SOL
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Só hoje me apercebi que passaram quase três meses desde o post 24. As ocupações profissionais têm destas coisas. Não nos deixam tempo para alguma reflexão sobre o que se passa neste mundo.

Entretanto, muita coisa aconteceu.

Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos da América e tem nele postos os olhos de todo o mundo à espera das mudanças que se espera venha a operar na política da grande potência.

A crise instalou-se nos sistemas financeiro e económico a nível global.

Na política caseira, destaque para a incapacidade da líder do PSD para se constituir como autêntica oposição ao PS e, em consequência, como alternativa de governo nas próximas eleições legislativas de 2009.

No últimos tempos, o que tem ocupado as páginas dos jornais e o espaço de outros meios de comunicação social tem sido o problema dos professores. Não se pode dizer que Maria de Lurdes Rodrigues tenha sido muito hábil na condução deste processo. Mas aquilo a que se tem assistido, levou-me a investigar as razões desta confusão toda, em que os gritos dos manifestantes não me convenceram da justeza da sua luta. O facto de ter no meu círculo de amigos e familiares alguns professores ajudou na tarefa.

1. Qual era a situação da avaliação dos professores até ao actual governo ter empreendido estas reformas?

a) A carreira dos professores estava escalonada em diferentes patamares, com um número variável de anos em cada escalão.

b) Para transitarem de escalão, progredindo assim na carreira e aumentando o vencimento, os professores tinham de apresentar um relatório crítico relativo aos anos em que tinham permanecido no escalão, não terem faltas injustificadas, terem cumprido o serviço que lhes fora distribuído pelo conselho directivo e ter um número de créditos de formação contínua igual ao número de anos de permanência no escalão.

c) Só não transitariam de escalão se se tivessem recusado a cumprir o serviço distribuído, tivessem faltas injustificadas e não tivessem os créditos da formação. No entanto, se o professor apresentasse uma justificação em como não era da sua responsabilidade a não frequência de acções de formação contínua, tal deixava de constituir um obstáculo à progressão na carreira. Por outro lado, não havia exigência relativamente aos temas da formação. Qualquer acção, desde que acreditada, servia, mesmo que não tivesse nada a ver com a especificidade da profissão docente.

d) Um dos meus amigos que fez parte da comissão que analisava os relatórios dos professores da sua escola, informou-me que o conteúdo da maioria era tudo menos crítica. Eram sobretudo descritivos e não constituiam momentos de reflexão sobre a prática docente, não identificando aspectos a melhorar, como seria natural em qualquer documento de avaliação. A partir de certa altura, começou a verificar que lhe apareciam relatórios iguais, ou seja, instalou-se a prática da cópia de relatórios. É evidente que raramente um professor não obtinha a menção necessária para progredir na carreira. Por isso se afirmava e, com todo a razão, que a progressão dos professores era automática.

2. Terá sido esta situação que levou os responsáveis do Ministério da Educação a, primeiro, alterar o Estatuto da Carreira Docente e, depois, o modelo de avaliação dos professores.

3. Parece claro que qualquer que fosse o modelo de avaliação iria suscitar grandes resistências, mesmo o modelo mais perfeito. O papel dos sindicatos foi exactamente de catalisar a recusa dos professores em serem avaliados. Assim se gerou este movimento em que a luta é pela manutenção do anterior modelo, como é claro na proposta da FENPROF.

4. As imagens que vi na televisão e as declarações produzidas pelos professores levam-me a encarar o futuro do nosso país com alguma apreensão. É esta gente que está a formar as nossas crianças e adolescentes?

5. Esta ministra e este governo foram os primeiros em muitos anos que tiveram a coragem de fazer reformas no sector da educação. Antes, Roberto Carneiro tentou, mas não teve o apoio necessário para uma verdadeira reforma educativa. Será que vamos estar mais umas décadas à espera que a escola pública trabalhe melhor? Talvez a solução seja apostar nas escolas privadas.

Por mim, que trabalho no sector privado, que sou avaliado no contexto do meu trabalho e que tenho de lutar todos os dias para justificar o meu emprego, veria com muito desagrado uma mudança radical da parte do Ministério da Educação.

24

Acabadas as férias tudo volta à actividade. O Outono está quase aí e começa um ano de grandes acontecimentos.

