SOL

Uma divertida forma de morrer

Os ingleses têm demoradas virtudes. Por exemplo: são o único império que permanece em funções depois de ter desaparecido. Ao contrário, os americanos exercem como império sobrante sem ter currículo na matéria. Os ingleses também dão frequentes sinais de uma peculiar resistência à abolição do sentido de Nação: são tão adeptos do livre comércio como da libra esterlina e a verdade é que podem sê-lo. Pouco dados à utopia universal, concentram-se nos meios da sua própria liberdade. Preservam-nos. E conservam-na.

Outra coisa que a Inglaterra – em princípio – não faz é rastejar por prestígio. Só naquele país poderia acontecer o que, discretamente, está a passar-se com o direito constitucional da ilha. Os escoceses voltaram a dar evidência de que querem separar-se ou, pelo menos, descolar. A reacção dos ingleses não é tanto a de proibir, nem tão pouco guerrear. Limitam-se a considerar, de momento, que se os escoceses querem ter Parlamento próprio, então os deputados da Escócia em Westminster deverão abdicar de votar nos assuntos especificamente ingleses – que são todos. Nada de comparável com a convulsão nacional em Espanha – quase uma tragédia – ou com a decadência da mera ideia da Bélgica – quase uma comédia. Há um pundonor básico que impede os ingleses de discutirem o que pensam ser o seu estatuto e posição: se alguém quer ir embora, pois que vá, decerto ficará a perder. Quanto aos Estados que remota ou proximamente constituem o inimigo – um conceito elástico que vai da Argentina, nas Malvinas, até ao ‘Estado europeu’ em Bruxelas – a reacção é normalmente belicosa. Os ingleses podem perder soberanias mas dificilmente as entregam a invasores ou metediços. O mundo à volta dos ingleses mudou; mas a Inglaterra ainda olha o mundo – ou os seus interesses nele – a partir do umbigo. Por isso é que, um dia, perante uma devastadora tempestade no Canal da Mancha, um jornal britânico escolheu um título que fez história: ‘O continente está isolado’.

Era aqui que eu queria chegar – ao sentido de humor. Está por aí um daqueles pequenos filmes que o fatídico academismo desprezará e a petulância do mau gosto – o mau gosto, no humor, é ainda mais temível – fará por ignorar. Mas vale verdadeiramente a pena, digo eu. Chama-se Morte num Funeral e pode ver-se em dez salas. Não chega a ser Monty Python mas podia. Não é tão bom como os Quatro Casamentos e um Funeral mas quase.

O triunfo da massificação e o domínio do ‘politicamente correcto’ são inimigos letais do humor. Primeiro, porque o nível da piada descai (ou então as piadas que não têm piada nenhuma ganham foro); segundo, porque a selecção ideológica e até moral do que se deve dizer, como se deve dizer e da oportunidade de o fazer são censuras assassinas da criatividade (que é uma espécie de produtividade do humor). Hoje em dia, quando me recomendam uma comédia no cinema, tenho um preconceito e fico de pé atrás. A comédia é, em cinema, uma arte dificílima: não há maior dissabor do que o pouco sabor que fica de uma comédia falhada. Ora, uma certa leitura do que é ‘moderno’ dá gravidade à simplificação, estatuto à grosseria e mercado à complacência. Escapar pela chuva fina dessas inclinações é obra. Foi o que Frank Oz conseguiu neste muito divertido Morte num Funeral.

Eu sabia pouco de Frank Oz. De memória só recordo A Pequena Loja dos Horrores – um sucesso merecido, à volta de uma ideia genial. Às vezes, um grande filme é só isso. Não chega propriamente a ter argumento, basta-se com uma ideia prodigiosa que funciona como nó de todo o novelo. Woody Allen, quando quer, faz isso e não precisa de mais. A ideia do espectador passar para a tela em A Rosa Púrpura do Cairo, ou a ideia de um sujeito dizer aos outros apenas o que eles querem ouvir – no Zelig –, são casos magníficos. Almodóvar também é capaz de grandes histórias e de grandes ideias, num caso e noutro absurdamente verdadeiras ou deliciosamente improváveis. Franz Oz, neste último filme, aproveita-se de duas ideias inesgotáveis (e hilariantes). Se algum defeito a realização tem é a exploração até ao limite desses suportes. Mas como o filme acaba em noventa minutos, não cansa.

