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Santiago de Compostela - Mái uma viaja a pé...

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Santiago de Compostela: vô-me lá ôtra vez, mái venho logo. E tenho companha...

Nã sê bem o perquem, mái, d' há uns tempos p'ra cá, puseram-se-me umas sôidades tã fortes do Caminho de Santiago de Compostela que foi uma coisa p'r demás.

Falí no caso à minha Maria e a umas amigas dela, daquela joldra qu' a gente, na charola, l'e chama "Caminhadas Aventura" e nã é qu' as marafadas nunca mái me largaram e querem ir tamém?!...

De manêras que, 'tamos fêtos p'a, sábado que vem, prantarmos as mochilas às costas, metermos no comboio até ô Porto e, de lá, abalarmos à pata pr' aqueles charazes até à terra desse tal Santo.

Vamos a ver c'm' é a coisa corre, qu' isto, desta vez, tem mái que se l'e diga. Vai-se a pé, com a trugia toda im cimba do lombo e às tensas de se dar arrenjado sito adonde dromir todas nôtes.

Atão, fiquem-se com Dés e passem p'r cá munto bem até daqui a umas duas semanas bem medidas.

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A minha mochila já 'tá im ordem. Pesa é que nem chumbo...

Dia de Maio em Marmelete

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A famila de Marmelete foi quái tudo ô passêo da Junta...

Désna de moço-pequeno, foi uma coisa qu' ê cá sempre gostí de fazer foi, Dia de Maio, ir desmaiar p'r 'í p'r esses cerros. Em chigando tal dia, que chova qu' avente, nã me venham cá com coisas qu' ê tenho qu' abalar im companha de q'ontos amigos quêram fazer o mémo. É um costume qu' a gente cá tem, o qu' é que mecêas querem?...

E digam-me lá se nã é uma coisa bonita a gente s'a ajuntar uns com os ôtros, levar-se um farnel, uma garrafinha d' aguardente e um bolinho de tacho e ir-se p' à giraldina o dia todo, sem cudados com ôtras coisas?... Dêxa-se o trabalho p'a trás, dêxa-se tudo e vá pagode...

E, atão, agora qu' inda 'tá tudo mái ô queres... Uma pessoa só tem precisão de dar o nome uma semana entes, lá na Junta, e, Dia de Maio de manhã, 'tar a jêto ô pé na Casa do Povo e abalar atrás daquela famila toda. Sem nunca os perder de vista, nã vá uma homem s' inganar e ir p'ra v'reda errada...

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Ia tudo munto contente, mãi o mulherio, atão, nem se fala...

É certo e sabido qu' aí mái ó menes lá p' ô mêo do caminho, a Junta há-de-se apresentar com quasequer coisinha p' à gente dar ô dente. 'Tô falando de Marmelete, 'tá bom de ver, que foi adonde ê cá este ano fui desmaiar com a minha Maria. Com a minha Maria e mái uma rabanhada de gente, béque-me uns cento e oitenta, perto ó certo...

Os mês compadres além do Barranco, esses nã foram. Nã é qu' eles nã gostem, que gostam ô bem fêto, mái atão a comad'e C'stóida, ontordia, incalhô p' ali num tanganho fez um golpe méme prebaxinho do artelho, tem fêto mèzinhas até mái não, méme assim aquilo arejô, quái que nã dá andado.

O mê compadre tamém tem p' ali com umas quêxas, umas dores nas cruzes, um formiguêro nas pernas... Anda sempre caminho dos Perêros - vai a um end'rêta que p'a lá há - mái nã l'e vejo melhoras nenhumas... Ê cá até já l'e disse:

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
No Cerro dos Picos é que foi o bom e o bonito...

- Compadre, isso é coisa de bicos de papagaio... Mecêa vá más é ô dôtor a ver s' ele l'e manda tirar uma chapa, pode ser que acuse lá alguma coisa.

- Que jêto?!... Atã nã vê qu' isto sô ê cá que 'tô desmanchado, nã é coisa p'a dôtor?... Foi um jêto qu' ê cá dí, já faz um belo tempo, àlém a pular aquele combro p'ra baxo. Ê sê cá s' isto até nã sará algum nervo trocido?...

- Ó mê belo amigo, atã a gente faz-l'e já aí uma benzedura!... Maria traz-me lá aí uma sovela e um novelo de linha...

- Bom, bom, bom....

- Vá qu' ê cá faço-l'e já aqui a cantilena...

- Dêxe-se de gozo, compad'e Refóias...

- "Osso quebrado, nervo trocido / s' é osso quebrado, vai p'a dond' é que foste criado / s' é nervo trocido, vai p'a dond' é que foste narcido / osso quebrado, nervo trocido..."

E, ô mémo tempo, fazia a amenção de 'tar a espetar a sovela num novelo de linha.

- Olhe qu' algum dia pode-l'e acabedar a si... E, despôs, semp'e quero ver o qu' é que mecêa faz...

Bom, mái deixamos isso da mão. Ô certo, ô certo é qu' os pobrezinhos dos mês compadres, desta vez, nã puderam ir desmaiar.

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A Senhora Presidenta andô a dar uns calcesinhos dela. E, p'a fazer boca, era um bolo de tacho do melhor...

E o qu' eles nã perderam, mês belos amigos... O tempo 'tava qu' era uma classe. Nã fazia munto sol, mái tamém nã chovia. Verdura p'r tod' ô lado. As mongariças tudo im flôr. Rosas-albardêras do mái lindo que possa ser e haver. Méme alguns maios já 'tavam capazes de panhar. Atã e o resto?!...

Hôve lá uns q'ontos, calhando com medo de l'e faltarem as forças a mêo do caminho, qu' aquilo, no prencipo, era munto de ladêra acima, que bela lembrança que t'veram... Levaram umas garrafinhas d' aguardente p'a, de q'ondo im vez, boberem um calcesinho dela e darem tamém ôs amigos.

Ora, aqui e ali, tamém m' acabedô um solvinho. E boa qu' ela era, que nem se sentia às goélas abaxo. Agora à cabeça chigava ela bem depressa. P'r menes, d' alguns parentes e amigos que lá 'tavam, que bastava l' olhar p' à cor da cara - encarnados que nem uns p'mentos - e ver os gangueõs qu' eles davam... Aquilo, havia lá menino que já só andavam de zambareta...

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
A descer todos os santos ajudam. E, atão, já nã vinha ninguém com os bofes de fora...

E isto p'a nã falar de q'ondo se chigô ô Cerro dos Picos. Aquilo lá é que foi... A senhora Presidenta e mái as ôtras senhoras e homens lá da Junta, apresentaram-se com uma catrefada de coisas p' à famila comer e bober, toda a gente incheu a barriguinha.

Ê cá e más a minha Maria - e umas amigas dela qu' ê nã alomêo aqui, nã vã elas se marafar - tinha-se matado o bicho logo munto cedo e um coisinho à pressa p'a nã chigar atrasados. De manêras que, já há um belo pôco que se tinha aqui um bichinho a rabear.

Ora, jogamos-se todos ô decormerzinho que lá parceu foi um vê se te havias. Im menes de nada, aquilo desparceu quái tudo. E a senhora Presidenta sempre a trabalhar im forte. Até dava gosto ver uma pessoa assim, inda tã novinha mái semp'e munto dada e pronta p'a acontentar toda a gente.

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete
Havia sitos tã bonitos que nã l'es sê incarecer...

E levava um bolo de tacho e um madronhito... Quem é que se podia negar a uma coisa daquelas tã boa?!... Até a minha Maria imborcô um calcesinho dela e duas fatias de bolo-de-maio... E diz que 'tá d' adiata premode nã sê o quem. O que saria se 't'vesse...

Más isto foi o que se passô só no passêo. Que, da parte da tarde, lá na Casa do Povo, só quem lá foi, que contado ninguém acredita. Era pórco assado, torresmos, carne frita... E um balho im forte.

Só l'es sê d'zer que vim de lá todo escadraçado. É qu' a minha Maria, em pegando a balhar, leva as modas todas a êto. Todas l'e servem e nã quer perder nenhuma...

E p'r 'quí me fico. Querendem ver mái alguma coisa do Dia de Maio im Marmelete, acalquem nessas coisas aí a seguir:

Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete Apresentação de diapositivos no Picasa



Video do passeio no YouTube


Passeio do Dia de Maio 2010 - Marmelete Galeria de fotografias Refóias

E até um destes dias.

O Sapo-Comum (bufo bufo)

Sapo-comum (bufo bufo)
A minha c'madre C'stóida des qu' os sapos dã olhado...

Em chigando esta altura do ano, uma pessoa nã pode ir pr' à banda d' adonde haja uma pôça d' água que nã ôve ôtra coisa qu' os sapos a fazerem barulho. Quer-se d'zer: más as arrãs do qu' ôs sapos, verdade se diga. Más ê cá, desta vez, vô-me l'es falar dos sapos e dêxo as arrãs de fora.

Ontordia, 'tava-se p' ali im conversa premode a b'charada, nã sê quem é que foi buscar a conversa dos sapos. Nã foi preciso mái nada, a minha c'madre C'stóida f'cô logo im pele de galinha. Aquilo, nã pode ôvir falar im sapos e cobras, a m'lher insêa-se logo toda... E marafa-se:

- Mái atão vomecêas nã têm mái nada im que falar?!... Nã sabem qu' isso dá olhado?!... Até já tenho os cabelos im pé...

E olhô p' ô céu e benzé-se:

- Seja lôvado Nosso Senhor Jesus Cristo e sua mãe Marí Santíss'ma!...

Sapo-comum (bufo bufo)
Nesta altura do ano, adonde há água há sapos...

Más aquilo a famila gosta é d' incher o papinho, inda p'r cimba 'tava o ti Zé Caçapo, semp'e danado p'a sovinar os ôtros, nunca mái largaram o assunto. O parente Caçapo, atão, - a gente, em ele nã 'tando a ôvir, ch'mamos-l'e "O Verruma" - tanto zurzilô, tanto zurzilô qu' a m'lher, a certo ponto, teve que fugir p' à cozinha.

D'zia o parente "Verruma":

- O últ'mo qu' incontrí, peguí numa varinha, aquilo foi um remed'o santo... Daquelas varinhas bem fininas de saíço... fui-l'e dando com ela, pateô num 'stante...

Salta o compad'e Jôquim do Barranco:

- Vomecêa tem p'r c'stume 'tar sempre fazer porra com os ôtros, mái nã l'e esqueça que há quem diga qu' isso é verdade. Des que l'e dando com uma varinha fina eles esticam logo o pernil...

- Pôs foi o qu' ê cá fiz. À sigunda varadinha já ele tinha um palmo de língua de fora...

Mintira... Qu' ê cá nunca vi o homem fazer mal a criatura nenhuma q'onto más a um sapo qu' é um bicho que mal nã faz a ninguém, só-se bem...

- Ó ti Zé, mecêa com essa nã m' indròmina qu' ê cá nã vô nisso. Atão, inda faz pôco tempo, 'teve a falar com-migo e des que bichos desses q'ontos más melhor lá nos sês cantêros...

Sapo-comum (bufo bufo)
O parente "Verruma" nã sabia mái os sapos vão p'a drento d' água p'a cobrir as sapas...

- Ê cá disse isso?!...

- Pôs disse... E tamém alomeô os perquéns... Des que lesmas e ôtra b'charada que l'e ingassem lá às suas bejoarias os sapos que lá tinha faziam-l'e a folha...

- Ehq, mecêa, tamém, podia 'tar calado e nã me descobrir a careca...

- Que jêto f'car calado s' ê cá sê munto bem qu' os b'chalos fazem tanto jêto à gente... E nã fazem mal nenhum. Olhe, cá p'ra mim, cada um que vejo é uma festa. Já sê que nessa nôte é menes uma preçanada de lesmas a me c'merem as alfaiças...

- Más olhe qu' eles dã olhado... Aprecate-se qu' a prima C'stóida tem r'zão. Eles dã olhado...

- Olhado dá mecêa...

- E ôtra coisa: Tenha munta conta nã se apròchegue munto p' ô pé de nenhum qu' eles tamém usama m'jar p' ôs olhos da famila...

- Só-se!...

Salta, ôtra vez, a c'mad'e C'stóida:

- Mijam, mijam. Mijam, sa senhora. A minha avó, que Dés tem, bem d'zia. Uma ocasião hôve um homenzinho lá p'r baxo dos Três Figos, inda no tempo dos avózes dela, que dêxô de ver premode isso. Des qu' um sapo l'e fez xixi p' às vistas...

- E mecêa conheci-ô? Pobrezinho dele...

Sapo-comum (bufo bufo)
Os ovos saem do rabo da sapa logo num cordão...

- Nã no conhecia... Atã, nã disse logo que a minha avó é que me contô e isso passô-se no tempo dos avózes dela?...

- Ah, atã assim já fico mái sossegado. Des que, nestes anos todos, tem desparcido munta bicharada - assim c'm' aquele gato brabo que l'e chamam o lince ibérico - calhando esses sapos que faziam isso tamém já se desluziram. E, dessa manêra, já nã tenho qu' andar em cudados...

- Nã goze...

- Agora por isso, inda ontontem - ó se nã foi ontontem foi há uns dias - vinha ê cá ali ô rego do tãinque grande prê abaxo, 'tavam dôs lá drento qu' era um desparate. Par'ciam duas gorpelhas...

