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<?xml-stylesheet type="text/xsl" href="http://comunidade.sol.pt/utility/FeedStylesheets/rss.xsl" media="screen"?><rss version="2.0" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"><channel><title>Ligações Perigosas</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/default.aspx</link><description /><dc:language /><generator>CommunityServer 2.1 (Debug Build: 60809.935)</generator><item><title>O Rei e o caudilho</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/11/17/O-Rei-e-o-caudilho.aspx</link><pubDate>Sat, 17 Nov 2007 08:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:422723</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>23</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/422723.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=422723</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;N&amp;atilde;o foi h&amp;aacute; muitos anos. Fidel Castro passou pelo Porto e fez gato sapato do protocolo e da conveni&amp;ecirc;ncia, do hor&amp;aacute;rio e do microfone, da paci&amp;ecirc;ncia dos outros e do rel&amp;oacute;gio do dr. Sampaio. O nosso Presidente e os colegas aguentaram estoicamente uma saga fidelista: horas infindas de arenga cubana. Melhor ou pior, os Chefes de Estado, nestas cimeiras previs&amp;iacute;veis, respeitam uma regra de duplo sentido (comum): n&amp;atilde;o falar demais. Nem no tempo nem na deseleg&amp;acirc;ncia. Fidel, obviamente, acha-se inimit&amp;aacute;vel. Ch&amp;aacute;vez, que se cr&amp;ecirc; uma imita&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fidel, ia a caminho da inimputabilidade.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando o mais que af&amp;aacute;vel, paciente, moderado e democrata Rei de Espanha lan&amp;ccedil;ou o &amp;laquo;por qu&amp;eacute; no te callas?&amp;raquo; &amp;eacute; imposs&amp;iacute;vel n&amp;atilde;o ter sentido uma consider&amp;aacute;vel admira&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Por ele e por Espanha. Por ele, na estrita medida em que &amp;lsquo;desconstruiu&amp;rsquo;, em cinco palavritas, a imperturb&amp;aacute;vel carreira de Ch&amp;aacute;vez: o Presidente da Venezuela faz de provocador comicieiro nas reuni&amp;otilde;es de Estado e gosta de representar exactamente um papel oposto &amp;ndash; o de caudilho revestido das jact&amp;acirc;ncias do poder &amp;ndash; nas &amp;lsquo;cimeiras alternativas&amp;rsquo;. Junto dos outros Presidentes, Ch&amp;aacute;vez fala como &amp;lsquo;revolucion&amp;aacute;rio&amp;rsquo;. Perto do povo &amp;ndash; e das suas mil&amp;iacute;cias &amp;ndash; comporta-se como &amp;lsquo;poderoso&amp;rsquo;.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A admira&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas borb&amp;oacute;nica; se h&amp;aacute; uma qualidade que os espanh&amp;oacute;is t&amp;ecirc;m &amp;ndash; e as palavras do Rei mostram &amp;ndash; &amp;eacute; uma radical defesa do conceito de Espanha a partir do primeiro peda&amp;ccedil;o de terra que n&amp;atilde;o lhes pertence. Internamente, dividem-se em castelhanos, catal&amp;atilde;es, bascos, galegos, andaluzes e algumas par&amp;oacute;quias mais. Dividem-se e disputam incessantemente uma unidade dific&amp;iacute;lima. Mas, face ao exterior, t&amp;ecirc;m um jeito de grandeza, um sentido de pot&amp;ecirc;ncia e uma medida das respectivas dignidades que chegam e sobram para proteger o conceito de Espanha de qualquer saldo. &amp;Eacute; por isso que a Espanha moderna quase parece um milagre &amp;oacute;ptico. A sua fragilidade nacional &amp;eacute; inversamente proporcional &amp;agrave; projec&amp;ccedil;&amp;atilde;o internacional. E at&amp;eacute; mais: porque a Espanha existe no mundo, a Espanha n&amp;atilde;o pode deixar de existir na Pen&amp;iacute;nsula. O Rei foi o mensageiro inesperado desta integridade (que &amp;eacute; tamb&amp;eacute;m uma t&amp;aacute;ctica de sobreviv&amp;ecirc;ncia).&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A forma como uma certa esquerda &amp;ndash; na Europa e sobretudo c&amp;aacute; &amp;ndash; lida com os seus &amp;iacute;cones sul-americanos &amp;eacute; desajeitada, para n&amp;atilde;o dizer desastrosa. Para alguns marxistas tristes, a Am&amp;eacute;rica do Sul &amp;eacute; uma esp&amp;eacute;cie de ilha de utopia. Conformados com as inevitabilidades da democracia &amp;lsquo;ocidental&amp;rsquo; &amp;ndash; cujas oportunidades, ali&amp;aacute;s, aproveitam bem; perdidas as esperan&amp;ccedil;as em &amp;Aacute;frica, onde a convers&amp;atilde;o dos guerrilheiros em capitalistas desafia as leis da velocidade; e envergonhados com o caso da China, onde est&amp;atilde;o os pobres que, pela en&amp;eacute;sima vez, ser&amp;atilde;o cobaias do experimentalismo &amp;ndash; e excursionismo &amp;ndash; deste socialismo com pretens&amp;atilde;o cient&amp;iacute;fica? Pois est&amp;atilde;o na Am&amp;eacute;rica pobre, estiolada por juntas olig&amp;aacute;rquicas, nacionalismos prim&amp;aacute;rios, peronismos perdidos e corrup&amp;ccedil;&amp;otilde;es end&amp;eacute;micas, factos a que acresce uma proverbial dificuldade do Estado em manter o monop&amp;oacute;lio da coac&amp;ccedil;&amp;atilde;o. S&amp;oacute; que esta op&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; produzir o socialismo do s&amp;eacute;culo XXI a partir de um caldo misturado de teologia da liberta&amp;ccedil;&amp;atilde;o e teologia do Estado, municiada com petrod&amp;oacute;lares &amp;ndash; tem os seus problemas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O primeiro &amp;eacute; uma consider&amp;aacute;vel fraude na iconografia. H&amp;aacute; uma esquerda europeia que acreditou no sindicalismo de Per&amp;oacute;n, ignorando que era filo-nazi. O padr&amp;atilde;o &amp;lsquo;mexicano&amp;rsquo; foi outro encanto. Mas o regime de Partido quase &amp;uacute;nico &amp;ndash; o PRI &amp;ndash; em nada se distinguiu, a n&amp;atilde;o ser na eternidade que durou, de qualquer oligarquia de Estado. Mais espantoso &amp;eacute; o mito Guevara. Che transformou-se num produto globalizado, diria mesmo dolcegabbanizado, e &amp;eacute; uma esp&amp;eacute;cie de &amp;lsquo;santo laico&amp;rsquo; do s&amp;eacute;culo XX. S&amp;oacute; h&amp;aacute; um &amp;oacute;bice: no curto per&amp;iacute;odo em que mandou, Che revelou-&#x7;-se um leninista sem concess&amp;otilde;es, com li&amp;ccedil;&amp;otilde;es tchekistas bem aprendidas. O pr&amp;oacute;prio relato de Fidel ignora que o ditador n&amp;atilde;o conquistou o poder enquanto comunista; mas exerceu-o como nenhum outro comunista ou ditador. Ainda hoje, Fidel beneficia de uma indulg&amp;ecirc;ncia que pasma. J&amp;aacute; Salvador Allende, por morrer m&amp;aacute;rtir, foi absolvido de responsabilidades. E tinha muitas: o Chile era um dos poucos pa&amp;iacute;ses com tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o democr&amp;aacute;tica na regi&amp;atilde;o e ficou privado de liberdades enquanto os chilenos se lembraram do caos. Tamb&amp;eacute;m houve a epopeia do sandinismo. Empalideceu, desde que os sandinistas expropriaram, em proveito pessoal, as casas, os carros e as contas banc&amp;aacute;rias dos seus advers&amp;aacute;rios. E n&amp;atilde;o faltam duplicidades injustas. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, converteu o Brasil &amp;agrave; racionalidade e &amp;agrave; estabilidade. Uma pessoa de esquerda &amp;ndash; acho eu &amp;ndash; devia estar-lhe agradecida. Nem por isso. O romantismo empurra para Lula, sendo que Lula, num &amp;aacute;pice, larga o lastro. Entre despojos e desilus&amp;otilde;es, surgiu Hugo Ch&amp;aacute;vez. Do coronel golpista dos anos noventa ao Presidente que quer ser vital&amp;iacute;cio, &amp;eacute; um ditador anunciado e s&amp;oacute; n&amp;atilde;o v&amp;ecirc; quem n&amp;atilde;o quer. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por que &amp;eacute; que uma certa esquerda &amp;eacute; condescendente com um regime &amp;ndash; o chavista &amp;ndash; que prende opositores, fecha televis&amp;otilde;es, obriga os militares a jurar pelo socialismo, fornece kits marxistas a qualquer crian&amp;ccedil;a que v&amp;aacute; &amp;agrave; escola e apaga, passo a passo, os &amp;uacute;ltimos vest&amp;iacute;gios do Estado de Direito? O m&amp;oacute;bil destas cumplicidades &amp;eacute; o anti-americanismo. Assim como h&amp;aacute;, no Ocidente, intelectuais de esquerda que &amp;lsquo;justificam&amp;rsquo; os talib&amp;atilde;s &amp;ndash; e o terrorismo &amp;ndash; porque preferem qualquer inimigo da Am&amp;eacute;rica &amp;agrave; Am&amp;eacute;rica, tamb&amp;eacute;m h&amp;aacute; quem &amp;lsquo;explique&amp;rsquo; Ch&amp;aacute;vez pelo simples facto de Ch&amp;aacute;vez ser &amp;lsquo;contra o imp&amp;eacute;rio&amp;rsquo;. A infantiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da quest&amp;atilde;o imperial n&amp;atilde;o &amp;eacute; nova. A leitura marxista da hist&amp;oacute;ria sul-americana &amp;eacute; exclusivamente vitimista. H&amp;aacute; sempre uma hegemonia imperial; contra ela, venha a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o permanente. O imp&amp;eacute;rio &amp;eacute; o eterno inimigo: sejam os castelhanos sejam os ianques, no s&amp;eacute;culo XVI ou no s&amp;eacute;culo XXI, tanto d&amp;aacute;. &amp;Eacute; propaganda da mais barata que h&amp;aacute;. &lt;br /&gt;Volto ao Rei. Ch&amp;aacute;vez n&amp;atilde;o se calou mas ouviu &amp;ndash; e merecia. &lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=422723" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>A (in)justiça segundo Jodie</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/11/03/A-_2800_in_2900_justi_E700_a-segundo-Jodie.aspx</link><pubDate>Sat, 03 Nov 2007 08:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:402534</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>12</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/402534.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=402534</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;N&amp;atilde;o &amp;eacute; um filme de ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute; uma fotografia de alma a coberto de um argumento policial. N&amp;atilde;o &amp;eacute; um filme de efeitos especiais, o mais f&amp;aacute;cil no g&amp;eacute;nero &amp;lsquo;viol&amp;ecirc;ncia urbana&amp;rsquo;. &amp;Eacute; um filme de itiner&amp;aacute;rio pessoal, uma esp&amp;eacute;cie de peregrina&amp;ccedil;&amp;atilde;o interior da leg&amp;iacute;tima defesa e depois da vingan&amp;ccedil;a, arrasadora de quaisquer endere&amp;ccedil;os &amp;ndash; e limites &amp;ndash; do bem e do mal. N&amp;atilde;o &amp;eacute; exactamente um thriller: o princ&amp;iacute;pio e o fim s&amp;atilde;o previs&amp;iacute;veis. E n&amp;atilde;o chega a ser um romance, embora subtilmente pare&amp;ccedil;a. Dif&amp;iacute;cil de catalogar, A Estranha em Mim &amp;ndash; interpretar os filmes nos t&amp;iacute;tulos d&amp;aacute; nestes disparates &amp;ndash; &amp;eacute; seguramente um filme de actriz. Jodie Foster rende tudo e mais alguma coisa neste filme cheio de dores e quase sem l&amp;aacute;grimas. Um filme &amp;agrave; medida de Jodie &amp;ndash; seco, duro, profundo, imediato, l&amp;oacute;gico e directo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Jodie Foster n&amp;atilde;o faz um papel, faz um papel&amp;atilde;o. Na minha tabela, s&amp;oacute; &amp;eacute; compar&amp;aacute;vel ao que desempenhou no Sil&amp;ecirc;ncio dos Inocentes &amp;ndash; com a diferen&amp;ccedil;a de que, neste caso, carrega sozinha o destino da fita. Jodie &amp;eacute; A Estranha em Mim propriamente dita. Constr&amp;oacute;i duas personagens numa s&amp;oacute;. Erica Bain antes de ser v&amp;iacute;tima de gang e Erica Bain depois disso &amp;ndash; &amp;laquo;algu&amp;eacute;m que anda a fazer de Deus nesta cidade&amp;raquo;. Colocando a quest&amp;atilde;o no plano filos&amp;oacute;fico, Jodie Foster encarna a subjectiva&amp;ccedil;&amp;atilde;o do que resta do Estado de Direito quando &amp;eacute; incompetente e fracassa. Passo a passo, torna-se &amp;iacute;cone de uma justi&amp;ccedil;a errada: a das pr&amp;oacute;prias m&amp;atilde;os. Acumula, compulsivamente, mortos e feridos na mira da sua 9 mil&amp;iacute;metros ilegal. Cada alvo &amp;eacute; um criminoso perdido nos arquivos da pol&amp;iacute;cia. Cada tiro &amp;eacute; um plano de poupan&amp;ccedil;a nos direitos, liberdades e garantias. Jodie acaba por se transformar numa &amp;lsquo;homicida de homicidas&amp;rsquo; ou numa &amp;lsquo;assassina em s&amp;eacute;rie&amp;rsquo; de uma s&amp;eacute;rie de assassinos. Neste percurso vertiginoso, h&amp;aacute; uma nota honrosa: ela n&amp;atilde;o &amp;eacute; impression&amp;aacute;vel pelo apoio da multid&amp;atilde;o. Cumpre escrupulosamente o seu plano de vingan&amp;ccedil;a, com o requinte de dar suficientes &amp;lsquo;dicas&amp;rsquo; &amp;agrave; pol&amp;iacute;cia para que a pol&amp;iacute;cia n&amp;atilde;o duvide de quem ela realmente &amp;eacute;.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No princ&amp;iacute;pio, A Estranha em Mim &amp;eacute; inocentemente familiar. Jodie tem um namorado e amam-se visivelmente. V&amp;atilde;o passear &amp;ndash; o c&amp;atilde;o &amp;ndash; &amp;agrave; noite. Est&amp;atilde;o num parque em Nova Iorque. Enquanto namoram, o c&amp;atilde;o perde-se num t&amp;uacute;nel. V&amp;atilde;o procur&amp;aacute;-lo mas no fim do t&amp;uacute;nel n&amp;atilde;o est&amp;aacute; luz &amp;ndash; est&amp;aacute; a morte. Um gang de mi&amp;uacute;dos &amp;ndash; e gra&amp;uacute;dos &amp;ndash; manifestamente idiotizados, grosseiros e violentos come&amp;ccedil;a por provoc&amp;aacute;-los e roub&amp;aacute;-los. Pequena criminalidade com consequ&amp;ecirc;ncias grandes. Bestialidade atrai bestialidade: Erica fica desfeita e o namorado &amp;eacute; morto &amp;agrave; pancada. Comecemos por &amp;lsquo;despoluir&amp;rsquo; ideologicamente o evento: estes crimes existem, esta barbaridade neo-urbana acontece, estes gangs &amp;lsquo;estilizados&amp;rsquo; &amp;ndash; com t-shirt de contrafac&amp;ccedil;&amp;atilde;o, iPod obrigat&amp;oacute;rio e tacos de arremesso &amp;ndash; povoam com a sua indol&amp;ecirc;ncia perigosa demasiadas esquinas da vida. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Perante um crime, a pergunta da esquerda costuma ser esta: o que &amp;eacute; que a sociedade fez ao bandido? A pergunta de direita &amp;ndash; e, curiosamente, a do filme &amp;ndash; &amp;eacute; outra: o que &amp;eacute; que o bandido faz &amp;agrave; sociedade? As perguntas t&amp;ecirc;m consequ&amp;ecirc;ncias e cada uma leva a um s&amp;iacute;tio. Os que investem na &amp;lsquo;culpa social&amp;rsquo; acabam inevitavelmente a pedir mais compreens&amp;atilde;o, come&amp;ccedil;ando por &amp;lsquo;compreender&amp;rsquo; o delinquente &amp;ndash; n&amp;atilde;o chegando ao ponto de o absolver, mas desculpando-o. &amp;Eacute; a insustent&amp;aacute;vel &amp;ndash; e intermin&amp;aacute;vel &amp;ndash; genealogia da culpa. Enquanto estas almas ferem, matam e esfolam, convocam-se juristas, psicanalistas e soci&amp;oacute;logos e fazem-se doutoramentos pol&amp;iacute;ticos em falhan&amp;ccedil;os do pai, da m&amp;atilde;e, do professor, da escola, da inser&amp;ccedil;&amp;atilde;o e da reinser&amp;ccedil;&amp;atilde;o, do Estado social e do que mais houver. Mas como a velocidade da imita&amp;ccedil;&amp;atilde;o do mal &amp;eacute; bastante superior &amp;agrave; possibilidade de promover legalmente o bem, esta criminalidade n&amp;atilde;o p&amp;aacute;ra de subir. O fen&amp;oacute;meno s&amp;oacute; &amp;eacute; contrari&amp;aacute;vel com economia de sentimentalismo: reprimir adequadamente o crime n&amp;atilde;o &amp;eacute; uma vol&amp;uacute;pia castigadora, &amp;eacute; apenas a &amp;uacute;nica forma de reparar &amp;ndash; parcialmente &amp;ndash; as v&amp;iacute;timas e prevenir &amp;ndash; possivelmente &amp;ndash; uma escalada. Se o Estado falha no seu monop&amp;oacute;lio da coac&amp;ccedil;&amp;atilde;o, o que sucede &amp;eacute; a privatiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da viol&amp;ecirc;ncia. Entre os dois extremos &amp;ndash; o Estado demission&amp;aacute;rio e a &amp;lsquo;milicializa&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; da ordem &amp;ndash; venha o Diabo e escolha. Veio Giuliani e provou que um &amp;lsquo;securit&amp;aacute;rio&amp;rsquo; faz melhor.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Neil Jordan est&amp;aacute; longe de ser um conservador &amp;ndash; mas neste filme demonstra por que &amp;eacute; que as coisas s&amp;atilde;o como s&amp;atilde;o. Jodie, ali&amp;aacute;s Erica, tenta ir &amp;agrave; pol&amp;iacute;cia. Debalde: &lt;strong&gt;&amp;laquo;Sei que isto deve ser dif&amp;iacute;cil para si mas sente-se ali e um agente h&amp;aacute;-de vir falar consigo&amp;raquo;&lt;/strong&gt;, &amp;eacute; o que lhe dizem e ela descobrir&amp;aacute; que dizem a todos. Quando comete o primeiro crime, Jodie, ali&amp;aacute;s Erica, quase pede &amp;agrave; lei que a salve: &lt;strong&gt;&amp;laquo;Por que &amp;eacute; que n&amp;atilde;o h&amp;aacute; ningu&amp;eacute;m que me detenha?