Já não me ria tanto (ou tão escancaradamente) desde Little Miss Sunshine. Só que aqui não estamos na América pueril – a trama acontece em plena classe média inglesa, aquela mesmo que juntará, na eternidade, a senhora Thatcher e o senhor Blair. Uma classe média com deveres familiares e disputas mesquinhas, colapsos financeiros e infidelidades conjugais, sossegos campestres e delírios urbanos, ambições de reconhecimento e patologias sociais – mas dispondo, ainda assim, de uma considerável reserva de humanidade. O melhor lugar para a retratar é um enterro de família.

Se, no velório, aparecer um parente que queria tomar um Valium mas tomou um alucinogénio cavalar; e se, na hora de despedida do patriarca, aparecer um chantagista – no caso, um anão que é gay e alega que o velho também era – está servido o rolo compressor de um nonsense que, neste filme, é enérgico, é fino e é constante. O mérito, no entanto, deve distribuir-se por um par de grandes actores – ou grandes papéis, o futuro dirá. Refiro-me ao extraordinário Alan Tudyk, o alucinado da cerimónia; e ao excelente Matthew Macfadyen, o certinho da família. Rupert Graves tem mais nome e não deslustra – faz de irmão baldas mas comprometido.

Não sei quais são os números. Mas esta comédia também é a prova de que se pode ter um orçamento barato e conseguir um produto com classe. Frank Oz não deixa que a fita se disperse no espaço ou no tempo. É esse concentrado de humor que torna Morte num Funeral tão apetecível. Uma comédia, finalmente! Sem qualquer vestígio de pretensiosismo. Com um fraco teor de moralismo. Uma comédia inglesa, com que eles se riem e nós os admiramos. Muito frequentável e, sobretudo, palatável...

Publicação: sábado, 29 de Setembro de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

domingo, 30 de Setembro de 2007 2:32 by Oidotsuc

# re: Uma divertida forma de morrer

De facto, o humor com sotaque genuinamente "british" tem outra dimensão, outro alcance que, do outro lado do Atlântico (será mesmo do "accent"?) apenas se consegue beber em raríssimas ocasiões. Bem! Excepto quando o Woody Allen tira uns dias de férias do seu clarinete e nos brinda com mais uns momentos de génio. Mesmo que seja sob a forma escrita, como fez agora com este despretencioso livrinho com que nos adoçou os ultimos raios de sol de um Verão tristemente cinzento.

sábado, 6 de Outubro de 2007 19:42 by bp63

# re: Uma divertida forma de morrer

Como comédia achei excelente. Mas o que achei mais curioso foi que numa comédia inglesa o jogo do nonsense resulte mais das situações burlescas criadas, sempre num limit point, um género mais ?vaudeville? bem o jeito da malta continental, do que propriamente da fleumática dos diálogos, como quase sempre nos habituaram.

De qualquer forma, se fossemos medir o filme por uma taxa de eficácia, e tendo em conta que estamos no campo da comédia, diria que atinge os 100% no ?risómetro?, tal é a explosão de humor que provoca na sala.

Bp63

domingo, 7 de Outubro de 2007 11:23 by manuelapinheiro

# re: Uma divertida forma de morrer

Para além da " Rita" que acompanhei na reportagem da TV, e de 4 casamentos e um funeral....Júlia Roberts... lindíssima no seu papelão. Filmes repletos de romance, paixão, lágrimas, boa disposição e alegria, que nos fazem sonhar e crescer através dos seus excelentes argumentos e interpretações.Prometo que vou de seguida vêr o que aqui recomenda. Sensacionalmente Boa e Fiável esta sua linhagem magnífica que me obriga a reflectir muitíssimo de quando em vez...

"O triunfo da massificação e o domínio do ?politicamente correcto? são inimigos letais do humor. Primeiro, porque o nível da piada descai (ou então as piadas que não têm piada nenhuma ganham foro); segundo, porque a selecção ideológica e até moral do que se deve dizer, como se deve dizer e da oportunidade de o fazer são censuras assassinas da criatividade (que é uma espécie de produtividade do humor)."