- Drento do rego?!... Isso eram arrãs, parente... Atã os sapos andam cá drento d' água!... Eram duas arranitas e, calhando, piquenalhas...

- Ai eram duas arrãs... Atã nã sabe que os sapos cobrem as sapas drento d' água?... E elas põem logo lá os ovos p'a narcerem os sapo-sapinhos. Veja lá aqui uns retratos qu' ê cá tirí...

- Atã, amostre lá...

Ovos do sapo-comum (bufo bufo)
Calhando a ver uns cordõs destes drento d' água, já sabe que sã ovos de sapa...

- Nã vê?... O sapo a cobrir a sapa e os ovos a l'e saírem ali do rabo dela que parêce um cordão nã sê do quem... É dali que, e despôs, saem os tales sapo-sapinhos...

- D'zer a verdade, já tenho visto aqueles cordõs aí nas r'bêras, mái cudava qu' aquilo era coisa só das arrãs. Dos sapos nã sabia... Mái isso nã taria sido eles que, com a brama, caíram p'a drento do rego e tavam-se a afogar?...

- Chame-l'e isso, chame... Eles fazem semp'e aquilo da méma manêra. Lá cuda que foi a p'remêra vez qu' ê vi tal coisa... Désna de moço-pequeno qu' ê conheço isso... Mecêa é qu' é um nenço que nã sabe nada de nada... Nã é verdade, compd'e Jôquim?

- Ora se é... Tem semp'e a mania d' andar a sovinar nos ôtros, mái, vai-se a ver, im certas coisas, nã sabe coisíssema nenhuma. Sabe menes que...

- Olhe, qu' o sê burro, o "Larga-Traques"...

- Lá isso, nã sê, nã sê... Olhe qu' o mê "Larga-Traques", ê cá venho de qualquer banda, amonto-me nele, siguro na arreata, dig'-l'e:

Sapo-comum (bufo bufo)
Um bicho destes q'ontas sapas é que já nã cobriu, senhor?...

- Vamos imbora, "Larga-Traques". Vamos p' ô monte.

- E ele vai? Mái mecêa tem de l'e ir insinando o caminho...

- Alguma vez?!... Posso-me pôr a dromir im cimba da albarda qu' ele invreda, seja de nôte ó de dia, e, im menes de nada, 'tá à porta da arramada... Aquilo é um bicho de estimação, nã cude. Inda mecêa podia narcer ôtra vez que nunca havera de possuir um animal destes, assim tã sabido...

E c'm' à conversa passô dos sapos p' ô burro do mê compd'e Jôquim do Barranco, já nã enteressa à gente. De manêras que, assim me despeço.

Até qu' a gente se veja e Dés Nosso Senhor os acompanhe.

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A Geada Dente-de-Cão

Geada dente-de-cão
Há já bem munto tempo que nã via geada dente-de-cão c'mo esta...

Nã sê se vomecêas já alguma vez viram geada ó não. Calhando, munto menes viram daquela de dente de cão, qu' era coisa que, q'ondo ê cá era moço-pequeno, caía muntas vezes.

Alembrí-me a falar disto premode um caso que se dé com-migo, inda há bem pôco tempo, numa volta qu' ê cá fui dar com a minha Maria e mái uma carrada de famila. Foi-se numa excursão qu' eles fazeram p' aí no Intrudo p'a quem qu'sesse ir ver as Grutas d' Aracena e dar p'r lá umas voltas à pata.

Aquilo iam p'a lá coisa dumas trinta ó q'ôrenta pessoas, más um menes um, tudo munto ad'vertido e fêtinhos p'a dar à perna, mái atão o tempo nã correu à nossa fêção e só no pr'mêro dia é qu' inda andemos quasequer coisinha de jêto. E, méme assim, com um geadão, uma coisa temente...

Alevantamos-se de manhãzinha bem cedo, rapimpamos-se com um quebra-jum qu' eles deram lá na pensão - aquilo era quái à descrição, ora, hôve menino qu' incheu a pança logo p' ô dia entêro... - mandaram a famila antrar toda p'a drento da camineta e foram largar a gente a uma belas cinco ó sês léguas de lonjura.

 Geada dente-de-cão
Era preciso ter munta conta p'a nã se dar algum escorregão...

Tã penas abriram a porta, ê cá fui logo o pr'mêro a sair que, com a barrigada que panhí ô café, já nã ia lá munto bom cá p' drento. Nã é qu' ê use a nã prosar, qu' isso a minha Maria é que l' acontêce quái sempre, mái o chòfer dava as curvas qu' até zunia e, atão, béque-me sintia já assim umas ãinsas e, d' ora im q'onto, até me vinha assim - com l'cença da palavra - um gole à boca.

De manêras que saí assim de rompante, panho aquele ar frio qu' até cortava, digo p'ra mim:

- Ai que barbêro qu' ele 'tá aí!... Minhas belas orelhas!...

E, d'zer a verdade, inda joguí assim a mão a uma e quái que me par'ceu qu' ela 'tava a incurrascar. E a ponta do nariz?!... Ai a ponta do nariz, mês belos amigos!... Nã sê se me doía se nã na sintia...

Mái nã foi sol de munta dura qu' ê cá desqueci-me logo disso tudo. E isso premode quem? É que dí com os olhos numas tôiças que 'tavam logo da bandinha de lá da valeta, tudo branquinho. Nã é qu' ê cá nã t'vesse já repairado, durante o caminho, que tinha caído um geadão marafado e 'tava tudo esbranquiçado, mái daquela ali já há mái que tempos qu' ê nã via...

- Nã vês, Maria... Olha lá p'ra isto!... Esta é de dente de cão!...

- Õi!... Que frio!... Olha lá, s' ê calho a nã trazer o mê barrêtinho de lã p'a pôr na cabeça...

Geada dente-de-cão
Cada passada qu' uma pessoa dava ôvia a geada a se esmigalhar debaxo dos pés...

E, inda mal nã tinha acabado de falar, já o 'tava a infiar na cabeça até ô canto de baxo das orelhas. Já do mémo nã me pude ê gabar que nem pensí im tal coisa. Qu' ê cá podia munto bem ter levado o mê boné d' orelhas e 'tava governado... Mái dêxí-o im casa. Alguma vez ê cudava d' ir dar com uma coisa daquelas assim tã desviado do monte?!...

O resto da famila que saíu à última da camineta tamém se foram aconchigando com os agasalhos que cada um trazia, mái faziam todos uma clamada qu' até dava dó. Menes um que vinha lá no banco de trás - tenho 'tado aqui a ver se me descorre o nome dele mái nã m' alembra. Esse, más um nada, f'cava fechado drento da camineta. Aquilo foi méme à escapúla...

P'ro jêto, o homem tinha perdido a nôte, assantô-se lá no banco de trás sozinho, ferrô a dromir, já tinha tudo abalado a andar q'ondo ele acordô e se viu na camineta sem companha. Desatô a bater no vrido e a ch'mar p'ra gente, vá lá qu' inda hôve quem desse por ela...

Saíu de lá, vinha béque-me mê' insampado, deu uma carrêra à mecha toda, aparô um coisinho à minha frente e desata a lambarear. O que me havera d' acabedar... Logo a mim que queria tirar retratos e nã me calhava nada ir ali a tramelear fosse lá com quem fosse. Vá lá qu' ele, logo a seguir, virô-se p' ô ôt' lado, ia uma moça toda jêtosa ali sozinha, f'cô todo crençoso com ela e desquecé-se de mim.

Geada dente-de-cão
P'ro jêto, os catanhêros gostam destes sitos adonde faça frio com fartura...

Ora ê cá aprevêtí logo o atopo, ponho-me a andar p'r lá a tirar retratos à manadia que foi um consolo. Um consolo até que pisí uma pôça d' água - cudava ê cá qu' era água... - e dí um escorregão. Olhem, aquilo, más um nada, dava tamém um bate-cu que ficava todo enlameado, más agarrí-me ali a um tróço dum castanhêro, enquilibrí-me e a coisa nã teve dúv'da...

Já agora, p'r falar im castanhêros, nã sê c'm' l'es incarecer aquilo que p'r lá vi. Andamos bem umas duas léguas - p'ra más que p'ra menes - e nã se via ôutra coisa que nã fosse tal arv'e. Mái, nã cudem, tudo alvoredo desposto im carrêras c'm' deve de ser, tratados a tempo e horas e tudo munto mái velho do qu' ê cá ó vomecêas...

Ora mái velhos... Até me d'zeram que 'tavam lá alguns que, se nã t'vessem duzentos anos, p'a lá caminhavam... E ôtra coisa: ali ninguém corta uma ar've daquelas ó a trata mal. Nã senhora. Nem que seja p'a os podar, pr'mêro têm que pedir l'cença lá a quem manda naquilo. Calitros?!... Isso naquela zona nã há...

Calhando mecêas nã se fiam em mim, podem cudar qu' ê cá 'tô a abusar, mái 'tejam certos qu' aquilo é uma coisa quái do ôt' mundo. Im tamanho, im 'tar bem arrenjado e im q'ôlidade. Fiquem sabendo que, méme nesta altura, inda panhí lá umas castanhitas p'r aqueles charazes e 'tavam quái todas boas p'a c'mer.

Castanheiros centenários
Im castanhêros, nunca tinha visto uma coisa assim. Grandes, bem tratados e muntos...

E boas qu' elas eram... Despôs d' incher a barriga é que me vêo à idéa uma coisa: já haveram d' andar um coisinho chafurdadas dos porcos brabos - os javalis... Mái já me tinha rapimpado com elas e bicho nã tinham... E que t'vessem. Nã se usa a d'zer que 'bicho qu' ê como nã me come ele a mim'?...

Pôs, nã sê se mecêas inda 'tão alembrados - os mái velhos c'm' ê cá, qu' os mái nôvos, esses não - já hôve tempo qu' aqui na nossa Serra tamém havia muntos catanhêros e a famila pôco mái c'mia do que castanhas.

Batatas nã as havia, pão munto pôco, vá lá umas bejoarias quem as tinha, e, atão, eram as castanhas qu' andavam semp'e p' à frente. P'a nã apodrecerem, até se gôrdavam com todo o precêto. Inda m' alembra do mê pai - que Dés o tenha - as interrar im arêa seca drento dum corcho e, em sendo preciso, ir-se lá desinterrá-las...

Querendem, acalquem aqui na Galeria de Aracena e Rio Tinto e vejam mái mêa-dúiza de retratos.

E p'r 'qui me fico.

Passem bem e até que Dés quêra.

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A Cascata do Barbelote

Cascata do Barbelote - Monchique
Q'ondo enverna bem c'mo este ano, a Cascata do Barbelote fica méme bonita...

Andí p' aí com uma catarrêra, quái que nem saí do monte mái duma semana. A minha Maria, pr'mêro, queria qu' ê cá fosse ô dôtor - p'ro jêto, 'tava com cagúifa qu' aquilo fosse a tal gripe marafada qu' eles p' aí falam... - mái, odespôs, c'm' viu qu' isto era só uma const'pação, disse-me logo:

- Ó homem, nã te rales qu' isso é c'm' ôtro que diz: uma const'pação tratada dura trinta dias e nã tratada é trinta e um...

E, atão, foi-me fazendo p' aí uns chás nã sê do quem e a coisa foi-se compondo. Qu' ela, antão, já sabe que, cá p'ra mim, há chás que nã antram na minha goéla... Olhe, por exempes, o de hortalão, era o que faltava... Des qu' aquilo, nas minhas idades, dá um resultado escamungado e nã vá um homem f'car p' aí de jum e abst'nência...

Mái, c'm' à coisa já ia correndo bem, um destes dias abalí caminho do monte dos mês compadres. Nã foi lá grande idéa qu' o caminho 'tá um coisinho imbalsado, aquilo tinha caído um garrão na madrugada e as tôiças 'tavam todas orvalhadas. Mái leví umas botas de cano alto, lá me defendí c'm' pude.

Ia chigando perto da rua deles, desato a ôvir duas criaturas:

Barbelote - Fóia - Monchique
No caminho p' à Cascata do Barbelote dá-se com esta vista...

- Tal tem achado a esta enverna toda, prima C'stóida?...

 - D'zer a verdade, já 'tá tudo p'r 'í bem orvalhado... A rôpa, bem na lavo, mái atão e p'a ela secar... É uns trabalhos, parente Zé...

- S' os mês cudados fossem esses... A rôpa, ê cá inxugo-a méme ô pé do fogo, c'm' à minha Larinda - que Dés a tenha im bom lugar - fazia.

- Eh!... Mái isso fica tudo chêrando a fumo qu' é um desconsolo... E é só rôpa miúda, qu' umas peças assim maiorinhas c'm' é que mecêa as pindura nas costas duma cadêra? -

Ê cá m' amanho... O que me tem dado cudados ô bem fêto nã é isso. É umas batatas qu' ê tinha lá bem abrulhadinhas p'a samear e, com esta enverna toda, nã nas dí metido debaxo terra.

- Samêe-as um destes dias, em o tempo alevantandoum coisinho. Inda vai a tempo...