1. Nos Estados Unidos da América, os problemas com o sistema financeiro têm sido a principal notícia nos últimos tempos. A campanha para as eleições presidenciais tem sido afectada por este facto e condicionou o discurso político dos candidatos. Depois de algumas sondagens darem vantagem ao candidato do Partido Republicano, muito por efeito da escolha que fez para a candidatura à vice-presidência, começa agora a perder terreno em favor de Obama. Veremos se este tem fôlego para arrancar para a vitória, agora que se aproxima a etapa final. Não há qualquer dúvida que a crise que se iniciou no Estados Unidos da América mas que se globalizou, veio demonstrar que é preciso alguém na Casa Branca com uma nova política para os sistemas financeiro e económico. A sombria era Bush, tão nefasta quer interna quer externamente, precisa de ser exorcisada e substituida por uma nova era de esperança num mundo menos perigoso.

2. Por cá, as novidades não chegam a sê-lo. O governo continua a sua marcha um pouco alheado do mundo real, não entendendo, ou fazendo que não entende, as dificuldades por que as pessoas estão a passar. A inflação tem crescido, os salários perdem valor, os impostos massacram a classe média.

Agora estamos em plena euforia de início do ano lectivo. Aparentemente mais pacífico do que em anos anteriores. Apenas passam nos noticiários algumas situações anómalas, mas pontuais. Depois de um tímido protesto dos sindicatos dos professores sobre a não colocação de muitos candidatos, este facto deixou de ser notícia. Também só convenciam os menos esclarecidos da justeza do protesto. Em nenhuma outra profissão se garante que os que têm formação na respectiva área tenham colocação automática num emprego.

Quanto ao PSD, a sua nova presidente, continua a fazer uma política de silêncio, cortada por algumas breves intervenções.  O tão esperado discurso de Castelo de Vide, na Universidade de Verão, ficou aquém das expectativas criadas. De tal modo é visível o nervosismo de alguns notáveis do partido que já começaram a falar na necessidade de um Congresso, mesmo antes das eleições do próximo ano.

3. A selecção portuguesa de futebol começou mal a caminhada para o Mundial de 2010. Ganhou em Malta mas perdeu com a Dinamarca em Alvalade. Depois dos ataques desbragados a Scolari, Carlos Queiroz parece estar ainda em período de estado de graça. Vamos ver por quanto tempo.

Uma análise da actuação, durante esta semana, das equipas que estão a disputar as competições europeias, demonstra claramente a mediania do futebol português. Exceptuando o Futebol Clube do Porto, nenhuma se mostra com capacidade para ombrear com as congéneres dos outros países, sobretudo daqueles em que o futebol é levado a sério. Foi confrangedor ver a actuação do Benfica e do Sporting, só par falar dos "grandes".

23

A "estação parva" foi este ano mais agitada do que habitualmente. Os noticiários têm sido muito cheios de novidades.

1. A nível internacional, tem sido o conflito do Cáucaso a dominar as atenções. Veio demonstrar que a queda da União Soviética e a constituição ou reconstituição das repúblicas do Leste da Europa e Ásia, não resolveram os problemas separatistas de algumas regiões. No caso da Geórgia, foi em 1991 que se restaurou a independência do que já antes, entre 1918 e 1921, tinha constituído um país autónomo. No entanto, duas pequenas regiões declararam logo, unilateralmente, a independência: a Ossétia do Sul e a Abcásia.

A Geórgia é um pequeno país de 69.700 km2, situado na margem oriental do Mar Negro, com cerca de 5 milhões de habitantes, no ano 2000. Nos últimos anos, devido às dificuldades económicas, tem havido um movimento emigratório importante. Tem como vizinhos, a Rússia, o Azerbeijão, a Arménia e a Turquia. Além de uma situação geostratégica muito importante, é um país pobre que vive essencialmente do turismo e da agricultura. No entanto, a construção de um oleoduto que vai ser alternativa aos que abastecem a Europa a partir da Rússia, tornou a região muito importante para os países ocidentais. Depois da intervenção das tropas georgianas na Ossétia do Sul e da resposta das tropas russas, parece que, finalmente, foi assinado o acordo de cessar fogo entre russos e georgianos.

