Aventuras de Salazar no país dos ingleses
Confiava no tempo de voo para avançar numa boa leitura: Os despojos da Aliança (1). Mas viajar para os Açores é sempre uma aventura com bilhete incerto na volta. O vento norte prega partidas virtuosas. Fica-se em terra à espera que amaine; e enquanto se fica, é inescapável tornar a reparar nestas ilhas que parecem a última estação da CP antes do paraíso. Aconteceu-me, desta vez, em São Jorge. Estou reconhecido à adversidade: com algum tempo livre, cheguei ao fim da investigação de Pedro Oliveira sobre as subtilezas e os desaires da Velha Aliança entre 1945 e 1974.
O tema é estimulante. Nesses trinta anos, mudou muita coisa para que algo ficasse na mesma no Reino Unido. O triunfo contra o nazismo não se fez sem deixar a capital e o império exangues; a adesão ao Estado-Providência tinha custos incompatíveis com a continuação da política imperial qua tale; e o pragmatismo inglês fez o resto, cuidando – com talento, com a libra, com a dissuasão e, claro, com a Commonwealth – de encontrar para os britânicos «um novo papel», que alguém caracterizou como o de «primeira das superpotências de segunda linha». Ao mesmo tempo, o Portugal de Salazar sobrevivia à ardilosa neutralidade, encontrava porto de abrigo na NATO e pensava isolar o ‘isolamento’ entrando na ONU. Mas não antecipava as consequências da previsível mudança do mapa e do mundo coloniais. Salazar mantinha-se obstinadamente fiel à sua visão da integridade territorial; mas nem isso o levou, até muito tarde, a ‘investir’ humana e financeiramente nos domínios ultramarinos. Quando o fez, o mundo já não era o mesmo. E, refira-se em abono da verdade, não pode queixar-se de falta de aviso. Salazar acreditava que a tipologia ‘multirracial’ do império chegaria para imunizar o seu destino. Com isso instruía uma propaganda que irritava particularmente os ingleses – a quem, por contraste, era atribuído um colonialismo ‘racista’. Um dos diplomatas ingleses que telegrafava de África chegou a oficiar para Londres que, fosse o império português ‘multirracial’ ou não, não conhecia por lá um único empresário africano.
Os caminhos cruzaram-se várias vezes – e, a cada uma, ficaram mais distantes. O caso de Goa era infinitamente mais simples para o governo de Lisboa do que o problema da Índia para o governo de Londres. O livro retrata abundantemente as dificuldades em manter o espírito da Aliança com tamanha divergência de resultados. As demonstrações de força da China em Macau – face a não mais do que mil soldados da nossa soberania – também inquietavam os britânicos, pois já nesse tempo a coisa era vista como o exemplo, em moeda pobre, do que podia suceder a Hong Kong. Mas o choque frontal deu-se na questão da guerra. Não é tanto o confronto entre duas opções – a política e a militar – que torna o livro muito útil. É, sobretudo, investigando a memória de outro paralelo – o da Rodésia ‘branca’ com a evolução em Moçambique e Angola – que o livro de Pedro Oliveira é inspirador. Na Rodésia – como ainda hoje se nota – os ingleses estamparam-se a sério. Ora, a mera possibilidade de Portugal, África do Sul e Rodésia ‘concertarem’ defesas, cumplicidades e trincheiras tornava ainda mais angustiante a incapacidade de Londres em lidar com a ‘independência branca’ do seu – ainda – território, sem que isso tivesse péssimas consequências para os seus interesses em todas as frentes: na imagem do Reino Unido no ‘terceiro mundo’, na estabilidade da sua influência em África, e, detalhe nada acessório, no controlo possível do processo sul-africano. Sintomaticamente, as duas diplomacias foram cavando um fosso até à estridente divergência sobre a invasão de Timor – já em pleno processo revolucionário. A tal ponto que muitos se perguntavam se a Aliança ainda existia ou faria sentido.
visão dos ingleses sobre Salazar, o papel de Franco Nogueira, as reformas de Adriano Moreira, as esperanças – e os escombros – da Primavera marcelista, a influência dos missionários na exposição da outra face da ‘política colonial’, o apoio à incipiente ‘oposição democrática’ e a procura de contactos entre Londres e os ‘movimentos de libertação’ – tudo isso é uma história que se lê de forma escorreita e vem escrita de modo competente. Com um reconhecimento honesto: Portugal não era essencial na agenda britânica, excepto quando alguma opção do Estado Novo – ou do PREC – atingia interesses significativos dos governos conservadores ou trabalhistas.
No espaço de um ano, este é o segundo livro relevante sobre a política externa do Estado Novo. O outro é Salazar e o Vaticano (2), de Bruno Cardoso Reis. Li-o quando ainda tinha (mais) tempo livre. Li-o de uma assentada (e não sem surpresas). O tempo histórico é mais largo – simplificando, vai do 28 de Maio até à visita de Paulo VI a Fátima. A margem de fricção é interessantíssima: da negociação da Concordata até ao caso do bispo do Porto; da solidez do apoio ao regime ao desligamento do catolicismo ‘não colonial’; do momento em que os bispos foram mais lúcidos do que Salazar – o momento chama-se Goa – até ao sentimento de abandono que o regime sentiu no Vaticano na década de sessenta e ao modo como reagiu; do enquadramento orgânico dos católicos num regime sem partidos e antipartidos até ao nascimento do ‘catolicismo progressista’.
Recordo três lições desse livro invulgar. Uma é que a política externa de Salazar foi mais católica do que clerical. Outra é que, contrariamente à versão comum e diferentemente do caso espanhol, foi mais o Estado a influenciar a Igreja e menos a Igreja a influenciar o Estado. Por fim, a evidência de que uma coisa é a ruptura de Salazar com o anticlericalismo que vinha das essências da República, e outra, verificável nos arquivos da diplomacia, é a peculiar noção de Estado mantida por Salazar, se necessário apesar do Vaticano enquanto sujeito de relações internacionais.
Não conheço pessoalmente Pedro Oliveira nem Bruno Cardoso Reis. Mas devo-lhes boas horas de leitura e um pedaço mais de conhecimento sobre o século XX português. Um blogue conhecido definia o primeiro como «conservador de esquerda» e o segundo como «liberal de esquerda». Talvez. Eu, como é público e notório, não sou de esquerda e tenho uma costela conservadora e outra liberal. Detesto o preconceito ideológico exactamente porque gosto de História. Sendo a historiografia portuguesa sobre o Estado Novo bastante obscura, dá gosto ler pessoas inteligentes e investigação bem feita. É o caso.
(1) Os despojos da Aliança, de Pedro Aires Oliveira, Tinta da China.
(2) Salazar e o Vaticano, de Bruno Cardoso Reis, ICS.