- Agora?!... Têm uns abrulhos quái da minha altura... S' as ponho na terra, ficam com eles um palmo de fora, vem p' aí algum geadão, daqueles de dente de cão, nã escapa nem uma...

- Ó parente, mecêa tamém... Sossegue p' aí qu' o bom tempo logo parêce... Isto era o mê parente Zé Caçapo a conversar com a minha c'mad' C'stóida. Logo, nã deram p'r mim. Más ê cá dí assim uma tossidela c'm' quem 'tava a alimpar o pigarro e eles viraram-se p' ô mê lado. A c'mad' C'stóida aprevêtô logo o atopo p'a me pôr à balha:

Cascata do Barbelote - Monchique
Em caindo um bom garrão d' água, a Cascata do Barbelote fica neste estado...

- Olha o compad'e Refóias... Atã o qu' é se tem fêto? Já há uns belos dias que nã no via. Tem andado com medo do tempo ó quem?...

- Que jêto medo... 'Tá-se é munto melhor aconchigados ô pé do fogo do qu' andar a panhar frio aí pr' o mêo das sobrêras... E o parente 'Verruma' - 'Verruma' é o anexim do parente Zé Caçapo - semp'e munto cão, meté-se logo tamém:

- Põs, lá isso medo nã há-de mecêa ter... Tenho ôvisto falar que, quái tôdes dias o têm lombrigado lá p' às bandas do Brabelote... Com chuva e navoêro e tudo... Arrenjô p'a lá alguma namorada ó quem?... Tenho más é que ter uma conversa com a c'mad' Maria. Ah isso tenho...

- Lá 'tão vancêas semp'e com coisas... Nã pode uma pessoa fazer coisíssema nenhuma qu' anda logo tudo a bispar... Fui lá sa senhora. E o qu' é que têm com isso?

- Nã l'e parêça mal, parente. Isto é só uma conversa... Mái tamém nã l'e gabo o gosto d' ir bem lá p'a uns furjacos daqueles fazer nã sê o quem, im dias que nã se vê quái um palmo à frente do nariz...

- Bem sabe que fui ver aquela queda d' água que 'tá lá e, q'ondo ele chove a precêto é qu' ela tem que ver. E vomecêa se t'vesse querido ir com-migo c'm' ê cá l'e disse na bésp'ra, nã tinha f'cado repeso.

- Eh'q!... Querendo ver água vô ali im baxo à rebêra... Mái diga-me lá uma coisa. Aquela água toda que cai lá na Cascata do Brabelote vem d' adonde, sabe?

- Se mecêa lá fosse, via logo d' adonde vinha... Vem daqueles córgos todos qu' abalam lá de cimba do lado da Moita e dos Lamatêros... D' adonde é que queria que viesse?..

Cascata do Barbelote - Monchique
P'a quem se quêra molhar e ir lá p'a debaxo dela, tira retratos assim à Cascata do Barbelote...

- Sê cá, aquilo béque-me nã tem assim munta comprimenta e ajunta logo um poder d' água qu' é uma coisa temente...

- Lá isso é verdade. Mái aquele vertente da Fóia semp'e foi um sito de munta água. E vindo um tempo assim chuvoso c'mo ele tem vindo agora, ajunta lá uma r'bêrada qu' até...

- Há-de ter que ver...

- Se queria saber, fosse lá com-migo. Agora, só se pedir ali ô Zé Manel que l' amostre os retratos qu' ê cá tirí e pus na internet... 'Tá bem que nã f'caram grande coisa qu' o tempo 'tava ruinzíssemo - chovia, fazia navoêro, aventava... era tudo contre - mái semp'e dá p'a ver quasequer coisinha.

- Eh'q, ê cá nã tenho vagar p'a essas coisas da internet ó lá o que é.... Vô-me más é caminho de casa tratar dos bichos qu' isto anoitêce logo im mêa tarde...

- Ó parente Zé, nã tenha medo qu' o comp'tador nã l'e morde!... Se nã quer ir ver ô do Zé Manel, venha com-migo e vê-se àlém no meu. Leva é um coisinho mái tempo. Qu' ele até aquecer...

- Nã, nã... Vô-me andando qu' os bichos têm fome. Esta manhã só l'e dí p'a lá um retraço àquela mêa-dúiza de bicos que tenho lá no galinhêro e, ô sovão, joguí-l'e uns sarguaços p'ô do curral e nem o vi qu' ele 'tava incafuado lá p'a drento da cuêra. Fiquem-se com Dés.

O mê parente 'Verruma' é assim. Em l'e dando um derrepente, abala e vai-se imbora. Vá lá qu' inda se despediu, qu' ele, ás vezes, nã diz nada e q'ondo se dá por ele já ele estrapôs p' ô lado do monte. Más a minha c'mad' C'stóida tamém gosta do palêo e f'camos os dôs a dar à tramela:

Sítio do Barbelote - Monchique
Isto é qu' é o sito do Barbelote, à espera qu' alguém olhe por ele...

- Ó Compad' Refóias, mecêa diz qu' essa coisa da Cascata do Barbelote que levava munta água, mái atão ê, uma vez, fui lá e aquilo 'tava tudo quái seco... Veja já se 'tá p' aí a infiar alguma pua à famila...

- Que jêto?!... Calhando, mecêa foi lá no Verão...

- Pôs, nã m' alembra bem, mái aquilo havera de ser fins de S. Tiago prencipos d' Agosto...

- Atão, nesse tempo, o qu' é que mecêa queria.... Aquilo corre água im forte é agora no enverno. Em dêxando de chover, a água vai-se desgotando e chega uma altura qu' é c'm' aqui a nossa r'bêra. Ó seca dum todo ó só leva alguma pinguinha d' água que resuma do terreno nalgum sito mái fresco.

- Ai s' ê cá gostava de ver isso, assim ô natural, q'ondo ela corre munta... Mái atão, o mê Jôquim nunca s' opõe a essas coisas...

- Tem toda a rezão, c'madre. Aquilo, quem vai lá agora nesta altura, nã dá o tempo p'r mal empregue. Pode é panhar com uma carga d' agua im cimba da lombêra e tem de puxar bem p'las canôiras qu' o caminho é munto imbargoso.

- Pôs, isso atão, caminho mái impinado do qu' àquele é má d' incontrar...

E mecêas, mês belos amigos, querendem, acalquem aqui na galeria da Cascata do Barbelote e vejam os retratos qu' ê cá tirí lá, e os mái foitos, em podendem logo dão lá uma bispadela assim num dia que caia uma boa ripada d' água.

E, p'r o caminho, tenham munto cudadinho nã estraguem umas tôiças verde-negras que p'r lá há, parte das vezes, masturadas com balsas. São adelfêras. E tamém nã façam selada com as folhas delas. Senão, esticam o pernil.

Saudinha da boa.

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A Barragem do Alqueva

Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010
Des que
c'm' à Barraja do Alqueva nã há ôtra na Êropa...

Inda 'tão alembrados da conversa qu' o mê compad'e Jôquim do Barranco me fez, ontordia, q'ondo ê cá l'e contí que tida ido ver a Barraja d' Odelôca com o parente Tóino Rosa, ó nã fazeram caso disso, cudando qu' a gente os dôs nã se era homens p'a abalar caminho do Alqueva?

Pôs, se cudaram, 'tão munto mal inganadinhos, mês belos amigos... A gente pôs aquilo à idéa, o mê compad'e arrenjô via e já se foi lá ver aquela mechas toda, fazemos boa viaja e já cá 'tamos prontos p'a ôtra. Só nã foi o parente Tóino Rosa qu' a gente quis-l'e mandar recado e nã t'vemos portador. Im vez dele, foi o Zé Manel. O filho do compad'e Jôquim e da c'mad' C'stóida.

Calhô foi mal o dia nã ter 'tado um coisinho mái soalhêro. Nã sê se p'r 'qui foi o mémo, mái lá aquilo, o astro, 'teve quái semp're toldado e inda panhamos com uns pingos im cimba da orgada e tudo. Coisa pôca, tamém se diga... que, lá p' à banda da tarde, ele até aliviô um coisinho.

Mái, com respêto ô resto, foi tudo do melhor. E a festa começô logo na viaja daqui p'ra lá, com o Zé Manel a ver se dava indròminado o pai. Aquilo, o moço anda afalcoado de d'nhêro, qu' ele tã bem o ganha c'm' o gasta logo a seguir - com as moças ó lá com o qu' ele munto bem l'e dá nos cascos - e, atão, levô o caminho quái todo a pertar com o pai p'a fazer uma aposta.

Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010
Tinha tanta água ó tã pôca qu' a comad'e C'stóida cudava qu' era o mar...

- Mê pai, posto consigo c'm' à Barraja do Alqueva é munto maior qu' a da Odelôca!... Quem perder paga a bucha mái logo num restarante qu' ê cá conheço. Aquilo é jêtoso e, nã s' abusando munto, fica mái ó menes im conta...

- 'Tás parvo ó quem?!... Quem é que nã sabe qu' a do Alqueva é maior qu' à ôtra? Atã, des qu' aquilo vai dar à Espanha e ingoliu lá a Aldêa da Luz e tudo... Queres fazer de mim inda mái nenso do qu' àquilo qu' ê cá sô?...

- Nã posta, nã posta, pronto... Mái, já agora, sabe q'ontas ilhas é qu' aquilo tem ô todo? Olhe que sã muntas...

- Isso nã sê, mái, calhando, inda tem p' a lá um q'ôrtêrão delas...

- Ai um q'ôrtêrão!...

- Um cento?...

- Ai um cento...

- Qu'nhentas?... - Ai qu'nhentas... Mái de mil!... Posto consigo c'm' 'tão lá mái mil ilhas... E nã precisa de ser o almoço. Posta-se só a garrafa do vinho p' à gente bober no tal restarante.

- Olha que perdes... Mil é munta ilha, Zé Manel...

- Atã, poste. Tamém, que perca que ganhe, uma garrafa de vinho, tamém, nã é grande coisa...

- 'Tá bem. 'Tá postado. Uma garrafinha do tinto.

Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010
Sê cá q'ontas léguas aquilo tem d' água...

Ê cá, logo, nã liguí munto àquilo. Mái o Zé Manel, que nã dá ponto sem nó, tod' ô caminho foi repisando no caso. Até qu' ê cá vi qu' ali havia coisa. E havia qu' ê já l'es conto.

Despôs de se chigar lá e se bispar tudo o que se dé visto:

. tanta água ó tã pôca qu' a c'mad' C'stóida cudava qu' aquilo era o mar - inda p'r cima par'cé um pêxe qu' aquilo era um desparate;

. a barraja a descarregar de tornêrada qu' aventujava a água lá p'r aqueles ares - p'r o jêto, p'a fazer elecsidade;

. a famila tudo de boca aberta, abismados com uma obra daquelas;

. e ôtras coisas má's que nã adianta 'tar, agora aqui, a falar nelas;

chigô a altura d' ir c'mer uma bucha lá ô tal restarante qu' o Zé Manel sabia. É que, desta vez, as m'lheres fazeram-se rasmôlgas e nã trazeram farnel p' à gente se rapimpar...

Diz ele:

- Atão, e agora q'ontas ilhas tem a barraja? Tem ó nã tem mái de mil?...

- Nã nas contí, mái daqui vejo pôcas...

- Parente Refóias, o qu' é que vomecêa diz? Nã l'e parêce que sã bem p'ra cima de mil? Diga lá... Diga, diga...

Ora, ê cá, tive que tirar p'r o moço... Atã havera d' ir a favor do pai que tem munto mái posses qu' o filho?!... Dí-l'e logo os améns:

Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010
Punhana
, aquilo a descarregar água p'a fazer elecsidade, até urrava...

- Sim, Zé Manel, p'r aquelas qu' ê tenho levado repáiro, devem de ser até um belo coisinho mái do que mil.

- Olhem vocês os dôs 'tão-me a levar de trôxa mái tamém uma garrafa de vinho nã é nada p'r 'í além... Vamos lá buchar qu' ê tenho cá uma lazêra...

E lá abalamos. Chigados ô restarante, cada qual escolhé lá munto o que l'e dé nas ganas - foi tudo o mémo: insopado de borrego - o Zé Manel foi falar com o homem lá ô balcão. 'Teve lá um pôcachinho, voltô p' à mesa e diz assim c'm' quem nã quer a coisa:

- Pronto, o vinho já 'tá incomendado. Agora vejam lá a figura que fazer. Nã bebam munto...

Naquilo, o homem com uma garrafa do tinto, toda bojuda, já a l'e espetar o saca-rolhas. Abre-a, fez assim aquele estralo de ser uma pinga ô consoante, e despeja um coisinho só p' ô copo do compad'e Jôquim. Ele f'cô a olhar p' ô copo.

- Vá, prove, mê pai. É p'a ver s' ele 'tá bom...

- Ora 'tá bom. Encha más é o copo...

O impregado lá despejô p' ôs copos todos - menes p' ôs das m'lheres que dizem semp'e que nã gostam de vinho - pôs a garrafa ali e foi-se imbora.

- Ó Zé Manel, tu qu' inda tens bons olhos, lê lá aí o rótalo p' à gente saber o qu' é que se vai bober...

Carpa da Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010
 A água 'tava um coisinho suja, mái, meme assim, par'cia lá com cada pêxe...

