O Rei e o caudilho
Não foi há muitos anos. Fidel Castro passou pelo Porto e fez gato sapato do protocolo e da conveniência, do horário e do microfone, da paciência dos outros e do relógio do dr. Sampaio. O nosso Presidente e os colegas aguentaram estoicamente uma saga fidelista: horas infindas de arenga cubana. Melhor ou pior, os Chefes de Estado, nestas cimeiras previsíveis, respeitam uma regra de duplo sentido (comum): não falar demais. Nem no tempo nem na deselegância. Fidel, obviamente, acha-se inimitável. Chávez, que se crê uma imitação de Fidel, ia a caminho da inimputabilidade.
Quando o mais que afável, paciente, moderado e democrata Rei de Espanha lançou o «por qué no te callas?» é impossível não ter sentido uma considerável admiração. Por ele e por Espanha. Por ele, na estrita medida em que ‘desconstruiu’, em cinco palavritas, a imperturbável carreira de Chávez: o Presidente da Venezuela faz de provocador comicieiro nas reuniões de Estado e gosta de representar exactamente um papel oposto – o de caudilho revestido das jactâncias do poder – nas ‘cimeiras alternativas’. Junto dos outros Presidentes, Chávez fala como ‘revolucionário’. Perto do povo – e das suas milícias – comporta-se como ‘poderoso’.
A admiração não é apenas borbónica; se há uma qualidade que os espanhóis têm – e as palavras do Rei mostram – é uma radical defesa do conceito de Espanha a partir do primeiro pedaço de terra que não lhes pertence. Internamente, dividem-se em castelhanos, catalães, bascos, galegos, andaluzes e algumas paróquias mais. Dividem-se e disputam incessantemente uma unidade dificílima. Mas, face ao exterior, têm um jeito de grandeza, um sentido de potência e uma medida das respectivas dignidades que chegam e sobram para proteger o conceito de Espanha de qualquer saldo. É por isso que a Espanha moderna quase parece um milagre óptico. A sua fragilidade nacional é inversamente proporcional à projecção internacional. E até mais: porque a Espanha existe no mundo, a Espanha não pode deixar de existir na Península. O Rei foi o mensageiro inesperado desta integridade (que é também uma táctica de sobrevivência).
A forma como uma certa esquerda – na Europa e sobretudo cá – lida com os seus ícones sul-americanos é desajeitada, para não dizer desastrosa. Para alguns marxistas tristes, a América do Sul é uma espécie de ilha de utopia. Conformados com as inevitabilidades da democracia ‘ocidental’ – cujas oportunidades, aliás, aproveitam bem; perdidas as esperanças em África, onde a conversão dos guerrilheiros em capitalistas desafia as leis da velocidade; e envergonhados com o caso da China, onde estão os pobres que, pela enésima vez, serão cobaias do experimentalismo – e excursionismo – deste socialismo com pretensão científica? Pois estão na América pobre, estiolada por juntas oligárquicas, nacionalismos primários, peronismos perdidos e corrupções endémicas, factos a que acresce uma proverbial dificuldade do Estado em manter o monopólio da coacção. Só que esta opção – produzir o socialismo do século XXI a partir de um caldo misturado de teologia da libertação e teologia do Estado, municiada com petrodólares – tem os seus problemas.
O primeiro é uma considerável fraude na iconografia. Há uma esquerda europeia que acreditou no sindicalismo de Perón, ignorando que era filo-nazi. O padrão ‘mexicano’ foi outro encanto. Mas o regime de Partido quase único – o PRI – em nada se distinguiu, a não ser na eternidade que durou, de qualquer oligarquia de Estado. Mais espantoso é o mito Guevara. Che transformou-se num produto globalizado, diria mesmo dolcegabbanizado, e é uma espécie de ‘santo laico’ do século XX. Só há um óbice: no curto período em que mandou, Che revelou--se um leninista sem concessões, com lições tchekistas bem aprendidas. O próprio relato de Fidel ignora que o ditador não conquistou o poder enquanto comunista; mas exerceu-o como nenhum outro comunista ou ditador. Ainda hoje, Fidel beneficia de uma indulgência que pasma. Já Salvador Allende, por morrer mártir, foi absolvido de responsabilidades. E tinha muitas: o Chile era um dos poucos países com tradição democrática na região e ficou privado de liberdades enquanto os chilenos se lembraram do caos. Também houve a epopeia do sandinismo. Empalideceu, desde que os sandinistas expropriaram, em proveito pessoal, as casas, os carros e as contas bancárias dos seus adversários. E não faltam duplicidades injustas. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, converteu o Brasil à racionalidade e à estabilidade. Uma pessoa de esquerda – acho eu – devia estar-lhe agradecida. Nem por isso. O romantismo empurra para Lula, sendo que Lula, num ápice, larga o lastro. Entre despojos e desilusões, surgiu Hugo Chávez. Do coronel golpista dos anos noventa ao Presidente que quer ser vitalício, é um ditador anunciado e só não vê quem não quer.
Por que é que uma certa esquerda é condescendente com um regime – o chavista – que prende opositores, fecha televisões, obriga os militares a jurar pelo socialismo, fornece kits marxistas a qualquer criança que vá à escola e apaga, passo a passo, os últimos vestígios do Estado de Direito? O móbil destas cumplicidades é o anti-americanismo. Assim como há, no Ocidente, intelectuais de esquerda que ‘justificam’ os talibãs – e o terrorismo – porque preferem qualquer inimigo da América à América, também há quem ‘explique’ Chávez pelo simples facto de Chávez ser ‘contra o império’. A infantilização da questão imperial não é nova. A leitura marxista da história sul-americana é exclusivamente vitimista. Há sempre uma hegemonia imperial; contra ela, venha a revolução permanente. O império é o eterno inimigo: sejam os castelhanos sejam os ianques, no século XVI ou no século XXI, tanto dá. É propaganda da mais barata que há.
Volto ao Rei. Chávez não se calou mas ouviu – e merecia.