SOL

O Rei e o caudilho

Não foi há muitos anos. Fidel Castro passou pelo Porto e fez gato sapato do protocolo e da conveniência, do horário e do microfone, da paciência dos outros e do relógio do dr. Sampaio. O nosso Presidente e os colegas aguentaram estoicamente uma saga fidelista: horas infindas de arenga cubana. Melhor ou pior, os Chefes de Estado, nestas cimeiras previsíveis, respeitam uma regra de duplo sentido (comum): não falar demais. Nem no tempo nem na deselegância. Fidel, obviamente, acha-se inimitável. Chávez, que se crê uma imitação de Fidel, ia a caminho da inimputabilidade.

Quando o mais que afável, paciente, moderado e democrata Rei de Espanha lançou o «por qué no te callas?» é impossível não ter sentido uma considerável admiração. Por ele e por Espanha. Por ele, na estrita medida em que ‘desconstruiu’, em cinco palavritas, a imperturbável carreira de Chávez: o Presidente da Venezuela faz de provocador comicieiro nas reuniões de Estado e gosta de representar exactamente um papel oposto – o de caudilho revestido das jactâncias do poder – nas ‘cimeiras alternativas’. Junto dos outros Presidentes, Chávez fala como ‘revolucionário’. Perto do povo – e das suas milícias – comporta-se como ‘poderoso’.

A admiração não é apenas borbónica; se há uma qualidade que os espanhóis têm – e as palavras do Rei mostram – é uma radical defesa do conceito de Espanha a partir do primeiro pedaço de terra que não lhes pertence. Internamente, dividem-se em castelhanos, catalães, bascos, galegos, andaluzes e algumas paróquias mais. Dividem-se e disputam incessantemente uma unidade dificílima. Mas, face ao exterior, têm um jeito de grandeza, um sentido de potência e uma medida das respectivas dignidades que chegam e sobram para proteger o conceito de Espanha de qualquer saldo. É por isso que a Espanha moderna quase parece um milagre óptico. A sua fragilidade nacional é inversamente proporcional à projecção internacional. E até mais: porque a Espanha existe no mundo, a Espanha não pode deixar de existir na Península. O Rei foi o mensageiro inesperado desta integridade (que é também uma táctica de sobrevivência).

A forma como uma certa esquerda – na Europa e sobretudo cá – lida com os seus ícones sul-americanos é desajeitada, para não dizer desastrosa. Para alguns marxistas tristes, a América do Sul é uma espécie de ilha de utopia. Conformados com as inevitabilidades da democracia ‘ocidental’ – cujas oportunidades, aliás, aproveitam bem; perdidas as esperanças em África, onde a conversão dos guerrilheiros em capitalistas desafia as leis da velocidade; e envergonhados com o caso da China, onde estão os pobres que, pela enésima vez, serão cobaias do experimentalismo – e excursionismo – deste socialismo com pretensão científica? Pois estão na América pobre, estiolada por juntas oligárquicas, nacionalismos primários, peronismos perdidos e corrupções endémicas, factos a que acresce uma proverbial dificuldade do Estado em manter o monopólio da coacção. Só que esta opção – produzir o socialismo do século XXI a partir de um caldo misturado de teologia da libertação e teologia do Estado, municiada com petrodólares – tem os seus problemas.