- ... ora, Herdade do Esporão, Reserva 2004... 14,5º ... é um v'nhito más ó menes... Mái nã bebam munto...

- Reserva? Já tinhas mandado reservar isso p' à gente, foi? - Diz o compad'e Jôquim do Barranco.

- Já, já, mê pai. Já lá vai p'a sês anos qu' ele 'tava aqui de reserva p' à gente - Diz o Zé Manel a antrar com o pai.

Nesse mê tempo, o homem vêo trazer o tal insopado e a conversa f'cô p'r 'qui. Comemos e bobemos, o mê compd'e aguenta pôco, já 'tava um coisinho escarado. E foi a sorte. Mái nã fez má figura. Qu' assim, o Zé Manel pediu a conta e nã l'a amostrô:

- Agora, traga aí uns cafézinhos e a conta. Mái, dê-me-a a mim qu' o mê pai tem munta falta de vista e nã intende nada disso. E o mê parente Refóias tamém já 'tá com os olhos um coisinho piscos...

Ê vi qu' ele 'tava tamém a fazer porra de mim, mái nã fiz caso. C'm' o pai dele é que pagava a garrafa...

E sabem q'onto é qu' ela l'e custô? Vô-l'es d'zer aqui, mái vomecêas nã l'e contem nada. É qu' o homem inda hoje nã sabe qu' o Zé Manel pegô-l'e na cartêra dele, pagô a parte deles os três e a coisa passô adiante...

Pôs, só a garrafinha foram trintas eros!... Punhana!... Mái lá qu' ele era do bom, era...

E dali, sabem p'r adonde fomos? Nem mái nem menes p'ra donde a tal garrafinha foi produzida: a Herdade do Esporão.

S' ê cá, uma umaocasião, t'ver jêto, logo l'es conto a nossa v'sita a essa dita adega.

Querendem ver os retratos qu' ê cá tirí na Barraja do Alqueva, acalquem aí p'r baxo:

Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010


Barragem do Alqueva - Janeiro de 2010

E até qu' a gente se veja.

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A Barragem de Odelouca

Barragem de Odelouca, Alferce, Monchique
A Barraja d' Odelôca andô, andô, semp'e se fez...

Aqui há coisa dum mês ó dôs, contaram-me p'r' aí qu' a Barraja d' Odelôca já tinha sido tapada p'a ver se dava ajuntado uma gotinha d' água p'a, em chigando o Verão, matar a sede da famila lá de baxo do Algarve.

Des qu' até quem vêo fazer esse serviço - d'zeram-me, qu' ê cá nã vi... - foi o Pr'mêro Ministro, aquele homem que mora lá im Lisboa e manda nisto quái tudo. D'zer e verdade, q'ondo me contaram, nã f'quí assim lá munto certo nisso. E sabem premode quem?

Nã é qu' ê cá cude qu' o homem nã seja pessoa p'a fazer tal serviço - pro jêto ele até des qu' é ingenhêro... Mái fazerem-no vir d' aprepósito, bem de Lisboa, só p'a acalcar p' ali num botão e aquilo se fechar tudo... Se me t'vessem dado vaia, calhando, até ê cá fazia isso e pôpava-l'e esse encómado...

Agora, nã me querendem d'zer a mim, 'tá lá um mecinho, béque-me de Cabo Verde ó d' Angola nã sê bem, qu' um dia destes até dêxô a gente antrar lá drento, que bem podia desinrascar a coisa. S' ele sabe andar lá com uma inxada a arrenjar aquele rego, logo à antrada, munto melhor havera de saber acalcar no botão...

Barragem de Odelouca, Alferce, Monchique
Tã penas a taparam, choveu logo tanto ó tã pôco que já 'tá quái a estibornar...

- Nã me venha cá d'zer que já antrô lá drento qu' ê cá nã vô nessa...

- Que jêto nã d'zer, compad'e Jôquim, s' ê cá antrí...

- Atã aquilo des que tem lá um sinal a proibir a entrada e um ferro atravessado logo ô prencipo...

- E o qu' é qu' isso tem?... Ê cá ia com o parente Tóino Rosa, no carro dele, um Mercedes qu' o homem tem... - Ah, e os carros que sejam Mercedes podem antrar à vontade...

- P'r o jêto, podem. Atã a gente chigô lá, aparamos, 'tava esse tal moço e mái uns dôs ó três, cada qual com a sua inxada, a escrafuncharem p' ali na valeta. Olharam p' ô vrido do carro, nã haveram de ter visto nada que 'tava todo imbaciado, a seguir voltaram-se béque-me ali p' à frente adonde 'tá aquele coiso da marca Mercedes...

- E cudariam qu' era, ôtra vez, o tal ingenhêro lá de Lisboa?...

- Isso nã l'e sê d'zer. Mái qu' eles par'ciam uns polícias sinalêros logo a mandarem o carro seguir lá drento, isso par'ciam...

- Tó, raio! Inda me custa a crer...

- O parente Tóino Rosa inda l'es prècurô s' a gente podia antrar más eles nã aparavam de dar sinal com as mãs p' ô carro andar p' à frente...

- E mecêas antraram...

Barragem de Odelouca, Alferce, Monchique
Qu' eles inda 'tão p'r lá a fazendo uns trabalhinhos...

- Ora nãinques!... O pior foi despôs...

- Atão?...

- Ora, andemos p'r lá com o carro, corremos aquilo tudo - semp'e a chover, que Dés a mandava... - já se vinha de volta p'a trás, 'parêce um, assim todo bem vestido, amontado num jipe, apara méme ô pé da j'nela do mê lado, dá im esbracejar, tive qu' abrir o vrido...

- Atã o qu' é qu' andam p'r 'qui fazendo?... - précurô-me ele a mim, assim béque-me com cara de gozo.

- O qu' é qu' havera de ser, anda-se a ver isto... Mal impregado 'tar a chover desta manêra que nem se dá saído do carro aí p' ô mêo desse lamatêro...

- Atã e mecêas nã sabem que nã podem antrar aqui?!... Olhe, já o mê chefe, qu' antrô méme agora - nã no viram passar aqui num Mercedes igual a esse?...

- me dé uma desanda premode isso, qu' ê nem sê o que l'es diga!...

- Oh, mê belo amigo, quêra desculpar. A gente cudava qu' isto era livre...

- Livre?!... Só antra aqui a famila que trabalha cá!... Vã-se já imbora senã ele inda vem ôtra vez - e olhem qu' ele imbruta com pôco...

- O caso nã seja esse... Nã vê que já 'tamos voltados p' à saída e tudo?... Vá, parente Tóino, acalque aí no acelarador.... nã parêça o chefe dele...

Barragem de Odelouca, Alferce, Monchique
'Tã alembrados desta ponte? Atã, agora, já nã se passa p'r cimba dela qu' eles já prantaram com ela no chão e fazeram uma nova logo preciminho...

Aqui, o mê compad'e Jôquim dé uma carcachada. O saganheta gosta é destas partes de q'ondo uma pessoa se vê im traquetes... Más ê cá, c'm' à conversa já nã me 'tava a calhar, desvií o assunto.

- Olhe lá, c'pad' Jôquim, isto, com tanto que tem chovido, im pôco mái dum mês, já dé p'a incher a barraja até adonde podia ser e a R'bêra d' Odelôca, cá p'r baxo, inda vai chêa.

- Nã me diga... Cudava qu' ela, agora, f'cava seca... Atã e a barraja? Assim tã chêa há-de par'cer a do Alqueva. Ó sará inda maior?

- Sê cá?!... Ê nunca vi a do Alqueva chêa... Más olhe que, p'r aquilo que vi, nã tem nada em l'e pedir meças. E méme no qu' eles fazeram ali à roda dela, tem que se l'e diga...

- Tamém faz elecsidade?...

- Nã. Nã é isso... 'Tô a falar dumas pontes qu' eles fazeram lá, coisa jêtosa... D' entes, p'a s' atravessar a R'bêra do Alferce - ó R'bera de Monchique, c'm' otres l'e chamam - tinha-se uma ponte velha. Agora, prantaram com ela no chão e fazeram uma nova.

- Aquilo, tamém, era fraquinha...

- Cá mái prebaxinho, p'a atravessar p' à Foz do Barrêro, era à pata p'r drento d' água. Agora, fazeram tamém uma ponte...

- P' à famila e p' a carros?...

Barragem de Odelouca, Alferce, Monchique
Méme com a barraja tapada, a R'bêra d' Odelôca inda leva esta rebêrada...

- Sa senhora. A famila até passa bem. Carros é qu' é preciso ter mái conta.

- Atã que jeto?...

- É qu' um mata-velhos passa bem, agora um carro assim maiorinho é melhor que tenha um chòfer já com muntos anos de carta...

- Compad' Refóias, nã l'e esqueça o que 'tá d'zendo, mái, de repente, vêo-me uma coisa à idéa. Atã e s' a gente, um dia destes, se fosse dar um passêo à Barraja do Alqueva e tirava-se as temas a ver qual é a maior?...

- 'Té que nã era mal pensado, nã senhora. Atã e via? Im que via é qu' a gente lá vai? Nã dô p'r 'tar p' aí nenhuma excursão p'a ser fêta...

- Ê cá tamém não. - Só se vomecêa desse uma vaiazinha ô sê Zé Manel e ele fazesse esse jêto d' alcançar a gente lá, um dia qu' ele 't'vesse de folga. Pagava-se-l'e a gasolina os dôs e uma bucha lá naquele restarante das avestruzes. O qu' é que diz?

- E levava-se tamém as m'lheres?...

- Calhando... Mecêa é que sabe. Mái veja lá isso, home...

Em o mê compad'e Jôquim falando assim, é certo e sabido qu' ele 'tá enteressado e vai arrenjar tudo p'a se dar ido. De manêras que, s' a coisa correr ô consoante c'm' ê cá cudo, e a gente lá ir, ê logo l'es conto o que se passô.

Fiquem-se com Dés.

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A Feira das Velharias de Vila Nova

Feira das Velharias de Portimão Com o Sol inda p'r narcer já a Fêra das Velharias 'tava nisto...

S' ê cá l'es contar adonde é que fui um dia destes com a minha Maria, mecêas, calhando, nã têm nada em inda incherem o papinho de rir à minha conta, mái c'm' nã me vem, agora, ôtra coisa à mimóira p'a l'es falar, riam-se ó não...

Faz, béque-me, agora quinze dias, D'mingo que vem - quinze dias ó três semanas, jã nã m' alembra bem... más isso tamém o tempo que há ó que nã há nã tem assunto... - fui até Vila Nova. E fui até Vila Nova premode quem?

É qu' a minha Maria já há uns belos tempos qu' andava a brigar im forte com-migo p'a ê cá ir com ela lá, a uma fêra qu' eles, nã sê qual a rezão, fazem quái todos meses p' à famila ir vender as trugias que tenham im casa e já nã tenham míngua delas.

Entes de me resolver a ir, inda disse à minha Maria p'a falar à c'mad'e C'stóida s' ela nã gostava ir tamém com a gente qu', assim, o compad'e Jôquim tamém havera de ir p'a me dar companha e ê semp'e 'tava lá mái advertido.

Feira das Velharias de Portimão Nã há nada c'm' um belo toque de corneta p'a chamar a freguesia...

A C'mad'e C'stóida, p'ro jêto, disse logo que sim, qu' aquilo é moça que nã dêxa passar nada, mái atão e o marafado do compad'e Jôquim qu' imbirrô que nã queria ir?!... E, em ele d'zendo que não, é munto má de se l'e dar fêto voltar com a dele atrás. Aquilo é bicho que nã dá orelha, 'tejam certos...

Ora ê cá já tinha dado a intender à minha Maria que ia, tamém nã quis dar o dito p'ro nã dito dôs ó três dias despôs qu' o incontrí ali nos cantêros dele. O homem tinha p'ali uma quadra ó duas de batatas-doces, inda nã as tinha arrencado e 'tava, naquele dia, a acêfar a rama. O qu' é que se esperava... antrí logo com ele:

- Compadre, atão elas 'tavam com sede, calhô bem aquela aguinha que chové antes d' ontem...

- Lá 'tá vomecêa semp'e com as suas parvoêras... Se nã nas arrenquí mái cedo, foi que nã ... Ó cuda qu' ê cá nã tenho mái nada que fazer?...

- Dêxe lá... Assim, vêem mái aguadinhas, têem menes açucre, nã fazem mal a quem tenha os diabetes...

Feira das Velharias de Portimão Agora, já pôco se vê o gado com campas destas...

É que, nã sê se mecêas sabem, mái s' uma pessoa dêxa as batatas-doces na terra até despôs de chover, aquilo ficam deslavadas que nã têm gosto nenhum. E foi o qu' ele fez...

- Mái dêxa-se isso da mão. O qu' ê cá l'e queria falar era ôtra coisa. A minha Maria des que mecêa nã quer ir com a gente a Vila Nova à Fêra das Velharias... 

- Pôs nã vô... Aquilo tem alguma coisa que ver?!... Uma ocasião, inda fui a uma que faziam aqui im Monchique, aquilo ajuntavam-se p' ali três gatos pingados com mêa-dúiza de coisas velhas sem virtude nenhuma...

- Isso foi aqui, logo no prencipo... Agora 'tá tudo mái desinvolvido. Des qu' im Vila Nova ajunta-se p'a lá um poder de famila a vender qu' é uma coisa temente...