&amp;raquo;&lt;/strong&gt;. Mais tarde, numa cena incr&amp;iacute;vel &amp;ndash; a entrevista que faz ao pol&amp;iacute;cia &amp;ndash; Jodie, ali&amp;aacute;s Erica, pergunta-lhe por que &amp;eacute; que n&amp;atilde;o &lt;strong&gt;&amp;laquo;apanha&amp;raquo;&lt;/strong&gt; os assassinos do namorado. &lt;strong&gt;&amp;laquo;Porque eu sigo a lei&amp;raquo;,&lt;/strong&gt; responde-lhe. Jodie, ali&amp;aacute;s Erica, n&amp;atilde;o tem retorno: &lt;strong&gt;&amp;laquo;Algu&amp;eacute;m est&amp;aacute; a fazer o seu trabalho&amp;raquo;&lt;/strong&gt;, &amp;eacute; o recado que, via r&amp;aacute;dio, manda ao agente. Far&amp;aacute; o tal trabalho sem querer escapar. Na cena em que o agente lhe diz que j&amp;aacute; sabe que havia &lt;strong&gt;&amp;laquo;uma mulher ressentida&amp;raquo;&lt;/strong&gt; no local doutro crime, ela dispara sem hesitar: &lt;strong&gt;&amp;laquo;Somos muitas por a&amp;iacute;&amp;raquo;.&lt;/strong&gt; Erica sabe que aquela vida n&amp;atilde;o &amp;eacute; a sua; aprendeu que vida de v&amp;iacute;tima n&amp;atilde;o &amp;eacute; recuper&amp;aacute;vel. &lt;strong&gt;&amp;laquo;H&amp;aacute; muitas maneiras de morrer, a quest&amp;atilde;o est&amp;aacute; em descobrir uma maneira de viver&amp;raquo;&lt;/strong&gt;, comentar&amp;aacute; uma vizinha que pressente que a ravina mora ao lado. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Das ravinas que s&amp;atilde;o vidas e das dores que s&amp;atilde;o carismas, Neil Jordan sabe tratar. Basta lembrar: The Crying Game, Breakfast on Pluto ou Michael Collins. O seu car&amp;aacute;cter de irland&amp;ecirc;s enxuto f&amp;ecirc;-lo perceber que A Estranha em Mim n&amp;atilde;o precisava de nenhuma ostenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o formal. Talvez por isso, o som &amp;eacute; o tom do filme. A m&amp;uacute;sica que acompanha Jodie Foster &amp;eacute; simplesmente excelente. E faz sentido: Erica n&amp;atilde;o &amp;eacute; um rosto mas uma voz; e a interpreta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Jodie &amp;eacute; como um fio de raiva num mundo de surdos.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=402534" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Aventuras de Salazar no pa&#237;s dos ingleses</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/10/27/Aventuras-de-Salazar-no-pa_ED00_s-dos-ingleses.aspx</link><pubDate>Sat, 27 Oct 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:394208</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>5</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/394208.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=394208</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Confiava no tempo de voo para avan&amp;ccedil;ar numa boa leitura: Os despojos da Alian&amp;ccedil;a (1). Mas viajar para os A&amp;ccedil;ores &amp;eacute; sempre uma aventura com bilhete incerto na volta. O vento norte prega partidas virtuosas. Fica-se em terra &amp;agrave; espera que amaine; e enquanto se fica, &amp;eacute; inescap&amp;aacute;vel tornar a reparar nestas ilhas que parecem a &amp;uacute;ltima esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o da CP antes do para&amp;iacute;so. Aconteceu-me, desta vez, em S&amp;atilde;o Jorge. Estou reconhecido &amp;agrave; adversidade: com algum tempo livre, cheguei ao fim da investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Pedro Oliveira sobre as subtilezas e os desaires da Velha Alian&amp;ccedil;a entre 1945 e 1974. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O tema &amp;eacute; estimulante. Nesses trinta anos, mudou muita coisa para que algo ficasse na mesma no Reino Unido. O triunfo contra o nazismo n&amp;atilde;o se fez sem deixar a capital e o imp&amp;eacute;rio exangues; a ades&amp;atilde;o ao Estado-Provid&amp;ecirc;ncia tinha custos incompat&amp;iacute;veis com a continua&amp;ccedil;&amp;atilde;o da pol&amp;iacute;tica imperial qua tale; e o pragmatismo ingl&amp;ecirc;s fez o resto, cuidando &amp;ndash; com talento, com a libra, com a dissuas&amp;atilde;o e, claro, com a Commonwealth &amp;ndash; de encontrar para os brit&amp;acirc;nicos &amp;laquo;um novo papel&amp;raquo;, que algu&amp;eacute;m caracterizou como o de &amp;laquo;primeira das superpot&amp;ecirc;ncias de segunda linha&amp;raquo;. Ao mesmo tempo, o Portugal de Salazar sobrevivia &amp;agrave; ardilosa neutralidade, encontrava porto de abrigo na NATO e pensava isolar o &amp;lsquo;isolamento&amp;rsquo; entrando na ONU. Mas n&amp;atilde;o antecipava as consequ&amp;ecirc;ncias da previs&amp;iacute;vel mudan&amp;ccedil;a do mapa e do mundo coloniais. Salazar mantinha-se obstinadamente fiel &amp;agrave; sua vis&amp;atilde;o da integridade territorial; mas nem isso o levou, at&amp;eacute; muito tarde, a &amp;lsquo;investir&amp;rsquo; humana e financeiramente nos dom&amp;iacute;nios ultramarinos. Quando o fez, o mundo j&amp;aacute; n&amp;atilde;o era o mesmo. E, refira-se em abono da verdade, n&amp;atilde;o pode queixar-se de falta de aviso. Salazar acreditava que a tipologia &amp;lsquo;multirracial&amp;rsquo; do imp&amp;eacute;rio chegaria para imunizar o seu destino. Com isso instru&amp;iacute;a uma propaganda que irritava particularmente os ingleses &amp;ndash; a quem, por contraste, era atribu&amp;iacute;do um colonialismo &amp;lsquo;racista&amp;rsquo;. Um dos diplomatas ingleses que telegrafava de &amp;Aacute;frica chegou a oficiar para Londres que, fosse o imp&amp;eacute;rio portugu&amp;ecirc;s &amp;lsquo;multirracial&amp;rsquo; ou n&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o conhecia por l&amp;aacute; um &amp;uacute;nico empres&amp;aacute;rio africano.&lt;br /&gt;Os caminhos cruzaram-se v&amp;aacute;rias vezes &amp;ndash; e, a cada uma, ficaram mais distantes. O caso de Goa era infinitamente mais simples para o governo de Lisboa do que o problema da &amp;Iacute;ndia para o governo de Londres. O livro retrata abundantemente as dificuldades em manter o esp&amp;iacute;rito da Alian&amp;ccedil;a com tamanha diverg&amp;ecirc;ncia de resultados. As demonstra&amp;ccedil;&amp;otilde;es de for&amp;ccedil;a da China em Macau &amp;ndash; face a n&amp;atilde;o mais do que mil soldados da nossa soberania &amp;ndash; tamb&amp;eacute;m inquietavam os brit&amp;acirc;nicos, pois j&amp;aacute; nesse tempo a coisa era vista como o exemplo, em moeda pobre, do que podia suceder a Hong Kong. Mas o choque frontal deu-se na quest&amp;atilde;o da guerra. N&amp;atilde;o &amp;eacute; tanto o confronto entre duas op&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;ndash; a pol&amp;iacute;tica e a militar &amp;ndash; que torna o livro muito &amp;uacute;til. &amp;Eacute;, sobretudo, investigando a mem&amp;oacute;ria de outro paralelo &amp;ndash; o da Rod&amp;eacute;sia &amp;lsquo;branca&amp;rsquo; com a evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o em Mo&amp;ccedil;ambique e Angola &amp;ndash; que o livro de Pedro Oliveira &amp;eacute; inspirador. Na Rod&amp;eacute;sia &amp;ndash; como ainda hoje se nota &amp;ndash; os ingleses estamparam-se a s&amp;eacute;rio. Ora, a mera possibilidade de Portugal, &amp;Aacute;frica do Sul e Rod&amp;eacute;sia &amp;lsquo;concertarem&amp;rsquo; defesas, cumplicidades e trincheiras tornava ainda mais angustiante a incapacidade de Londres em lidar com a &amp;lsquo;independ&amp;ecirc;ncia branca&amp;rsquo; do seu &amp;ndash; ainda &amp;ndash; territ&amp;oacute;rio, sem que isso tivesse p&amp;eacute;ssimas consequ&amp;ecirc;ncias para os seus interesses em todas as frentes: na imagem do Reino Unido no &amp;lsquo;terceiro mundo&amp;rsquo;, na estabilidade da sua influ&amp;ecirc;ncia em &amp;Aacute;frica, e, detalhe nada acess&amp;oacute;rio, no controlo poss&amp;iacute;vel do processo sul-africano. Sintomaticamente, as duas diplomacias foram cavando um fosso at&amp;eacute; &amp;agrave; estridente diverg&amp;ecirc;ncia sobre a invas&amp;atilde;o de Timor &amp;ndash; j&amp;aacute; em pleno processo revolucion&amp;aacute;rio. A tal ponto que muitos se perguntavam se a Alian&amp;ccedil;a ainda existia ou faria sentido.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;nbsp;vis&amp;atilde;o dos ingleses sobre Salazar, o papel de Franco Nogueira, as reformas de Adriano Moreira, as esperan&amp;ccedil;as &amp;ndash; e os escombros &amp;ndash; da Primavera marcelista, a influ&amp;ecirc;ncia dos mission&amp;aacute;rios na exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o da outra face da &amp;lsquo;pol&amp;iacute;tica colonial&amp;rsquo;, o apoio &amp;agrave; incipiente &amp;lsquo;oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o democr&amp;aacute;tica&amp;rsquo; e a procura de contactos entre Londres e os &amp;lsquo;movimentos de liberta&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; &amp;ndash; tudo isso &amp;eacute; uma hist&amp;oacute;ria que se l&amp;ecirc; de forma escorreita e vem escrita de modo competente. Com um reconhecimento honesto: Portugal n&amp;atilde;o era essencial na agenda brit&amp;acirc;nica, excepto quando alguma op&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Estado Novo &amp;ndash; ou do PREC &amp;ndash; atingia interesses significativos dos governos conservadores ou trabalhistas. &lt;br /&gt;No espa&amp;ccedil;o de um ano, este &amp;eacute; o segundo livro relevante sobre a pol&amp;iacute;tica externa do Estado Novo. O outro &amp;eacute; Salazar e o Vaticano (2), de Bruno Cardoso Reis. Li-o quando ainda tinha (mais) tempo livre. Li-o de uma assentada (e n&amp;atilde;o sem surpresas). O tempo hist&amp;oacute;rico &amp;eacute; mais largo &amp;ndash; simplificando, vai do 28 de Maio at&amp;eacute; &amp;agrave; visita de Paulo VI a F&amp;aacute;tima. A margem de fric&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; interessant&amp;iacute;ssima: da negocia&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Concordata at&amp;eacute; ao caso do bispo do Porto; da solidez do apoio ao regime ao desligamento do catolicismo &amp;lsquo;n&amp;atilde;o colonial&amp;rsquo;; do momento em que os bispos foram mais l&amp;uacute;cidos do que Salazar &amp;ndash; o momento chama-se Goa &amp;ndash; at&amp;eacute; ao sentimento de abandono que o regime sentiu no Vaticano na d&amp;eacute;cada de sessenta e ao modo como reagiu; do enquadramento org&amp;acirc;nico dos cat&amp;oacute;licos num regime sem partidos e antipartidos at&amp;eacute; ao nascimento do &amp;lsquo;catolicismo progressista&amp;rsquo;.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Recordo tr&amp;ecirc;s li&amp;ccedil;&amp;otilde;es desse livro invulgar. Uma &amp;eacute; que a pol&amp;iacute;tica externa de Salazar foi mais cat&amp;oacute;lica do que clerical. Outra &amp;eacute; que, contrariamente &amp;agrave; vers&amp;atilde;o comum e diferentemente do caso espanhol, foi mais o Estado a influenciar a Igreja e menos a Igreja a influenciar o Estado. Por fim, a evid&amp;ecirc;ncia de que uma coisa &amp;eacute; a ruptura de Salazar com o anticlericalismo que vinha das ess&amp;ecirc;ncias da Rep&amp;uacute;blica, e outra, verific&amp;aacute;vel nos arquivos da diplomacia, &amp;eacute; a peculiar no&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Estado mantida por Salazar, se necess&amp;aacute;rio apesar do Vaticano enquanto sujeito de rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es internacionais. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;N&amp;atilde;o conhe&amp;ccedil;o pessoalmente Pedro Oliveira nem Bruno Cardoso Reis. Mas devo-lhes boas horas de leitura e um peda&amp;ccedil;o mais de conhecimento sobre o s&amp;eacute;culo XX portugu&amp;ecirc;s. Um blogue conhecido definia o primeiro como &amp;laquo;conservador de esquerda&amp;raquo; e o segundo como &amp;laquo;liberal de esquerda&amp;raquo;. Talvez. Eu, como &amp;eacute; p&amp;uacute;blico e not&amp;oacute;rio, n&amp;atilde;o sou de esquerda e tenho uma costela conservadora e outra liberal. Detesto o preconceito ideol&amp;oacute;gico exactamente porque gosto de Hist&amp;oacute;ria. Sendo a historiografia portuguesa sobre o Estado Novo bastante obscura, d&amp;aacute; gosto ler pessoas inteligentes e investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o bem feita. &amp;Eacute; o caso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;(1) Os despojos da Alian&amp;ccedil;a, de Pedro Aires Oliveira, Tinta da China.&lt;br /&gt;(2) Salazar e o Vaticano, de Bruno Cardoso Reis, ICS.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=394208" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>De como a vingan&#231;a &#233; um prato frio</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/10/13/De-como-a-vingan_E700_a-_E900_-um-prato-frio.aspx</link><pubDate>Sat, 13 Oct 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:377588</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>3</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/377588.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=377588</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;&amp;Eacute; um filme sem upstairs. Para al&amp;eacute;m de um vago sonho &amp;ndash; Kat quer sair daquele bairro imundo &amp;ndash; prepare-se para o lumpen puro e duro. H&amp;aacute; algum dinheiro, mas &amp;eacute; o dinheiro de tr&amp;aacute;ficos: contrabandos, drogas, armas, cocas, gangs e fakes, numa desordem meticulosamente regular. &amp;Eacute; de um mundo obsessivo e obsessivamente violento que estamos a falar. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; mais cen&amp;aacute;rios do que um velho apartamento onde tudo se rouba e nada est&amp;aacute; em paz; um bar obscuro onde &amp;agrave; ilharga do bilhar se combinam quecas, seduzem alvos e repartem lucros; um qualquer departamento social que funciona como o espa&amp;ccedil;o ex&amp;iacute;guo da lei; e um consist&amp;oacute;rio de desesperados, e o resto s&amp;atilde;o ruelas de v&amp;acirc;ndalos, paredes invariavelmente graffitadas, lixos despojados e sangue &amp;ndash; muito sangue derramado. Tem l&amp;aacute; tudo o que o mundo tamb&amp;eacute;m &amp;eacute;: o irland&amp;ecirc;s racista, o porto-riquenho racista, o wasp racista, o afro racista, o asi&amp;aacute;tico racista. Nada estim&amp;aacute;vel e tudo transparente. Com um discurso radicalmente directo, &amp;agrave;s vezes em falas &amp;ndash; ou apenas sons &amp;ndash; l&amp;acirc;nguidas e acabadas, com tr&amp;ecirc;s palavr&amp;otilde;es em cada duas palavras. Inacess&amp;iacute;vel a pudores, nada recomend&amp;aacute;vel para almas impression&amp;aacute;veis. &amp;Eacute; o primeiro filme realizado por Gary Lennon e tem um travo de Abel Ferrara e um toque de Tarantino. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chama-se .45 e suspeito que n&amp;atilde;o far&amp;aacute; uma carreira demorada nas salas. Repito e aviso &amp;ndash; &amp;eacute; uma obra sem qualquer benevol&amp;ecirc;ncia. Tematicamente, parece que Lennon ter&amp;aacute; querido contar uma hist&amp;oacute;ria, nada banal mas apesar de tudo frequente, sobre o que as conven&amp;ccedil;&amp;otilde;es designam por &amp;lsquo;viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica&amp;rsquo; &amp;ndash; o nome t&amp;eacute;cnico da crueldade em forma de misoginia. Bem vistas as coisas, .45 podia passar &amp;agrave; hist&amp;oacute;ria por isso.&lt;br /&gt;Porque h&amp;aacute; uma cena, talvez de seis ou sete minutos, daqueles minutos que nunca mais acabam, inimagin&amp;aacute;veis e intermin&amp;aacute;veis, que nos deixam esgotados, exauridos e marcados &amp;ndash; uma cena que &amp;eacute; o mais definitivo dos retratos sobre os homens que batem nas mulheres. A espiral da posse, raiva, ci&amp;uacute;me, estupidez, m&amp;aacute;goa, brutalidade e insanidade ocupa o ecr&amp;atilde;. Nunca tinha visto nada assim (e espero n&amp;atilde;o ver outra vez). Garanto que o impacto psicol&amp;oacute;gico &amp;eacute; at&amp;eacute; mais duro de ver do que o facto f&amp;iacute;sico.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acontece que .45 n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas &amp;ndash; e se calhar, n&amp;atilde;o &amp;eacute; sobretudo &amp;ndash; um filme sobre viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica. A certo passo, a hist&amp;oacute;ria sofre um aban&amp;atilde;o que &amp;eacute; uma entorse: torna-se um outro enredo algures entre a manipula&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos sentimentos e a legitimidade da vingan&amp;ccedil;a. As perguntas inevit&amp;aacute;veis n&amp;atilde;o ficam sem resposta: quem pode castigar o d&amp;eacute;bil canalha que aterrorizava Kat? O Estado ou a v&amp;iacute;tima? Os meios da revanche &amp;ndash; no caso, nada menos do que o assassinato &amp;ndash; obedecem a regras de proporcionalidade? Os c&amp;uacute;mplices do crime t&amp;ecirc;m algum direito &amp;agrave; remunera&amp;ccedil;&amp;atilde;o do seu risco? A uni&amp;atilde;o dos altru&amp;iacute;smos &amp;eacute; afinal uma soma de ego&amp;iacute;smos? &amp;Eacute; ent&amp;atilde;o verdade que nesta vida n&amp;atilde;o h&amp;aacute; almo&amp;ccedil;os gr&amp;aacute;tis? Kat, a deslumbrante Kat, &amp;eacute; simultaneamente bestial e besta, humilhada e humilhante, pe&amp;atilde;o e estratego, maltratada e egoc&amp;ecirc;ntrica &amp;ndash; uma mistura consideravel-&#x7;mente humana. No fim, ela diz para a c&amp;acirc;mara qualquer coisa deste g&amp;eacute;nero: &amp;laquo;O sexo &amp;eacute; como a vida, para ser bem feito temos de ser n&amp;oacute;s a faz&amp;ecirc;-lo&amp;raquo;. Moral da hist&amp;oacute;ria: ningu&amp;eacute;m a salva se n&amp;atilde;o for ela a salvar-se &amp;ndash; a si pr&amp;oacute;pria e dela pr&amp;oacute;pria.