SOL
AFASTAMENTO
12 Abril 11 06:17
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Debruço-me á varanda do infinito

olhando o nortear para qualquer lado,

pego a mala de mão, nela o conflito

veio e regressa descodificado.

 

fui o principio como sou  finito,

o caos que me aviltou jaz de cansado,

o corpo ás vezes chora de aflito

no lento coração já remendado

 

e vai na alma o peso da insistência

emoldurando angústia do pensar

o mundo me termina em inocência

 

mas no centro do mundo é o meu lugar

tudo é vago na vasta circunferência

que se afasta sem fim do meu olhar.

 

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CATEDRAL
28 Outubro 09 12:19

  ceu.jpg

 

Não rezo mas comungo a catedral

posta no ante mim com dois pináculos

cinzelados na pedra colossal

antecipando céu e obstáculos.

.

ó gigantesca obra quão humana

gente te fez vibrando desafios,

arrebatada e mística, profana

na mão  que recortou os teus vazios.

.

erguida ao alto , porém é nas entranhas

que te habitam misérias e gemidos

regozijo dos bons, ai dos vencidos,

.

esse mesmo interior aonde apanhas,

não o troar  dum deus sábio e fecundo

mas o falar diverso deste mundo.

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MOMENTO
02 Setembro 08 10:41

 

             BEIJO

 

          Quando recordo aquele bote antigo

          onde encontrava as mãos cheias das tuas

          julgo que falta o tempo desse abrigo

          que suportava vidas que eram duas

.

          trazíamos pedaços de marés

          intervalos de  nós buscando rumo

          abismos precipícios sob os pés

          numa coluna a que faltava o prumo

.

         depois vinham gaivotas na vazante

         da água que espelhava o teu olhar

         em minutos e horas dum instante

 

         e ali se te lembras em segredo

         esquecido o redor da beira mar

         a vida se beijava , expulso o medo.

 

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CAFÉ RIO
15 Agosto 08 10:54

       

                 CAFÉ RIO

           Na mesa  de café sentado espero

           não sei o quê o tejo me apetece

           a manhã que levanta tanto aquece

           o acaso quero o acaso não quero

.

           a meio do rio á brisa duas velas

           enfunadas no ar se vão rolando

           levanto o  olhar a ver de vez em quando

           imagino que a água quer mordê-las

.

           fumo um cigarro eu já não fumo agora

           engano-me a fumar o dia é assim

           passa e repassa parece não ter fim

.

           perante o universo que demora

           há-de  vir em silêncio numa nave

           cujo horário porém nunca se sabe.

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EU
10 Agosto 08 07:44

 

  

                         EU

 .  

           Incógnito surgi nesta aventura

           sem alfa  sem ómega sem brilho

           catalogado como criatura

           já condenada em busca de sarilho

.

          posto tão breve nem sequer segundos

          se contam de matéria transferida
          ínfima amostra  coisa despedida

          curiosa de espaços doutros mundos

.

          fruto de deuses ou da natureza

          me discuto em matéria moradia

          duma casa tão cheia que é vazia

.

          entre o ser e não ser subtileza

          que se vai consumir tenho a certeza

          na lógica razão  que se esvazia.

        

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MOMENTOS
02 Agosto 08 08:43

 

      

                 MOMENTOS

 .

          Esquece da carta as letras apagadas

          escrita de praia sobre areia e espuma

          arruma tudo ou coisa nenhuma

          no sangue das artérias condenadas

.

          esquece tangos os hotéis as camas

          um jantar  no salão com duas velas

          as manhãs em que abrimos as janelas

          num chuveiro de sol ainda em chamas

.

          esquece as palavras podes esquecer-te

          embala-te  a chorar  vitima obtusa

          como fizeste para reconhecer-te

.

          o tempo é curvo curva o pensamento

          curva  deuses memória mas exclusa

          está sempre o apagar de um só momento

     

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LANTERNA
31 Julho 08 11:24

          

                      LANTERNA

              .

            Em génova uma bandeira iluminada

            tem trinta mil luzinhas a brilhar

            é lá que tenho muito ou quase nada

            daquilo em que me estou a transformar

         .

            tudo no mundo é feito de momentos

            partículas pequenas a rodar

            por isso em todo o lado há pensamentos

            por isso todo o lado é meu lugar

          .

           ás vezes estou sentado na lanterna

           a bem dizer á sombra a descansar

           e poisa-me uma pomba sobre a  perna

          .

           julgo que junta ao meu o seu olhar

           mas não move a cabeça a vista alterna

           nas migalhas que trouxe para lhe dar.

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SONHO
29 Julho 08 08:33

           

                  SONHO

          .

          É de noite que vens sem um aviso

          entras sem perguntar no meu sossego

          corpo inseguro o rosto de impreciso

          estende-me as mãos porém eu não lhes chego

          .

          abro-te braços, leito, chamo, espero

          que venhas sobre mim fazer amor

          não sei se quero não sei se o não quero

          e afasto-me em vazio assustador.

