A (in)justiça segundo Jodie
Não é um filme de acção. É uma fotografia de alma a coberto de um argumento policial. Não é um filme de efeitos especiais, o mais fácil no género ‘violência urbana’. É um filme de itinerário pessoal, uma espécie de peregrinação interior da legítima defesa e depois da vingança, arrasadora de quaisquer endereços – e limites – do bem e do mal. Não é exactamente um thriller: o princípio e o fim são previsíveis. E não chega a ser um romance, embora subtilmente pareça. Difícil de catalogar, A Estranha em Mim – interpretar os filmes nos títulos dá nestes disparates – é seguramente um filme de actriz. Jodie Foster rende tudo e mais alguma coisa neste filme cheio de dores e quase sem lágrimas. Um filme à medida de Jodie – seco, duro, profundo, imediato, lógico e directo.
Jodie Foster não faz um papel, faz um papelão. Na minha tabela, só é comparável ao que desempenhou no Silêncio dos Inocentes – com a diferença de que, neste caso, carrega sozinha o destino da fita. Jodie é A Estranha em Mim propriamente dita. Constrói duas personagens numa só. Erica Bain antes de ser vítima de gang e Erica Bain depois disso – «alguém que anda a fazer de Deus nesta cidade». Colocando a questão no plano filosófico, Jodie Foster encarna a subjectivação do que resta do Estado de Direito quando é incompetente e fracassa. Passo a passo, torna-se ícone de uma justiça errada: a das próprias mãos. Acumula, compulsivamente, mortos e feridos na mira da sua 9 milímetros ilegal. Cada alvo é um criminoso perdido nos arquivos da polícia. Cada tiro é um plano de poupança nos direitos, liberdades e garantias. Jodie acaba por se transformar numa ‘homicida de homicidas’ ou numa ‘assassina em série’ de uma série de assassinos. Neste percurso vertiginoso, há uma nota honrosa: ela não é impressionável pelo apoio da multidão. Cumpre escrupulosamente o seu plano de vingança, com o requinte de dar suficientes ‘dicas’ à polícia para que a polícia não duvide de quem ela realmente é.
No princípio, A Estranha em Mim é inocentemente familiar. Jodie tem um namorado e amam-se visivelmente. Vão passear – o cão – à noite. Estão num parque em Nova Iorque. Enquanto namoram, o cão perde-se num túnel. Vão procurá-lo mas no fim do túnel não está luz – está a morte. Um gang de miúdos – e graúdos – manifestamente idiotizados, grosseiros e violentos começa por provocá-los e roubá-los. Pequena criminalidade com consequências grandes. Bestialidade atrai bestialidade: Erica fica desfeita e o namorado é morto à pancada. Comecemos por ‘despoluir’ ideologicamente o evento: estes crimes existem, esta barbaridade neo-urbana acontece, estes gangs ‘estilizados’ – com t-shirt de contrafacção, iPod obrigatório e tacos de arremesso – povoam com a sua indolência perigosa demasiadas esquinas da vida.
Perante um crime, a pergunta da esquerda costuma ser esta: o que é que a sociedade fez ao bandido? A pergunta de direita – e, curiosamente, a do filme – é outra: o que é que o bandido faz à sociedade? As perguntas têm consequências e cada uma leva a um sítio. Os que investem na ‘culpa social’ acabam inevitavelmente a pedir mais compreensão, começando por ‘compreender’ o delinquente – não chegando ao ponto de o absolver, mas desculpando-o. É a insustentável – e interminável – genealogia da culpa. Enquanto estas almas ferem, matam e esfolam, convocam-se juristas, psicanalistas e sociólogos e fazem-se doutoramentos políticos em falhanços do pai, da mãe, do professor, da escola, da inserção e da reinserção, do Estado social e do que mais houver. Mas como a velocidade da imitação do mal é bastante superior à possibilidade de promover legalmente o bem, esta criminalidade não pára de subir. O fenómeno só é contrariável com economia de sentimentalismo: reprimir adequadamente o crime não é uma volúpia castigadora, é apenas a única forma de reparar – parcialmente – as vítimas e prevenir – possivelmente – uma escalada. Se o Estado falha no seu monopólio da coacção, o que sucede é a privatização da violência. Entre os dois extremos – o Estado demissionário e a ‘milicialização’ da ordem – venha o Diabo e escolha. Veio Giuliani e provou que um ‘securitário’ faz melhor.
Neil Jordan está longe de ser um conservador – mas neste filme demonstra por que é que as coisas são como são. Jodie, aliás Erica, tenta ir à polícia. Debalde: «Sei que isto deve ser difícil para si mas sente-se ali e um agente há-de vir falar consigo», é o que lhe dizem e ela descobrirá que dizem a todos. Quando comete o primeiro crime, Jodie, aliás Erica, quase pede à lei que a salve: «Por que é que não há ninguém que me detenha?». Mais tarde, numa cena incrível – a entrevista que faz ao polícia – Jodie, aliás Erica, pergunta-lhe por que é que não «apanha» os assassinos do namorado. «Porque eu sigo a lei», responde-lhe. Jodie, aliás Erica, não tem retorno: «Alguém está a fazer o seu trabalho», é o recado que, via rádio, manda ao agente. Fará o tal trabalho sem querer escapar. Na cena em que o agente lhe diz que já sabe que havia «uma mulher ressentida» no local doutro crime, ela dispara sem hesitar: «Somos muitas por aí». Erica sabe que aquela vida não é a sua; aprendeu que vida de vítima não é recuperável. «Há muitas maneiras de morrer, a questão está em descobrir uma maneira de viver», comentará uma vizinha que pressente que a ravina mora ao lado.
Das ravinas que são vidas e das dores que são carismas, Neil Jordan sabe tratar. Basta lembrar: The Crying Game, Breakfast on Pluto ou Michael Collins. O seu carácter de irlandês enxuto fê-lo perceber que A Estranha em Mim não precisava de nenhuma ostentação formal. Talvez por isso, o som é o tom do filme. A música que acompanha Jodie Foster é simplesmente excelente. E faz sentido: Erica não é um rosto mas uma voz; e a interpretação de Jodie é como um fio de raiva num mundo de surdos.