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Kat &amp;eacute; o milagre deste filme. Digo milagre porque &amp;eacute; em .45 que Milla Jovovich d&amp;aacute; um salto de gigante como actriz. Sim, um milagre porque Milla Jovovich teria trucidado o filme caso falhasse no papel de Kat &amp;ndash; a verdadeira raz&amp;atilde;o de ser de .45. Um milagre, repito, porque Milla Jovovich &amp;eacute; o que &amp;eacute;: infinitamente bonita; mas n&amp;atilde;o era, at&amp;eacute; ver, uma actriz como Uma Thurman &amp;eacute;. Uma coisa &amp;eacute; vender produtos Prada, Chanel ou Revlon ou dar um salto por fitas menores, caramelizadas ou horrorosas, e outra coisa &amp;eacute; tomar conta de uma boa hist&amp;oacute;ria, dominar absolutamente a realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e sair inc&amp;oacute;lume, ou seja, poder usar os gal&amp;otilde;es de actriz &amp;lsquo;independente&amp;rsquo;, para j&amp;aacute; num cinema &amp;lsquo;independente&amp;rsquo;. Milla tem uma hist&amp;oacute;ria t&amp;iacute;pica das estepes &amp;ndash; b.i. ucraniano, m&amp;atilde;e russa, pai s&amp;eacute;rvio, ex&amp;iacute;lio americano; um corpo divino deu-lhe a passerelle e a sua gl&amp;oacute;ria ef&amp;eacute;mera. Aqui, em .45, come&amp;ccedil;a outra hist&amp;oacute;ria, outra vida, outro destino. Suspeito que o p&amp;uacute;blico vai atr&amp;aacute;s de .45 por causa de Milla, a modelo. &amp;Agrave; sa&amp;iacute;da, descobre outra pessoa. Ela parece o que &amp;eacute; e muito mais.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;H&amp;aacute; outra pequena genialidade em .45. De tempos a tempos, o nosso olhar sobre o car&amp;aacute;cter de Kat e Big Al &amp;ndash; um Angus Macfadyen talvez demasiado pesado &amp;ndash; &amp;eacute; suspenso; falam ent&amp;atilde;o, em depoimentos minimalistas, a m&amp;atilde;e dela e a m&amp;atilde;e dele, ou a vizinha e a amiga. O d&amp;eacute;cor desses momentos &amp;eacute; divertido: s&amp;atilde;o opini&amp;otilde;es na cozinha, no toucador ou &amp;agrave; janela, palpites inspiradores. V&amp;atilde;o tecendo a &amp;lsquo;explica&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; dos precip&amp;iacute;cios do argumento. S&amp;atilde;o como a consist&amp;ecirc;ncia da massa: nada acontece por acaso. Mesmo que .45 pare&amp;ccedil;a inveros&amp;iacute;mil, nada nos garante que a realidade n&amp;atilde;o seja t&amp;atilde;o inveros&amp;iacute;mil assim.&lt;br /&gt;Se aguentar o choque, n&amp;atilde;o deixe de ir ver. Este .45 &amp;eacute; um daqueles filmes que um dia, mais tarde, nos arrependemos de n&amp;atilde;o ter visto.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=377588" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Uma divertida forma de morrer</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/09/29/Uma-divertida-forma-de-morrer.aspx</link><pubDate>Sat, 29 Sep 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:360526</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>7</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/360526.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=360526</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Os ingleses t&amp;ecirc;m demoradas virtudes. Por exemplo: s&amp;atilde;o o &amp;uacute;nico imp&amp;eacute;rio que permanece em fun&amp;ccedil;&amp;otilde;es depois de ter desaparecido. Ao contr&amp;aacute;rio, os americanos exercem como imp&amp;eacute;rio sobrante sem ter curr&amp;iacute;culo na mat&amp;eacute;ria. Os ingleses tamb&amp;eacute;m d&amp;atilde;o frequentes sinais de uma peculiar resist&amp;ecirc;ncia &amp;agrave; aboli&amp;ccedil;&amp;atilde;o do sentido de Na&amp;ccedil;&amp;atilde;o: s&amp;atilde;o t&amp;atilde;o adeptos do livre com&amp;eacute;rcio como da libra esterlina e a verdade &amp;eacute; que podem s&amp;ecirc;-lo. Pouco dados &amp;agrave; utopia universal, concentram-se nos meios da sua pr&amp;oacute;pria liberdade. Preservam-nos. E conservam-na.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outra coisa que a Inglaterra &amp;ndash; em princ&amp;iacute;pio &amp;ndash; n&amp;atilde;o faz &amp;eacute; rastejar por prest&amp;iacute;gio. S&amp;oacute; naquele pa&amp;iacute;s poderia acontecer o que, discretamente, est&amp;aacute; a passar-se com o direito constitucional da ilha. Os escoceses voltaram a dar evid&amp;ecirc;ncia de que querem separar-se ou, pelo menos, descolar. A reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos ingleses n&amp;atilde;o &amp;eacute; tanto a de proibir, nem t&amp;atilde;o pouco guerrear. Limitam-se a considerar, de momento, que se os escoceses querem ter Parlamento pr&amp;oacute;prio, ent&amp;atilde;o os deputados da Esc&amp;oacute;cia em Westminster dever&amp;atilde;o abdicar de votar nos assuntos especificamente ingleses &amp;ndash; que s&amp;atilde;o todos. Nada de compar&amp;aacute;vel com a convuls&amp;atilde;o nacional em Espanha &amp;ndash; quase uma trag&amp;eacute;dia &amp;ndash; ou com a decad&amp;ecirc;ncia da mera ideia da B&amp;eacute;lgica &amp;ndash; quase uma com&amp;eacute;dia. H&amp;aacute; um pundonor b&amp;aacute;sico que impede os ingleses de discutirem o que pensam ser o seu estatuto e posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o: se algu&amp;eacute;m quer ir embora, pois que v&amp;aacute;, decerto ficar&amp;aacute; a perder. Quanto aos Estados que remota ou proximamente constituem o inimigo &amp;ndash; um conceito el&amp;aacute;stico que vai da Argentina, nas Malvinas, at&amp;eacute; ao &amp;lsquo;Estado europeu&amp;rsquo; em Bruxelas &amp;ndash; a reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; normalmente belicosa. Os ingleses podem perder soberanias mas dificilmente as entregam a invasores ou metedi&amp;ccedil;os. O mundo &amp;agrave; volta dos ingleses mudou; mas a Inglaterra ainda olha o mundo &amp;ndash; ou os seus interesses nele &amp;ndash; a partir do umbigo. Por isso &amp;eacute; que, um dia, perante uma devastadora tempestade no Canal da Mancha, um jornal brit&amp;acirc;nico escolheu um t&amp;iacute;tulo que fez hist&amp;oacute;ria: &amp;lsquo;O continente est&amp;aacute; isolado&amp;rsquo;.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era aqui que eu queria chegar &amp;ndash; ao sentido de humor. Est&amp;aacute; por a&amp;iacute; um daqueles pequenos filmes que o fat&amp;iacute;dico academismo desprezar&amp;aacute; e a petul&amp;acirc;ncia do mau gosto &amp;ndash; o mau gosto, no humor, &amp;eacute; ainda mais tem&amp;iacute;vel &amp;ndash; far&amp;aacute; por ignorar. Mas vale verdadeiramente a pena, digo eu. Chama-se Morte num Funeral e pode ver-se em dez salas. N&amp;atilde;o chega a ser Monty Python mas podia. N&amp;atilde;o &amp;eacute; t&amp;atilde;o bom como os Quatro Casamentos e um Funeral mas quase. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O triunfo da massifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o e o dom&amp;iacute;nio do &amp;lsquo;politicamente correcto&amp;rsquo; s&amp;atilde;o inimigos letais do humor. Primeiro, porque o n&amp;iacute;vel da piada descai (ou ent&amp;atilde;o as piadas que n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m piada nenhuma ganham foro); segundo, porque a selec&amp;ccedil;&amp;atilde;o ideol&amp;oacute;gica e at&amp;eacute; moral do que se deve dizer, como se deve dizer e da oportunidade de o fazer s&amp;atilde;o censuras assassinas da criatividade (que &amp;eacute; uma esp&amp;eacute;cie de produtividade do humor). Hoje em dia, quando me recomendam uma com&amp;eacute;dia no cinema, tenho um preconceito e fico de p&amp;eacute; atr&amp;aacute;s. A com&amp;eacute;dia &amp;eacute;, em cinema, uma arte dific&amp;iacute;lima: n&amp;atilde;o h&amp;aacute; maior dissabor do que o pouco sabor que fica de uma com&amp;eacute;dia falhada. Ora, uma certa leitura do que &amp;eacute; &amp;lsquo;moderno&amp;rsquo; d&amp;aacute; gravidade &amp;agrave; simplifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, estatuto &amp;agrave; grosseria e mercado &amp;agrave; complac&amp;ecirc;ncia. Escapar pela chuva fina dessas inclina&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;eacute; obra. Foi o que Frank Oz conseguiu neste muito divertido Morte num Funeral.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu sabia pouco de Frank Oz. De mem&amp;oacute;ria s&amp;oacute; recordo A Pequena Loja dos Horrores &amp;ndash; um sucesso merecido, &amp;agrave; volta de uma ideia genial. &amp;Agrave;s vezes, um grande filme &amp;eacute; s&amp;oacute; isso. N&amp;atilde;o chega propriamente a ter argumento, basta-se com uma ideia prodigiosa que funciona como n&amp;oacute; de todo o novelo. Woody Allen, quando quer, faz isso e n&amp;atilde;o precisa de mais. A ideia do espectador passar para a tela em A Rosa P&amp;uacute;rpura do Cairo, ou a ideia de um sujeito dizer aos outros apenas o que eles querem ouvir &amp;ndash; no Zelig &amp;ndash;, s&amp;atilde;o casos magn&amp;iacute;ficos. Almod&amp;oacute;var tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; capaz de grandes hist&amp;oacute;rias e de grandes ideias, num caso e noutro absurdamente verdadeiras ou deliciosamente improv&amp;aacute;veis. Franz Oz, neste &amp;uacute;ltimo filme, aproveita-se de duas ideias inesgot&amp;aacute;veis (e hilariantes). Se algum defeito a realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o tem &amp;eacute; a explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o at&amp;eacute; ao limite desses suportes. Mas como o filme acaba em noventa minutos, n&amp;atilde;o cansa.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;J&amp;aacute; n&amp;atilde;o me ria tanto (ou t&amp;atilde;o escancaradamente) desde Little Miss Sunshine. S&amp;oacute; que aqui n&amp;atilde;o estamos na Am&amp;eacute;rica pueril &amp;ndash; a trama acontece em plena classe m&amp;eacute;dia inglesa, aquela mesmo que juntar&amp;aacute;, na eternidade, a senhora Thatcher e o senhor Blair. Uma classe m&amp;eacute;dia com deveres familiares e disputas mesquinhas, colapsos financeiros e infidelidades conjugais, sossegos campestres e del&amp;iacute;rios urbanos, ambi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de reconhecimento e patologias sociais &amp;ndash; mas dispondo, ainda assim, de uma consider&amp;aacute;vel reserva de humanidade. O melhor lugar para a retratar &amp;eacute; um enterro de fam&amp;iacute;lia.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se, no vel&amp;oacute;rio, aparecer um parente que queria tomar um Valium mas tomou um alucinog&amp;eacute;nio cavalar; e se, na hora de despedida do patriarca, aparecer um chantagista &amp;ndash; no caso, um an&amp;atilde;o que &amp;eacute; gay e alega que o velho tamb&amp;eacute;m era &amp;ndash; est&amp;aacute; servido o rolo compressor de um nonsense que, neste filme, &amp;eacute; en&amp;eacute;rgico, &amp;eacute; fino e &amp;eacute; constante. O m&amp;eacute;rito, no entanto, deve distribuir-se por um par de grandes actores &amp;ndash; ou grandes pap&amp;eacute;is, o futuro dir&amp;aacute;. Refiro-me ao extraordin&amp;aacute;rio Alan Tudyk, o alucinado da cerim&amp;oacute;nia; e ao excelente Matthew Macfadyen, o certinho da fam&amp;iacute;lia. Rupert Graves tem mais nome e n&amp;atilde;o deslustra &amp;ndash; faz de irm&amp;atilde;o baldas mas comprometido. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;N&amp;atilde;o sei quais s&amp;atilde;o os n&amp;uacute;meros. Mas esta com&amp;eacute;dia tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; a prova de que se pode ter um or&amp;ccedil;amento barato e conseguir um produto com classe. Frank Oz n&amp;atilde;o deixa que a fita se disperse no espa&amp;ccedil;o ou no tempo. &amp;Eacute; esse concentrado de humor que torna Morte num Funeral t&amp;atilde;o apetec&amp;iacute;vel. Uma com&amp;eacute;dia, finalmente! Sem qualquer vest&amp;iacute;gio de pretensiosismo. Com um fraco teor de moralismo. Uma com&amp;eacute;dia inglesa, com que eles se riem e n&amp;oacute;s os admiramos. Muito frequent&amp;aacute;vel e, sobretudo, palat&amp;aacute;vel...&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=360526" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Forman em m&#225; forma</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/09/15/Forman-em-m_E100_-forma.aspx</link><pubDate>Sat, 15 Sep 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:343365</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>2</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/343365.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=343365</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;A t&amp;iacute;tulo de declara&amp;ccedil;&amp;atilde;o de interesses: Milos Forman faz parte da short list de realizadores que realmente prezo. O problema de admirar algu&amp;eacute;m est&amp;aacute; na viol&amp;ecirc;ncia da decep&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Nestes momentos &amp;eacute; que Rilke tem mais raz&amp;atilde;o: a primeira coisa que os que voam como p&amp;aacute;ssaros t&amp;ecirc;m de aprender &amp;eacute; a cair. O &amp;uacute;ltimo Forman &amp;eacute; uma queda aparatosa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O que eu admiro nele s&amp;atilde;o algumas genialidades. A primeira &amp;ndash; e menos conhecida &amp;ndash; &amp;eacute; uma b&amp;aacute;rbara ironia sobre o sistema totalit&amp;aacute;rio. Falado em checo, filmado na extinta Checoslov&amp;aacute;quia, exibindo uma esp&amp;eacute;cie de neo-realismo c&amp;oacute;mico, O Baile dos Bombeiros foi a antecipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sua ruptura pessoal com o comunismo. O padrinho &amp;ndash; o produtor &amp;ndash; chamava-se Carlo Ponti. J&amp;aacute; no per&amp;iacute;odo americano, Forman atingiu a gl&amp;oacute;ria (e a estatueta) com Voando sobre um Ninho de Cucos. Ningu&amp;eacute;m esquece Jack Nicholson e a sua rebeldia naquele insano hospital. E sendo uma virtude de Forman n&amp;atilde;o filmar como quem produz salsichas, passou quase uma d&amp;eacute;cada at&amp;eacute; ao esplendor de Amadeus. Um esplendor soberbo e na raia da perfei&amp;ccedil;&amp;atilde;o: um Mozart neo-pop, selvagem e delirante, impec&amp;aacute;vel na reconstitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o do ambiente hist&amp;oacute;rico. A mesma ambi&amp;ccedil;&amp;atilde;o est&amp;eacute;tica havia de mostrar-se em Valmont. Curiosamente, o extraordin&amp;aacute;rio romance epis-&#x7;tolar de Laclos havia de gerar uma inesperada emula&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre dois filmes requintados. Escolher entre as Liga&amp;ccedil;&amp;otilde;es Perigosas e Valmont &amp;eacute; um exerc&amp;iacute;cio de min&amp;uacute;cias, tratando de averiguar qual dos &amp;oacute;ptimos prevalece. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em dizendo isto, apetecia-me fazer uma pergunta a Milos Forman: depois de ter assinado Amadeus, era preciso, era imprescind&amp;iacute;vel, era inevit&amp;aacute;vel filmar uma vida de Goya que est&amp;aacute; longe de o ser e ainda mais longe de brilhar? Ele saber&amp;aacute;. Mas a compara&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos produtos finais n&amp;atilde;o favorece o risco que correu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os Fantasmas de Goya t&amp;ecirc;m, pelo menos, cinco problemas: identidade, defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o de personagens, escolha de actores, administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o do tempo e l&amp;iacute;ngua usada. O problema identit&amp;aacute;rio deste filme &amp;eacute;, precisamente, n&amp;atilde;o ter identidade. Podia ser &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; &amp;ndash; uma biografia de Goya. Pretende ser &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; &amp;ndash; um retrato da Inquisi&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Sup&amp;otilde;e ser &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; &amp;ndash; uma cr&amp;oacute;nica das revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Em cinema, a indecis&amp;atilde;o sobre o enredo principal &amp;eacute; ainda mais sofr&amp;iacute;vel do que na literatura: a imagem descarna quase tudo e ainda mais o que n&amp;atilde;o &amp;eacute; nada. Depois, h&amp;aacute; o pr&amp;oacute;prio caso de Goya nesta obra. Ele &amp;eacute; um pretexto; est&amp;aacute; no t&amp;iacute;tulo mas escapa-se do conte&amp;uacute;do. &amp;laquo;Goya aqui no pinta nada&amp;raquo; , queixou-se uma cr&amp;iacute;tica espanhola e com bastante raz&amp;atilde;o. Forman esqueceu-se das suas pr&amp;oacute;prias receitas de m&amp;eacute;rito: o que seria de Amadeus sem o carisma na representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Mozart e sem a &amp;lsquo;perfeita mediocridade&amp;rsquo; na de Salieri? Desta vez, Goya n&amp;atilde;o prende e n&amp;atilde;o h&amp;aacute; contraste. Acresce que, no elenco, Forman s&amp;oacute; acertou verdadeiramente em Javier Bardem (o inquisidor de todos os tempos, ou seja, o oportunista de todas as inquisi&amp;ccedil;&amp;otilde;es). Natalie Portman &amp;eacute; v&amp;iacute;tima da sua personagem: enlouquece cedo e na loucura ora &amp;eacute; intang&amp;iacute;vel ora &amp;eacute; caricatural. Forman, ali&amp;aacute;s, confessou que a escolheu n&amp;atilde;o por ter gostado de Closer, mas quando a viu numa capa de revista. Stellan Skarsgard &amp;eacute; um Goya incongruente (demasiado escandinavo, n&amp;atilde;o?). O papel de Carlos IV &amp;ndash; na verdade, um Rei pouco esperto &amp;ndash; n&amp;atilde;o melhora o caso. Podia evidenciar-se a Rainha &amp;ndash; ela sim, inteligente &amp;ndash; mas o investimento de Forman foi escasso: apenas dura o tempo em que o retrato da sua fealdade &amp;eacute; pintado. Como se n&amp;atilde;o bastasse, o filme nem sequer &amp;eacute; equilibrado na gest&amp;atilde;o dos tempos. Pretende &amp;lsquo;abranger&amp;rsquo; quinze anos em que a Espanha foi quase tudo: independente e invadida, sorna e sangrenta, algo napolitana, muito francesa e depois inglesa, Ancien R&amp;eacute;gime por in&amp;eacute;rcia e revolucion&amp;aacute;ria &amp;agrave; for&amp;ccedil;a. Resultado: passa tudo a correr e nem tem a vantagem &amp;ndash; ou o encanto &amp;ndash; das hist&amp;oacute;rias cruzadas. Por &amp;uacute;ltimo, o uso do ingl&amp;ecirc;s, neste caso, &amp;eacute; atrevido, para n&amp;atilde;o dizer assassino. Bardem a falar ingl&amp;ecirc;s com aquele jeito que os espanh&amp;oacute;is t&amp;ecirc;m e Portman a figurar uma castelhana que vende o corpo deixam &amp;ndash; no m&amp;iacute;nimo &amp;ndash; uma sensa&amp;ccedil;&amp;atilde;o estranha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;Eacute; claro que nem Milos Forman ensandeceu nem Os Fantasmas de Goya s&amp;atilde;o assim t&amp;atilde;o penosos. O que digo &amp;eacute; que esperava mais; pelo menos tanto como Forman j&amp;aacute; tinha sido capaz. Os cr&amp;eacute;ditos do filme s&amp;atilde;o epis&amp;oacute;dicos e at&amp;eacute; pontuais. Lembro-me de tr&amp;ecirc;s cenas em que a m&amp;atilde;o de Forman se nota poderosamente. Uma &amp;eacute; o interrogat&amp;oacute;rio da jovem e devota In&amp;eacute;s Bilbat&amp;uacute;a pelo Santo Of&amp;iacute;cio. Outra &amp;eacute; o talentos&amp;iacute;ssimo jantar em casa dos Bilbat&amp;uacute;a &amp;ndash; pai, m&amp;atilde;e e irm&amp;atilde;os &amp;ndash;, que administram a Lorenzo, o inquisidor, a mesma medicina, provando que a tortura promove a confiss&amp;atilde;o da verdade e do disparate. E o fim tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; bom: um epit&amp;aacute;fio de Lorenzo, morto como matou, por uma vez e s&amp;oacute; uma digno de morrer (ou viver). Por aqui passa, ali&amp;aacute;s, o melhor de Os Fantasmas de Goya: a alegoria do oportunismo. As revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es devoram os seus filhos e disso sabem os franceses melhor do que ningu&amp;eacute;m. O longevo herdeiro de Torquemada tornar-se-ia o executor mais fiel de Robespierre. Num caso e noutro, com igual cinismo e mau car&amp;aacute;cter. Isso, Forman consegue demonstrar. Mas, convenhamos, n&amp;atilde;o &amp;eacute; novo nem &amp;eacute; &amp;uacute;nico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;H&amp;aacute; um momento em que Goya &amp;ndash; pintor do rei &amp;ndash; faz o retrato do inquisidor. Basta olh&amp;aacute;-lo demoradamente para perceber que um g&amp;eacute;nio n&amp;atilde;o se imita. Suspeito que Goya jamais pintaria aquele Bardem. E como eu acredito que Deus est&amp;aacute; nos detalhes, este detalhe confirmou o resto. Digamos que a inspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Forman n&amp;atilde;o foi ajudada por Goya.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=343365" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Born to be alive</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/09/01/Born-to-be-alive.aspx</link><pubDate>Sat, 01 Sep 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:327700</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>5</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/327700.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=327700</wfw:commentRss><description>O ano do cinema tem 11 meses. Agosto &amp;eacute; um caso &amp;agrave; parte: estreias s&amp;atilde;o poucas, festivais n&amp;atilde;o h&amp;aacute;, ciclos ainda menos. Mercados ex&amp;iacute;guos &amp;ndash; pa&amp;iacute;ses ex&amp;iacute;guos, diria Adriano Moreira &amp;ndash; n&amp;atilde;o d&amp;atilde;o p&amp;rsquo;ra mais. Em chegando a vida normal, a fome &amp;eacute; tanta que o apetite tergiversa. Foi o que me aconteceu. J&amp;aacute; devia saber que a silly season n&amp;atilde;o &amp;eacute; s&amp;oacute; jornal&amp;iacute;stica. As fitas dispon&amp;iacute;veis s&amp;atilde;o, regra geral, com&amp;eacute;dias idiotas, terrores sem nexo e uma (pequena) profus&amp;atilde;o de obras B a que, em condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es normais, n&amp;atilde;o prestar&amp;iacute;amos aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;Decidi, portanto, ver o primeiro filme de ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o que aparecesse (ou parecesse). D&amp;aacute; pelo t&amp;iacute;tulo de A Face Oculta de Mr. Brooks. Um flop.&lt;br /&gt;Com todo o respeito, h&amp;aacute; actores que n&amp;atilde;o me convencem nem me comovem, mesmo quando, num filme ou noutro, conheceram dias de gl&amp;oacute;ria. Kevin Costner &amp;eacute; um deles: tem pinta de ma&amp;ccedil;ador profissional ou de profissional ma&amp;ccedil;ador, o que n&amp;atilde;o sendo a mesma coisa vai dar ao mesmo, mais coisa menos coisa. &amp;Eacute; bastante insosso. Nem deslustra nem marca. &amp;Eacute; mono: mon&amp;oacute;dico, mon&amp;oacute;tono e monoc&amp;oacute;rdico. Se Costner, apesar das Dan&amp;ccedil;as com Lobos, j&amp;aacute; era uma premoni&amp;ccedil;&amp;atilde;o, William Hurt, apesar do Turista Acidental, foi a confirma&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute; certo, certinho, impec, impec&amp;aacute;vel, impecavelzinho. Mas se a luz estiver apagada, n&amp;atilde;o provoca saudades. Acresce que, no filme, Hurt &amp;eacute; o &amp;lsquo;grilo falante&amp;rsquo; de um Costner com dupla identidade. Do ponto de vista da realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o para esta personagem basicamente invis&amp;iacute;vel &amp;eacute; torn&amp;aacute;-la vis&amp;iacute;vel. Resultado: Hurt est&amp;aacute; sempre onde n&amp;atilde;o est&amp;aacute; e a frequ&amp;ecirc;ncia da brincadeira torna o filme (demasiado) irreal.&lt;br /&gt;O resto tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o &amp;eacute; brilhante. Sem matar a curiosidade, aqui ficam os &amp;oacute;bices: a compuls&amp;atilde;o assassina &amp;eacute; bem explicada mas o comparsa ocasional &amp;eacute; mais do que tosco; o paralelo com uma Demi Moore imprevisivelmente pol&amp;iacute;cia podia ser um fil&amp;atilde;o mas perde-se nas varia&amp;ccedil;&amp;otilde;es da hist&amp;oacute;ria dela; a teoria de heran&amp;ccedil;a gen&amp;eacute;tica &amp;ndash; &amp;agrave; volta da filha de Costner &amp;ndash; acaba por ser um pretensiosismo intelectual. &lt;br /&gt;Salvou-me um c&amp;uacute;mplice. No dia seguinte, um amigo perguntou-me se eu j&amp;aacute; tinha visto o terceiro Bourne, ou seja, o Ultimato Bourne. Respondi-lhe que estava &amp;agrave; espera que estreasse; e ele riu. J&amp;aacute; tinha arranjado uma qualquer &amp;lsquo;maneira&amp;rsquo; &amp;ndash; informal ou inform&amp;aacute;tica &amp;ndash; de o ver. Achei melhor nem perguntar qual. S&amp;oacute; tenho a dizer que vale absolutamente a pena.&lt;br /&gt;Come&amp;ccedil;o pelo princ&amp;iacute;pio. Eu gosto dos livros de Robert Ludlum. &amp;Eacute; um g&amp;eacute;nero muitos furos abaixo de Le Carr&amp;eacute;, e uns tantos acima de Forsyth. N&amp;atilde;o &amp;eacute; que escreva especialmente bem; o ponto &amp;eacute; que conta hist&amp;oacute;rias viciosamente bem. A literatura de espionagem &amp;eacute;, como se sabe, uma v&amp;iacute;tima colateral da liberdade: verdadeiros espi&amp;otilde;es eram os da Guerra Fria. Para combater o desemprego, os autores reconverteram os her&amp;oacute;is &amp;ndash; meteram-nos no meio do terrorismo e nem sempre a passagem de Moscovo para Tripoli foi feliz. Depois, viraram cibernautas, piratas tecno, alter-mundialistas rom&amp;acirc;nticos ou videovigilantes sinistros. Como o inimigo &amp;eacute; difuso, h&amp;atilde;o-de reparar que as novas hist&amp;oacute;rias n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o exactamente l&amp;oacute;gicas. O filme &amp;eacute; cauteloso: quando Ludlum criou Bourne ainda W. andava no &amp;aacute;lcool e Brejnev presidia &amp;ndash; sabe-se l&amp;aacute; se vivo, empalhado ou morto &amp;ndash; aos desfiles da Pra&amp;ccedil;a Vermelha. O pr&amp;oacute;prio Ultimato Bourne &amp;eacute; uma mera homenagem. O livro foi escrito em 1990 e o filme estreia em 2007. Qualquer semelhan&amp;ccedil;a, tirando algumas, &amp;eacute; uma coincid&amp;ecirc;ncia. &lt;br /&gt;Paul Greengrass &amp;ndash; o realizador &amp;ndash; agiu em conformidade. Confesso a minha predilec&amp;ccedil;&amp;atilde;o: Greengrass &amp;eacute; um excelente realizador de ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o, filma como quem faz reportagens, tem ades&amp;atilde;o &amp;agrave; realidade, escolhe a rua como cen&amp;aacute;rio, parece que est&amp;aacute; sempre em directo &amp;ndash; &amp;eacute;, em certo sentido, documental. Come&amp;ccedil;ou por escrever para televis&amp;atilde;o e construiu uma reputa&amp;ccedil;&amp;atilde;o: a sua marca nota-se no Spycatcher, agiganta-se em Omagh, &amp;eacute; vibrante em Bloody Sunday e consegue um milagre de sobriedade em United 93, um grande filme que teve menos p&amp;uacute;blico do que merecia. Neste Ultimato Bourne, tudo o que depende do realizador &amp;eacute; simplesmente trepidante.&lt;br /&gt;At&amp;eacute; fa&amp;ccedil;o um par&amp;aacute;grafo para salientar o que depende dele: &amp;eacute; um g&amp;eacute;nio a manipular o zoom; diverte-se (e diverte-nos) com a hand-&#x7;-held camera, tornando definitivamente realistas as cenas, as pessoas e as inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Recomendo uma aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o especial a duas &amp;lsquo;persegui&amp;ccedil;&amp;otilde;es&amp;rsquo; &amp;ndash; uma na esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Waterloo e outra, ainda mais incr&amp;iacute;vel, em Tanger, indo pelo souk dentro e passando a uns metros dos canh&amp;otilde;es portugueses, na cidade que Paul Bowles fez imortal (mas que se arrasta mortalmente h&amp;aacute; umas d&amp;eacute;cadas).&lt;br /&gt;&amp;Eacute; esse, precisamente, o terceiro m&amp;eacute;rito do filme: o seu cosmopolitismo original. A ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o completamente speedada aterra em Londres, levanta para Moscovo, almo&amp;ccedil;a em Turim, acontece em Madrid, adormece em Paris e de Tanger j&amp;aacute; falei. Mas n&amp;atilde;o h&amp;aacute; vest&amp;iacute;gios de postalinho tur&amp;iacute;stico. Bourne &amp;eacute; um globetrotter e vai direito ao assunto. &amp;Eacute; o que conv&amp;eacute;m ao espectador. &lt;br /&gt;O preconceito da ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; de tal modo evidente que faz esquecer a deliberada simplicidade do argumento. N&amp;atilde;o &amp;eacute; pesado, n&amp;atilde;o &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil nem &amp;eacute; especialmente consistente. Bourne continua &amp;agrave; procura da identidade; e continua a ser tra&amp;iacute;do na CIA (a&amp;iacute; n&amp;atilde;o h&amp;aacute; nada a fazer porque, al&amp;eacute;m dos erros, a CIA sofre da patologia da superpot&amp;ecirc;ncia que sobra e carrega com o mundo &amp;agrave;s costas). Mas num ponto o filme &amp;eacute; intrigante e preocupante. Greengrass leva at&amp;eacute; &amp;agrave; caricatura a parafern&amp;aacute;lia de meios de escuta, detec&amp;ccedil;&amp;atilde;o, localiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, vigil&amp;acirc;ncia e persegui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. O arsenal torna a privacidade um facto meramente residual. Empreg&amp;aacute;-lo para melhores fins ou p&amp;ocirc;-lo em sinistras m&amp;atilde;os &amp;eacute; a &amp;iacute;nfima dist&amp;acirc;ncia que separa a tirania da liberdade (ou o uso e o abuso). Falta dizer que Matt Damon esmaga. Por alguma raz&amp;atilde;o a Forbes diz que n&amp;atilde;o &amp;eacute; um subprime do cinema. Pelo contr&amp;aacute;rio: &amp;eacute; o investimento mais seguro que um est&amp;uacute;dio pode fazer. Por cada d&amp;oacute;lar que cobra, rende 29. A Jolie, por exemplo, s&amp;oacute; gera metade dessa riqueza (e ainda dizem que o capitalismo n&amp;atilde;o &amp;eacute; equitativo). &lt;br /&gt;E pronto: o Ver&amp;atilde;o est&amp;aacute;-se a acabar e Ultimato Bourne &amp;eacute; um &amp;oacute;ptimo regresso &amp;agrave; vida real. In a theatre near you a 20 de Setembro. &lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=327700" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Os livros que Zita edita</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/07/07/Os-livros-que-Zita-edita.aspx</link><pubDate>Sat, 07 Jul 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:280789</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>14</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/280789.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=280789</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Ainda n&amp;atilde;o li as mem&amp;oacute;rias de Zita Seabra mas uma coisa eu sei &amp;ndash; a vida dela como editora &amp;eacute; certamente mais divertida (e entusiasmante) do que a vida pret&amp;eacute;rita &amp;ndash; a de militante comunista.&lt;br /&gt;Sou um consumidor frequente da Al&amp;ecirc;theia. Num pa&amp;iacute;s que l&amp;ecirc; pouco, a inicia&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Zita Seabra no capitalismo fez-se num mercado de risco. Tudo indica que lan&amp;ccedil;ar uma editora com identidade &amp;ndash; e qualidade &amp;ndash; foi uma aposta ganha. Para citar apenas dois exemplos de 2007, Zita Seabra trouxe aos leitores ind&amp;iacute;genas &amp;ndash; assim diria Vasco Pulido Valente &amp;ndash; dois intelectuais cuja divulga&amp;ccedil;&amp;atilde;o parava em Madrid, como tantas outras coisas param.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um &amp;eacute; Paul Johnson: s&amp;oacute; os leitores portugueses do Spectator o conheceriam. &amp;Eacute; um t&amp;iacute;pico conservador ingl&amp;ecirc;s, o que significa que &amp;eacute; um at&amp;iacute;pico conservador na Europa. Diria mesmo mais: &amp;eacute; um intelectual conservador, esp&amp;eacute;cie abundante para l&amp;aacute; da Mancha mas ex&amp;oacute;tica no continente. Zita Seabra editou os Criadores; eu teria preferido uma vers&amp;atilde;o portuguesa de Intelectuals, um fino e nada t&amp;iacute;mido retrato das ideias &amp;ndash; e das vidas &amp;ndash; dos intelectuais &amp;lsquo;progressistas&amp;rsquo;. Nunca mais esqueci o pequeno cap&amp;iacute;tulo dedicado a Marx e &amp;agrave;s suas malfeitorias dom&amp;eacute;sticas. Mas n&amp;atilde;o se pense que o panfleto &amp;eacute; a sua perdi&amp;ccedil;&amp;atilde;o: qualquer livro de Johnson &amp;eacute; opinativo, culto, documentado e, em podendo, &amp;aacute;cido. Por exemplo, o excelente Modern Times &amp;ndash; uma hist&amp;oacute;ria do s&amp;eacute;culo XX, dos &amp;lsquo;vintes aos oitentas&amp;rsquo;. Um calhama&amp;ccedil;o e peras onde, naturalmente, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; um cap&amp;iacute;tulo sobre Portugal mas h&amp;aacute; um cap&amp;iacute;tulo sobre a Guerra Civil de Espanha. Ficou na minha mem&amp;oacute;ria o detalhe de uma observa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Johnson: a prop&amp;oacute;sito dos regimes autorit&amp;aacute;rios da &amp;eacute;poca, cita Salazar, qualifica os seus primeiros governos como &amp;lsquo;ditadura de acad&amp;eacute;micos&amp;rsquo; &amp;ndash; n&amp;atilde;o &amp;eacute; falso &amp;ndash; e conclui, r&amp;aacute;pido, que ele foi o &amp;uacute;nico ditador europeu a ser derrubado n&amp;atilde;o pela revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o pela conspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o pela guerra, mas por uma modest&amp;iacute;ssima cadeira. De Johnson estamos falados. Ou por outra, ainda recomendo as suas duas hist&amp;oacute;rias religiosas. Uma porque a li: History of the Jews. Outra porque boas fontes confirmam o talento: History of Christianity. Se Zita Seabra decidisse publicar um ou outro, prestava um bom servi&amp;ccedil;o &amp;agrave; cultura e ao esp&amp;iacute;rito cr&amp;iacute;tico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Coincid&amp;ecirc;ncia das coincid&amp;ecirc;ncias, esta semana aconteceu-me outro bom &amp;lsquo;encontro&amp;rsquo; com Zita Seabra. N&amp;atilde;o no Parlamento nem em qualquer campanha. Prosaicamente, foi na livraria: Zita Seabra n&amp;atilde;o estava l&amp;aacute;, mas estava um livro que, inesperadamente, ela editou. Chama-se Cinco Dias em Londres e o autor &amp;eacute; John Lukacs.&lt;br /&gt;Fiquei duas vezes feliz. Descobri Lukacs no Ver&amp;atilde;o passado, li-o em brasileiro e v&amp;aacute;rias vezes pensei que se tivesse uma editora, n&amp;atilde;o hesitava. Ainda por cima, no domingo, quando passei pela livraria, tinha precisamente acabado de ler outro livro de Lukacs, mais antigo e decisivo na sua carreira de historiador, O Hitler da Hist&amp;oacute;ria. Cito o t&amp;iacute;tulo assim, porque o li (mais uma vez) em &amp;lsquo;brasileiro&amp;rsquo; (ou em Portugu&amp;ecirc;s escrito por brasileiros).