- Calhando sã mái a vender do qu' a comprar...

- Isso é o que mecêa cuda. Prècure ô sê Zé Manel qu' ele já há-de ter ido lá e sabe-l'e d'zer bem c'm' é que é... A mim, d'zeram-me qu' a comprar, atão, aquilo é uma chusma de famila que parêce um inxame d' abelhas.

Feira das Velharias de Portimão Nôtros tempos, p'a nã se cortar os dedos com a fôce, tinha que se pôr estes canudos nos dedos da mão...

- Há-de ser, há-de... Olhe, atão, o melhor é mecêa nã ir p'ra lá. Já viu que, com essa idade que já tem, inda algum s' ingana, cuda que se trata d' alguma peça antiga e quere-o comprar?...

- Olhe lá, compad'e Jôquim, dêxe-se de alarvidades e pense más é im ir com a gente. Nã dê essa pàxão à Comadre...

E fui andando até ô monte. Nunca pensí foi que o homem f'casse a ramoer naquilo, mudasse de idéa e fosse p'ra casa já resolvido a ir tamém com a gente. Mái foi o que se deu.

De manêras que, nesse tal D'mingo, logo bem cedinho - des qu' aquilo abria logo às sês da manhã... - lá abalamos todos quatro carregados com aquelas òcharias todas - tudo tranquitanas que já nã serviam p'ra nada, 'tá bom de ver - e pusemos-se lá no mêo dos ôtros a ver c'm' é aquilo corria.

Vinha um, punha-se a olhar, précurava (à minha Maria, 'tá bom de ver, qu' ela é que era a negocianta...):

Feira das Velharias de Portimão Ferramentas antigas nã faltavam...

- Q'onto é que vale esta bomba?

Era a bomba duma pedalêra que me rôbaram há uma data d' anos.

- Olhe, p'ra si, vá lá um ero e mêo... Más isso é material do bom. Vale bem uns três eros à vontade...

- É munto caro!... Vá lá cinquenta cênt'mos e já é munto...

- Cinquenta cênt'mos?!... Cinquenta cênt'mos nã é nada, criatura!.. Vá lá p'r um ero... Mái nã conte nada a ninguém!...

Da quem nada, vem uma, joga-se a uma mala de mão qu' a minha Maria tinha comprado no Chinês e já 'tava a largar as pegas. Aquilo tinha-l'e custado tuta e mêa, mái tinha p' ali uns desenhos e umas letras béque-me duma marca estrangêra qu' ê cá nã sê o nome - mái as m'lheres sabem isso tudo...

Feira das Velharias de Portimão Désna de relójos de parede até às máquimas de costura, tudo lá par'ceu...

- Sã três eros, minha senhora. Más olhe qu' isso vale munto mái do drobo... Nã vê os fechos? 'Tã um coisinho ferrugentos mái foncionam todos do melhor. Querendo, pode-os alimpar com um coisinho de vinagre qu' eles ficam a luzir c'm' nôvos.

A ôtra apresentô dôs eros, a minha inda se 'tava a fazer esquerda, dí-l'e logo um toque entes qu' a freguesa s' arrependesse. É qu' ê cá já 'tava a ver era qu' a gente nã dava arrenjado d'nhêro p'a pagar os bilhetes da carrêra... P'a já nã falar do aluguel do lugar que foram mái quatro eros e mêo p' à Cam'bra de Vila Nova...

De manêras que, a coisa, no que respêta ô d'nhêrinho, foi fraca. Mái, q'onto ô resto, corré tudo bem. Vi p'r lá um amigo ó ôtro cá da Serra e aprevêtí p'a tirar mêa-dúiza de retratos que mecêas, querendem, podem ver s' acalcarem aqui na Galeria da Feira das Velharias de Portimão. E passem todos munto bem.

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O 'Jeko' e o 'Kiko' fazeram a Via Algarviana duma ponta à ôtra...

O Kiko e o Jeko em Marmelete O "Jeko" e "Kiko" fazeram a Via Algarviana duma ponta à ôtra...
Domingo passado, logo de manhãzinha cedo,fui, todo limpêro, caminho de Marmelete, cudando qu' era p'ra ir em companha do "Jeko" e o "Kiko" até Al'zur no últ'mo dia da Via Algarviana deles. Deles e da dona deles, que nunca os largô désna d' Alcôtim até aqui.
- E quem é essa famila?...
E ê cá dô-l'e a reposta:
- O "Kiko" e o "Jeko" sã dôs burros muntíss'mo de bem tratados - tomara ê cá ter a vida qu' eles têm... - e a dona é uma alemôa, munto boa pessoa, ch'mada Sofia, e munto minha amiga e da minha Maria.
- Uma alemôa?!...
- Sa senhora, uma alemôa. Mora além p' às bandas d' Al'zur, no Vale da Amorêra, fala c'm' à gente que se percebe tudo o que diz, e meté-se-l'e na cabeça qu' havera d' incher uma cerca de burros. Gosta dos animazes, o qu' é que mecêas querem. Já tem tantos c'm' sete e quer arrenjar mái uma manchinha deles...
E lá p'r ser estrangêra, nã cudem, há pôco c'mo ela. Uma pessoa do melhor que pode ser e haver!...
O Kiko e o Jeko em Marmelete
Hôve quem l'e desse cinoiras logo ô quebra-jum, tal nã foi a sorte deles...
Pôs a dita Sofia, p' à ajuda da palha e da r'ção dos b'chinhos, dé im fazer uns passêos com quem quêra levar os moços-pequenos a andarem a cavalo nos jiricos, pagandem-l'e qualquer coisinha. Coisa pôca, 'tá bom de ver...
E atão, já há uns belos tempos qu' ela andava a d'zer à gente que, em podendo, pegava num ó dôs burros dos que 't'vessem mái rijos e ia fazer a Via Algarviana com eles.Assim, já nã tinha qu' alancar com as coisas às costas. Eles acartavam-nas sem custo nenhum que têm bem força p'ra isso...
Levô a matinar naquilo, a matinar, até que se opôs, desalvorô caminho de Alcôtim e pôs-se a andar p'ra este lado, p'ra poente.
E teve sorte... O tempo ajudô e arrenjô semp'e camaradas. Nã hôve dia nenhum qu' ela nã t'vesse companha. Ora uma, ora ôtra, hôve semp'e umas amigas dela a l' ajudarem a cudar nos burros e a andar o caminho. Melhor d'zendo, as v'redas...
A caminho da Ribeira da Rocha
P'a quem já andava há duas semanas, inda tinham boa cara...
Inda cudí que, im muntos sitos t'vessem que arrenjar uns incurtadoiros ó irem p'r caminhos inda mái compridos, mái, p'ro qu' ela me contô, até mémo no bico da Picota, os burros passaram que foi uma beleza. Des que par'ciam cabras p'r cimba daquelas pedras...
De manêras que, corré tubo do melhor até chigar a Marmelete. Aí, qu' ê cá 'tava fêtinho p'a ir com eles até Al'zur, chego lá, Domingo de manhã, c'm' l'es falí logo no prencipo desta conversa, e nã é qu' um pobrezito 'tava com uma dor numa perna?!..
P'ro jêto, Sáb'do, abalaram de Monchique, panharam um gradessíssem'ô navoêro ô desandarem da Fóia p'ra baxo, os bichos iam todos suados, com aquele frio e aquela morraça, chigaram a Marmelete e um dé im coxear.
Ora, a dona, que gosta mái deles que sê cá o quem, disse logo que, assim, nã podiam seguir viaja. Nem qu' ela t'vesse que dromir ali ô pé deles na arramada qu' uma amiga lá l'e arrenjô. Salta a minha Maria:
- Ó senhora Sofia, vomecêa tamém podia fazer uma coisa: dêxava aí o coxo e levava-se o ôtro. O qu' é que diz? Logo o vinha buscar...
Atravessando a Ribeira da Rocha
D' ora im qonto, parêce uma r'bêra. Vá lá qu' a da Rocha, inda assim, nã levava munta água...
- Que jeto?!... Eles 'tão tã acost'mados um ô ôtro qu' o que f'cava nã aguentava as sôidades. Levava pr' aí a zurnar toda a nôte e a arraspar o chão todo. Até a arreata ele era capaz de partir p'a se pôr a mexer atrás do ôtro...
- Prendi-ô bem...
- Toma chó!... Chega-te p'a lá Jeko!... Nã vê? Parêce ele que percebe o qu' a gente 'tá a d'zer... Cudado nã vá ele l'e dar p' aí algum côce!... Olhe qu' ele é manso, mái em l'e chigando o sãingue às ventas...
- Atã e agora? O qu' é que se faz?...
- Querendem, vai-se todos caminho de Al'zur e eles ficam aqui os dôs qu' ê cá, amanhã, logo os venho buscar.
Nesse entrementes, já tinha havido quem fosse comprar um quilo de cinoiras e vá de dar nelas ôs dôs qu' eles até se lembiam. Um 'tava tã esgazeado com fome - ó atão era a gulosêra... - que, más um nada, nã dava uma mordizada tamém na mão dona...
Ô certo, ô certo, é que semp'e s' abalô caminho d' Al'zur e eles f'caram im Marmelete. A minha Maria teve uma paxão que mecêas nã calculam...
A caminho da Rocha
Na Rocha de Cima há uns belos amiêros. Dã uma sombra qu' até dá gosto...
Com aquilo tudo, abalar e nã abalar já ele passava das dez. Más o tempo, ora se toldava ora alimpava, o calor tamém nã era munto. D'zer a verdade, ô prencipo, até qu' inda quái que tive p'ra vestir qualquer coisa p'r cimba da blusa, mái tã penas chigamos ô apartadoiro p' à R'bêra da Rocha já 'tava más era tudo incalorado...
Daí p'ra diante, até à partilha do concelho, já prebaxinho da Néveda, foi sempre a andar de ladêra a baxo, devassar madronhêras, estevas, amiêros e coisa e tal. E posso-l'es afiançar que vistas c'm' àquelas é má d' incontrar.
Querendem ver mái mêa-dúiza de retratos, acalquem aqui na galeria dos retratos. E olhem de desta vez sã méme pôco mái de mêa-dúiza...
E até qualquer dia. Dés l'e dê saúde.

O 'Pisolithus Tinctorius'

Cogumelo 'Pisolithus Tinctorius' também conhecido por 'Bufa de Velha'
Ô "Pisolithus Tinctorius" cá a gente chama-l'e "Bufa de Velha"...

- O "pisolites" quem?!...
- O "Pisolithus Tinctorius", ti Refóias...
- Qu’ é isso, home?...
- É assim qu' eles alomeam essa cagumela. P'r menes, ê cá fui ver ali a uma coisa qu' ele há na internet, ch'mada Wikipedia, e 'tá lá esse nome.
- Cagumela?!... Nunca dí p’r ninguém ch'mar cagumela a isto…
- Atão, ‘teja certo qu’ isso é uma cagumela tal e qual c’m’ às ôtras que p’r ‘í há.E os que sabem dã-l’e o tal nome de “Pisolithus Tinc…
- "Pisolites"… Pôs olha, Zé Manel, isso nunca ôvi... Ê cá semp'e tenho ôvisto é a famila daqui l'e ch'mar "Bufa de Velha", com l'cença da palavra, que nã te quero faltar ô respêto. Nem a ti nem mái ninguém...
- Isso é o qu’ a gente aqui, parvos, se l’e dé im ch’mar. Foi um petafe qu’ a famila de cá semp’e teve foi esse. Em nã se sabendo bem o nome duma coisa, enventa-se uma à nossa manêra… Agora veja lá se vai pôr isso aí na internet...
- E achas mal? Cada um desinrasca-se. Foi p'r "Bufa de Velha" qu' ê sempre os conheci...
Cogumelo 'Pisolithus Tinctorius' também conhecido por 'Bufa de Velha' 
Qualquer sito l'e serve p'a narcer...

- Mái tamém, nã vale abusar… “Bufa de Velha”… Tal é essa conversa!... Sempre podiam ter arrenjado um nome mái jêtoso…
- Olá, olá… Até parece qu’ é alguma coisa do ôtro mundo…
- E nã l’e parêce?!...
- Cá p’ra mim, ‘té acho que l’e fica méme ô queres. Já repàiraste, q’ondo elas ‘tão maduras, e l’ incalhas ó dás uma tarôcada o qu’ é que se ?
- Ora… Sai uma remessa de… - … de fumo… - Qual fumo!... Aquilo parece fumo mái nã é, ti Refóias…
- Fumo digo ê cá… Ê sê munto bem qu’ aquilo nã é fumo. É uma pòzêra quasequer…
- Aquilo sã as sementes deles. Quer-se d’zer, eles chamam-l’e, béque-me, esporos. - Seja lá o que ser, já que sabes assim tanto, alguma vez viste algum narcer no mê duma estrada d’ alcatrão?
Cogumelo 'Pisolithus Tinctorius' também conhecido por 'Bufa de Velha'
Fazeram-l'e uma estrada d' alcatrão im cimba? Fura o alcatrão e pronto...

