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Debruço-me
á varanda do infinito
olhando
o nortear para qualquer lado,
pego
a mala de mão, nela o conflito
veio
e regressa descodificado.
fui
o principio como sou finito,
o
caos que me aviltou jaz de cansado,
o
corpo ás vezes chora de aflito
no
lento coração já remendado
e
vai na alma o peso da insistência
emoldurando
angústia do pensar
o
mundo me termina em inocência
mas
no centro do mundo é o meu lugar
tudo
é vago na vasta circunferência
que
se afasta sem fim do meu olhar.
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Não rezo mas comungo a catedral
posta no ante mim com dois pináculos
cinzelados na pedra colossal
antecipando céu e obstáculos.
.
ó gigantesca obra quão humana
gente te fez vibrando desafios,
arrebatada e mística, profana
na mão que recortou os teus vazios.
.
erguida ao alto , porém é nas entranhas
que te habitam misérias e gemidos
regozijo dos bons, ai dos vencidos,
.
esse mesmo interior aonde apanhas,
não o troar dum deus sábio e fecundo
mas o falar diverso deste mundo.
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BEIJO
Quando recordo aquele bote antigo
onde encontrava as mãos cheias das tuas
julgo que falta o tempo desse abrigo
que suportava vidas que eram duas
.
trazíamos pedaços de marés
intervalos de nós buscando rumo
abismos precipícios sob os pés
numa coluna a que faltava o prumo
.
depois vinham gaivotas na vazante
da água que espelhava o teu olhar
em minutos e horas dum instante
e ali se te lembras em segredo
esquecido o redor da beira mar
a vida se beijava , expulso o medo.
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CAFÉ RIO
Na mesa de café sentado espero
não sei o quê o tejo me apetece
a manhã que levanta tanto aquece
o acaso quero o acaso não quero
.
a meio do rio á brisa duas velas
enfunadas no ar se vão rolando
levanto o olhar a ver de vez em quando
imagino que a água quer mordê-las
.
fumo um cigarro eu já não fumo agora
engano-me a fumar o dia é assim
passa e repassa parece não ter fim
.
perante o universo que demora
há-de vir em silêncio numa nave
cujo horário porém nunca se sabe.
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EU
.
Incógnito surgi nesta aventura
sem alfa sem ómega sem brilho
catalogado como criatura
já condenada em busca de sarilho
.
posto tão breve nem sequer segundos
se contam de matéria transferida
ínfima amostra coisa despedida
curiosa de espaços doutros mundos
.
fruto de deuses ou da natureza
me discuto em matéria moradia
duma casa tão cheia que é vazia
.
entre o ser e não ser subtileza
que se vai consumir tenho a certeza
na lógica razão que se esvazia.
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MOMENTOS
.
Esquece da carta as letras apagadas
escrita de praia sobre areia e espuma
arruma tudo ou coisa nenhuma
no sangue das artérias condenadas
.
esquece tangos os hotéis as camas
um jantar no salão com duas velas
as manhãs em que abrimos as janelas
num chuveiro de sol ainda em chamas
.
esquece as palavras podes esquecer-te
embala-te a chorar vitima obtusa
como fizeste para reconhecer-te
.
o tempo é curvo curva o pensamento
curva deuses memória mas exclusa
está sempre o apagar de um só momento
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LANTERNA
.
Em génova uma bandeira iluminada
tem trinta mil luzinhas a brilhar
é lá que tenho muito ou quase nada
daquilo em que me estou a transformar
.
tudo no mundo é feito de momentos
partículas pequenas a rodar
por isso em todo o lado há pensamentos
por isso todo o lado é meu lugar
.
ás vezes estou sentado na lanterna
a bem dizer á sombra a descansar
e poisa-me uma pomba sobre a perna
.
julgo que junta ao meu o seu olhar
mas não move a cabeça a vista alterna
nas migalhas que trouxe para lhe dar.
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SONHO
.
É de noite que vens sem um aviso
entras sem perguntar no meu sossego
corpo inseguro o rosto de impreciso
estende-me as mãos porém eu não lhes chego
.
abro-te braços, leito, chamo, espero
que venhas sobre mim fazer amor
não sei se quero não sei se o não quero
e afasto-me em vazio assustador.