2. Também a nível internacional, os Jogos Olimpicos são um acontecimento. Mas, não sei se devido à diferença horária, se devido à cobertura televisiva que tem sido feita, não me parece que estejam a ser muito entusiasmantes. É excepção o caso do fenómeno Phelps, na natação, que tem tido honras de destaque na comunicação social. No que respeita aos atletas portugueses, alguns têm ocupado lugares que não envergonham ninguém, mas que em nada correspondem às expectativas que foram criadas. Ainda hoje, caíu mais uma das esperanças portuguesas: Francis Obikwelu foi afastado da competição na corrida de 100m.

3. A nível nacional, além das habituais fotos e noticiazinhas dos mais e menos notáveis em animado veraneio, usadas para encher páginas de jornais e de revistas, destaca-se a polémica à volta da não ida de Manuela Ferreira Leite às festas do PSD. Primeiro, à do Chão da Lagoa, na Madeira, depois à do Pontal. O silêncio da senhora tem provocado uma enorme algazarra. Resta saber quem tem razão, se o melhor é o silêncio. Recorrendo a ditados populares, também não há consenso sobre o assunto: "O silêncio é de ouro..."; "Quem cala consente"...

O que me parece é que MFL vai ter um grande trabalho por um lado, para mobilizar as hostes do PSD e, por outro, para convencer os portugueses que ela é melhor opção que Sócrates. Afinal, a conjuntura parece não ser muito desfavorável para este. As notícias sobre o desempenho da economia são moderamentente animadoras. A abertura das nossas exportações aos países emergentes, em especial a Angola, terá compensado as dificuldades decorrentes do estado da economia dos nossos parceiros tradicionais. 

22

Acompanhei com atenção o desenvolvimento dos acontecimentos no Bairro da Fonte em Loures. Na comunicação social pudemos ver imagens do tiroteio, do acampamento dos ciganos junto à Câmara Municipal de Loures, algumas reportagens e muitos directos onde foram ditos muitos disparates. Mas também vimos alguns sociólogos, psicólogos e outros especialistas discorrer sobre os problemas da integração das minorias, tentanto encontrar uma justificação para o caso. No entanto, pouco se falou sobre as razões que levaram à troca de tiros naquele bairro do concelho de Loures.

Vamos por partes:

1. O problema do modelo de realojamento das pessoas oriundas de bairros de lata é, desde há muito, discutido. Há quem condene o modelo que foi seguido de os realojar todos num mesmo bairro,  construído com dinheiros públicos. Mas qual era a alternativa? As câmaras adquirirem casas no mercado imobiliário, a preços muito superiores aos da construção social? Imaginemos que a Câmara de Loures, em vez dos bairros sociais que construíu, comprava andares em urbanizações já existentes no concelho. Por exemplo, na Portela, nas novas urbanizações de Sacavém, etc. Estou convicto de que os problemas sociais seriam ainda mais complicados de gerir. Esta opção seria incomportável do ponto de vista financeiro e com custos sociais muitos maiores.

2. O que se passa nestes bairros e noutros espalhados pelo país é um problema de marginalidade, não de marginalização. E não tem a ver com comunidades étnicamente diferenciadas. Porque existem pessoas dos vários grupos étnicos ou culturalmente diversificados que vivem honestamente e cumprem as leis do país. Mas há grupos que cultivam comportamentos inaceitáveis do ponto de vista social e que, rapidamente, caem no âmbito da criminalidade. E isto é que não se pode tolerar. As autoridades devem agir independentemente de se tratar de brancos, pretos ou ciganos. Usar a diferença como forma de desculpabilizar os que prevaricam é pôr-nos a todos sob risco e, além disso, fomentar a insegurança.

3. Numa das reportagens, alguns ciganos exigiam que lhes fossem dadas novas casas num outro bairro. Chegaram mesmo a arrombar portas e a invadir os apartamentos de uma urbanização social ainda desabitada. A chamada "discrimação positiva" de que os ciganos têm beneficiado, através da atribuição de casas e de subsídios, deve ter-lhes dado uma noção de que tudo lhes é devido sem que tenham quaisquer obrigações perante a sociedade. Sobretudo parece não terem ideia de que há leis e regras neste país que são para todos cumprirem e que, para viverem melhor, terão de trabalhar como se exige à generalidade de todos os portugueses.

21

A visita de José Sócrates a Angola, com objectivos fundamentalmente comerciais, e a notícia de que vão ser enviados professores de português para este país, configura-se como uma opção estratégica muito importante.

