SOL

Born to be alive

O ano do cinema tem 11 meses. Agosto é um caso à parte: estreias são poucas, festivais não há, ciclos ainda menos. Mercados exíguos – países exíguos, diria Adriano Moreira – não dão p’ra mais. Em chegando a vida normal, a fome é tanta que o apetite tergiversa. Foi o que me aconteceu. Já devia saber que a silly season não é só jornalística. As fitas disponíveis são, regra geral, comédias idiotas, terrores sem nexo e uma (pequena) profusão de obras B a que, em condições normais, não prestaríamos atenção.
Decidi, portanto, ver o primeiro filme de acção que aparecesse (ou parecesse). Dá pelo título de A Face Oculta de Mr. Brooks. Um flop.
Com todo o respeito, há actores que não me convencem nem me comovem, mesmo quando, num filme ou noutro, conheceram dias de glória. Kevin Costner é um deles: tem pinta de maçador profissional ou de profissional maçador, o que não sendo a mesma coisa vai dar ao mesmo, mais coisa menos coisa. É bastante insosso. Nem deslustra nem marca. É mono: monódico, monótono e monocórdico. Se Costner, apesar das Danças com Lobos, já era uma premonição, William Hurt, apesar do Turista Acidental, foi a confirmação. É certo, certinho, impec, impecável, impecavelzinho. Mas se a luz estiver apagada, não provoca saudades. Acresce que, no filme, Hurt é o ‘grilo falante’ de um Costner com dupla identidade. Do ponto de vista da realização, a solução para esta personagem basicamente invisível é torná-la visível. Resultado: Hurt está sempre onde não está e a frequência da brincadeira torna o filme (demasiado) irreal.
O resto também não é brilhante. Sem matar a curiosidade, aqui ficam os óbices: a compulsão assassina é bem explicada mas o comparsa ocasional é mais do que tosco; o paralelo com uma Demi Moore imprevisivelmente polícia podia ser um filão mas perde-se nas variações da história dela; a teoria de herança genética – à volta da filha de Costner – acaba por ser um pretensiosismo intelectual.
Salvou-me um cúmplice. No dia seguinte, um amigo perguntou-me se eu já tinha visto o terceiro Bourne, ou seja, o Ultimato Bourne. Respondi-lhe que estava à espera que estreasse; e ele riu. Já tinha arranjado uma qualquer ‘maneira’ – informal ou informática – de o ver. Achei melhor nem perguntar qual. Só tenho a dizer que vale absolutamente a pena.
Começo pelo princípio. Eu gosto dos livros de Robert Ludlum. É um género muitos furos abaixo de Le Carré, e uns tantos acima de Forsyth. Não é que escreva especialmente bem; o ponto é que conta histórias viciosamente bem. A literatura de espionagem é, como se sabe, uma vítima colateral da liberdade: verdadeiros espiões eram os da Guerra Fria. Para combater o desemprego, os autores reconverteram os heróis – meteram-nos no meio do terrorismo e nem sempre a passagem de Moscovo para Tripoli foi feliz. Depois, viraram cibernautas, piratas tecno, alter-mundialistas românticos ou videovigilantes sinistros. Como o inimigo é difuso, hão-de reparar que as novas histórias não são exactamente lógicas. O filme é cauteloso: quando Ludlum criou Bourne ainda W. andava no álcool e Brejnev presidia – sabe-se lá se vivo, empalhado ou morto – aos desfiles da Praça Vermelha. O próprio Ultimato Bourne é uma mera homenagem. O livro foi escrito em 1990 e o filme estreia em 2007. Qualquer semelhança, tirando algumas, é uma coincidência.
Paul Greengrass – o realizador – agiu em conformidade. Confesso a minha predilecção: Greengrass é um excelente realizador de acção, filma como quem faz reportagens, tem adesão à realidade, escolhe a rua como cenário, parece que está sempre em directo – é, em certo sentido, documental. Começou por escrever para televisão e construiu uma reputação: a sua marca nota-se no Spycatcher, agiganta-se em Omagh, é vibrante em Bloody Sunday e consegue um milagre de sobriedade em United 93, um grande filme que teve menos público do que merecia. Neste Ultimato Bourne, tudo o que depende do realizador é simplesmente trepidante.
Até faço um parágrafo para salientar o que depende dele: é um génio a manipular o zoom; diverte-se (e diverte-nos) com a hand--held camera, tornando definitivamente realistas as cenas, as pessoas e as intenções. Recomendo uma atenção especial a duas ‘perseguições’ – uma na estação de Waterloo e outra, ainda mais incrível, em Tanger, indo pelo souk dentro e passando a uns metros dos canhões portugueses, na cidade que Paul Bowles fez imortal (mas que se arrasta mortalmente há umas décadas).
É esse, precisamente, o terceiro mérito do filme: o seu cosmopolitismo original. A acção completamente speedada aterra em Londres, levanta para Moscovo, almoça em Turim, acontece em Madrid, adormece em Paris e de Tanger já falei. Mas não há vestígios de postalinho turístico. Bourne é um globetrotter e vai direito ao assunto. É o que convém ao espectador.
O preconceito da acção é de tal modo evidente que faz esquecer a deliberada simplicidade do argumento. Não é pesado, não é difícil nem é especialmente consistente. Bourne continua à procura da identidade; e continua a ser traído na CIA (aí não há nada a fazer porque, além dos erros, a CIA sofre da patologia da superpotência que sobra e carrega com o mundo às costas). Mas num ponto o filme é intrigante e preocupante. Greengrass leva até à caricatura a parafernália de meios de escuta, detecção, localização, vigilância e perseguição. O arsenal torna a privacidade um facto meramente residual. Empregá-lo para melhores fins ou pô-lo em sinistras mãos é a ínfima distância que separa a tirania da liberdade (ou o uso e o abuso). Falta dizer que Matt Damon esmaga. Por alguma razão a Forbes diz que não é um subprime do cinema. Pelo contrário: é o investimento mais seguro que um estúdio pode fazer. Por cada dólar que cobra, rende 29. A Jolie, por exemplo, só gera metade dessa riqueza (e ainda dizem que o capitalismo não é equitativo).
E pronto: o Verão está-se a acabar e Ultimato Bourne é um óptimo regresso à vida real. In a theatre near you a 20 de Setembro.
Publicação: sábado, 1 de Setembro de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