.
mas fica-me vibrando uma saudade
de tudo o que vivemos do esboço
que depois transformaste num destroço
.
nas noites em que vens é tempestade
o sonho vai , de tu partires é hora
olho para mim, tu já te foste embora.
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TU
.
Não fosses tu e o teu olhar sereno
só de aparência feito e transmitido
eu não seria eu nem o ameno
poisar do sol teria algum sentido
.
Não fosse esse interior ás vezes ferido
onde se fazem nuvens de vapor
eu não faria o eu que tenho sido
nem tu figura a que chamei amor
.
não fosse o que se quer, ignorando
a certeza que temos mais real
ou a loucura a arder de vez em quando
.
nada seria belo nem igual
á imagem que em nós se vai criando
dum sonho que é fingido e irreal.
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NASCER
.
Aqui nasci nesta margem do monte
pouco mais é que água soterrada
ambos matéria de átomos prensada
gemendo á mesma mãe a mesma fonte
.
não pedi a ninguém por que aparecesse
aqui ali algures não há lugares
sopro de deuses nos seus divagares
não como nos convém ou apetece
.
dum lado a serra do outro lado o mar
uma cruz que não vejo e a ilusão
de vir á luz como libertação
.
humana virulência neste caos
intrigante e vazio entre calhaus
que se movem no espaço frágil lar
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Deus
.
Deus não nos disse nada mas se houvesse
como bondoso pai tudo diria
onde existisse mal apagaria
a dor que algum dos filhos seus tivesse
.
e não exigiria qualquer paga
nem turbulência á morte ou nascimento
o coração dum pai chora e afaga
aquilo que aos seus dói sem fingimento
.
se á imagem dum pai deus fosse pois
não haveria a guerra nem a fome
nem a desigualdade que consome
.
entre o nascer a vida e o depois
o deus que o homem fez é a muleta
para os deuses de barro do planeta
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HUMANO
.
Não sou um criminoso nem me lembro
de agilidades para o poder ser
mas sou humano sim um parecer
vindo a lume nos findos de setembro
.
experiência também talvez falhada
como muita dispersa no universo
mas todo o material não é diverso
por entre a perfeição não encontrada
.
da humana vida o talhe qual seria
da molecula mãe para não ser
abjecta ilusão abjecto entulho
.
milhões de anos em vão tudo seria
um jogo fraudulento um mau perder
numa noite do tempo ou do orgulho?
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No 17
.
No dezassete muita coisa acontece
entre a europa e a praça central
veste de preto óculos bracelete
lábios com um retoque de coral
..
ajusto o corpo ao banco e os joelhos
quase se encontram no seu breve olhar
negros compridos francos oh espelhos
como posso pelos meus imaginar
..
depois saiu na praça de vicenza
tisnada a pele seu porte singular
implícito em mim que mais se adensa
..
quase ao descer o seu olhar parou
partículas de luz a especular
porquê o seu ao meu olhar voltou?
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Buraco negro
.
passei por ti menor que grão de areia
particula por ser matéria negra
partida e repartida desintegra
luz que se precipita e incendeia
.
verso e reverso da fugaz cisão
aos meus olhos relance fulminante
é falsa a identidade de brilhante
á qual a vida deu coloração
.
a anos luz perdida na manhã
de assombros boreais avariada
foi experiência coisa saga vã
.
que terminou antes de ser testada
fiquei olhando o brusco afastamento
um buraco sem luz no firmamento
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PESSOA
.
Pessoa, boa pessoa lisboa
observando chiado observado
premunizando até que a voz lhe doa
adamastores mostrengos e o fado
.
lágrimas mar e sal e solidão
o bronze baralhado no café
e a rua a espremer-se ali á mão
caravela sem rota proa ou ré
.
quem manda aqui um rei ou obtuso
ministro ditador ou democrata
pode mandar até um parafuso
.
para rimar mesmo um robot de lata
que Portugal a ocidente paga
seja o que for por conta dessa praga.