- C’m’é qu' havera de ver? Isso nunca se deu… Só se t’ver lá um monte de terra… ó esturme… ó coisa assim…
- Isso cudas tu. Pôs fica sabendo – e vem àlém o tê pai que nã me dêxa mintir, qu’ ele tamém viu – qu' inda ontordia, ia-se a gente os dôs a caminho de Marmelete, à pata, e, num certo sito, p’a melhor d’zer, méme ô pé do Cerro dos Picos, ‘tavam uma data delas…
Acode, logo, o mê compad’e Jôquim do Barranco, pai do Zé Manel:
- Umas já grandes ôtras não, tudo narcido no mê do alcatrão!... Faz verso e é verdade.

- Alguma vez?!... Hoje tiraram os dôs p’a fazerem porra de mim, já vi…

- Nã é nada disso, Zé Manel. O qu’ o tê pai diz é a pura da verdade. Olha, parêce mintira, mái as velhacas narceram méme debaxo do alcatrão. Alevantaram-no e ali f’caram espècadas

- Só vendo… E méme assim, nã sê, na sê...

- Atã, calha méme bem, anda cá aqui com-migo qu’ é p’ra veres uns retratos qu’ ê l’es tirí…

- E isso f’cô alguma coisa de jêto, compadre? É qu’ os sês retratos, d’ ora im q’onto, ficam assim um coisinho manhôsos...

- Lá 'tá vomecêa...

- Nã l’e pareça mal. Calhando, sô ê cá que já vejo pôco com estas lentes… Falar verdade, nã me calhô aquilo munto bem e quái que me parcé mal, mái, méme assim, lá fui amostrar os retratos ôs dôs. Pai e filho. O qu' é qu' ê cá havera de fazer?...

Cogumelo 'Pisolithus Tinctorius' também conhecido por 'Bufa de Velha'
Em 'tando maduro, lá vã as sementes pr' os ares...

E, p'ra mecêas verem o qu' o tal "pisolites nã sê quem" é capaz de fazer, tamém l'es pranto aqui uns quatro ó cinco retratos, méme mal tirados e conto-l'es c'm' à coisa se passô.
Aquilo, p'ro jêto, as cagumelas tinham-se criado lá, o ôtro ano, q'ondo a estrada inda era uma carrelêra de terra. Dêxaram a semente, sa senhora boa vida, e desparceram, c'm' tôdes anos. Vai daí, a Cam'bra terminô alcatroar aquilo e foi o que fez. De manêras que, as sementes - aquilo qu' eles alomeam de esporos - f'caram imparêdadas debaxo do alcatrão e da brita.
Ora, tã penas chigô a altura de darem cagumelas novas, aquilo há-de ter sido uns trabalhos... Más elas pertaram tanto ó tã pôco com o alcatrão que, foram foram, arrebentaram com ele e parceram à luz do dia... Más ê cá tamém 'tô c'm' o Zé Manel. Se nã visse nã acraditava...
Cogumelo 'Pisolithus Tinctorius' também conhecido por 'Bufa de Velha'
Atanchem-l'e com uma bordanada e logo vêem a pòzêra qu' ela dêta...

Por isso, nã m' admira nada o moço cudar qu' ê cá e o pai dele se 'tava a mangar.
E mecêas, calhando, tamém nã ficam lá munto certos qu' a coisa se tenha passado assim. Ora, cagumelas a furarem o alcatrão da estrada... Quem sabe lá s' isso nã é coisa aí dessa malta da internet que mudam os retratos e fazem o que querem com eles...
Más isto é tã puro c'm' à luz que nos alomêa. Dé-se tudo tal e qual c'm' ê cá l'es 'tô a contar. Podem acraditar à vontade cá no Parente qu' ê nunca l'es ia fazer o ninho atrás da orelha. E logo a vomecêas que vêem semp'e devassar as patacoadas qu' ê cá pr' aqui pranto...
E desta manêra me despeço. Fiquem-se com Dés.

Marcas do Tempo

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Foi com este retrato qu' ê cá ganhí um prèmezalho...

Nã s' apequentem com-migo d' ê cá vir ôtra vez falar da 5ª Corrida Fotográfica de Monchique, mái atão - inda 'tô p'a saber c'm' é qu' isto se deu... - os que mandavam lá naquilo descaíram-se com prèmezalho cá p' ô Parente.

Ora, 'tá bom de ver qu' ê cá nã ia dêxar passar uma ocasião destas im vão, más a más, qu' o mê parente Zé Caçapo, que tem p'r c'stume andar semp'e a antrar com-migo, tinha postado que retrato meu nã havera de par'cer lá nenhum na exposição q'onto más ganhar fosse o que fosse.

Isto, p'a nã falar do mê compad'e Jôquim do Barranco que andô aí coisa dum mês sempre a m' a atentar a cabeça com a méma conversa. Já a minha Maria, verdade se diga, pertô sempre com-migo p'a ê cá ir lá e, désna do prencipo, teve semp'e a mania qu' ê cá que ganhava...

- Mái ganhar o quem, Maria?!... No mêo de perto duns sessenta e quái tudo famila intendida, nem eles dão p'r mim... Põe-te no tê lugar, m'lher!...

- Dêxa que logo vês... Tenho aqui uma coisa que me diz. E já aprometi uma chôriça ô S. Luís, nã cudes...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
O Senhor Presidente da Câm'bra 'té me dé um diploma e tudo...

A minha Maria tem destas. Agora, lá se me vai uma chôriça do varal, em chigando ô dia do Santo que, se nã 'tô atribuído, é lá p'a vinte um de S. João. Mái, ô menos, arrecebi uma preçanada de bilhetes p'a ir gastar na FNAC. Valem é pôco más qu' a chôriça...

Premode isso já o parente Zé Caçapo se fartô de m' inzucrinar o juízo. É qu' ele postô com-migo uns copos d' aguardente e perdeu, mái agora, todo caganêroso, inda se gaba:

- Ó Refóias, atã nã vês qu' ê cá, que ganhasse a aposta qu' a perdesse, semp'e os pagava. Agora tu, ganhaste quatro ó cinco bilhetes p'a ir à FNAC, eles lá nã têm nada que se coma ó qur se beba, e vás f'car sem uma chôricinha qu' a tu Maria tem que dar ô S. Luís, o qu' é qu' isso t' adianta?...

- Mái ganhí...

- Nã saria munto melhor a gente fazer uma função e se rapimparmos com ela e mái qualquer coisa que tu t'vesses pr' aí?...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
A famila andava a panhar umas castanhitas c'm' notros tempos. Foi à medida...

- Olá, olá... Mecêa, tamém, nã pensa im mái nada senã im comer... E, más a más, qu' a gente pode fazer, na méma, uma patuscada. Mecêa traz lá um garrafanito daquele casêrinho que tem lá e a minha Maria mata uma coelha que tem pr' ali e pronto. A marafada, bem a levo ô coelho, ele chega-l'e, más ela, gorda c'm' 'tá, malêa sempre...

- Ah, isso, coelho não!... Nõtres tempos, gostava, mái agora, dá-me nonjo. Nã tens pr' aí um galo?... Mái voltando ôs tês retratos, inda te deram alguma bela maquia ó isso é tudo conversa?

- Faça lá um calc'o...

- Sê cá!... Calhando, parvos c'm' são, inda te deram p' aí uns três ó quatro contos...

- 'Tá munto inganada, mê belo amigo... Foi um coisinho más.

- Cinco?!... Nã me 'tejas a inganar...

- Ai cinco... O drobo!... Cinquenta eros, ti Zé... Se nã quer crer, ê amostro-l'e ali os bilhetes, qu' inda nã os gastí.

- Ai homem dum raio!... E o qu' é que tu vás fazer, agora, a tanto d'nhêro, mom?!...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Vá lá qu' ele inda há quem s' aprecate a tempo delas secarem bem...

- D'zer a verdade, nã sê. Mái dêxe lá qu' a minha Maria logo l'e dá sumiço. Que, lá nisso, ela arrenja sempre manêra do gastar...

- A quem o dizes... A minha, que Dés tem, q'ondo era viva, era a méma coisa... Atã, e ôtra coisa, só tu é que ganhaste, mái ninguém?

- Que jêto?!... Ê cá só foi uma coisinha assim p'a nã d'zerem que nã me davam nada. Havia lá uns môces com uns retratos qu' eram uma classe, esses sim, é que ganharam uns belos prém'os...

- Ah, atã diz-me dessas...

- Vá lá à Exposição que logo vê o qu' é bom. Méme ê cá inda quero ir lá ôtra vez p'a devassar aquilo melhor...

E vomecêas, mês belos amigos, vejam lá se faltam a uma coisa daquelas... Olhem qu' aquilo tem que ver. S' inda nã sabem, é no novo Espaço de Jovem, logo prebaxinho da Junta de Freguesia, adonde 'tá a Internet.

Querendem ver o resto dos retratos qu' ê cá tirí na 5ª Corrida Fotográfica de Monchique, acalquem aqui na Apresentação de Diapositivos do Picasa ó, atão, na Galeria Refóias da 5ª Corrida.

E passem munto bem.

5ª Corrida Fotográfica de Monchique

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Era aqui qu' a Corrida começava. Ê cá abalí logo a fugir...

Já havia uns belos dias qu' ê tinha ôvisto falar pr' aí numa "Corrida Fotográfica". A minha Maria, que nã dêxa passar nada, 'tava farta de m' impertenecer p'a ê cá tamém ir tirar p'r 'í uns retratos e apresentá-los, a ver o qu' a coisa dava.

Más ê cá, que pôco mái depressa ando qu' uma lesma, nã me queria opôr a isso cudando que, p' a antrar numa coisa dessas, uma pessoa tinha que dar andado a fugir do prencipo ô fim. Assim c'mo eles fazer no campo da bola...

E ela tém-mava que não:

- Ó homem, aquilo, cada qual anda c'm' pode!... Vai lá, munto bem, no tê passo e nã te rales com o dos ôtros que, em chigandes, logo chegas...

- Mái 'tão, nã vês qu' aquilo tem horas p'a s' intregar lá o cartanito da máquina dos retratos e, s' um f'lano nã chega a tempo e horas, já nã no arrecebem... Lá se vai o trabalhinho todo...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Isto é o que se chama uma casinha bem tratada...

- Qual o quem!... Aquilo é tudo famila conhecida, méme que chegues um coisinho mái tarde, eles nã se negam a isso...

- Olá!... Nã chegues lá a tempo que logo vês...

- E tem mái uma coisa. Inda esta manhão falí nisso ô compad'e Jôquim do Barranco e ele contô-me qu' o Zé Manel l'e tinha dito qu' aquilo nã se tem precisão nenhuma d' andar lá a fugir...

- Ah, sim?!... Atão chamam-l'e "Corrida Fotográfica" premode quem?

- Sê cá!... Eles é que sabem... Mái que se pode ir devagar, pode-se, nã cudes...

De manêras que, lá m' inchi de coraja, dí o nome e, no dia marcado, lá abalí com a máquina pindurada ô bescoço.

Tã penas estrapus da minha rua p'ra fora, parêce-me logo o ti Alvino - o das Martunhêras - p'ra frente, assim béque-me mê insonado, a esfregar as vistas - o homem vê pôco, des que tem a vista cansada:

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
P'ro andar do telhado, esta ch'miné de saia, se nã l' acodem, tamém nã dura munto...

- Venha com Dés, ti Refóias.

- Dés l'e dê saúde, ti Alvino.

- Adonde é que mecêa vai, logo de manhão, com uma pressa dessas, já com a tel'fonia de pilhas pindurada ô bescoço, hom'?... Vai tirar alguém da forca ó quem?...

- Lá isso, pressa, tenho. Más o qu' ê cá levo aqui ô bescoço nã é a minha tel'fonia. Nã vê qu' é a minha máquina de tirar retratos... Vô-me ali a uma "Corrida Fotográfica" qu' a famila lá da Câm'bra faz pr' aí...

- Ah, homem dum raio!... E acha que, na sua idade, inda tem posses p'a andar aí a fugir duma banda p' à ôtra?...

- Aquilo, pr' o jêto, méme chamando-se "Corrida", nã se tem preciso d' andar a fugir...

- Atã, s' ele é isso, posso ir tamém consigo?

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Méme assim, inda há quem saiba fazer munto bom pão cá p'r estas bandas...

- Poder, pode, mái mecêa dará àgu-ento? Olhe que, méme nã se tendo míngua de fugir, ó anda-se ligêros ó hablitamos-se a nã dar chigado a tempo...

- O qu' é que faz de mim? Ê cá inda quái que dô um coice numa estrela...

Nisto, vejo vir um carro devagarinho assim p' ô nosso lado, apara ô pé da gente. Quem é, quem nã é, abre-se um vrido, era o mê parente Arlindo:

- Atã, parentes, com a máquina às costas, nã me digam que tamém vã tirar uns retratinhos p' ô concurso?...

O mê parente Arlindo foi criado cá na Serra, mái estudô, e, agora, dá escola lá pr' ô Algarve, se nã 'tô im erro, até é no liceu de Vila Nova. Mái, méme sendo dôtor, gosta d' acompanhar cá com a gente e aprecêa umas patuscadas, assim, à manêra, e uns porretes d' aguardente. Da boa...

- Olhe, parente, ê cá vô-me. Agora aqui o ti Alvino nã sê. Más a más qu' ele nem tem com que tirar os retratos... E ê cá l' imprestar a minha máquina nã pode ser...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Na côrela do mê parente Arlindo, o madronho já vai amarelando.