O primeiro é uma considerável fraude na iconografia. Há uma esquerda europeia que acreditou no sindicalismo de Perón, ignorando que era filo-nazi. O padrão ‘mexicano’ foi outro encanto. Mas o regime de Partido quase único – o PRI – em nada se distinguiu, a não ser na eternidade que durou, de qualquer oligarquia de Estado. Mais espantoso é o mito Guevara. Che transformou-se num produto globalizado, diria mesmo dolcegabbanizado, e é uma espécie de ‘santo laico’ do século XX. Só há um óbice: no curto período em que mandou, Che revelou--se um leninista sem concessões, com lições tchekistas bem aprendidas. O próprio relato de Fidel ignora que o ditador não conquistou o poder enquanto comunista; mas exerceu-o como nenhum outro comunista ou ditador. Ainda hoje, Fidel beneficia de uma indulgência que pasma. Já Salvador Allende, por morrer mártir, foi absolvido de responsabilidades. E tinha muitas: o Chile era um dos poucos países com tradição democrática na região e ficou privado de liberdades enquanto os chilenos se lembraram do caos. Também houve a epopeia do sandinismo. Empalideceu, desde que os sandinistas expropriaram, em proveito pessoal, as casas, os carros e as contas bancárias dos seus adversários. E não faltam duplicidades injustas. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, converteu o Brasil à racionalidade e à estabilidade. Uma pessoa de esquerda – acho eu – devia estar-lhe agradecida. Nem por isso. O romantismo empurra para Lula, sendo que Lula, num ápice, larga o lastro. Entre despojos e desilusões, surgiu Hugo Chávez. Do coronel golpista dos anos noventa ao Presidente que quer ser vitalício, é um ditador anunciado e só não vê quem não quer.

Por que é que uma certa esquerda é condescendente com um regime – o chavista – que prende opositores, fecha televisões, obriga os militares a jurar pelo socialismo, fornece kits marxistas a qualquer criança que vá à escola e apaga, passo a passo, os últimos vestígios do Estado de Direito? O móbil destas cumplicidades é o anti-americanismo. Assim como há, no Ocidente, intelectuais de esquerda que ‘justificam’ os talibãs – e o terrorismo – porque preferem qualquer inimigo da América à América, também há quem ‘explique’ Chávez pelo simples facto de Chávez ser ‘contra o império’. A infantilização da questão imperial não é nova. A leitura marxista da história sul-americana é exclusivamente vitimista. Há sempre uma hegemonia imperial; contra ela, venha a revolução permanente. O império é o eterno inimigo: sejam os castelhanos sejam os ianques, no século XVI ou no século XXI, tanto dá. É propaganda da mais barata que há.
Volto ao Rei. Chávez não se calou mas ouviu – e merecia.

Publicação: sábado, 17 de Novembro de 2007 8:00 por PPortas

Comentários

segunda-feira, 19 de Novembro de 2007 12:43 by PauloPedroso

# Porque no se callan?

Muito gosta uma certa Esquerda sinistra de apodar de fascista todos quantos se situam à Direita da Social-democracia. Tornou-se um hábito, para gente arrogante, hipócrita e vesga, insultar gente da Direita democrática, acusando-os de serem fascistas, extremistas, nazistas, radicais. A Esquerda mais sinistra da praça mundial adora o uso desse tipo de insulto, resguardando-se atrás de mecanismos de controlo da violência simbólica, exercendo uma pressão contínua sobre os discursos intelectualmente aceitáveis ou não. Desde o final da II Guerra Mundial, que tem sido apanágio de uma certa classe intelectual de Esquerda o ser capaz de assegurar a produção e, acima de tudo, garantir a reprodução de um discurso que execra o fascismo, e tudo quanto ele significa ou significou, enquanto elide, desconsidera, omite, suprime, esquece, despreza ou, pior, aceita, defende e advoga as atrocidades cometidas pelo comunismo. Durante décadas imperou na Europa um pensamento politicamente correcto, do qual ainda não nos livrámos, que se caracteriza pela maior das hipocrisias: execra o fascismo, por um lado, mas defende o comunismo.

O fascismo foi, sem dúvida alguma, um dos piores episódios da História recente da Humanidade. Nada há de aceitável ou de defensável nos valores, nos princípios e nas práticas do fascismo. No entanto, a Esquerda sinistra, que tanto o critica, não o faz apenas por aquilo que ele significou ou significa no plano axiológico. Quando a Esquerda sinistra em geral, e os comunistas em particular, acusam alguém de ser fascista, ou de ser conivente com o fascismo, pretendem atingir adversários, acusando-os de defender, não só os mesmos valores e princípios, mas também de fazer a apologia das práticas dos regimes fascistas.

