SOL

Forman em má forma

A título de declaração de interesses: Milos Forman faz parte da short list de realizadores que realmente prezo. O problema de admirar alguém está na violência da decepção. Nestes momentos é que Rilke tem mais razão: a primeira coisa que os que voam como pássaros têm de aprender é a cair. O último Forman é uma queda aparatosa.

O que eu admiro nele são algumas genialidades. A primeira – e menos conhecida – é uma bárbara ironia sobre o sistema totalitário. Falado em checo, filmado na extinta Checoslováquia, exibindo uma espécie de neo-realismo cómico, O Baile dos Bombeiros foi a antecipação da sua ruptura pessoal com o comunismo. O padrinho – o produtor – chamava-se Carlo Ponti. Já no período americano, Forman atingiu a glória (e a estatueta) com Voando sobre um Ninho de Cucos. Ninguém esquece Jack Nicholson e a sua rebeldia naquele insano hospital. E sendo uma virtude de Forman não filmar como quem produz salsichas, passou quase uma década até ao esplendor de Amadeus. Um esplendor soberbo e na raia da perfeição: um Mozart neo-pop, selvagem e delirante, impecável na reconstituição do ambiente histórico. A mesma ambição estética havia de mostrar-se em Valmont. Curiosamente, o extraordinário romance epis-tolar de Laclos havia de gerar uma inesperada emulação entre dois filmes requintados. Escolher entre as Ligações Perigosas e Valmont é um exercício de minúcias, tratando de averiguar qual dos óptimos prevalece.

Em dizendo isto, apetecia-me fazer uma pergunta a Milos Forman: depois de ter assinado Amadeus, era preciso, era imprescindível, era inevitável filmar uma vida de Goya que está longe de o ser e ainda mais longe de brilhar? Ele saberá. Mas a comparação dos produtos finais não favorece o risco que correu.

Os Fantasmas de Goya têm, pelo menos, cinco problemas: identidade, definição de personagens, escolha de actores, administração do tempo e língua usada. O problema identitário deste filme é, precisamente, não ter identidade. Podia ser – mas não é – uma biografia de Goya. Pretende ser – mas não é – um retrato da Inquisição. Supõe ser – mas não é – uma crónica das revoluções. Em cinema, a indecisão sobre o enredo principal é ainda mais sofrível do que na literatura: a imagem descarna quase tudo e ainda mais o que não é nada. Depois, há o próprio caso de Goya nesta obra. Ele é um pretexto; está no título mas escapa-se do conteúdo. «Goya aqui no pinta nada» , queixou-se uma crítica espanhola e com bastante razão. Forman esqueceu-se das suas próprias receitas de mérito: o que seria de Amadeus sem o carisma na representação de Mozart e sem a ‘perfeita mediocridade’ na de Salieri? Desta vez, Goya não prende e não há contraste. Acresce que, no elenco, Forman só acertou verdadeiramente em Javier Bardem (o inquisidor de todos os tempos, ou seja, o oportunista de todas as inquisições). Natalie Portman é vítima da sua personagem: enlouquece cedo e na loucura ora é intangível ora é caricatural. Forman, aliás, confessou que a escolheu não por ter gostado de Closer, mas quando a viu numa capa de revista. Stellan Skarsgard é um Goya incongruente (demasiado escandinavo, não?). O papel de Carlos IV – na verdade, um Rei pouco esperto – não melhora o caso. Podia evidenciar-se a Rainha – ela sim, inteligente – mas o investimento de Forman foi escasso: apenas dura o tempo em que o retrato da sua fealdade é pintado. Como se não bastasse, o filme nem sequer é equilibrado na gestão dos tempos. Pretende ‘abranger’ quinze anos em que a Espanha foi quase tudo: independente e invadida, sorna e sangrenta, algo napolitana, muito francesa e depois inglesa, Ancien Régime por inércia e revolucionária à força. Resultado: passa tudo a correr e nem tem a vantagem – ou o encanto – das histórias cruzadas. Por último, o uso do inglês, neste caso, é atrevido, para não dizer assassino. Bardem a falar inglês com aquele jeito que os espanhóis têm e Portman a figurar uma castelhana que vende o corpo deixam – no mínimo – uma sensação estranha.

É claro que nem Milos Forman ensandeceu nem Os Fantasmas de Goya são assim tão penosos. O que digo é que esperava mais; pelo menos tanto como Forman já tinha sido capaz. Os créditos do filme são episódicos e até pontuais. Lembro-me de três cenas em que a mão de Forman se nota poderosamente. Uma é o interrogatório da jovem e devota Inés Bilbatúa pelo Santo Ofício. Outra é o talentosíssimo jantar em casa dos Bilbatúa – pai, mãe e irmãos –, que administram a Lorenzo, o inquisidor, a mesma medicina, provando que a tortura promove a confissão da verdade e do disparate. E o fim também é bom: um epitáfio de Lorenzo, morto como matou, por uma vez e só uma digno de morrer (ou viver). Por aqui passa, aliás, o melhor de Os Fantasmas de Goya: a alegoria do oportunismo. As revoluções devoram os seus filhos e disso sabem os franceses melhor do que ninguém. O longevo herdeiro de Torquemada tornar-se-ia o executor mais fiel de Robespierre. Num caso e noutro, com igual cinismo e mau carácter. Isso, Forman consegue demonstrar. Mas, convenhamos, não é novo nem é único.

Há um momento em que Goya – pintor do rei – faz o retrato do inquisidor. Basta olhá-lo demoradamente para perceber que um génio não se imita. Suspeito que Goya jamais pintaria aquele Bardem. E como eu acredito que Deus está nos detalhes, este detalhe confirmou o resto. Digamos que a inspiração de Forman não foi ajudada por Goya.

Publicação: sábado, 15 de Setembro de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

sábado, 15 de Setembro de 2007 22:31 by reifazdeconta

# re: Forman em má forma

Caro Sr. Não tendo nada a ver com o tema, mas porque falamos de algo que está em primeira página. Venho aqui chamar a atenção de V. Exc. para a pouca vergonha de um senhor chamado Duarte Pio ter andado a enganar meio mundo ao longo de décadas. Vale a pena ver www.reifazdeconta.com e denunciar!

domingo, 16 de Setembro de 2007 21:45 by VilaReal

# re: Forman em má forma

5 estrelas.

Para comentar necessita de estar registado