukacs sustenta que era um revolucionário. A partir daí, detalha os mecanismos que usou para usar as instituições que depois destruiu. Demora-se na sua relação, utilitária e desprezível, com as elites militares e religiosas. Não foge à matéria sensível – o grau de adesão e consciência dos alemães em relação a Hitler. Circunscreve o momento em que ele percebeu que «nenhum dos lados está em condições de vencer o outro», ou seja, o momento em que Hitler percebeu que os mil anos do Reich não seriam mais do que alguns (e daí não tirou consequências). Um livro denso e teórico que ajuda a explicar um horror ‘inexplicável’.