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como j&amp;aacute; se percebeu, fiquei fascinado por Lukacs. Nasceu h&amp;uacute;ngaro e tornou-se americano. Regeu Hist&amp;oacute;ria Contempor&amp;acirc;nea em Columbia e Princeton. Tinha uma m&amp;atilde;e cat&amp;oacute;lica e um pai judeu. Nutre um &amp;oacute;dio especial pelo populismo. Segue Tocqueville na previs&amp;atilde;o dos riscos demag&amp;oacute;gicos dos regimes p&amp;oacute;s-aristocr&amp;aacute;ticos. Considera Churchill o mais interessante, denso e magn&amp;iacute;fico homem de Estado do s&amp;eacute;culo XX. N&amp;atilde;o tem complac&amp;ecirc;ncia com o neo-&#x7;-conservadorismo. No essencial, valida a pol&amp;iacute;tica social cat&amp;oacute;lica. Considera Burke inspirador e, por prezar os valores da estabilidade e do equil&amp;iacute;brio, &amp;eacute; cr&amp;iacute;tico da vis&amp;atilde;o da Am&amp;eacute;rica sobre o M&amp;eacute;dio Oriente. Estas s&amp;atilde;o as opini&amp;otilde;es de um conservador idiossincr&amp;aacute;tico: irrepet&amp;iacute;vel e n&amp;atilde;o catalog&amp;aacute;vel. Mas tendo opini&amp;otilde;es pol&amp;iacute;ticas que n&amp;atilde;o esconde, o trabalho de Lukacs &amp;eacute; hist&amp;oacute;ria, f&amp;aacute;-lo primorosamente e especializou-se no per&amp;iacute;odo da II Grande Guerra.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Falemos, ent&amp;atilde;o, do livro que Zita Seabra editou e do outro que acabei de ler (1). Cinco Dias em Londres &amp;eacute; um soberbo exerc&amp;iacute;cio de hist&amp;oacute;ria &amp;lsquo;concentrada&amp;rsquo;. &amp;Eacute; o relato minucioso de um m&amp;ecirc;s &amp;ndash; nem tanto &amp;ndash; importante na vida de Churchill. Recorrendo &amp;agrave;s fontes mais pormenorizadas e interpretando os factos com fulgurante lucidez, Lukacs escreveu um livro &amp;lsquo;focado&amp;rsquo; nos primeiros dias de Churchill como primeiro-ministro. Os dias de Maio de 1940. Um tempo em que Churchill teve, contra si, quase tudo e quase todos. A desconfian&amp;ccedil;a do establishment e a heran&amp;ccedil;a dos apaziguadores. A imprepara&amp;ccedil;&amp;atilde;o militar e a solid&amp;atilde;o ideol&amp;oacute;gica. A frieza (pol&amp;iacute;tica) de muitos conservadores e o cepticismo (de classe) de muitos trabalhistas. Os medos de Chamberlain e as manhas de Halifax. A incompreens&amp;atilde;o da Am&amp;eacute;rica, a capitula&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos belgas e dos holandeses, o falhan&amp;ccedil;o dos franceses. A esperan&amp;ccedil;a na sorte &amp;ndash; o erro da campanha da R&amp;uacute;ssia &amp;ndash; e o valor pr&amp;oacute;prio da tenacidade. &amp;Eacute;, simplesmente, um livro luminoso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O Hitler da Hist&amp;oacute;ria &amp;eacute; igualmente copioso em detalhes, mas tem outra natureza. N&amp;atilde;o &amp;eacute; uma biografia de Hitler. &amp;Eacute; uma revis&amp;atilde;o das principais quest&amp;otilde;es que os historiadores souberam (ou n&amp;atilde;o) resolver sobre Hitler. Lukacs discorre amplamente sobre os principais acertos (e tamb&amp;eacute;m erros) dos bi&amp;oacute;grafos de Hitler. &amp;Eacute; moderadamente elogioso com Fest, cr&amp;iacute;tico com Nolte, parecido com Kersaw, admirativo com Zitelmann. Vai a fundo na demonstra&amp;ccedil;&amp;atilde;o de como os principais revisionistas s&amp;atilde;o fraudulentos e manipuladores. Coloca quest&amp;otilde;es terrivelmente pertinentes para tentar perceber o que aconteceu na Alemanha a partir de 1918.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A quest&amp;atilde;o central e decisiva: Hitler era um reaccion&amp;aacute;rio ou um revolucion&amp;aacute;rio? Lukacs sustenta que era um revolucion&amp;aacute;rio. A partir da&amp;iacute;, detalha os mecanismos que usou para usar as institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es que depois destruiu. Demora-se na sua rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o, utilit&amp;aacute;ria e desprez&amp;iacute;vel, com as elites militares e religiosas. N&amp;atilde;o foge &amp;agrave; mat&amp;eacute;ria sens&amp;iacute;vel &amp;ndash; o grau de ades&amp;atilde;o e consci&amp;ecirc;ncia dos alem&amp;atilde;es em rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o a Hitler. Circunscreve o momento em que ele percebeu que &amp;laquo;nenhum dos lados est&amp;aacute; em condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de vencer o outro&amp;raquo;, ou seja, o momento em que Hitler percebeu que os mil anos do Reich n&amp;atilde;o seriam mais do que alguns (e da&amp;iacute; n&amp;atilde;o tirou consequ&amp;ecirc;ncias). Um livro denso e te&amp;oacute;rico que ajuda a explicar um horror &amp;lsquo;inexplic&amp;aacute;vel&amp;rsquo;.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=280789" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>O amor segundo Constance</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/06/30/O-amor-segundo-Constance.aspx</link><pubDate>Sat, 30 Jun 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:275265</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>3</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/275265.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=275265</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o &amp;eacute; para embandeirar em arco: o filme &amp;eacute; bom &amp;ndash; ou por outra, o livro &amp;eacute; &amp;oacute;ptimo &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; retumbante nem memor&amp;aacute;vel. Estou a falar de Lady Chatterley, de Pascale Ferran. &lt;br /&gt;A ilus&amp;atilde;o de &amp;oacute;ptica &amp;eacute; proporcional &amp;agrave;s esperan&amp;ccedil;as de Paris no cinema residente. Explico-me: h&amp;aacute; muitos anos que o cinema franc&amp;ecirc;s entrou em greve de talento e crise de popularidade. Uma Binoche e um Reno s&amp;oacute; amenizam a dor mas n&amp;atilde;o quebram o decl&amp;iacute;nio. A tela tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; o reflexo da l&amp;iacute;ngua. Prova disso s&amp;atilde;o os espanh&amp;oacute;is: n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m jeito nenhum para se expressar em qualquer l&amp;iacute;ngua estrangeira, continuam a &amp;lsquo;dobrar&amp;rsquo; inenarravelmente os filmes e, no entanto, j&amp;aacute; assentaram pra&amp;ccedil;a no cinema global. &amp;Eacute; uma tend&amp;ecirc;ncia que vai de par com a espantosa projec&amp;ccedil;&amp;atilde;o do castelhano na Am&amp;eacute;rica. Aos franceses caiu em sorte outro destino: a francofonia tornou-se perif&amp;eacute;rica e a francofilia j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; um fen&amp;oacute;meno maci&amp;ccedil;o &amp;ndash; mesmo as elites que a professam parecem residuais, excepto c&amp;aacute;. Nestas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es, &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil impor um cinema com identidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pascale Ferran levou a sua adapta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de D. H. Lawrence &amp;agrave; Academia dos C&amp;eacute;sares e recolheu cinco. Percebe-se o esfor&amp;ccedil;o: Lady Chatterley est&amp;aacute; acima da m&amp;eacute;dia do cinema franc&amp;ecirc;s mais recente. At&amp;eacute; se pode compreender este patriotismo selectivo: o romance n&amp;atilde;o &amp;eacute; franc&amp;ecirc;s mas o filme &amp;eacute; uma vis&amp;atilde;o francesa de amores ingleses. S&amp;oacute; com benevol&amp;ecirc;ncia quanto aos C&amp;eacute;sares &amp;ndash; tamb&amp;eacute;m os houve p&amp;eacute;ssimos &amp;ndash; e quanto aos candidatos &amp;ndash; h&amp;aacute; safras que n&amp;atilde;o encantam &amp;ndash; &amp;eacute; que pode adivinhar-se, para esta fita, uma carreira internacional.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A favor desta vers&amp;atilde;o de Lady Chatterley v&amp;atilde;o tr&amp;ecirc;s pontos que posso confirmar e um outro que n&amp;atilde;o posso infirmar. &amp;Agrave; cabe&amp;ccedil;a: Marina Hands &amp;eacute; uma deslumbrante e competente Constance Chatterley, uma jovem das classes &amp;lsquo;possidentes&amp;rsquo; &amp;ndash; jarg&amp;atilde;o marxista em rarefac&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; que descobre o sexo (e o afecto) atrav&amp;eacute;s de Parkin, o &amp;lsquo;caseiro&amp;rsquo; &amp;ndash; jarg&amp;atilde;o reaccion&amp;aacute;rio com problemas de ades&amp;atilde;o &amp;agrave; realidade &amp;ndash; que se transforma primeiro no seu amante e, a seguir, numa esp&amp;eacute;cie de c&amp;uacute;mplice infiel ou namorado fiel, consoante se prefira. Outro talento deste filme &amp;eacute; a abund&amp;acirc;ncia majest&amp;aacute;tica da imagem (ou da imagem sobre a natureza). Pascale Ferran n&amp;atilde;o se co&amp;iacute;be nem se cont&amp;eacute;m: o bosque, o rio, a flor, a folha, a chuva e o sol s&amp;atilde;o o cen&amp;aacute;rio principal de um romance que raramente abandona os dom&amp;iacute;nios de uma casa de campo inglesa. A pr&amp;oacute;pria casa &amp;eacute; acess&amp;oacute;ria; o adult&amp;eacute;rio nasce em plena natureza e &amp;eacute; l&amp;aacute; que estabelece resid&amp;ecirc;ncia. H&amp;aacute; momentos em que o filme literalmente p&amp;aacute;ra. S&amp;atilde;o momentos em que se transforma em pintura. N&amp;atilde;o deve ser por acaso que Pascale Ferran, nas suas entrevistas, confessa ter-se inspirado no Van Gogh de Pialat. Enfim, h&amp;aacute; outra coisa inspiradora neste filme. Vai a cr&amp;eacute;dito do livro mas &amp;eacute; pudicamente revelada no filme. A hist&amp;oacute;ria de Lady Chatterley, tal qual D. H. Lawrence a escreveu, era libertadora e modernista. A Constance acontecera uma vida muito infeliz; Parkin vai ajud&amp;aacute;-la a perceber o corpo e, provavelmente, a obsess&amp;atilde;o (ou a paix&amp;atilde;o). &amp;Eacute; preciso recuar &amp;agrave; Inglaterra que sucedeu &amp;agrave; Rainha Vit&amp;oacute;ria e &amp;agrave;s bondades levemente fabianas sobre os conceitos de classe, para localizar a hist&amp;oacute;ria. &amp;Eacute; nesse territ&amp;oacute;rio (e com esse simplismo) que a hist&amp;oacute;ria se desenvolve. O m&amp;eacute;rito de Pascale Ferran &amp;eacute; filmar naturalmente, e em certa medida defensivamente, tudo isso que n&amp;atilde;o &amp;eacute; nada pouco na vida de tr&amp;ecirc;s almas &amp;ndash; ela, ele e o amante.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;H&amp;aacute; quem atribua a Lady Chatterley uma exacta fidelidade ao livro. Isso, n&amp;atilde;o sei: h&amp;aacute; muitos anos li a vers&amp;atilde;o publicada e &amp;ndash; creio &amp;ndash; censurada. Mas o filme baseia-se noutra vers&amp;atilde;o, entre as v&amp;aacute;rias que D. H. Lawrence fez. Por exemplo: lembrava-me de um amante que era militar e prolixo; na sala de cinema descobri um amante que era &amp;lsquo;guarda de ca&amp;ccedil;a&amp;rsquo; e bastante calado. &lt;br /&gt;Contra esta vers&amp;atilde;o de Lady Chatterley h&amp;aacute;, no entanto, &amp;oacute;bices consider&amp;aacute;veis. O primeiro de todos &amp;eacute; que o espectador tem de se munir de uma b&amp;aacute;rbara paci&amp;ecirc;ncia. S&amp;atilde;o cento e setenta (!) minutos de filme &amp;ndash; o que &amp;eacute; manifestamente um exagero.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E como a ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; bastante pessoal, o enfado constitui uma probabilidade razo&amp;aacute;vel. Por outro lado, a adapta&amp;ccedil;&amp;atilde;o demora-se em di&amp;aacute;logos que, de quando em quando, s&amp;atilde;o enervantes porque s&amp;atilde;o muito banais. E esta avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o at&amp;eacute; ser&amp;aacute; benigna: h&amp;aacute; mesmo di&amp;aacute;logos infantis, n&amp;atilde;o havendo sombra de crian&amp;ccedil;a na fita. O equil&amp;iacute;brio entre sensibilidade e intelig&amp;ecirc;ncia est&amp;aacute; longe de ser conseguido. Tenho a certeza que americanos ou ingleses teriam contado a mesma hist&amp;oacute;ria de outro modo. Basta recordar as Pontes de Madison County. N&amp;atilde;o &amp;eacute; um filme efervescente nem sequer evanescente. O ambiente tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; buc&amp;oacute;lico e &amp;iacute;ntimo. Mas o produto final era &amp;ndash; &amp;eacute; &amp;ndash; inesquecivelmente emocionante. Lady Chatterley ser&amp;aacute; bonito e &amp;agrave;s vezes belo. Mas emocionante n&amp;atilde;o achei que fosse. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O detalhe ideol&amp;oacute;gico &amp;ndash; no livro n&amp;atilde;o &amp;eacute; t&amp;atilde;o detalhe como isso &amp;ndash; tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o &amp;eacute; especialmente iluminante. O marido de Constance tem uma mina, os mineiros vivem abaixo de c&amp;atilde;o, chega a haver uma conversa pueril sobre o socialismo e por um triz n&amp;atilde;o acontece uma &amp;lsquo;trai&amp;ccedil;&amp;atilde;o de classe&amp;rsquo;. Mas &amp;eacute; s&amp;oacute; isto. E isto, sendo escasso, parece dispens&amp;aacute;vel. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fui ver Lady Chatterley com uma amiga que &amp;eacute; adoravelmente cosmopolita e pragm&amp;aacute;tica. Resultado: detestou, se &amp;eacute; que n&amp;atilde;o adormeceu. Eu, ainda assim, sou mais tolerante e gostei. Mas n&amp;atilde;o adorei. Os cr&amp;iacute;ticos mandam-nos a correr ver Lady Chatterley e eu percebo porqu&amp;ecirc;. Mas devo advertir sobre os defeitos do filme em nome da defesa do consumidor. &lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=275265" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Not&#237;cias de outras Lisboas</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/06/23/Not_ED00_cias-de-outras-Lisboas.aspx</link><pubDate>Sat, 23 Jun 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:269135</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>5</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/269135.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=269135</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Lisboa deve mais ao Manuel Reis do que a muitos ministros, vereadores ou at&amp;eacute; presidentes. Clarificando: Manuel Reis fez mais pela modernidade de Lisboa do que v&amp;aacute;rias C&amp;acirc;maras juntas e variadas.&lt;br /&gt;Sim, a modernidade. No m&amp;oacute;dico sentido de, em Lisboa, se fazerem projectos com gosto, arte, sofistica&amp;ccedil;&amp;atilde;o e esp&amp;iacute;rito do tempo, Manuel Reis &amp;eacute; respons&amp;aacute;vel por quatro ou cinco exemplos que esticaram, e esticaram muito, o nosso &amp;iacute;ndice de cosmopolitismo. Primeiro &amp;ndash; se bem me lembro &amp;ndash; foi a Juan Gris, na Travessa da Queimada. Depois foram o Fr&amp;aacute;gil e o Pap&amp;rsquo; A&amp;ccedil;orda, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o sei por que ordem. A seguir, a Loja da Atalaia. E mais o Lux e a Bica do Sapato e o que mais h&amp;aacute;-de chegar. Um culto do design como liberdade ordenadora &amp;ndash; parece uma contradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o mas n&amp;atilde;o &amp;eacute;. Um sentido da est&amp;eacute;tica como exibi&amp;ccedil;&amp;atilde;o pura, depurada &amp;ndash; ou despojada &amp;ndash; de conceptualiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o. O elogio do profissionalismo, h&amp;aacute;bito t&amp;atilde;o pouco frequente no &amp;lsquo;desenrasca&amp;rsquo; portugu&amp;ecirc;s. Uma certa ideia de requinte nos produtos que se oferecem, sejam m&amp;oacute;veis, sejam antiguidades, sejam menus, sejam mercearias ou outras coisas assim. Tudo isto &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel e existe no que Manuel Reis faz. E se ele foi capaz, mais gente h&amp;aacute;-de ser. E &amp;eacute;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mais umas notas que n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o &amp;ndash; acho eu &amp;ndash; despiciendas. Os cem metros que v&amp;atilde;o do Lux &amp;agrave; Delidelux s&amp;atilde;o o deleite do que Lisboa podia ser desde a Expo at&amp;eacute; Alg&amp;eacute;s &amp;ndash; passe o exagero. &amp;Eacute; caso para dizer que um Manuel Reis vale por cem Administra&amp;ccedil;&amp;otilde;es do Porto de Lisboa. I mean: o conceito pretoriano que a APL tem do melhor territ&amp;oacute;rio da cidade &amp;ndash; a zona ribeirinha &amp;ndash; &amp;eacute; uma apropria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de soberania e um desastre nos resultados. O que poderia ser a mais fant&amp;aacute;stica zona urbana de uso comum, express&amp;atilde;o de uma luz que &amp;eacute; &amp;uacute;nica e da &amp;lsquo;democratiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; do rio, &amp;eacute; uma linha incoerente com quil&amp;oacute;metros de dep&amp;oacute;sitos, armaz&amp;eacute;ns, entulhos, degrada&amp;ccedil;&amp;otilde;es e depreda&amp;ccedil;&amp;otilde;es, alguns intervalos banais e uns (poucos) espa&amp;ccedil;os de g&amp;eacute;nio. Ainda me lembro de quando a APL decidiu que a Bica do Sapato tinha de p&amp;ocirc;r umas vitrinas &amp;lsquo;transl&amp;uacute;cidas&amp;rsquo; &amp;ndash; e medonhas &amp;ndash; que, pura e simplesmente, a isolavam do rio. S&amp;oacute; na moleirinha da burocracia &amp;eacute; que estas coisas s&amp;atilde;o poss&amp;iacute;veis. Ou no Estado das capelinhas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A outra coisa que Manuel Reis provou, sem for&amp;ccedil;ar, &amp;eacute; que o mercado &amp;ndash; e n&amp;atilde;o o Estado &amp;ndash; &amp;eacute; o verdadeiro promotor de uma esp&amp;eacute;cie de fus&amp;atilde;o social. Se o conceito n&amp;atilde;o metesse medo, percebia-se melhor: basta ver e saber ler a espantosa capacidade que os projectos de Manuel Reis t&amp;ecirc;m para atrair almas inconcili&amp;aacute;veis, tribos inimagin&amp;aacute;veis, g&amp;eacute;neros inimit&amp;aacute;veis, estilos irredut&amp;iacute;veis e atitudes imperd&amp;iacute;veis. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; melhor indicador de pluralismo social. Tudo isto, note-se, por conta e risco de Manuel Reis e dos seus s&amp;oacute;cios. &amp;Eacute; o risco deles que fez andar o neg&amp;oacute;cio; n&amp;atilde;o &amp;eacute; o subs&amp;iacute;dio nem a pedinchice. Ali&amp;aacute;s, algo me diz que Manuel Reis s&amp;oacute; pede ao Estado, sejam Governos, C&amp;acirc;maras ou Administra&amp;ccedil;&amp;otilde;es, o mais b&amp;aacute;sico: que n&amp;atilde;o atrapalhem.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Entendamo-nos. H&amp;aacute; muitos anos que me apetecia fazer este elogio da &amp;lsquo;obra urbana&amp;rsquo; de Manuel Reis. Conhe&amp;ccedil;o-o e admiro-o. Mas passam meses sem o ver (e agora ainda mais). Nunca me pediu nada e o que eu lhe devo s&amp;atilde;o alguns bons conselhos de design. Nunca lhe perguntei em quem votava, nem se votava. Tenho a fundada suspeita que a resposta seria uma decep&amp;ccedil;&amp;atilde;o: n&amp;atilde;o me parece que navegue pelas minhas &amp;aacute;guas. &amp;Eacute;-me indiferente. Quando soube que ele, o Alberto Caetano e B&amp;aacute;rbara Coutinho iam fazer o Museu do Design (colec&amp;ccedil;&amp;atilde;o Capelo) fiquei resolutamente feliz. Com a crise na C&amp;acirc;mara nem sei no que isso deu. Mas seria bom que desse em alguma coisa, tivesse princ&amp;iacute;pio, meio e fim. Porque eles &amp;ndash; no caso, ele, Alberto Caetano e B&amp;aacute;rbara Coutinho &amp;ndash; s&amp;atilde;o uma garantia de sensibilidade: n&amp;atilde;o assinam qualquer coisa e preferem a coincid&amp;ecirc;ncia entre a fama e o proveito dos seus projectos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Falta explicar o princ&amp;iacute;pio da oportunidade. Falar de Manuel Reis e de Lisboa agora, porqu&amp;ecirc;? Porque h&amp;aacute; elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es para a C&amp;acirc;mara, diriam mentes tortuosas e esp&amp;iacute;ritos conspirativos. Nada mais irreal &amp;ndash; nem sei quem me disse, mas algu&amp;eacute;m me disse que o Manuel Reis faz parte da prolixa, e muito plutocrata lista de apoiantes de Ant&amp;oacute;nio Costa. A raz&amp;atilde;o &amp;eacute; muito mais prosaica. Ter&amp;ccedil;a-feira, a Bica do Sapato fez anos. Eu gostava de l&amp;aacute; ter ido mas n&amp;atilde;o consegui &amp;ndash; estava, por gosto e fun&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a ver o debate televisivo dos candidatos &amp;agrave; C&amp;acirc;mara. N&amp;atilde;o se pode ter tudo ao mesmo tempo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na v&amp;eacute;spera, tinha ido ver The Lovebirds, ao S&amp;atilde;o Jorge, na sess&amp;atilde;o de abertura do Lisbon Village. Um festival de cinema digital que &amp;eacute; uma tentativa &amp;ndash; uma oportunidade &amp;ndash; de explicar &amp;agrave; clientela o que o cinema, mais dia menos dia, vai ser.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fui porque gosto de cinema e n&amp;atilde;o me incomoda o digital. Tamb&amp;eacute;m fui porque &amp;agrave; frente deste Lisbon Village est&amp;aacute; um amigo meu (e mais uma equipa): Marco Espinheira. Por ali passa uma certa ideia (interessante) de ind&amp;uacute;stria cultural, uma certa rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o (descomprimida) entre cultura e mercado e um fort&amp;iacute;ssimo (e geracional) sentido de risco. Se o Lisbon Village pegar, Lisboa ser&amp;aacute; um bocadinho menos perif&amp;eacute;rica (o cinema portugu&amp;ecirc;s tamb&amp;eacute;m).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Entre outras coisas do programa apetece-&#x7;-me rever o 1900 de Bertolucci. S&amp;oacute; os italianos &amp;ndash; Visconti melhor do que ningu&amp;eacute;m &amp;ndash; s&amp;atilde;o capazes de aliar uma leitura (relativamente) marxista da hist&amp;oacute;ria a uma opulenta e (absolutamente) aristocr&amp;aacute;tica narra&amp;ccedil;&amp;atilde;o das personagens e dos ambientes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O filme da inaugura&amp;ccedil;&amp;atilde;o deixou-me embara&amp;ccedil;ado. S&amp;atilde;o v&amp;aacute;rias hist&amp;oacute;rias de amor passadas em Lisboa: umas entendem-se e t&amp;ecirc;m gra&amp;ccedil;a, outras n&amp;atilde;o se entendem de todo. Persiste, no cinema portugu&amp;ecirc;s, o velho problema do argumento. De The Lovebirds fica o (muito) comovente e (bastante) hilariante empr&amp;eacute;stimo de Fernando Lopes &amp;agrave; categoria dos actores. &amp;Eacute; um empr&amp;eacute;stimo divertido e conseguido. Tamb&amp;eacute;m fica o parto no t&amp;aacute;xi ou a imagem derradeira em que Maria Nobre Franco sai &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o se v&amp;ecirc; &amp;ndash; do hospital. Ficam momentos assim &amp;ndash; mas um filme &amp;eacute; mais do que alguns momentos assim. Mesmo quando ter&amp;aacute; sido feito em pouqu&amp;iacute;ssimo tempo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em todo o caso, a abertura foi melhor este ano e o S. Jorge &amp;ndash; que saudades do &amp;lsquo;gong&amp;rsquo;, do intervalo e do foyer &amp;ndash; estava cheio, mais cheio do que h&amp;aacute; um ano. H&amp;aacute; uns anos que se nota: qualquer coisa est&amp;aacute; a mudar na &amp;lsquo;procura&amp;rsquo; de cultura em Lisboa. &amp;Eacute; meio caminho andado para termos melhor &amp;lsquo;oferta&amp;rsquo;. &lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=269135" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Not&#237;cias de um Leste incerto</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/06/16/Not_ED00_cias-de-um-Leste-incerto.aspx</link><pubDate>Sat, 16 Jun 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:261930</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>3</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/261930.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=261930</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;H&amp;aacute; um mist&amp;eacute;rio inexplic&amp;aacute;vel na persistente inclina&amp;ccedil;&amp;atilde;o da &amp;lsquo;comunidade internacional&amp;rsquo; &amp;ndash; um eufemismo que esconde a balan&amp;ccedil;a de poder sob a sigla de institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es que se pretendem moderadoras &amp;ndash; para fabricar pa&amp;iacute;ses. O &amp;uacute;ltimo pa&amp;iacute;s invi&amp;aacute;vel que j&amp;aacute; est&amp;aacute; na sala de partos chama--se Kosovo. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os Balc&amp;atilde;s s&amp;atilde;o a fractura da Europa e s&amp;oacute; isso bastaria para tratar deles com elementares cuidados. Como a Europa &amp;eacute; incapaz de garantir a sua pr&amp;oacute;pria seguran&amp;ccedil;a, fica nas m&amp;atilde;os de quem providencia os meios de ataque e defesa. Foi Clinton quem decidiu o bombardeamento de Belgrado. Agora &amp;eacute; Bush quem determina a independ&amp;ecirc;ncia do Kosovo. No primeiro caso, invocava-se o fim do genoc&amp;iacute;dio. No segundo, proclama-se o in&amp;iacute;cio da liberdade. Mas repito &amp;ndash; no cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Europa, &amp;eacute; a Am&amp;eacute;rica que estabelece a lei (ou a falta dela) e a ordem (ou a desordem).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;Eacute; evidente que, na hist&amp;oacute;ria mais recente dos Balc&amp;atilde;s, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; inocentes. Talvez seja certo que haja culpados mais culpados do que outros. Sim, os s&amp;eacute;rvios chacinaram os mu&amp;ccedil;ulmanos; mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; verdade que os b&amp;oacute;snios tamb&amp;eacute;m se entretiveram a eliminar os cat&amp;oacute;licos e os ortodoxos? Sendo a hist&amp;oacute;ria escrita pelos vencedores, a S&amp;eacute;rvia perdeu quase tudo. A quest&amp;atilde;o, hoje, &amp;eacute; outra: os s&amp;eacute;rvios n&amp;atilde;o foram j&amp;aacute; suficientemente humilhados?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O Kosovo &amp;eacute; um pa&amp;iacute;s invi&amp;aacute;vel e a &amp;lsquo;comunidade internacional&amp;rsquo; sabe disso. A Grande Alb&amp;acirc;nia &amp;eacute; uma met&amp;aacute;fora hilariante de extrema mis&amp;eacute;ria e do crime mais organizado &amp;ndash; e a &amp;lsquo;comunidade internacional&amp;rsquo; n&amp;atilde;o o ignora. Pergunta-se: que tem o mundo a ganhar com um &amp;lsquo;pa&amp;iacute;s&amp;rsquo; que n&amp;atilde;o tem condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es econ&amp;oacute;micas m&amp;iacute;nimas para sobreviver sozinho? E pergunta-se depois: o que tem a Europa a ganhar com o despertar de um &amp;lsquo;Anschluss&amp;rsquo; alban&amp;ecirc;s, completamente perif&amp;eacute;rico para as principais pot&amp;ecirc;ncias mas suficientemente desestabilizador para a regi&amp;atilde;o? &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enfim, fa&amp;ccedil;am-se mais duas perguntas. Que sentido faz dar Estado, estatuto e bandeira a uma na&amp;ccedil;&amp;atilde;o isl&amp;acirc;mica no meio dos Balc&amp;atilde;s? Estando o mundo como est&amp;aacute; &amp;ndash; perigoso &amp;ndash; a Europa, no Kosovo, corre o s&amp;eacute;rio risco de se enganar nos aliados. E j&amp;aacute; agora, algu&amp;eacute;m tem d&amp;uacute;vidas que uma s&amp;oacute; pe&amp;ccedil;a que se mexa nos Balc&amp;atilde;s tem, obviamente, consequ&amp;ecirc;ncias regionais e internacionais? Basta pensar nas &amp;lsquo;rep&amp;uacute;blicas&amp;rsquo; russificadas que o Kremlin quer internacionalizar no seu antigo territ&amp;oacute;rio. Ter&amp;atilde;o, no caso do Kosovo, o precedente &amp;uacute;til (e inquietante). A Europa, nesta quest&amp;atilde;o, arrisca-se a criar v&amp;aacute;rios problemas e n&amp;atilde;o resolver nenhum.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Bush andou pela Europa &amp;lsquo;de c&amp;aacute;&amp;rsquo; e terminou na Europa &amp;lsquo;de l&amp;aacute;&amp;rsquo;. Enquanto se demorou na Alemanha e em It&amp;aacute;lia, n&amp;atilde;o faltaram as manifs hostis e as viol&amp;ecirc;ncias costumeiras. Quando passou por Praga, Tirana e S&amp;oacute;fia foi recebido com aplausos e agradecimentos. O que separa estas duas Europas? A hist&amp;oacute;ria &amp;ndash; nas suas constantes e nos seus factos. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quanto &amp;agrave; constante, devia ser evidente mas n&amp;atilde;o &amp;eacute;. Quanto mais um pa&amp;iacute;s &amp;lsquo;libertado&amp;rsquo; est&amp;aacute; perto da R&amp;uacute;ssia, mais amigo se faz da Am&amp;eacute;rica. Chama-se a isso procurar o melhor amigo em face da vizinhan&amp;ccedil;a inc&amp;oacute;moda (e imperial).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Menos seguida &amp;ndash; ou compreendida &amp;ndash; &amp;eacute; outra li&amp;ccedil;&amp;atilde;o do s&amp;eacute;c. XX. Para uma multid&amp;atilde;o de checos, h&amp;uacute;ngaros, b&amp;uacute;lgaros, polacos, romenos, eslovacos, eslovenos, croatas, b&amp;oacute;snios, at&amp;eacute; s&amp;eacute;rvios e ainda os let&amp;otilde;es, os est&amp;oacute;nios e os lituanos &amp;ndash; e uns milh&amp;otilde;es de alem&amp;atilde;es &amp;ndash; a II Guerra Mundial s&amp;oacute; acabou em 1989. Ou seja, s&amp;atilde;o na&amp;ccedil;&amp;otilde;es que passaram da resist&amp;ecirc;ncia aos nazis &amp;ndash; e, nalguns casos, de cumplicidade com eles &amp;ndash; para a resist&amp;ecirc;ncia aos comunistas &amp;ndash; e, nalguns casos, para a cumplicidade com eles. S&amp;atilde;o pa&amp;iacute;ses que &amp;lsquo;perderam&amp;rsquo; o s&amp;eacute;c. XX &amp;ndash; viajaram direitinhos da domina&amp;ccedil;&amp;atilde;o pelo Terceiro Reich para a sujei&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao Pacto de Vars&amp;oacute;via. S&amp;oacute; conheceram outra vida quando o muro caiu. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;A opini&amp;atilde;o p&amp;uacute;blica, na Europa &amp;lsquo;de c&amp;aacute;&amp;rsquo;, j&amp;aacute; se esqueceu da ajuda americana. A Europa &amp;lsquo;de l&amp;aacute;&amp;rsquo;, (ainda) n&amp;atilde;o. Eles &amp;ndash; e n&amp;atilde;o os respectivos av&amp;oacute;s &amp;ndash; sabem do que falam.&lt;br /&gt;Algo me diz que os g&amp;eacute;meos polacos v&amp;atilde;o acabar mal. Admito que n&amp;atilde;o seja f&amp;aacute;cil encerrar a quest&amp;atilde;o da mem&amp;oacute;ria depois de quarenta anos de regime totalit&amp;aacute;rio. Mas institucionalizar a vingan&amp;ccedil;a e lev&amp;aacute;-la aos extremos a que est&amp;atilde;o a conduzi-la em Vars&amp;oacute;via &amp;eacute; um p&amp;eacute;ssimo sinal. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os g&amp;eacute;meos acham-se investidos por uma esp&amp;eacute;cie de mandato divino de &amp;lsquo;purifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o social&amp;rsquo;. Jo&amp;atilde;o Paulo II, para citar um polaco que n&amp;atilde;o tem lugar modesto na hist&amp;oacute;ria, nunca aconselhou essa revanche. Cultivava o perd&amp;atilde;o que Deus manda e conhecia o suficiente da natureza humana. Por exemplo, a impossibilidade de todos os polacos serem santos ou, no caso, m&amp;aacute;rtires. Os g&amp;eacute;meos andaram pela resist&amp;ecirc;ncia, mas n&amp;atilde;o consta que tenham biografia her&amp;oacute;ica. Walesa, Geremek, Popieluszko e &amp;ndash; sobretudo &amp;ndash; Wojtyla, t&amp;ecirc;m. S&amp;oacute; isso mereceria um certo respeito. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os g&amp;eacute;meos metem-se com toda a gente &amp;ndash; com os funcion&amp;aacute;rios p&amp;uacute;blicos, com os professores, com os escritores, com os arcebispos, com os magistrados, com os outros pol&amp;iacute;ticos e at&amp;eacute; com personagens infantis. N&amp;atilde;o s&amp;oacute; querem retirar Goethe, Dostoievski e Kapuscinski dos curr&amp;iacute;culos escolares como, agora, pretendem convencer o mundo de que Walesa &amp;ndash; depois de Geremek &amp;ndash; era um colaboracionista, nada mais do que um informador dos servi&amp;ccedil;os secretos comunistas. Um vulgar bufo com bigode, portanto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que Walesa &amp;eacute; um &amp;iacute;cone e n&amp;atilde;o um estadista. Mas n&amp;atilde;o fora ele em Gdansk e a cortina de ferro teria durado muito mais tempo &amp;ndash; nenhum de n&amp;oacute;s sabe quanto. &lt;br /&gt;A manipula&amp;ccedil;&amp;atilde;o da mem&amp;oacute;ria &amp;eacute; um acto detest&amp;aacute;vel de propaganda (em que os comunistas eram catedr&amp;aacute;ticos). A criminaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Walesa &amp;ndash; e dos intelectuais cat&amp;oacute;licos que fizeram o Solidariedade &amp;ndash; &amp;eacute; uma barbaridade.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=261930" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Zodiac ou o elogio de thriller</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/06/02/Zodiac-ou-o-elogio-de-thriller.aspx</link><pubDate>Sat, 02 Jun 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:248736</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>3</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/248736.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=248736</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;H&amp;aacute; quem n&amp;atilde;o tenha paci&amp;ecirc;ncia para policiais. Eu bem pelo contr&amp;aacute;rio. N&amp;atilde;o s&amp;oacute; adoro policiais como sou dedicadamente militante do g&amp;eacute;nero. Vejo os bons, passo pelos medianos e nem os maus me ma&amp;ccedil;am. Um thriller competente funciona como um po&amp;ccedil;o de virtudes. &amp;Eacute; como levar a intelig&amp;ecirc;ncia &amp;agrave; gin&amp;aacute;stica e fazer um exame &amp;agrave; mem&amp;oacute;ria. Acess&amp;oacute;ria ou principalmente, &amp;eacute; como um zoom sobre a natureza humana e o que ela (tamb&amp;eacute;m) &amp;eacute;. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Zodiac foi menos publicitado do que algumas fitas menores que est&amp;atilde;o por a&amp;iacute;. No entanto, basta ser um espectador atento para constatar uma discreta &amp;ndash; e rara &amp;ndash; unanimidade. Abre-se o Di&amp;aacute;rio de Not&amp;iacute;cias, vai-se &amp;agrave; p&amp;aacute;gina dos cr&amp;iacute;ticos, consulta-se a tabela e contam-se as estrelinhas. Zodiac tem quinze. Cinco de Eurico de Barros, cinco de Jo&amp;atilde;o Lopes, cinco de Nuno Carvalho. Eu n&amp;atilde;o sigo necessariamente este crit&amp;eacute;rio c&amp;oacute;smico e &amp;agrave;s vezes at&amp;eacute; leio as estrelinhas bem &amp;agrave;s avessas &amp;ndash; quando me &amp;lsquo;encanita&amp;rsquo; a idolatria por realizadores que eu n&amp;atilde;o percebo (problema meu). Mas Zodiac merece: &amp;eacute; um bel&amp;iacute;ssimo policial. Fui v&amp;ecirc;-lo no final de um dia tremendo e sa&amp;iacute; de l&amp;aacute; muito mais leve. Um thriller tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; uma medicina contra o stress.