Todos nós criticamos as duas faces do fascismo: quer ao nível do seu significado simbólico e axiológico, quer ao nível das suas práticas e dos seus comportamentos. Mas há que dizer a uma certa Esquerda sinistra que não lhe fica nada bem apontar o dedo quando não se tem moral para abrir a boca. É que, com a mania de insultar os seus adversários da Direita democrática, classificando-os de fascistas, correm o risco (maior do que pensam) de incorrer no mesmo erro primário do Pedrinho, que passava a vida a assustar o povo, quando gritava que vinha lá o lobo, quando ele não vinha, e depois aconteceu uma tragédia quando o lobo (se) veio mesmo e ninguém acreditou. Com tanta mania de apodar de fascista tudo e todos, correm o risco de se perder ou de se desvalorizar o significado correcto do fascismo. Qualquer dia, até a Social Democracia é sinónimo de fascismo, para os comunistas.

E, falando de Comunismo, convém recordar a quem tanto abre a boca para classificar adversários políticos de serem fascistas, ou coniventes com ele, que o Comunismo representou, na História recente da Humanidade, um episódio bastante mais trágico do que o do Fascismo.

Se o fascismo é criticável por ter sido responsável pela morte de milhões de seres humanos, o comunismo não só não lhe fica atrás, como foi capaz de fazer muito mais e muito pior: só o consulado estalinista, por si só, ceifou a vida a mais de 20 milhões de pessoas; o regime chinês de Mao Tse Tung foi responsável pela morte de outros tantos milhões de seres humanos; Pol Pot e o seu regime sanguinário encarregaram-se de exterminar cerca de 1/3 do seu próprio povo; os países satélite da URSS foram responsáveis pela perseguição política, prisão, tortura e morte de vários milhões de pessoas; ainda hoje, os regimes da Coreia do Norte, da China e de Cuba, são exemplo claro de regimes políticos totalitários, torcionários, persecutórios e arbitrários, onde não existem coisas tão simples como liberdade de imprensa, direitos civis, direitos de associação política, direito de manifestação?

O fascismo foi e é uma coisa horrível. Mas, sempre que um comunista abrir a boca para insultar alguém da Direita democrática, acusando-o de ser fascista, devemos ter a coragem de lhe lembrar que o comunismo foi, e é, tão mau ou pior que o fascismo. Até porque, no mundo actual, não há nada que se aproxime tanto ao fascismo quanto o comunismo: não nos valores, mas sim nas práticas.

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007 1:59 by ladoposto

# re: O Rei e o caudilho

Olha que o eu estado de direito;tambem é muito engracado?

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007 2:01 by ladoposto

# re: O Rei e o caudilho

Do teu!

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007 8:23 by reifazdeconta

# re: O Rei e o caudilho

Para mudar Portugal precisamos de uma monarquia e de um rei a sério ler e divulgar www.reifazdeconta.com

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007 7:38 by chicoesperto

# re: O Rei e o caudilho

Ó sr. reifazdeconta, você não tem mais nada que fazer do que apregoar coisas que leu em teorias da conspiração?

Novamente lhe peço, não seja ingénuo, vá!!!

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007 12:02 by oterrorista

# re: O Rei e o caudilho

isto escrito por quem andou a apertar a mão ao ditador que governa a Tunísia...

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007 19:50 by AzeitonaAlbina

# re: O Rei e o caudilho

Há coisas maravilhosas, quase parecem milagres. Não, não estou a falar da medalhita que o Donald lhe ofereceu, nem estou a falar das "pequenas" travessuras do Winston ou da "desconsideração" que fizeram à santinha defunta.

Mas entre esse seu "Rei e caudilho" não encontrou uma alínea para os silêncios da cruz?