terça-feira, 4 de Setembro de 2007 19:25 by camaradachoco

# Camarada Choco

Divulgação

Mais um Blog que se tornou um Livro!

Filme da apresentação disponível no YouTube em ?Camarada Choco?

www.camaradachoco.blogspot.com

www.livrosnet.com

terça-feira, 4 de Setembro de 2007 22:47 by jbarbara

# re: Born to be alive

Parabéns companheiro Paulo Portas pela iniciativa no youtube ... gostei e recomenda-se. Aliás gosto sempre de o ouvir, a ultima vez foi em Portimão no aniversário do partido.

quarta-feira, 12 de Setembro de 2007 12:29 by ElisabethButterfly

# re: Born to be alive

Venho aqui, não para tecer algum comentário de extrema pertinência e argúcia sentida, mas para deixar um link sobre o qual, creio convictamente, deviam debruçar-se urgentemente os políticos e opinion leaders em geral.

Independentemente das polémicas que a temática suscite, não podemos continuar a olhar e assobiar para o lado. Há coisas que não passam apenas por fazermos como o avestruz. Se o Dr. Paulo Portas, ex. jornalista, ex. director de O INDEPENDENTE, actual político (não somos todos?) se interessasse... Quiçá, não haveria  por aí uma actuação capaz de prometer trabalho real em favor da mesma sociedade civil pela qual todos tanto pugnamos...

Fica pois expresso o convite a todos, mas muito insistentemente ao Dr. Paulo Portas, na esperança de que algo aconteça que seja positivo no contexto do assunto que me anima no blog.

Cordiais cumprimentos,

Elisabeth Butterfly

http://sol.sapo.pt/blogs/elisabethbutterfly/

sábado, 15 de Setembro de 2007 19:39 by Delamego

# re: Born to be alive

Gostei imenso do que li amigo portas continua a brindar-nos com esta brilhante linha de pensamento.

Amigo de Lamego

sexta-feira, 5 de Outubro de 2007 16:10 by Pulga1977

# re: Born to be alive

Fui alertado para esta crítica na última Revista Premiere... nem queria acreditar! Um líder partidário com representado no Parlamento, deputado, pessoa que preza o Estado de Direito... faz uma análise a um filme baseando-se numa cópia pirata? A Pirataria é crime Sr. Paulo Portas, não deve de haver qualquer complacência com o crime, a Pirataria tem vítimas, provoca desemprego e dramas familiares, se não conhece nenhum caso eu apresento-lhe. Haja Pudor! Se queria comentar o "Ultimato", ao menos tinha esperado pelo dia 20 para o fazer, não limpava a sua indiferença e desconsideração por quem trabalha na área do cinema e do vídeo mas pelo menos tinha disfarçado.

Diga Não à Pirataria Sr. Paulo Portas!  

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