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Comecemos pelos factos. A hist&amp;oacute;ria existiu realmente e David Fincher n&amp;atilde;o se p&amp;otilde;e a inventar. Seguiu, portanto, o caminho mais dif&amp;iacute;cil &amp;ndash; o da fidelidade. N&amp;atilde;o se entregou nas m&amp;atilde;os daquela escola muito americana, segundo a qual &amp;laquo;a verdade &amp;ndash; esse detalhe &amp;ndash; n&amp;atilde;o pode estragar uma boa hist&amp;oacute;ria&amp;raquo;. A conten&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Zodiac &amp;eacute; ainda mais destac&amp;aacute;vel porque ao limite dos factos adiciona outro. Na vida real, h&amp;aacute; crimes sem solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Na tela, &amp;eacute; arriscado conduzir o espectador at&amp;eacute; ao ponto crucial da d&amp;uacute;vida insol&amp;uacute;vel. Zodiac podia ter esse problema e n&amp;atilde;o usa adornos para o disfar&amp;ccedil;ar. Com uma nuance: &amp;eacute; certo que a pol&amp;iacute;cia deu com os burrinhos na &amp;aacute;gua naquela investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o, mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; certo que o culpado n&amp;atilde;o tivesse estado na mira, em face e diante das barbas da autoridade. Acontece. E isso d&amp;aacute; outro interesse ao filme: Zodiac n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas a hist&amp;oacute;ria de um serial killer mais esperto do que a pol&amp;iacute;cia. &amp;Eacute; a demonstra&amp;ccedil;&amp;atilde;o de que a verdade &amp;ndash; ou a justi&amp;ccedil;a &amp;ndash; tem uma obscura e burocr&amp;aacute;tica lentid&amp;atilde;o. At&amp;eacute; na Am&amp;eacute;rica e n&amp;atilde;o s&amp;oacute; com homens comuns &amp;ndash; basta lembrar o assassinato de Kennedy em Dallas. O carisma de Zodiac &amp;eacute; essa demora.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outra coisa &amp;eacute; saber se a verdade &amp;eacute; empolgante. Como j&amp;aacute; se percebeu, Zodiac &amp;eacute; um filme aparentemente documental e longamente narrativo. S&amp;atilde;o 2 horas e 40 minutos irritantemente sem um pequenino intervalo. Zodiac &amp;eacute; exaustivo, excessivo, complicativo, derivativo, dif&amp;iacute;cil, detalhista, intrigante e, por&amp;eacute;m, interessante. Diria mesmo mais: muito interessante. H&amp;aacute; quem preveja que Zodiac vai a caminho dos &amp;Oacute;scares &amp;ndash; &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel. H&amp;aacute; quem o compare ao inesquec&amp;iacute;vel Seven &amp;ndash; e &amp;eacute; veros&amp;iacute;mil.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O espectacular e sombrio Seven &amp;ndash; Brad Pitt, Morgan Freeman e Kevin Spacey, lembram-se? &amp;ndash; vai em linha recta at&amp;eacute; ao explicativo e muito s&amp;oacute;brio Zodiac. &amp;Eacute; natural: ambos t&amp;ecirc;m a assinatura de David Fincher, os dois procuram um assassino em s&amp;eacute;rie, um e outro t&amp;ecirc;m &amp;ndash; por raz&amp;otilde;es diferentes &amp;ndash; um gran finale. Est&amp;aacute; demonstrada, para l&amp;aacute; de qualquer d&amp;uacute;vida razo&amp;aacute;vel, a compet&amp;ecirc;ncia de Fincher. Era condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o necess&amp;aacute;ria. Realizadores incompetentes n&amp;atilde;o fazem policiais inquietantes. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um thriller tem regras b&amp;aacute;sicas e Zodiac n&amp;atilde;o falha nenhuma delas. O crime precisa de uma certa &amp;lsquo;arte&amp;rsquo;. O motivo implica alguma sofistica&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; antropol&amp;oacute;gica, sociol&amp;oacute;gica, psicol&amp;oacute;gica ou meramente l&amp;oacute;gica. A defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o do suspeito n&amp;atilde;o deve ser linear e, se o for, n&amp;atilde;o temos um filme sobre o quem, temos um filme sobre o porqu&amp;ecirc;. &amp;Eacute; ainda aconselh&amp;aacute;vel que a distribui&amp;ccedil;&amp;atilde;o de evid&amp;ecirc;ncias (ou provas) seja doseada no tempo e surpreendente na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Qualquer destes ingredientes &amp;ndash; mais o final &amp;ndash; existe em profus&amp;atilde;o no relato de Fincher. Os primeiros homic&amp;iacute;dios &amp;ndash; sobretudo os casais de namorados &amp;ndash; s&amp;atilde;o cenicamente perturbadores. O m&amp;oacute;bil do assassino &amp;eacute; estranho mas isso vai a cr&amp;eacute;dito do mist&amp;eacute;rio. O realizador, a pol&amp;iacute;cia e o espectador desconfiam de sucessivos suspeitos &amp;ndash; e n&amp;atilde;o deixa de ser um entretenimento eliminar hip&amp;oacute;teses plaus&amp;iacute;veis. O enredo d&amp;aacute; muitas voltas, tem v&amp;aacute;rios n&amp;oacute;s e nem tudo o que parece, &amp;eacute; (embora tudo o que &amp;eacute;, pare&amp;ccedil;a). O resultado &amp;eacute; que Zodiac &amp;eacute; um filme que prende. Talvez tenha meia hora a mais. Mas o que &amp;eacute; isso se os factos &amp;lsquo;perduraram&amp;rsquo; ingloriamente mais de vinte anos?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que nada disto seria brilhante com actores frouxos. David Fincher costuma rodear-se bem. Zodiac tem duas apostas especialmente bem sucedidas. Acontecem, ambas, na redac&amp;ccedil;&amp;atilde;o do San Francisco Chronicle. Uma &amp;eacute; o jornalista de investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; avant la lettre &amp;ndash; que o caso consome at&amp;eacute; &amp;agrave; decad&amp;ecirc;ncia. Robert Downey Jr. faz esse papel &amp;ndash; e faz um papel&amp;atilde;o. O outro &amp;eacute; um cartoonista t&amp;iacute;mido, obsessivo e, por fim, luminoso. Jake Gyllenhaal tem um desempenho sempre a subir &amp;ndash; t&amp;atilde;o discreto no in&amp;iacute;cio que a sua fun&amp;ccedil;&amp;atilde;o no filme chega a ser equ&amp;iacute;voca, t&amp;atilde;o decisivo a partir de certa altura que o fim seria outro se ele n&amp;atilde;o existisse. Por aqui se percebe, ali&amp;aacute;s, o charme deste filme. Habitualmente, contam-nos a hist&amp;oacute;ria de um assassino. Em Zodiac, contam-nos o itiner&amp;aacute;rio duma investiga&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute; uma verifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o pr&amp;aacute;tica do desfalecimento do Estado perante o crime &amp;ndash; o Estado multiplicado por ag&amp;ecirc;ncias, condados, compet&amp;ecirc;ncias, arquivos e vontades frequentemente incomunic&amp;aacute;veis. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mais de trinta almas ter&amp;aacute; morto o tipo vulgar que escrevia cartas cifradas e assinava &amp;ndash; da&amp;iacute; o t&amp;iacute;tulo &amp;ndash; Zodiac. O Estado n&amp;atilde;o o apanhou sen&amp;atilde;o em seis. E nem sequer foi o Estado que o derrotou. Todas as personagens s&amp;atilde;o pessoas vulgares, gente comum e figuras an&amp;oacute;nimas. Este detalhe &amp;eacute; outra ess&amp;ecirc;ncia de Zodiac: o filme n&amp;atilde;o faz a menor concess&amp;atilde;o a qualquer tipo de glamour. Um policial pode ter todas as estrelinhas do mundo e n&amp;atilde;o ter uma s&amp;oacute; estrela no seu cadastro.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=248736" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Hopkins nunca falha</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/05/26/Hopkins-nunca-falha.aspx</link><pubDate>Sat, 26 May 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:242212</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>3</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/242212.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=242212</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Anthony Hopkins j&amp;aacute; &amp;eacute; lend&amp;aacute;rio quando ainda tem uns filmes para fazer. A meu ver, h&amp;aacute; um pequeno clube de actores inderrub&amp;aacute;veis: Anthony Hopkins, Jack Nicholson, Al Pacino, Robert de Niro ou &amp;ndash; tem dias &amp;ndash; Jeremy Irons s&amp;atilde;o capazes do absolutamente melhor. Se o cinema tem g&amp;eacute;nios, g&amp;eacute;nios s&amp;atilde;o eles.&lt;br /&gt;Hopkins nasceu actor h&amp;aacute; 70 anos. Nas distin&amp;ccedil;&amp;otilde;es inglesas, conheceu a vida pelo lado blue-collar; nada de definitivo, porque &amp;eacute; Sir com a largueza de vistas da Rainha. Logo em crian&amp;ccedil;a, tornou clara a sua afinidade pelo drama em sentido t&amp;eacute;cnico &amp;ndash; e fez o caminho das pedras (e das gl&amp;oacute;rias). Primeiro, a London&amp;rsquo;s Royal Academy of Dramatic Art. Depois, o National Theatre. Durante uma d&amp;eacute;cada, foi sujeito &amp;agrave; prova&amp;ccedil;&amp;atilde;o do teatro exigente &amp;ndash; o cl&amp;aacute;ssico. A diferen&amp;ccedil;a &amp;eacute; que os bons actores ingleses s&amp;atilde;o os que passam pelo crivo de Shakespeare e depois n&amp;atilde;o &amp;lsquo;morrem&amp;rsquo; na tela. Ou seja, sabem representar e n&amp;atilde;o se habituam a declamar. S&amp;atilde;o vers&amp;aacute;teis e nem por isso deixam de ser aut&amp;ecirc;nticos. Hopkins chegou &amp;agrave; Broadway por alturas do 25 de Abril. Continuou no teatro de categoria, aceitou fazer televis&amp;atilde;o e n&amp;atilde;o lhe ca&amp;iacute;ram os parentes na lama, at&amp;eacute; que chegou 1992. Ou seja, o ano em que inventou Hannibal Lecter e recebeu o &amp;Oacute;scar. J&amp;aacute; l&amp;aacute; vai um tempo e ningu&amp;eacute;m se esqueceu. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eis como ter sido Ricardo Cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Le&amp;atilde;o ou Claudius n&amp;atilde;o impede um grande actor de ser o que der e vier &amp;ndash; at&amp;eacute; um canibal assassino e manipulador em s&amp;eacute;rie. A versatilidade &amp;eacute; isso; o que distingue um actor dos seus pap&amp;eacute;is &amp;eacute; que ele pode ser um ap&amp;oacute;s outro e n&amp;atilde;o ficar preso a nenhum.&lt;br /&gt;O que &amp;eacute; que Hopkins tem que outros n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m? Gravidade, sensibilidade e profundidade. Se pensarem um bocadinho, tudo, nele, vai dar a estas tr&amp;ecirc;s caracter&amp;iacute;sticas. A voz, os olhos, o movimento e a representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m uma lentid&amp;atilde;o que imp&amp;otilde;e respeito. Uma consist&amp;ecirc;ncia que intimida. E, quando &amp;eacute; preciso, uma surpreendente habilidade para comover. Tudo isto volta a acontecer em Ruptura.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para come&amp;ccedil;o de conversa: v&amp;aacute; Deus saber que &amp;lsquo;aperfei&amp;ccedil;oamento&amp;rsquo; levou a que o t&amp;iacute;tulo original &amp;ndash; Fracture &amp;ndash; terminasse, na vers&amp;atilde;o portuguesa, em Ruptura. Suponho perceber a inten&amp;ccedil;&amp;atilde;o (e a presun&amp;ccedil;&amp;atilde;o). Mas o filme &amp;eacute; muito mais sobre uma falha do que sobre um corte. Analisa o sistema, mais do que uma &amp;eacute;tica.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hopkins &amp;eacute;, desta vez, um engenheiro perverso &amp;ndash; sem ironia, que o mundo est&amp;aacute; perigoso &amp;ndash;, minucioso, rico e, sobretudo, infeliz. Durante duas horas, Hopkins tem pela frente o outra vez excelente Ryan Gosling (j&amp;aacute; era excelente em Half Nelson), vestindo a pele de um delegado do Minist&amp;eacute;rio P&amp;uacute;blico. No sistema americano, a taxa de condena&amp;ccedil;&amp;otilde;es conta para a avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos delegados. Bom delegado &amp;eacute; o que consegue que o r&amp;eacute;u v&amp;aacute; para a cadeia ou assuma a culpa e negoceie a pena. Ryan tem 97% de sucessos e uma percentagem indefinida de escr&amp;uacute;pulos a menos. No sistema americano, o Minist&amp;eacute;rio P&amp;uacute;blico submete-se a votos. Donde, Ryan tem o Promotor do Estado &amp;agrave; perna: as suas falhas ser&amp;atilde;o contabilizadas pelo chefe pela simples raz&amp;atilde;o de que o chefe tem de prestar contas aos eleitores. A personagem de Ryan &amp;eacute; soberbamente constru&amp;iacute;da &amp;ndash; ambicioso, competente, pesporrente, combativo, insolente, speedado e, finalmente, n&amp;atilde;o inteiramente destitu&amp;iacute;do de sentimentos. Na rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre estes dois sujeitos n&amp;atilde;o direi quem leva a melhor. Cito, apenas, a advert&amp;ecirc;ncia de Hopkins, quando o encara: &amp;laquo;Voc&amp;ecirc; tem um ponto fraco, o seu ponto fraco &amp;eacute; ser um vencedor&amp;raquo;.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma das virtudes do filme &amp;eacute; ser focado num duelo de almas. Tudo o mais &amp;eacute; relativamente acess&amp;oacute;rio. T&amp;atilde;o acess&amp;oacute;rio que, de uma assentada, o argumentista, logo de in&amp;iacute;cio, &amp;lsquo;despacha&amp;rsquo; duas personagens: a interessante mulher de Hopkins &amp;ndash; que fica em coma &amp;ndash; e o pol&amp;iacute;cia que &amp;eacute; destacado para investigar a tentativa de homic&amp;iacute;dio. Azar dos T&amp;aacute;voras, este pol&amp;iacute;cia vai descobrir que a v&amp;iacute;tima era, nem mais nem menos, o seu date habitual. Nunca mais recupera do choque. O realizador sabe da poda: tem a escola de Hill Street Blues e de L.A. Law. Prepare-se para um policial ritmado com passagens pelo tribunal. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este filme &amp;eacute; sobre o direito ou sobre a moral? Em abono da tese moralista h&amp;aacute; algumas evid&amp;ecirc;ncias &amp;ndash; o dilema entre a carreira e a justi&amp;ccedil;a, a op&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre a derrota em tribunal e a corrup&amp;ccedil;&amp;atilde;o da prova, a tens&amp;atilde;o entre a eutan&amp;aacute;sia e a possibilidade vital. Mas o filme n&amp;atilde;o deixa de ser uma boa li&amp;ccedil;&amp;atilde;o de direito. Sobre a import&amp;acirc;ncia dos factos &amp;ndash; e n&amp;atilde;o das conjecturas &amp;ndash; para construir uma acusa&amp;ccedil;&amp;atilde;o; sobre a legibilidade dos sistemas jur&amp;iacute;dicos que, por serem democr&amp;aacute;ticos, preservam a todo o custo direitos, liberdades e garantias dos suspeitos; e sobre a quest&amp;atilde;o final, onde a ess&amp;ecirc;ncia do bem e do mal se coloca com um talento jur&amp;iacute;dico salv&amp;iacute;fico. Sendo proibido julgar duas vezes uma pessoa pelo mesmo crime, o que resta da justi&amp;ccedil;a se &amp;agrave; primeira n&amp;atilde;o h&amp;aacute; razoabilidade para condenar e, depois, a evid&amp;ecirc;ncia j&amp;aacute; seria suficiente para condenar? Para quem ache &amp;ndash; &amp;eacute; o meu caso &amp;ndash; que o direito penal &amp;eacute; o assunto mais s&amp;eacute;rio que os legisladores entregam nas m&amp;atilde;os dos juristas, Ruptura &amp;eacute; uma fita instrutiva. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como frequentemente sucede nos policiais densos e bem pensados, uma simples desaten&amp;ccedil;&amp;atilde;o pode cortar o fio &amp;agrave; meada. O argumento &amp;eacute; subtil e o direito, j&amp;aacute; de si, n&amp;atilde;o &amp;eacute; simples. A complica&amp;ccedil;&amp;atilde;o da hist&amp;oacute;ria (nos limites do aceit&amp;aacute;vel) tem, ali&amp;aacute;s, uma met&amp;aacute;fora &amp;ndash; a casa de Hopkins, um modelo de design, est&amp;aacute; cheia de fabulosas m&amp;aacute;quinas, as Rube Goldberg machines &amp;ndash; de uma geometria aparentemente insol&amp;uacute;vel e funcionamento dependente da exacta precis&amp;atilde;o das pe&amp;ccedil;as e dos pesos. Digo que &amp;eacute; uma met&amp;aacute;fora porque o pr&amp;oacute;prio Hopkins assume que, em qualquer cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o humana, por exponencial que seja a genialidade, h&amp;aacute; sempre uma vulnerabilidade. &amp;laquo;Basta olh&amp;aacute;--la de perto&amp;raquo;, diz ele. Ora, no planeamento do crime, por maior que seja a sofistica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, h&amp;aacute; sempre (ou quase) uma falha. &amp;Eacute; da persist&amp;ecirc;ncia na procura dessa falha que este filme trata.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=242212" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>&#192; la recherche du temps perdu</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/05/12/_C000_-la-recherche-du-temps-perdu.aspx</link><pubDate>Sat, 12 May 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:227336</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>4</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/227336.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=227336</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Um pa&amp;iacute;s onde 85% dos eleitores votam sem qualquer obriga&amp;ccedil;&amp;atilde;o de o fazer &amp;eacute; um pa&amp;iacute;s que gosta de pol&amp;iacute;tica (e ainda acredita em si pr&amp;oacute;prio). Chapeau.&lt;br /&gt;Um pa&amp;iacute;s onde se queimam carros e partem montras porque o resultado da elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o foi exactamente o desejado &amp;ndash; &amp;eacute; um pa&amp;iacute;s muito dif&amp;iacute;cil de governar.