Agora, Sr. Portas, que lhe está a estalar o verniz, isso é, incontornavelmente, patente. Mas laudatórios ao nacionalismo franquista? Não lhe chega Salazar?

sábado, 24 de Novembro de 2007 2:30 by rammoss

# re: O Rei e o caudilho

Na substância estou de acordo consigo ficando desde já admirado positivamente pela sua argumentação.

No entanto, falta explicar o fenómeno Chavez com maior frieza e objectividade sociológica. Ou seja, é importante saber que foi eleito e reeleito pelo povo venezuelano. É fundamental não esquecer os sucessivos governos prévios onde vigorou a corrupção, o caciquismo e a passividade face aos monopólios do petróleo. Dá-me a entender que é muito perigosa a facilidade com que a inteligentia ocidental detecta e revela a boçalidade do sr. hugo. Há certamente um diálogo a fazer com a história dos últimos 40 anos da Venezuela e porque não da América Latina em geral, destacando-se os casos paradigmáticos da Argentina, do Perú, do México e da Bolívia.

Há finalmente outras verdades acerca da postura pouco honesta de JM Aznar face a alguns casos de corrupção que envolveu interesses monopolistas e colonialista espanhóis na América Latina comtemporânea.

Boa Noite,

r.r.

terça-feira, 27 de Novembro de 2007 18:59 by reifazdeconta

# re: O Rei e o caudilho

Mais uma grande Bronca SAR. D. Rosário duque de Bragança processa MNE e desafia Duarte Pio a um confronto a não perder em:

http://www.2shared.com/file/2542665/918efe4d/A_verdade.html

http://www.reifazdeconta.com

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007 18:56 by JorgeMRC

# re: O Rei e o caudilho

Pois... pois.. Dr. Paulo Portas. Para um homem da sua inteligência é estranho que se esqueça  que aquele «caudilho» foi eleito várias vezes pelo povo venzuelano. Em eleições consideradas livres e justas por várias individualidades e instituições internacionais. Para um politico da sua envergadura é estranho que não se refira a quem deve este rei o seu trono. Este senhor é rei por decisão de um  verdadeiro caudilho. O General Franco, como sabe, esmagou a democrática República Espanhola, sofragada nas urnas, com apoio de outros caudilhos nomedamente Hitler e Moussulin. Não esqueça também os bombardeamentos de Gernica... Em politica não devemos esquecer a História. Por fim, acho um disparate chamar fascista  ao seu amigo do PP espanhol, mas não podemos esquecer que ele esteve implicado na tentativa de golpe de estado, em 2002, na Venezuela. É natural que Chavez manifeste o seu descontentamento. Não acha?

sexta-feira, 30 de Novembro de 2007 23:58 by sergiosse

# re: os complexos e a direita

Portas tem definitivamente um complexo de inferioridade em ser de direita. Sempre a tentar mostrar que a esquerda também tem/teve ditadores tanto ou piores que os da direita.

Quando foi da morte de pinochet apareceu a público com um discurso patético semelhante.

A seu tempo se fará história. Não precisa de vir para aqui escrever posts completamente BANAIS só para tentar mostrar que a direita não é tão má como parece.

O que faz as pessoas afastar-se da direita não é o facto de os seus ditadores terem morto mais ou menos pessoas que os ditadores de esquerda.

O problema reside mesmo nos seus líderes. E é por ter ter líderes como estes que a direita portuguesa está nas ruas da amargura.

A direita portuguesa padece de um enorme défice de renovação e esse é o problema.

Quer queiram quer não queiram o PS, a julgar pelas sondagens publicadas hoje, está de novo na maioria absoluta; o psd a descer e o cds com pouco mais de 4 por cento (sendo que nas ultimas atingiu mais de 7).

Triste fim em 2009 para paulo portas e inevitavelmente para santana lopes que irá a reboque de menezes.

domingo, 2 de Dezembro de 2007 17:13 by AzeitonaAlbina

# Xerocópia

Estava preparado para fazer umas piadas com "Ano louco em Wollyhood", "Vêm aí os Russos", "On the Beach" ou o perdilecto do Sr.º Portas, "Rumo a Tóquio", mas o melhor mesmo é "Das Boot" no traseiro do tratante!

segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007 19:24 by joaocarreira

# re: O Rei e o caudilho

Votos de um Feliz Natal e de um Próspero Ano Novo de 2008.