Neste caso, o políticamente correcto digere-se bem, numa adequada ,proporcionada e fortificante dose de civilização in vitro.... Um Forte Abraço. Bom Domingo lhe desejo. Respeitosamente ... MP*

sexta-feira, 12 de Outubro de 2007 1:21 by gigimelovalente

# re: Uma divertida forma de morrer

PAULO PORTAS - DON'T TOUCH MY CEBOLA - UMA FOTOGRAFIA DE CAMPANHA, DA SÉRIE DESCOLAGENS,DE "GIGI MELO VALENTE" EM

http://sol.sapo.pt/photos/gigimelovalente

sexta-feira, 12 de Outubro de 2007 18:51 by Aserrao

# re: Uma divertida forma de morrer

Comédia a que já tínhamos deixado de estar habituados. Foi excelente ver o filme.

E , permita-me,dr, repôr aqui a parte final do seu artigo" É esse concentrado de humor que torna Morte num Funeral tão apetecível. Uma comédia, finalmente! Sem qualquer vestígio de pretensiosismo. Com um fraco teor de moralismo. Uma comédia inglesa, com que eles se riem e nós os admiramos. Muito frequentável e, sobretudo, palatável..."

cumprimentos

A.Serrão

sexta-feira, 12 de Outubro de 2007 18:52 by Aserrao

# re: Uma divertida forma de morrer

Comédia a que já tínhamos deixado de estar habituados. Foi excelente ver o filme.

E , permita-me,dr, repôr aqui a parte final do seu artigo" É esse concentrado de humor que torna Morte num Funeral tão apetecível. Uma comédia, finalmente! Sem qualquer vestígio de pretensiosismo. Com um fraco teor de moralismo. Uma comédia inglesa, com que eles se riem e nós os admiramos. Muito frequentável e, sobretudo, palatável..."

cumprimentos

A.Serrão

sábado, 31 de Maio de 2008 23:35 by STRESSdeGUERRA

# Será que também se trata de uma divertida forma de morrer?

Será que também se trata de uma divertida forma de morrer?

Terei a certeza de que não podem dizer que não são conhecidas as Burocracias.

Terei a certeza de que não podem dizer que não são conhecidas as Burocracias.

Excelentíssimo Senhor, Sua Excelência,

Presidente da República Portuguesa e Comandante Supremo das Forças Armadas

Ao me dirigir a Sua Excelência faço-o depois de grande ponderação e várias diligências  junto das diversas entidades, e, sempre sem ouvir a resposta desejada, por isso, e atendendo a toda uma burocracia existente no seio das Forças Armadas, mais precisamente no Exército, solicito a Sua Excelência por este meio que se digne, se merecer a sua atenção, que estas palavras o levem a reflectir e mandar verificar todo o processo que envolve o problema de todos os Ex-combatentes que são vitimas de stress pós traumático de guerra, isto porque depois de vários anos em que os processos foram analisados e inquiridos tanto clinicamente, como por investigação processual, passando esta por audição de testemunhas em conversa havida com o Senhor Major General Médico Director do Serviço de Saúde, o mesmo me informou que naquela data, Janeiro de este, ano haveria mais de setecentos processos em atraso na CPIP - Comissão Permanente para Informação e Pareceres o que para mim não é muito bem entendido, pois, se já foi feita uma análise em pormenor em termos clínicos, periciais e psicológicos, por um lado e do outro judiciários, como referi através da audição de testemunhos nomeados, bem como de testemunhos inquiridos para contra prova, para além disto, eis que surge uma Junta Médica Militar, e só depois disto tudo ser homologado, como se não bastasse temos a dita Comissão a entravar todo o processo, que está, na minha opinião mais que reanalisado, peço pois desculpa pelo meu desabafo, mas como não encontro soluções, só me restava o mais alto Dignitário da Nação e Comandante Supremo das Forças Armadas, que como combatente que foi, certamente viveu e vive ainda hoje em dia os problemas de quem vive e viveu no teatro operacional de guerra.

Agradecendo desde já a sua atenção para o meu/nosso problema, subscrevo-me atentamente,

António Sampaio

MAMA SUME

Que pensará o Senhor Ex Ministro destas situações? estou no blog - http://sol.sapo.pt/blogs/stressdeguerra/default.aspx,  

gostaria de saber a sua opinião, não seria especificamente para mim, mas para todos os que estam na minha situação. Agradecido pela sua atenção.

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