&lt;br /&gt;Esta ideia de queimar carros e partir montras por desporto, capricho ou ressentimento foi, ali&amp;aacute;s, muito bem observada por Nicolas Sarkozy: &amp;laquo;se fossem queimar os vossos carritos ficavam igualmente felizes e n&amp;atilde;o prejudicavam ningu&amp;eacute;m&amp;raquo;, dizia ele num com&amp;iacute;cio algures. E na verdade, est&amp;aacute; bem dito.&lt;br /&gt;Este &amp;oacute;dio especial &amp;agrave; viatura e ao vidro &amp;eacute; um suced&amp;acirc;neo moderno de um costume n&amp;atilde;o especificamente franc&amp;ecirc;s mas genealogicamente muito deles: o doutor Guilhotina nasceu, viveu e morreu l&amp;aacute;, e achava que o assassinato s&amp;uacute;bito era at&amp;eacute; indolor, poupadinho na maldade, econ&amp;oacute;mico no sofrimento. Eu que acho que a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa serviu de inspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o para v&amp;aacute;rios terrores, constato uma coer&amp;ecirc;ncia sociol&amp;oacute;gica nestes comportamentos &amp;ndash; n&amp;atilde;o havendo rei nem rainha, s&amp;oacute; h&amp;aacute; bens utilit&amp;aacute;rios para estragar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ali&amp;aacute;s, o Maio de 68 tamb&amp;eacute;m tem que se lhe diga. &amp;Eacute; injusto homologar a revolta contra Sarkozy e a &amp;lsquo;revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; contra De Gaulle. &amp;Eacute; certo que ambos venceram nesse facto mais discreto e secreto que &amp;eacute; o voto. Tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; verdade que ambos representavam a &amp;lsquo;ordem&amp;rsquo; face &amp;agrave; desordem. Mas entre os que queimam carros e os que ocupavam a Sorbonne h&amp;aacute; pequenas diferen&amp;ccedil;as que n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o despiciendas. Uns s&amp;atilde;o filhos de pobres, outros &amp;ndash; muitos, pelo menos &amp;ndash; eram filhos de ricos. Os de agora andam perdidos, os de ent&amp;atilde;o pretendiam achar-se. A viol&amp;ecirc;ncia suburbana n&amp;atilde;o se presume t&amp;atilde;o sofisticada como a universit&amp;aacute;ria. Naquele tempo, os oper&amp;aacute;rios lixaram-se: a gauche caviar deixou-os no mato sem cachorro e a teoria de revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o em cadeia faliu como o domin&amp;oacute; que tomba. Desta vez, quase metade dos oper&amp;aacute;rios votou Sarkozy. O que &amp;eacute; que eles t&amp;ecirc;m a ganhar com archotes e fogueiras?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De resto, ao contr&amp;aacute;rio do que se diz, o Maio de 68 foi relativamente bem sucedido. L`imagination au pouvoir, era a promessa (e como promessa, era genial). N&amp;atilde;o h&amp;aacute; d&amp;uacute;vida que os tiffosi de Maio chegaram ao poder, embora perdessem inevitavelmente alguma imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Daniel Cohen Bendit &amp;eacute; um eurodeputado insinuantemente centrista. Glucksmann optou por Sarko, Bernard-Henri Levy teve uma &amp;lsquo;vis&amp;atilde;o&amp;rsquo; com S&amp;eacute;go. Sartre, o maitre-&amp;agrave;-penser, morreu h&amp;aacute; muito tempo. E enquanto vivo, n&amp;atilde;o se podia queixar: rentabilizou a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o como ningu&amp;eacute;m, a ponto de ser mais c&amp;eacute;lebre e famoso do que Aron, que teve muitas vezes raz&amp;atilde;o e n&amp;atilde;o lhe deram. At&amp;eacute; o Lib&amp;eacute; passou para as m&amp;atilde;os de um herdeiro &amp;ndash; progressista, &amp;eacute; certo &amp;ndash; da casa Rothschild. Entretanto, perdeu a gra&amp;ccedil;a e os leitores envelheceram. Aconteceu ao Maio de 68. Acontece-nos a todos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Verdade seja dita, honra seja reposta. A vit&amp;oacute;ria de Sarkozy foi uma certid&amp;atilde;o de &amp;oacute;bito do Maio de 68 (muito p&amp;oacute;stuma). Mas o Maio de 68 j&amp;aacute; tinha morrido e sido enterrado sem especial gl&amp;oacute;ria.&lt;br /&gt;Quem melhor perceberia por que &amp;eacute; que Sarkozy ganhou era um intelectual que morreu h&amp;aacute; um m&amp;ecirc;s. Chamava-se Ren&amp;eacute; Remond e foi quem mais estudou Les Droites en France, t&amp;iacute;tulo da sua excelente tese (1).&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Toda a vida, em Fran&amp;ccedil;a, houve tr&amp;ecirc;s direitas. Na vers&amp;atilde;o de Remond, a direita bonapartista, a direita orleanista e a direita legitimista. O bonapartismo &amp;eacute;, em certa medida, um cesarismo. O orleanismo &amp;eacute;, mais coisa menos coisa, um centrismo. Os legitimistas s&amp;atilde;o isso mesmo &amp;ndash; o Ancien R&amp;eacute;gime. De Gaulle era bonapartista: confundiu a Rep&amp;uacute;blica consigo pr&amp;oacute;prio. Giscard era orleanista: n&amp;atilde;o herdou o mau car&amp;aacute;cter do Orleans original e foi um modernizador. E os que pensam que Le Pen &amp;eacute; um fen&amp;oacute;meno do tempo, enganam-se: &amp;eacute; uma vers&amp;atilde;o populista, como Boulanger j&amp;aacute; tinha sido, do pensamento contra-revolucion&amp;aacute;rio que vai de De Maistre a Maurrans. Donde, tudo isto tem uma hist&amp;oacute;ria, implicada em muitos &amp;oacute;dios, diversas trincheiras e infinitas rivalidades. Na vers&amp;atilde;o contempor&amp;acirc;nea, Bayrou era orleanista &amp;ndash; &amp;lsquo;feito&amp;rsquo; com a sucessora da &amp;lsquo;revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;rsquo; &amp;ndash; e Sarkozy mitigadamente, o bonapartista. J&amp;aacute; n&amp;atilde;o sei quem considerou a direita francesa la plus b&amp;ecirc;te du monde. Mas sei que Sarkozy foi muito inteligente &amp;ndash; juntou os votos, n&amp;atilde;o juntando as ideias.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como se viu na primeira volta, Sarkozy conquistou o eleitorado de Le Pen sem fazer concess&amp;otilde;es a Le Pen. E como se viu na segunda volta, Sarkozy seduziu a maioria dos votos de Bayrou sem dar um lugar ao sol a Bayrou. O epit&amp;aacute;fio da elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o podia resumir-se em tr&amp;ecirc;s li&amp;ccedil;&amp;otilde;es: Sarkozy fez bem em dirigir-se aos eleitores e n&amp;atilde;o aos partidos; a extrema-direita s&amp;oacute; &amp;eacute; forte quando a direita, na quest&amp;atilde;o da seguran&amp;ccedil;a, &amp;eacute; mole; e para um centrista obrigado a escolher, uma direita moderna &amp;eacute; sempre melhor do que uma esquerda r&amp;eacute;tro (a esquerda francesa &amp;eacute; a mais antiquada da Europa, coisa que S&amp;eacute;gol&amp;egrave;ne percebeu mas n&amp;atilde;o havia nada a fazer).&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acresce um pequeno detalhe. A Fran&amp;ccedil;a &amp;eacute; um pa&amp;iacute;s essencialmente burgu&amp;ecirc;s. Ora, um pa&amp;iacute;s essencialmente burgu&amp;ecirc;s tem demasiado a perder para namorar com aventuras. No estado de decl&amp;iacute;nio em que os franceses &amp;ndash; finalmente &amp;ndash; perceberam que a Fran&amp;ccedil;a est&amp;aacute;, o regresso ao Programa Comum, vers&amp;atilde;o soft da Frente Popular, condimentado com trotskistas em alta e comunistas em baixa, era um risco que n&amp;atilde;o valia a pena correr.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sarkozy, como os franceses, gosta de pol&amp;iacute;tica. E h&amp;aacute;-de ter sido, certamente, um bom candidato. Conseguiu esta proeza: esteve no Governo cinco anos e foi eleito como se n&amp;atilde;o tivesse estado. Como Jean d&amp;rsquo; Ormesson explicou t&amp;atilde;o bem, talvez seja a &amp;uacute;nica chance de trazer o gaullismo para o s&amp;eacute;culo XXI. Talvez os mais distra&amp;iacute;dos n&amp;atilde;o se dessem conta, mas o novo Presidente &amp;eacute; atlantista e o general nem por isso; &amp;eacute; europe&amp;iacute;sta e o general tinha dias; &amp;eacute; mais liberal do que o general e certamente menos proteccionista. Sem esta revis&amp;atilde;o, a Quinta Rep&amp;uacute;blica, verdadeira obra de autor, teria morrido de cansa&amp;ccedil;o.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;(1) edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Aubier&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=227336" width="1" height="1"&gt;</description></item><item><title>Quando a d&#250;vida vale a pena</title><link>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/archive/2007/05/05/Quando-a-d_FA00_vida-vale-a-pena.aspx</link><pubDate>Sat, 05 May 2007 07:00:00 GMT</pubDate><guid isPermaLink="false">a9b931f1-92f6-472b-bd17-d661f2473e9f:220241</guid><dc:creator>PPortas</dc:creator><slash:comments>7</slash:comments><comments>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/comments/220241.aspx</comments><wfw:commentRss>http://comunidade.sol.pt/blogs/pportas/commentrss.aspx?PostID=220241</wfw:commentRss><description>&lt;p&gt;Vamos aos factos, porque s&amp;atilde;o factos que me impressionaram muito e bem.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Primeiro: o Teatro Maria Matos estava cheio. Citando Dupond, diria mesmo mais. O Teatro Maria Matos estava cheio de p&amp;uacute;blico novo &amp;ndash; muitos vintes, muitos trintas. Bom sinal.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Segundo: h&amp;aacute; uma boa raz&amp;atilde;o para a sala encher. D&amp;uacute;vida &amp;eacute; uma pe&amp;ccedil;a especialmente bem sucedida. Para quem tenha d&amp;uacute;vidas, &amp;eacute; de certeza uma boa pe&amp;ccedil;a. Para quem tenha certezas, &amp;eacute; uma boa maneira de conhecer a d&amp;uacute;vida.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Terceiro: John Shanley situou a D&amp;uacute;vida algures no Bronx, nos anos 60. E por&amp;eacute;m, nada &amp;ndash; a n&amp;atilde;o ser a quest&amp;atilde;o racial &amp;ndash; torna o texto ou o problema datados. De Martin Luther King a Barack Obama, a Am&amp;eacute;rica deu uma volta coperniciana. Curiosamente, em D&amp;uacute;vida, o centro da hist&amp;oacute;ria &amp;eacute; um mi&amp;uacute;do afro que est&amp;aacute; presente do primeiro minuto ao &amp;uacute;ltimo &amp;ndash; mas que n&amp;oacute;s n&amp;atilde;o vemos. A cor da pele &amp;eacute;, ali, incidental ou contextual. A quest&amp;atilde;o em d&amp;uacute;vida, essa, &amp;eacute; brutalmente actual. Ou intemporal.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quarto: o que nesta pe&amp;ccedil;a se discute &amp;eacute;, tecnicamente, a pedofilia; religiosamente, a tenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o; humanamente, a convic&amp;ccedil;&amp;atilde;o; civicamente, o rumor; eticamente, a suspei&amp;ccedil;&amp;atilde;o; funcionalmente, a escolha entre um dever de agir, correndo o risco de ser injusto, ou um direito de confiar, correndo o risco de ser pusil&amp;acirc;nime. Uma amiga minha costuma dizer que os est&amp;uacute;pidos conseguem uma economia de problemas que os torna, apesar de tudo, felizes. Nos dilemas desta pe&amp;ccedil;a, a intelig&amp;ecirc;ncia &amp;eacute; uma tortura da consci&amp;ecirc;ncia. Prepare-se para uma inquietante varia&amp;ccedil;&amp;atilde;o de estados de alma. A alma at&amp;eacute; pode ser uma entidade bipolar. Sobra um pequeno problema &amp;ndash; a verdade, quando se cinge aos factos, n&amp;atilde;o &amp;eacute; bipolar. Limita-se a ser a verdade. Prepare-se para ter mesmo de escolher, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; forma de contemporizar. 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quinto: Eunice Mu&amp;ntilde;oz transcende-se. Para ser justo, &amp;eacute; ela pr&amp;oacute;pria melhor do que nunca. Suponho que nem todos ter&amp;atilde;o uma tia freira; eu tive uma &amp;ndash; a minha adorada tia Benigna, espanhola e doroteia de boa cepa que dedicou a vida a Cristo e aos &amp;iacute;ndios na Am&amp;eacute;rica do Sul &amp;ndash; e era muito diferente de Aloysius, a Madre Superiora que, na pe&amp;ccedil;a, &amp;eacute; a personagem de Eunice. E por&amp;eacute;m, quem n&amp;atilde;o conhece aquelas tias mais velhas que s&amp;atilde;o hirtas e rabugentas, c&amp;eacute;pticas e f&amp;eacute;rreas, secas e s&amp;oacute;brias, no limite &amp;lsquo;desumanas&amp;rsquo; e desagrad&amp;aacute;veis e, no entanto, &amp;agrave;s vezes dolorosamente l&amp;uacute;cidas e cruelmente intuitivas ? Pois Eunice &amp;eacute; esse papel que faz com definitiva compet&amp;ecirc;ncia. Ela constr&amp;oacute;i a suspeita; mais do que isso, ela torna-se titular de uma certeza. Defende com uma frontalidade que desarma e ataca com uma mal&amp;iacute;cia que choca. Ao espectador resta &amp;ndash; quando cai o pano &amp;ndash; elaborar sobre a moral dos fins e dos meios, ou deambular sobre a tem&amp;iacute;vel frase que caracteriza a atitude da Madre: &amp;laquo;Quando combatemos o mal, afastamo-nos de Deus&amp;raquo;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sexto: Diogo Infante deixa-nos mudos de admira&amp;ccedil;&amp;atilde;o e &amp;ndash; num certo momento &amp;ndash; petrificados de respeito. No ambiente cat&amp;oacute;lico em que fui educado, ouvi muitas vezes discuss&amp;otilde;es (ou premoni&amp;ccedil;&amp;otilde;es) sobre este padre ou aquele, em geral n&amp;atilde;o se dividindo as opini&amp;otilde;es por homilias ou serm&amp;otilde;es, mas pela atitude: uns mais conservadores, outros mais progressistas. A Diogo Infante caiu em sorte interpretar, com marcado respeito pelas formas, o padre &amp;lsquo;aberto&amp;rsquo;, &amp;agrave; &amp;eacute;poca &amp;lsquo;liberal&amp;rsquo;, certamente p&amp;oacute;s-conciliar &amp;ndash; ou seja, compassivo e compreensivo, tolerante e nada tolo, did&amp;aacute;ctico e desportista, investidor no perd&amp;atilde;o e aforrador na penit&amp;ecirc;ncia, com uma popularidade no rebanho inversamente proporcional &amp;agrave; paz que a sua alma (n&amp;atilde;o) ostenta. N&amp;atilde;o saberemos, nunca, se o padre Flynn &amp;ndash; que, em todo o caso, andava de batina e cabe&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;ndash; perderia a f&amp;eacute; na Igreja ou a for&amp;ccedil;a no sacerd&amp;oacute;cio. O que sabemos &amp;eacute; que, subitamente, um p&amp;aacute;ssaro nos desperta: il y a la quelque chose qui cloche, como diriam os franceses.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;S&amp;eacute;timo: o boato &amp;eacute;, em si mesmo, insidioso, invejoso, maledicente, pequenino, sinistro e cobarde (pelo menos). Tem um parentesco pr&amp;oacute;ximo com a carta an&amp;oacute;nima. Vive em uni&amp;atilde;o de facto com a dela&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Entre o boato e o bufo h&amp;aacute; uma afinidade electiva. Tudo isso &amp;eacute; sabido, tal como a sua irrepar&amp;aacute;vel consequ&amp;ecirc;ncia: quando possui for&amp;ccedil;a letal pode causar uma dor n&amp;atilde;o trat&amp;aacute;vel. Algu&amp;eacute;m dizia que ainda a verdade n&amp;atilde;o acordou e j&amp;aacute; o boato se levantou, tomou banho, vestiu-se e deu a volta ao mundo. Em D&amp;uacute;vida vi e ouvi a mais l&amp;uacute;cida met&amp;aacute;fora sobre o que &amp;eacute; o boato. Digamos que se parece com uma almofada de penas. Se a abrires &amp;ndash; falo como o padre no confession&amp;aacute;rio &amp;ndash; as penas espalhar-se-&amp;atilde;o; se te arrependeres e quiseres reparar o mal produzido, ter&amp;aacute;s de recolher uma a uma as penas que entretanto o vento levou. Depressa perceber&amp;aacute;s que n&amp;atilde;o &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel. Concluir&amp;aacute;s ent&amp;atilde;o que o boato &amp;eacute; irrepar&amp;aacute;vel. E &amp;eacute;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Oitavo: se a quest&amp;atilde;o fosse simples, morria aqui. S&amp;oacute; que, nesta pe&amp;ccedil;a como tantas vezes na vida, a quest&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas a de saber como lidamos com o boato, &amp;eacute; saber o que fazemos &amp;agrave; verdade. Ou ao pressentimento da verdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nono: se, entre o boato e a verdade, se intrometer o &amp;lsquo;factor humano&amp;rsquo; &amp;ndash; por exemplo, uma m&amp;atilde;e que conhece o rumor, conhece os factos e conhece o seu filho &amp;ndash; a simplicidade do julgamento torna-se imposs&amp;iacute;vel. Na pe&amp;ccedil;a, h&amp;aacute; uma conversa entre a Madre Superiora e a m&amp;atilde;e do mi&amp;uacute;do. Nesse momento, somos postos no &amp;lsquo;nosso lugar&amp;rsquo;. Isto &amp;eacute;, terceiros numa hist&amp;oacute;ria que n&amp;atilde;o nos pertence, estrangeiros numa intimidade que nos &amp;eacute; alheia. A cl&amp;aacute;ssica quest&amp;atilde;o do bem e do mal envolve outra: de quem &amp;eacute; a privacidade ? A D&amp;uacute;vida n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas sobre a &amp;eacute;tica de uma freira ou a autenticidade de um padre. Cont&amp;eacute;m outra interroga&amp;ccedil;&amp;atilde;o com resultado incerto &amp;ndash; as raz&amp;otilde;es daquela m&amp;atilde;e.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;D&amp;eacute;cimo: a encena&amp;ccedil;&amp;atilde;o tem uma simplicidade que conv&amp;eacute;m &amp;agrave; dureza da discuss&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o distrai, n&amp;atilde;o adorna e n&amp;atilde;o banaliza. Projecta, de quando em vez, a luz da cruz. Entre vidas que s&amp;atilde;o cruzes, h&amp;aacute; luzes que n&amp;atilde;o se apagam, foi o que me pareceu.&lt;/p&gt;&lt;img src="http://comunidade.sol.pt/aggbug.aspx?PostID=220241" width="1" height="1"&gt;</description></item></channel></rss>