Mesmo que sejamos na política e nos valores completamente opostos, gostaria no entanto manifestar-lhe a natural admiração por defender tudo o que defende por mais que eu discorde em muitos aspectos e concorde nalguns.

Continuarei, obrigatoriamente e com satisfação, um leitor assíduo.

Não só pela discordância dos pontos de vista, mas sobretudo pelo muito que aprendo com as suas palavras e ideias. Muito Obrigado pela sua generosa partilha.

Com elevada estima e consideração por V.Ex.a,

João Carreira

quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007 12:23 by pruijesus

# re: O Rei e o caudilho

Prezado Paulo

A argumentação é boa, mas não foi feita a contextualização completa; para se perceber a causa da formação de caudilhos ditatoriais no hemisfério sul, enquadra-se tb a questão de compreender o que se passa no hemisfério norte. Remeto para estes dois pequenos textos, ainda que obviamente endereçados para outro contexto, mas que é possível uma religação.

Desejo-lhe boas entradas para 2008, pela simpatia pessoal que tenho relativamente ao seu perfil (sem cargas ideológicas e exaltando a minha independência quanto à falácia das mesmas), e esperando que continue a escrever dada a qualidade que têm as suas crónicas.

Falsidades e Tensões na Geopolítica Mundial do Séc. XXI

Ao assumir que a operação militar no Iraque baseou-se em informações falsas, Durão Barroso demonstrou finalmente as fragilidades de legitimação, do acto ofensivo militar ao Iraque, de gravosa ingerência na soberania de um país, como também da indecorosa morte por execução em enforcamento de Saddam Hussein, antigo presidente iraquiano. Mais vergonhoso, ainda, após o erro assumido numa suposta ?candura de alma? penitenciada para expiação ou remissão de pecado, na recente entrevista dada a um jornal público nacional, foi mencionar que Portugal nada tem a lamentar pelo facto de ter participado na Cimeira dos Açores e de ter apoiado a solicitação dos aliados, os EUA e a nossa vizinha Espanha. Aos dirigentes políticos mundiais, com o estatuto de Durão Barroso, deveriam exigir verticalidade e credibilidade dos actos praticados e, sobretudo, a quem pedir responsabilidades pelas falsas informações e pelos posteriores erros geopolíticos sucedâneos. Perante a denúncia tardia, mesmo muito tardia, a ilação a extrair é que Durão Barroso foi também um dos responsáveis pela tragédia actual do Iraque.

Actualmente, a geopolítica mundial vive em constante tensão. Uma tensão muito perigosa e que poderá trazer graves consequências à postura política da União Europeia. Há indícios de uma possível ofensiva militar contra o Irão, através do mesmo mentor (EUA) que promoveu a ofensiva militar ao Iraque. Questione-se, então: os dados ?verdadeiros? sobre a questão nuclear do Irão assentam nas mesmas fontes que as do Iraque? Poderá a opinião pública, em face da gravidade das falsas informações do passado, ter confiança nas informações do presente relativamente ao Irão?

Infelizmente, o mundo actual vive sob um novo prisma de imperialismo colectivo (comandado pela cultura anglosaxónica, Inglaterra e EUA, e sob pressão da conjectura ortodoxa judaica da política de Israel), que têm como objectivo o controle total do Médio Oriente e os seus recursos energéticos, a que se junta agora o novo aliado francês, o neoliberal Nicolas Sarkozy. O problema está de facto na ideologia neoliberal que se expandiu rapidamente em sectores políticos importantes da estrutura geopolítica mundial. Se repararmos no novo Tratado de Lisboa, com os argumentos de mera simplificação e desnecessário referendo, verifica-se que a sua construção ideológica é nitidamente neoconservadora, tal como são as principais figuras políticas que assumem verdadeiramente o poder na União Europeia - confrontando os currículos pessoais dos principais dirigentes políticos da União Europeia, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e das agências que lhes estão inerentes, rapidamente, salvo uma ou outra excepção, chegamos a esta conclusão. Ou seja, estamos perante uma posição de força de domínio ideológico unipolar do mundo.

