Vamos aos factos, porque são factos que me impressionaram muito e bem.
Primeiro: o Teatro Maria Matos estava cheio. Citando Dupond, diria mesmo mais. O Teatro Maria Matos estava cheio de público novo – muitos vintes, muitos trintas. Bom sinal.
Segundo: há uma boa razão para a sala encher. Dúvida é uma peça especialmente bem sucedida. Para quem tenha dúvidas, é de certeza uma boa peça. Para quem tenha certezas, é uma boa maneira de conhecer a dúvida.
Terceiro: John Shanley situou a Dúvida algures no Bronx, nos anos 60. E porém, nada – a não ser a questão racial – torna o texto ou o problema datados. De Martin Luther King a Barack Obama, a América deu uma volta coperniciana. Curiosamente, em Dúvida, o centro da história é um miúdo afro que está presente do primeiro minuto ao último – mas que nós não vemos. A cor da pele é, ali, incidental ou contextual. A questão em dúvida, essa, é brutalmente actual. Ou intemporal.
Quarto: o que nesta peça se discute é, tecnicamente, a pedofilia; religiosamente, a tentação; humanamente, a convicção; civicamente, o rumor; eticamente, a suspeição; funcionalmente, a escolha entre um dever de agir, correndo o risco de ser injusto, ou um direito de confiar, correndo o risco de ser pusilânime. Uma amiga minha costuma dizer que os estúpidos conseguem uma economia de problemas que os torna, apesar de tudo, felizes. Nos dilemas desta peça, a inteligência é uma tortura da consciência. Prepare-se para uma inquietante variação de estados de alma. A alma até pode ser uma entidade bipolar. Sobra um pequeno problema – a verdade, quando se cinge aos factos, não é bipolar. Limita-se a ser a verdade. Prepare-se para ter mesmo de escolher, não há forma de contemporizar.
Quinto: Eunice Muñoz transcende-se. Para ser justo, é ela própria melhor do que nunca. Suponho que nem todos terão uma tia freira; eu tive uma – a minha adorada tia Benigna, espanhola e doroteia de boa cepa que dedicou a vida a Cristo e aos índios na América do Sul – e era muito diferente de Aloysius, a Madre Superiora que, na peça, é a personagem de Eunice. E porém, quem não conhece aquelas tias mais velhas que são hirtas e rabugentas, cépticas e férreas, secas e sóbrias, no limite ‘desumanas’ e desagradáveis e, no entanto, às vezes dolorosamente lúcidas e cruelmente intuitivas ? Pois Eunice é esse papel que faz com definitiva competência. Ela constrói a suspeita; mais do que isso, ela torna-se titular de uma certeza. Defende com uma frontalidade que desarma e ataca com uma malícia que choca. Ao espectador resta – quando cai o pano – elaborar sobre a moral dos fins e dos meios, ou deambular sobre a temível frase que caracteriza a atitude da Madre: «Quando combatemos o mal, afastamo-nos de Deus».
Sexto: Diogo Infante deixa-nos mudos de admiração e – num certo momento – petrificados de respeito. No ambiente católico em que fui educado, ouvi muitas vezes discussões (ou premonições) sobre este padre ou aquele, em geral não se dividindo as opiniões por homilias ou sermões, mas pela atitude: uns mais conservadores, outros mais progressistas. A Diogo Infante caiu em sorte interpretar, com marcado respeito pelas formas, o padre ‘aberto’, à época ‘liberal’, certamente pós-conciliar – ou seja, compassivo e compreensivo, tolerante e nada tolo, didáctico e desportista, investidor no perdão e aforrador na penitência, com uma popularidade no rebanho inversamente proporcional à paz que a sua alma (não) ostenta. Não saberemos, nunca, se o padre Flynn – que, em todo o caso, andava de batina e cabeção – perderia a fé na Igreja ou a força no sacerdócio. O que sabemos é que, subitamente, um pássaro nos desperta: il y a la quelque chose qui cloche, como diriam os franceses.
Sétimo: o boato é, em si mesmo, insidioso, invejoso, maledicente, pequenino, sinistro e cobarde (pelo menos). Tem um parentesco próximo com a carta anónima. Vive em união de facto com a delação. Entre o boato e o bufo há uma afinidade electiva. Tudo isso é sabido, tal como a sua irreparável consequência: quando possui força letal pode causar uma dor não tratável. Alguém dizia que ainda a verdade não acordou e já o boato se levantou, tomou banho, vestiu-se e deu a volta ao mundo. Em Dúvida vi e ouvi a mais lúcida metáfora sobre o que é o boato. Digamos que se parece com uma almofada de penas. Se a abrires – falo como o padre no confessionário – as penas espalhar-se-ão; se te arrependeres e quiseres reparar o mal produzido, terás de recolher uma a uma as penas que entretanto o vento levou. Depressa perceberás que não é possível. Concluirás então que o boato é irreparável. E é.
Oitavo: se a questão fosse simples, morria aqui. Só que, nesta peça como tantas vezes na vida, a questão não é apenas a de saber como lidamos com o boato, é saber o que fazemos à verdade. Ou ao pressentimento da verdade.
Nono: se, entre o boato e a verdade, se intrometer o ‘factor humano’ – por exemplo, uma mãe que conhece o rumor, conhece os factos e conhece o seu filho – a simplicidade do julgamento torna-se impossível. Na peça, há uma conversa entre a Madre Superiora e a mãe do miúdo. Nesse momento, somos postos no ‘nosso lugar’. Isto é, terceiros numa história que não nos pertence, estrangeiros numa intimidade que nos é alheia. A clássica questão do bem e do mal envolve outra: de quem é a privacidade ? A Dúvida não é apenas sobre a ética de uma freira ou a autenticidade de um padre. Contém outra interrogação com resultado incerto – as razões daquela mãe.
Décimo: a encenação tem uma simplicidade que convém à dureza da discussão. Não distrai, não adorna e não banaliza. Projecta, de quando em vez, a luz da cruz. Entre vidas que são cruzes, há luzes que não se apagam, foi o que me pareceu.