- Nã vô, nã senhora... Inda agora, disse-l'e aquilo mái 'tava a mangar...

- Atã, venha daí qu' ê cá leve-o até ô Largo dos Chorõs. É lá qu' a coisa começa, nã é verdade?

- Des que sim...

E antrí p' ô carro do mê parente. Aquilo foi um 'stante, assim se chigô lá. O pior é que, à nossa frente, já lá 'tavam espècados bem uns cinquenta... P'ra más que p'ra menes. Olho p' ô mê parente, ramôio um coisinho, dá-me assim uma gavierra, digo p' ô parente Arlindo:

- Parente, vô-me imbora, barimbo-me nisto!... O qu' é qu' ê faço aqui no mê desta famila toda, senhor?!... Isto é tudo gente que sabe tirar retratos, inda vã é incher o papinho à minha custa.

- Dêxe-se disso, homem. Venha com-migo que f'camos juntos o dia entêro. Méme que nã se tire retratos, em chigando a hora de comer, des qu' a Câm'bra tem p' ali um comes e bebes p'a dar a todos, o qu' é qu' a gente precisa de más?...

- Ai, home, ai home, p'r esse lado sa senhora, mái o pior é o resto...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
Na hora da folga, uma manita ôs Três-Setes dá semp'e jêto...

O certo, o certo é que sempre se resolvemos a f'car os dôs e fazemos a "Corrida" cá à nossa manêra. Só basta que, ô almoço, fazemos-se rasmôlgos, os ôtros foram-se todos imbora, sentamos-se ali numa menza sòzinhos os dôs e foi comer e bober até mái não...

'Tá bem que, do mê dia p' à tarde, os retratos saíram todos um coisinho tremidos e tôrtos que nem um garrocho. Inda me voltí p' ô mê parente Arlindo, munto apequentado, qu' umas coisas f'cavam-me de cabeça p'ra baxo, ôtras p'ra cima e ôtras qu' ê tinha visto nem f'cavam no retrato:

- Nã vê, parente? É uma vergonha uma pessoa apresentar uma coisa destas lá... Ê nã intrego isto!...

Más ele sossegô-me logo:

- Que jêto?!... Nã diga uma coisa dessas!...

- Cale-se aí...

- Nã l'e dê cudados nenhuns... E olhe qu' ê cá sê munto bem o que digo. Eles, os que vã ver isto, inda hã-de cudar qu' a gente faz isto d'aprepósito e nã têm nada a inda darem algum prémio à gente...

- Atã nã dão!... 'Tá-se méme a ver...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
A maçaroca já pende e a charrafa tamém. Calhando, já era altura de panhar o milho e fazer uma descasca. Ó, atão, afituram-se a nã no darem secado a tempo p' à dessabuga...

Mái, fosse lá o que fosse, a gente nã 'tava im condiçõs de dar fêto melhor, p' à frente é qu' é caminho!... Cada qual tirava o mái retratos que podia. Tudo o que par'cia na frente servia. Agora só nã sê é c'm' é qu' eles vã resolver este caso.

Às mesmas coisas qu' o mê parente tirava, ê cá tamém tirava. E às qu' ê cá tirava, ele fazia o mémo. Os retratos nã têm nada im ser todos iguales. Ó, se nã serem, é só p'r uma coisa. Vomecêas nã digam a ninguém, más o mê parente 'tava um coisinho mái escorvado do qu' ê cá.

E, atão, é certo e sabido qu' os retratos dele hã-de 'tar mái tôrtos qu' os mêos... O pior - e isto foi uma arrencada da minha Maria - é se lá os tales do júri cudam qu' aquilo foi mémo d'aprepósito e descaiem-se com os prémios todos p' ô lado dele...

- Prém'os?!... - Dizia o mê compad'e Jôquim do Barranco uma tarde destas - Atã mecêa inda cuda que l'e vai acabedar algum?!... Ó compadre, dêxe-se de coisas... Quer-se comparar com esses que sabem tirar retratos c'm' deve ser ó quem?...

- Lá isso nã quero... mái...

- Isso, os que vêem de fora levam tudo... E méme alguns de cá nã l'e dã atopo nenhum. Vá mas é pondo as suas coisinhas aí na internet e já nã fica mal... Vá lá qu' o sê parente Arlindo, c'mo é dôtor, ganhe alguma coisa, agora vomecêa...

5ª Corrida Fotográfica de Monchique - Setembro/2009
É assim que se faz pedra p'a calçada. Mái, a nã ser aqui, já nã conheço mái sito nenhum...

E, d'zer a verdade, o mê compad'e Jôquim, calhando, nã dêxa de ter r'zão. Dêxa-me más é ir p'os conselhos dele.

Por isso, vejam más é estes retratos e, querendem, acalquem aqui na Galeria da 5ª Corrida Fotográfica de Monchique e vejam tamém os ôtros qu' ê cá tirí.

'Tá bom de ver que lá p' ô concurso só arreceberam quatro de cada q'ôlidade e escolhê-los é que foi uns trabalhos. De modes que, vi-me nuns traquetes tã grandes que fiz aquilo quái ô Dés dará.

E Dés l'e dê saúde.

'O Parente da Refóias' na 'Visão - Vida & Viagens'

Revista 'Visão - Vida  Viagens'
Vai-se a ver, a "Visão" nunca se desqueceu da gente...

Calhando, inda 'tã alembrados da últ'ma vez qu' ê cá fui andar na Via Algarviana. Nã sê se l'es falí, mái se nã falí falo agora, iam tamém lá dôs môces, tanto um c'm' o ôtro, ch'mados Pedro, um p'a tirar retratos e o ôtro p'a apontar tudo o que via numa sebenta.

E d' adonde é qu' eles vinham?... Ora aí 'tá... Uma coisa que pôcos ó denhuns haveram de saber. Qu' eles, verdade se diga, nã traziam nenhuma tab'leta pindurada no bescoço e quem os visse havera de cudar qu' aquilo eram mái dôs, imparvetados c'm' ê cá, que se tinham posto a andar duas semanas a pé désna d' Alcoutim até ô cabo de S. V'cente.

Mái nã eram, nã senhora. Eram jornalistas duma revista ch'mada "Visão". Nã desfazendo, famila do mái porrêro que possa ser e haver. Tamém nã tinham r'zão nenhuma de quêxa. A gente, p'a ir lá, teve-se que pagar p'a dar o nome, eles inda t'veram quem l'e pagasse por isso... Mái, fosse lá o que fosse, demos-se todos muntíssemo de bem.

E, atão, despôs de duas semanas a andar a pé, chigados ô fim da viaja, a munto custo, cada qual abalô p' ô sê monte com a trôxa às costas. Uns côxos ôtros trôpos, mái quái todos chêos de pàxão daquilo ter acabado tã depressa. Mái, c'm' o que tem quer ser tem munta força e tudo o que tem prencipo tamém tem fim, o laré acabô dum todo.

Revista 'Visão - Vida  Viagens'
É aqui qu' ele conta a nossa passaja cá pr' a Serra...

Más inda com respêto ôs tás dôs jornalistas, os môces passaram tod' ô caminho um a tirar retratos e o ôtro a apontar tudo numa sebenta. Cudava ê cá qu' aquilo, calhando, até saria coisa p'a sair dali um livro ó quasequer coisa assim. Inganí-me.

Uma ocasião, inda entes de se chigar cá a Monchique - oh!... munto entes disso!... - conversando com o dos retratos, ele contô-me que 'tavam os dôs ali a ver davam fêto uma reportaja - reportaja, se nã m' ingano munto, é contarem lá no jornal aquilo que se passa im qualquer banda - de c'm' o é qu' a famila dava andado aqueles trazentos e tal quilómetros à pata e o qu' é que se via p'ro caminho.

De manêras que, f'quí à espera a ver o qu' é que dali saía. Comprí a tal revista "Visão", gastí um poder de d'nhêro, nã vinha nada. Esperí um mês, esperí ôtro... nada. Prècurí a este, prècurí àquele... ninguém me sabia d'zer nada. Pensí cá p'ra mim:

- Eles barimbaram-se foi nisso. Tira daí o sintido que nã tens sorte nenhuma... Os homens, calhando, nã acharam graça àquilo ó, atão, f'caram tã cansados que nã deram fêto nada...

Até o mê compad'e Jôquim do Barranco, um dia que se falô no caso, se pôs a fazer porra de mim que me fez quái chigar o sãingue às ventas:

Revista 'Visão - Vida  Viagens'
Com o qu' ele diz aqui, mecêas hã-de cudar qu' ê cá l'e besuntí as mãs com alguma garrafinha de madronho. Nã besuntí mái logo besunto, em o vendo. Qu' o homem morêce...

- Com qu' então até o tinha entrevistado, hem... e iam pôr lá no jornal o que mecêa disse... Eles viram foi que vomecêa nã passava dum trôxa qualquer e puseram-se a fazer cachamorra de si... ah, ah, ah!...

Aquilo caí-me tã mal, punhana!... Na altura, até pensí:

- Logo ê cá l'e falí no assunto q'ondo vinhe da Via Algarviana. Podia munto bem ter f'cado calado, nã l'e parêcem?...

Más agora já 'tô na mó de cima ôtra vez. Os homens tardaram mái nã faltaram. Im Agosto, lá 'par'ceu a tal reportaja adonde eles contam tudo da Via Algarviana e tamém falam de cá da Serra de Monchique e do 'Parente da Refóias'.

Nã é que sejam uma coisa assim de tod' ô tamanho, mái, comparado com o qu' eles falam dos ôt'os lados, até que nã 'tá nada mal, nã senhora...

E, em acabando de escrever isto, ê já l'es digo o que vô-me fazer. Vô-me caminho do mê compad'e Jôquim do Barranco e esfrego-l'e a revista nas ventas. Qu' é p'ra ele, à ôtra vez, nã me charingar c'm' fez naquele dia q'ondo se pôs a caçoar com-migo premode eles inda nã terem posto aquilo lá no jornal.

'Tá bom de ver que esfregar-l'e aquilo nas ventas é uma manêra de falar. Nã é que nã me desse vontade disso, mái vô-me é l' amostrar aquilo ali bem na frente da cara p'a ver o qu' é qu' ele faz. Desta vez, há-de f'car bem inrascado. E, calhando, um coisinho cioso...

Repórteres da 'Visão - Vida & Viagens' na Via Algarviana 2009
Um tirava retratos, ôtro apontava tudo num caderno...

Pôs, vistas bem as coisas, os Pedros fazeram um trabalho... uma coisa do melhor que pode ser e haver. E nã cudem... anderam aquelas dias todos ô pé da gente, nunca arrèlaram e, borrefas, nada... Chigaram ô fim com os pèzinhos im bom estado c'm' se t'vessem começado naquele dia.

E moços de bom trato qu' aquilo eram... Semp'e na charola qu' aquilo era um pagode de manhã à nôte. Mòrmente o Pedro dos retratos, mês belos amigos, ninguém se dava sustido ô pé dele sem largar umas carcachadas valentes d' ora im q'onto. Aquilo era chalaça atrás de chalaça...

Mái, já agora, querendem ver o trabalho qu' eles fazeram, acalquem na apresentação de diapositivos powerpoint do artigo que saíu na Visão - Vida & Viagens (é um f'chêralho com menos de 10Mb, nã cudem lá que se trata d' alguma coisa do ôtro mundo...).

E fiquem-se com Dés.

O Pulo do Lobo

Pulo do Lobo - Rio Guadiana
É isto que se chama o Pulo do Lobo. Que tal acham?...

- Des qu' os lobos, na era dos nossos avózes, pulavam duma banda pr' à ôtra do rio Gôdiana. Em ele levando pôcachinha água, 'tá bom de ver, e só aqui neste sito, premode as pedras o enstrêtarem duma tal manêra qu' os bichos davam salvado a água.

Nã sê s' era verdade ó não, mái foi o qu' o chòfer da excursão qu' ê cá fui, ontordia, d'zia, com uma grande prosáipa, q'ondo se chigô ô Pulo do Lobo e a gente se desamontô tôdes da camineta.

Pôs é verdade. Agora tirí p'a, d' ora im q'onto, dar uns passêos, qu' isto, a vida, nã é só um homem andar aí d' àrrojo a afossar na terra. Tamém tem que se l'e apr'vêtar alguma coisinha más. E c'mo eles inda vã p' aí pagando as reformazinhas, cá vai a gente... O qu' é que me dizem? Faço bem ó nã faço?

- Mái atão, des qu' ele já nã há lobos p'r cá, há uma data gèraçõs... C'm' é qu' isso pode ser?!...

- Ó parente Cosme, dêxe lá o homem falar. Ô fim, logo prècura o que munto bem intender...

- Vendo-l'a p'r o mémo preço qu' a comprí... Semp'e tenho ôvisto d'zer isso e tem um certo jêto. Nã veêm, o rio Guadiana, aqui, aperta duma tal manêra que, calhando, isso dava-se.

- Lobos?!... Nunca vi tal vivente. Só se no Jardim zológico...

Pulo do Lobo - Rio Guadiana
A água nã é munta, mái corre com uma bela forçalha...