Neste aspecto, razão tem o embaixador do Irão na entrevista concedida à jornalista da RTP, Márcia Rodrigues. O embaixador iraniano alertou, precisamente, para esta unipolaridade política comandada pelos EUA que assola a geopolítica mundial e considera-a gravosa uma vez que ela é imposta pela força aos países que não a aceitam. Segundo ele, o mundo deverá ser multipolar e respeitador dos direitos, tradições e costumes das soberanias e identidades nacionais. Assim, pensa que é vital o papel que a União Europeia deverá ter perante este dilema contemporâneo, considerando-a uma terceira via para que a geopolítica mundial retome os equilíbrios do bem-estar e a pacificação entre os povos, tenha respeito pela multiporalidade e a incentive, relevando, até, a importância que a participação da actual presidência portuguesa poderá ter na resolução dos vários focos de conflitos internacionais em estado latente.

Do que se depreende da entrevista do embaixador do Irão, a solução está na réstia de esperança de uma possível e airosa via de conduta política, independente e credível, da União Europeia em relação ao futuro da conjuntura mundial. Se não for desta forma, vaticina o embaixador iraniano, o séc. XXI será o tempo histórico de uma arquitectura perpetual de guerra com inevitáveis consequências para as populações civis.

A Outra Face da Geopolítica Mundial do Séc. XXI

Comunicámos, em passada crónica, notas da tensão conflituosa da geopolítica mundial, devido à pressão hegemónica da ideologia judaico-cristã puritana, que se expande parasitária no objectivo de controlar os recursos naturais energéticos indispensáveis à sobrevivência da sua sociedade. O neoliberalismo é a sua crença.

Mas não é menos preocupante a potencialidade que algo de mau poderá ocorrer também no hemisfério Sul, designadamente, na América Latina. Problemática convulsão social de esquerda, não se discernindo com clareza que tipo de mobilidade ideológica poderá estar a desenvolver-se. Há uma falácia no ?novo? socialismo do séc. XXI, a partir do momento em que se sente o odor de caudilho ditador; sim, visto que os caudilhos ditatoriais tanto podem ser de direita como de esquerda. A partir do momento em que se permite uma alteração prepotente aos desígnios propostos da soberania de cidadania (esta uma possível via para o verdadeiro socialismo), percebe-se o rastilho negativo no que podem derivar estas novas governações latino-americanas.

Obviamente que se entende o incrustar de alguns destes Estados, delegando poder ao aparelho militar sob o compromisso de fidelidade, pelas pressupostas tentativas de golpes de estado com que foram avassalados em manifesta ingerência soberana por alguns Estados europeus, mas não se justifica o excesso de poder com que têm vindo a impor a sua soberania; um excesso que cega na deriva de um poder que fascina (incipiente formação cultural e política dos seus agentes e actores). De uma soberania de cidadania, que daria alimento à qualidade da democracia, passou-se para uma encruzilhada na legitimação de um poder total, tendo em vista persuadir qualquer oposição na conquista da governação pela força.

