De como a vingança é um prato frio
É um filme sem upstairs. Para além de um vago sonho – Kat quer sair daquele bairro imundo – prepare-se para o lumpen puro e duro. Há algum dinheiro, mas é o dinheiro de tráficos: contrabandos, drogas, armas, cocas, gangs e fakes, numa desordem meticulosamente regular. É de um mundo obsessivo e obsessivamente violento que estamos a falar. Não há mais cenários do que um velho apartamento onde tudo se rouba e nada está em paz; um bar obscuro onde à ilharga do bilhar se combinam quecas, seduzem alvos e repartem lucros; um qualquer departamento social que funciona como o espaço exíguo da lei; e um consistório de desesperados, e o resto são ruelas de vândalos, paredes invariavelmente graffitadas, lixos despojados e sangue – muito sangue derramado. Tem lá tudo o que o mundo também é: o irlandês racista, o porto-riquenho racista, o wasp racista, o afro racista, o asiático racista. Nada estimável e tudo transparente. Com um discurso radicalmente directo, às vezes em falas – ou apenas sons – lânguidas e acabadas, com três palavrões em cada duas palavras. Inacessível a pudores, nada recomendável para almas impressionáveis. É o primeiro filme realizado por Gary Lennon e tem um travo de Abel Ferrara e um toque de Tarantino.
Chama-se .45 e suspeito que não fará uma carreira demorada nas salas. Repito e aviso – é uma obra sem qualquer benevolência. Tematicamente, parece que Lennon terá querido contar uma história, nada banal mas apesar de tudo frequente, sobre o que as convenções designam por ‘violência doméstica’ – o nome técnico da crueldade em forma de misoginia. Bem vistas as coisas, .45 podia passar à história por isso.
Porque há uma cena, talvez de seis ou sete minutos, daqueles minutos que nunca mais acabam, inimagináveis e intermináveis, que nos deixam esgotados, exauridos e marcados – uma cena que é o mais definitivo dos retratos sobre os homens que batem nas mulheres. A espiral da posse, raiva, ciúme, estupidez, mágoa, brutalidade e insanidade ocupa o ecrã. Nunca tinha visto nada assim (e espero não ver outra vez). Garanto que o impacto psicológico é até mais duro de ver do que o facto físico.
Acontece que .45 não é apenas – e se calhar, não é sobretudo – um filme sobre violência doméstica. A certo passo, a história sofre um abanão que é uma entorse: torna-se um outro enredo algures entre a manipulação dos sentimentos e a legitimidade da vingança. As perguntas inevitáveis não ficam sem resposta: quem pode castigar o débil canalha que aterrorizava Kat? O Estado ou a vítima? Os meios da revanche – no caso, nada menos do que o assassinato – obedecem a regras de proporcionalidade? Os cúmplices do crime têm algum direito à remuneração do seu risco? A união dos altruísmos é afinal uma soma de egoísmos? É então verdade que nesta vida não há almoços grátis? Kat, a deslumbrante Kat, é simultaneamente bestial e besta, humilhada e humilhante, peão e estratego, maltratada e egocêntrica – uma mistura consideravel-mente humana. No fim, ela diz para a câmara qualquer coisa deste género: «O sexo é como a vida, para ser bem feito temos de ser nós a fazê-lo». Moral da história: ninguém a salva se não for ela a salvar-se – a si própria e dela própria.
Kat é o milagre deste filme. Digo milagre porque é em .45 que Milla Jovovich dá um salto de gigante como actriz. Sim, um milagre porque Milla Jovovich teria trucidado o filme caso falhasse no papel de Kat – a verdadeira razão de ser de .45. Um milagre, repito, porque Milla Jovovich é o que é: infinitamente bonita; mas não era, até ver, uma actriz como Uma Thurman é. Uma coisa é vender produtos Prada, Chanel ou Revlon ou dar um salto por fitas menores, caramelizadas ou horrorosas, e outra coisa é tomar conta de uma boa história, dominar absolutamente a realização e sair incólume, ou seja, poder usar os galões de actriz ‘independente’, para já num cinema ‘independente’. Milla tem uma história típica das estepes – b.i. ucraniano, mãe russa, pai sérvio, exílio americano; um corpo divino deu-lhe a passerelle e a sua glória efémera. Aqui, em .45, começa outra história, outra vida, outro destino. Suspeito que o público vai atrás de .45 por causa de Milla, a modelo. À saída, descobre outra pessoa. Ela parece o que é e muito mais.
Há outra pequena genialidade em .45. De tempos a tempos, o nosso olhar sobre o carácter de Kat e Big Al – um Angus Macfadyen talvez demasiado pesado – é suspenso; falam então, em depoimentos minimalistas, a mãe dela e a mãe dele, ou a vizinha e a amiga. O décor desses momentos é divertido: são opiniões na cozinha, no toucador ou à janela, palpites inspiradores. Vão tecendo a ‘explicação’ dos precipícios do argumento. São como a consistência da massa: nada acontece por acaso. Mesmo que .45 pareça inverosímil, nada nos garante que a realidade não seja tão inverosímil assim.
Se aguentar o choque, não deixe de ir ver. Este .45 é um daqueles filmes que um dia, mais tarde, nos arrependemos de não ter visto.