         .

          mas fica-me vibrando uma saudade

          de tudo o que vivemos  do esboço

          que depois transformaste num destroço

         .

          nas noites em que vens é tempestade

          o  sonho vai , de tu partires é hora

          olho para mim, tu já te foste embora.

 

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TU
29 Julho 08 11:06

               

                        TU

              .

           Não fosses tu e o teu olhar sereno

           só de aparência feito e transmitido

           eu não seria eu nem o ameno

           poisar do sol teria algum sentido

          .

          Não fosse esse interior ás vezes ferido

          onde se fazem nuvens de vapor

          eu não faria o eu que tenho sido

          nem tu figura a que chamei amor

          .

          não fosse o que se quer, ignorando

          a certeza que temos  mais real

          ou a loucura a arder de vez em quando

          .

          nada seria belo nem igual

          á imagem que em nós se vai criando

          dum sonho que é fingido e irreal.

                

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NASCER
28 Julho 08 04:54

                                  

                       

                           

                   NASCER

                 .

               Aqui nasci nesta margem do monte

               pouco mais é que água soterrada

               ambos matéria de átomos prensada

               gemendo á mesma mãe a mesma fonte

              .

              não pedi a ninguém por que aparecesse

              aqui ali algures não há lugares

              sopro de deuses  nos seus  divagares

              não como nos convém ou apetece

             .

              dum lado a serra do outro lado o mar

              uma cruz que não vejo e a ilusão

              de vir á luz como libertação

             .

              humana virulência neste caos

              intrigante e vazio entre calhaus

              que se  movem no espaço  frágil lar

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DEUS
24 Junho 08 06:04

    

 

                 Deus

                  .

                 Deus não nos disse nada mas se houvesse

                 como bondoso pai tudo diria

                 onde existisse mal apagaria

                 a dor que algum dos filhos seus tivesse

                 .

                 e não exigiria qualquer paga

                 nem turbulência á morte ou nascimento

                 o coração dum pai chora e afaga

                 aquilo que aos seus dói sem fingimento

                 .

                 se á imagem dum pai deus  fosse pois

                 não haveria a  guerra nem a fome

                 nem a desigualdade que consome

                .

                 entre o nascer  a vida  e o depois

                 o deus que o homem fez é a muleta

                 para os deuses de barro do planeta

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HUMANO
24 Junho 08 06:00

              

                      HUMANO

                  .

                  Não sou um criminoso nem me lembro

                  de agilidades para o poder ser

                  mas sou humano sim um parecer

                  vindo a lume nos findos de setembro

                 .

                  experiência também  talvez falhada

                  como muita dispersa no universo

                  mas todo o material não é diverso

                  por entre a perfeição não encontrada

                  .

                  da humana vida  o talhe qual seria

                  da molecula mãe para não ser

                  abjecta ilusão abjecto entulho

                  .

                 milhões de anos em vão tudo seria

                 um jogo fraudulento um mau perder

                 numa noite do tempo ou do orgulho?

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NO 17
23 Junho 08 11:51

 

     

                                No 17

            . 

             No dezassete muita coisa acontece

             entre a europa e a praça central

             veste de preto óculos bracelete

             lábios com um retoque de coral

                ..

             ajusto o corpo ao banco e os joelhos

             quase se encontram no seu breve olhar

             negros compridos francos oh espelhos

             como posso pelos meus imaginar

             ..

             depois saiu na praça de vicenza

             tisnada a pele seu porte singular

             implícito em mim que mais se adensa

             ..

             quase ao descer o seu olhar parou

             partículas de luz a especular

             porquê o seu ao meu olhar voltou?

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BURACO NEGRO
15 Junho 08 11:15

 

   

            

      Buraco negro

.

      passei por ti menor que grão de areia

      particula por ser matéria negra

      partida e repartida desintegra

      luz que se precipita e incendeia

      verso e reverso da fugaz cisão

      aos meus olhos relance fulminante

      é falsa a identidade de brilhante

      á qual a vida deu coloração

.

      a anos luz perdida na manhã

      de assombros boreais avariada

      foi experiência coisa saga vã

.

      que terminou antes de ser testada

      fiquei olhando o brusco  afastamento

      um buraco sem luz no firmamento

 

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PESSOA
15 Junho 08 11:01

 

         

   PESSOA

   .

   Pessoa, boa pessoa lisboa

   observando chiado observado

   premunizando até que a voz lhe doa

   adamastores  mostrengos e  o fado

   .

   lágrimas mar e sal e  solidão

   o bronze baralhado no café

   e a rua a espremer-se ali á mão

   caravela sem rota proa ou ré

   .

   quem manda  aqui um rei ou obtuso

   ministro ditador ou democrata

   pode mandar até um parafuso

   .

   para rimar mesmo um robot de lata

   que Portugal a ocidente  paga

   seja o que for por conta dessa praga.

 

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