A América Latina tem alguns Estados neste lime. Não chega motivar as classes sociais mais baixas com os novos programas sociais das ?misiones? (www.misionesbolivarianas.gob.ve/), dedicados à educação e à saúde pública, ou à demagogia de uma nova redistribuição da riqueza estatal, tanto mais não suportados por um desenvolvimento sustentável, mas sim dependentes de variações momentâneas das acções da bolsa de valores dos recursos naturais energéticos. Sobretudo, para o exterior, a imagem que transparece das legitimações destas soberanias, são governações que vivem permanentemente sobre o ciclo da ostensão, excedendo os seus próprios limites de poder no controle de vários sectores da sociedade, inclusive um dos mais delicados como é o caso da comunicação social. Neste contexto geopolítico mundial, sem dúvida que também se torna perigosa e sobre tensão esta actual América Latina. O rasto das ditaduras está outra vez visível, possível de se activar a qualquer momento e com uma reprodutibilidade e mobilidade enormes em extensão geográfica.

Entre a hegemonia neoliberal do hemisfério Norte, com pérfida subtileza imperialista oculta no que arrogam os seus discursos políticos relativamente ao direitos humanos e aos valores de liberdade, e a potência na formação do caudilho ditador socialista em grande escala a Sul, o futuro da qualidade da democracia é decadente e não tem possibilidade de se rejuvenescer perante esta geopolítica mundial actual, cuja perigosidade é de virulência violenta e paira no ar a todo o momento.

Alternativas Carvalho de Jesus

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008 16:34 by gossip

# re: O Rei e o caudilho

O Chavez faz imenso lembrar-me o Alberto J. Jardim - analogias discursivas.

Mas enquanto o primeiro desgoverna mascando coca, o segundo governa deixando obra feita, custe o que custar pois alguém há-de pagar.

quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008 6:50 by AzeitonaAlbina

# re: O Rei e o caudilho

No entretanto, o texto do Sr. Paulo Portas eternizasse qual caudilho...

domingo, 17 de Fevereiro de 2008 5:05 by mbeatriz

# re: O Rei e o caudilho

Já que fala na América Latina, não perca este vídeo sobre o escândalo que rebentou no Brasil recentemente.

A esquerda, só nos faz rir:

http://www.youtube.com/watch?v=kRiRKKO8HvU

quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008 14:14 by cardoso06

# re: O Rei e o caudilho

terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008 23:25 by Zorate

# re: O Rei e o caudilho

Senhor Portas,

Então V.Exª. acha-se no direito de dizer que o Ministro da Agricultura pratica uma ?política de calote?, e o sr. Ministro não tem o direito de falar nos seus ?calotes políticos??

Para este seu caso, nada melhor que a sabedoria popular: ?Quem não tem cu, não se mete a paneleiro?

Percebeu?

Cumprimentos

domingo, 16 de Março de 2008 1:07 by RaioX

# re: O Rei e o caudilho

Alguém que me explique porque é que o Governo recebe como um herói, um ditador como o Fidel ou o Chavez, mas que se recusa receber o Dalai Lama.

Obrigado e um abraço,

RX

sábado, 12 de Abril de 2008 16:24 by mariahenriques

# re: O Rei e o caudilho

Em relaçao ao Fidel , nao achei mal que fosse tratado com consideraçao e respeito pelo Governo Portugues.Tratava-se de um Chefe de Estado portanto se por ca andava, honras lhe eram devidas.Alias uma das coisas que eu aprecio na nossa cultura e a boa educaçao.

O governo mostrou ser bem educado.

Quanto a Espanha e ao rei.Pois .

Eu nao sou nem quero ser espanhola e nem tenho particular admiraçao por seu rei.

Nao e por ca ter vivido que me sera mais simpatico do que outro turista residente mais ou menos famoso.Simpatia por ter mandado calar o Chavez? Porque?

Para conquistar o verdadeiro respeito e preciso mais do que isso.

sexta-feira, 4 de Julho de 2008 8:12 by STOP

# re: O Rei e o caudilho

Precisamos urgentemente de alguém que sem lirismo nem vaidades parolas ARREGACE AS MANGAS, fale A VERDADE, seja RESPONSÁVEL e RESPONSABILIZE, e que ponha TODOS a TRABALHAR com ENTUSIASMO e o mesmo sentido de RESPONSABILIDADE. Se necessário, que chame primeiro as pessoas à rua, a porta está aberta.

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