- Ti Refóias, o sê parente Cosme da Quinta nã leva bem repáiro naquilo qu' o homem 'tá a d'zer e, despôs, põe-se com estas patochadas...

- Nem zorras ê cá tenho visto d' há munto tempo p'ra cá... Nem escalavardos... P'a d'zer a verdade, ele já nã há é quái bichos nenhuns p'r 'í!...

- E ele a dar-l'e... Ó homem, cale-se l'a pr' aí um mimento...

- Isto no tempo seco, que, no enverno, vinha aí uma r'bêrada que nã havia bicho que desse salvado duma banda à ôtra...

- Calhando, era melhor a gente ter vindo cá d' enverno. Munto gôsto ê cá de ver aquelas grandes r'bêradas que levam tudo à frente... Com a água toda negra e a urrar que mete medo...

- Vomecêa, hoje, 'tá destravado ó quem?... Dêxe lá isso da mão e leve repáiro no qu' o homem 'tá d'zendo:

- Mái, agora, c'mo eles fazeram a Barraja do Alqueva, isto já nã passa aqui nem das dez partes uma do que passava d' entes. Haveram de ver...

Pulo do Lobo - Rio Guadiana
Com aquelas pedras ali ô mêo, até podia ser qu' os lobos dessem passado...

- Parente Refóias, p' à ôtra vez vai-se más é ver essa tal barraja...

- 'Tá bem, cale-se lá...

- ... uma ocasião qu' ê cá vinhe aqui, logo a seguir ô Ano Bom, um ano qu' envernô bem... Punhana!... Vinha uma barrancada d' água negra aí prêabaxo, fazia uma urrada que nem l'es dô incarecido...

- E ê cá perdi uma coisa dessas...

- Cale-se aí, parente!...

- Nem se podia 'tar aqui adonde 'stamos, nã cudem... Passavam p'r cimba destas pedras todas, caía além im baxo naquele fundão, fazia quái um metro de escuma...

- E ê cá nunca vi...

- Tal 'tá a cachamorra, hã?!...

- Inda bem não, vinha uma arajazinha d' àlém daquele em par, alevantava um poder de escuma, t'vemos que s' ir imbora ali mái p'ra ciminha e, méme assim, inda se levava com ela p'la fúiça...

- Essa aí é que nã me calhava nada...

- Ôtra vez?!...

- Agora, adonde ele alarga um coisinho, a coisa toma logo ôtro jêto. Nã veêm ali? A água toda lisinha. Até dá quái p' à abanhar...

- Se nã fosse perquem, ia exp'rimentar... O qu' é que me diz, parente?

Pulo do Lobo - Rio Guadiana
Adonde ele alarga um coisinho, tem logo ôtro jêto...

- Ó parente Cosme, atã mecêa nem lá no tãinque da Pedra da Zorra é capaz de se meter, que l'e dá a água só p'r as canelas... q'onto más aqui...

- Quem é que l'e disse?... Nã me faça marafar qu' ê jogo-me já lá p'a drento!...

E fez assim, béque-me, a amenção de desabotoar os cordõs das botas. Más ê cá vi logo qu' aquilo era conversa e pertí com ele:

- Sa senhora!... Mecêa tem mái medo da água qu' um gato escaldado... Uma ocasião qu' a gente 'tava tôdes a fazer lá o açude do Tãinque Grande, vomecêa pôs uma leva mal posta, despôs pasô-l'e com as botas de borracha p'e cimba, dé um escorregão, foi-se espatarrar no mê da r'bêra, insiô-se todo qu' inda vi jêtes de s' afogar p'a lá...

- Alguma vez?!... Só mal molhí as botas...

- Põs atão, a água mal l'e dava p'r os artelhos... Aqui é qu' ê gostava de ver... Nã é homem nã é nada!...

Diz o mê compad'e Jôquim, que tinha 'tado munto calado este tempo todo:

- Compd'e, nã o 'teja a açular senã ele inda se joga pr' aí e, despôs é um caso sério...

- Vamos panhá-lo a Vila Real de S. Antóino, à tarde, com uma rede, q'ondo a camineta lá passar de volta...

Más o mê parente nã foi nisso, qu' ele parvo nã é e saber nadar é, mái ó menes, c'm' um rabôlo...

Querendem ver uma coisa bonita, vã ô Pulo do Lobo. Em chegandem a Mértola, é logo ali...

Passem munto bem.

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Bonecos d' arêa

Construções na areia - Fiesa 2009
Im Pêra, fazeram uns bonecos d' arêa que sã méme bem-caçados...

Era uma coisa qu' ê cá tinha vontade de ver já há um belo tempo e inda nã tinha tido ocasião era isto dos bonecos fêtos d' arêa qu' eles, tôdes verõs, usam a fazer lá no Algarve, ali p' às bandas de Pêra.

Pôs, a semana passada parcé-me aqui o ti Luís Agúida p'a me comprar umas bajas temproas qu' ê tinha pr' ali - o homem faz a praça im Vila Nova - nã foi tarde nem foi cedo, fazemos logo duas contratas duma assentada: vendi-l'e as bajas todas p'r junto e combinamos a ir os dôs, no mata-velhos dele, a ver as tás bonecos fêtos d' arêa.

Aquilo foi uma coisa que calhô assim im conversa, num derrepente, e ê cá, logo de mimento, nem me vê à cabeça qu' o estapor do mata-velhos só pode levar dôs passagêros. Ora, c'm' é qu' a minha Maria ia tamém... E a ti Felismina, qu' é a m'lher?...

- Ó ti Luís, atã e nã se leva as nossas velhas?... - Dig'-l'e ê cá.

- Quem, a ti Maria e a minha Felismina?...

- Quem havera de ser?...

- Ó ti Refóias, dêxe-se disso... As velhas que fiquem a cudar no monte qu' a gente os dôs vai munto bem sòzinhos... Olhe, ê cá... tenho alturas que já nã dô aturado a minha...

Construções na areia - Fiesa 2009
Até do Camõs nã se desqueceram. E dumas moças qu' ele incontrô na Ilha dos Amores...

Aqui, f'quí-me... Más ele, levô a catarruar naquilo, nã se calava, e a minha Maria qu' andava a tabornequear ali no alpendre pôs-se à escuta e ôviu. Ora, salta logo de lá...

- O qu' é qu' o ti Luís 'tá p'r aí a d'zer, qu' ê nã panhí munto bem?!... É p'ra s' ir tôdes ver as construçõs na arêa?... Ó é só vocêas?...

F'quí logo incalacrado. Diz ele:

- Atã nã vê qu' o mê carrinho só pode levar dôs de cada vez... Só se mecêa s' amontar aqui na caxa adonde ê carrego as coisas p'a levar à praça...

- Tenha p' aí juízo... Era o que vocêas queriam era irem sòzinhos... Ê já resolvo isso. Sòzinhos é que vocêas nã vão. Que jêto?!...

E pronto. Assim abalô caminho da casa do mê compad'e Jôquim.

Inda a gente quái que nã se tinha tido tempo de tomar ar, já a vozêrrão delas as duas - a minha e a c'mad'e C'stóida - soava lá na rua deles. O que d'ziam nã sê, mái tamém nã tardô nada, já as novas tinha chigado até cá a esta banda.

- Já 'tá tudo arrenjado... O Zé Manel leva a gente. Vã os dôs aí nessa b'cicleta do ti Luís qu' ê cá e a c'mad'e C'stóida vamos nôtra via.

- Atã e o compad'e Jôquim, fica im terra?

- Nã te dê cudados qu' ele tamém vai com a gente...

Construções na areia - Fiesa 2009Construções na areia - Fiesa 2009
Atã e estes lá do Egipto, nã 'tã bem fêtos? É, béque-me, a rainha deles e um pobrezinho dum ênuco...

- Ó Maria, nã t' enfezes qu' a gente inda 'tava a combinar as coisas e tu nã f'cavas no rastolho...

- Ê bem ôvi o que ti Luís disse. Nã tens precisão de 'tar com desculpas...

E c'm' ê cá, d'zer a verdade, nã tinha mái nenhuma manêra de me defender, a coisa f'cô p'r 'lí e, no dia combinado, lá se foi todos caminho do Algarve.

C'm' à coisa 'tava combinada, a mim acabedô-me ir no mata-velhos do ti Luís. Ora, aquela trugia já 'tá mái velho qu' o dono, dêtava um fedôr a petrol que metia medo e o ti Luís, tamém, nã sê c'm' é qu' ele fazia aquilo, andava só ôs lóres duma banda à ôtra da estrada - q'ondo nã ia méme ô mêo, a pisar o traço e tudo, qu' os ôtros 'tavam-l'e semp'e apitando...

Ê cá, que nã uso a almarear c'm' alguma famila que nã prosa, desato a sintir assim béque-me umas ãinsas... Inda vi jêtos de bolsar. Aquilo foi p'r uma coisinha de nada...

- Eh ti Luís, tenha p' aí conta, homem!... Vá um coisinho mái brando com isso... Quer dar cabo da gente ó quem?...

- Mái devagar ainda?!... Atã isto só de ladêra à baxo é que dá uns sassenta. Agora vô-me a q'ôrenta e tal... Inda o Zé Manel, que vem logo ali atrás, s' aborrêce e passa adiante da gente...

- Dêxe-o passar!... A gente logo lá chega tamém. Mecêa nã sabe o caminho? Sabe. Atã, pronto.

Construções na areia - Fiesa 2009
Estes aqui 'tã a ver cinema. P'r o jêto, q'ondo eles inda amostravam o cinema na rua...

Más aí, já a gente ia chigando quái à recta do Rasmalho, as curvas acabaram-se e a coisa lá se compôs. Quer-se d'zer, inda se dé ôtra parte qu' ê cá nã contava com ela, E tudo p'r culpa do Zé Manel que chigô lá im baxo entes da Ladêra do Vau, mete p'a drento da a'to-'strada.

Se nã sabia ele qu'o mata-velhos nã pode andar nesses caminhos... Mái atão, desquecé-se... E lá se foi a gente os dôs sòzinhos p'ra estrada antiga até Alcantarilha. Tamém nã se perdé nada. Aparamos lá num certo sito, bobemos uma piquenalha cada um, aquilo sôbe que nem ginjas. E eles ficaram im seco...

E, já agora, semp'e l'es falo lá dos bonecos. D'zer a verdade, nem l'es sê incarecer. Custô-me um belo d'nhêrinho, lá isso custô, mái dí-o p'r bem gasto. Ê cá e a minha Maria inda se teve que pagar os dôs, já nã m' alembro bem, mái foi coisa aí duns doze eros e sessenta cêntimos... Qu' a gente somos os dôs já reformados e sai um coisinho mái barato.

Agora ê cá inda gostava de saber d' adonde é qu' eles desincantaram tanta arêa p'a fazer aquilo tudo. É que sã bonecos e mái bonecos, carros, casas, bichos, foguetõs, ê sê cá!... E tudo tã bem fêtinho que mecêas nem calculam...

Até o Camõs lá está a olhar p'ra umas moças qu' ele, p'r o jêto, incontrô lá num sito adonde elas andavam assim com pôca rôpa im cimba do corpinho, a Ilha dos Amores. E jêtosas qu' elas eram... A minha Maria é que nã gostô lá munto d' ê cá l'e 'tar a tirar o retrato, qu' ê bem vi ela fazer uma careta p' ô lado da c'mad'e C'stóida...

Construções na areia - Fiesa 2009
Estes 'tã a ver a bola na tel'visão. Só l'e falta ali um garrafanito de cinco litros...

E o ti Luís Agúida tamém se pôs a olhar munto p'a essas tás moças, q'ondo dé p'r ele já 'tava a fazer parvoêras. Veja lá que levava uns albricoques na alsebêra, drento dum saquinho de plástico, e, d' ora im q'onto, c'mia um. Lá isso, inda vá lá, mái já nã era grande figura no mêo daquela famila toda.

Agora, chegar ali, pôr-se a olhar p' às moças todo imbasbacado, puxar da sua faquinha dele, desbrugar o albricoque e jogar a casca p' ô mê do chão... Eh'q!... Nã é coisa que se faça... Vem de lá um estrangêro põe-se a fazer miécos c'm' quem diz:

- Isto aqui é algum monturo ó quem?!... Toca más é a apanhar isso...

Nã sê bem s' era iso qu' ele queria d'zer ó não, mái, se disse, foi bem dito. Volta-se o compad'e Jôquim p' ô ti Luís:

- Já viu o qu' é que mecêa arrenjô?... Panhe lá a casca do albricoque e ponha isso àlém naquele caxote... Atã que figura é essa?...

- Ai, punhana, 'tava a olhar p' às moças nem dí p'r o que fiz!... Isto, tamém, qualquer um tem um descuido. E com este calor, im menes de nada, seca...

- Que seque que nã seque, panhe lá isso. Nã vê qu' é uma vergonha?... Senã nunca mái venho consigo...

Aí, o homem, caí nele, panhô a casca e tudo se compôs.

Pôs, mês belos amigos, p'a quem goste daquelas coisas, vá lá à Fiesa 2009 qu' aquilo 'tá bonito. Mái vã assim à tardinha qu' à hora da calma que faz lá uma torrêra munto má de gramar. E nã joguem cascas d' albricoque p' ô chão...

Fiquem-se com Dés.

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