Já antes tinha sido noticiado que as exportações para Angola se tinham intensificado. Numa altura de crise na Europa é uma das soluções possíveis para assegurar que o crescimento económico do nosso país, no que diz respeito ao sector das exportações, não fica totalmente dependente dos nossos parceiros da União Europeia. Sendo Angola um país potencialmente rico, produtor de petróleo e com elevado crescimento, a presente conjuntura torna-o num parceiro muito importante do ponto de vista económico.

O reforço da cooperação no que respeita ao ensino do português, decorre da visibilidade e do prestígio dos países do espaço lusófono, nomeadamente, através da organização que os integra: a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A presença do Brasil é determinante, dada a sua crescente importância no âmbito dos países com grande potencial de desenvolvimento.

20

O debate na Assembleia da República sobre o Estado da Nação, realizado hoje, mostrou um PSD surpreendentemente frágil.

O novo lider parlamentar do partido mostrou-se inseguro e pouco credível na primeira intervenção. Foi caricato o pedido "numa folha A4" dos cálculos dos encargos relativos às diversas obras públicas projectadas. Recusou a ideia de aceder à internet para se informar sobre os relatórios e exigiu que os mesmos lhe fossem entregues. Mereceu mesmo a resposta de José Sócrates que enumerou os relatórios disponíveis no site da REFER, incluindo os que foram aprovados em 2003 e 2004, anos em que o PSD esteve no governo, e o supremo vexame de ver o 1º Ministro pedir ao Presidente da A.R. para que um funcionário depositasse esses relatórios nas mão do deputado Rangel.

No discurso de fundo, o mesmo deputado, leu um extenso documento. Fica-me a dúvida se foi ele que o escreveu ou a presidente do partido. Mesmo  que o tenha escrito, é de supor que a presidente o tenha lido. Estavam lá as ideias principais que tem publicamente defendido. Mas envolvidas num discurso hermético, vago e, muitas, vezes contraditório. Aliás não resistiu aos ataques que lhe foram feitos por deputados da bancada socialista, que desmontaram toda a retórica do discurso.

Não sou adivinho para antecipar o que vai acontecer nos próximos tempos, até às eleições do próximo ano. Esclareço já que não sou apoiante indefectível deste governo e do 1º Ministro. Mas, neste momento, há um ataque concertado contra o governo e, especialmente, contra José Sócrates, por tudo o que é personalidade a começar pelos "notáveis" da SEDES. Nalguns pontos terão razão, mas o tom e amplitude das críticas parece-me exagerado.  Ao mesmo tempo, assiste-se a um louvaminhar de Manuela Ferreira Leite, considerada competente e credível. Curiosamente, não era esta a opinião de muitos quando ela estava no governo, como ministra das finanças, quando hipotecou receitas do Estado para encobrir artificialmente o déficit das contas públicas. Nem quando vendeu ao desbarato património do Estado com o mesmo objectivo. Mas parece que tudo se está a encaminhar para que tenha uma máquina de propaganda capaz de conseguir que seja conduzida ao cargo de 1ª ministra.

Num ponto acho que ela já perdeu ao escolher para líder parlamentar o deputado Rangel. O desempenho deste fez lembrar as intervenções de Pedro Santana Lopes, pelo gritante contraste. Podia haver quem não concordasse com ele, mas tinha o empenho e a capacidade de um tribuno.  Quando, por momentos, a câmara da TV focou o deputado dos Açores Mota Amaral, calado na sua cadeira, não pude deixar de pensar: que desperdício!

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Em meados do século passado, ainda não se tinha democratizado a propriedade dos automóveis. Só as pessoas mais endinheiradas podiam aspirar a ter transporte próprio. As restantes que necessitavam de se deslocar, faziam-no através dos transportes públicos. Para as viagens no país, era o comboio o meio mais usual porque as carreiras rodoviárias ainda não tinham destronado o caminho de ferro.

Mesmo nas áreas à volta das grandes cidades, o comboio era o meio de transporte mais importante. Foram aparecendo novos aglomerados urbanos, estrurados em função das estações de caminho de ferro. A sua dimensão estava adequada à distância entre residência e o ponto de tomada do comboio.

A evolução da economia e o petróleo barato fizeram disparar a indústria automóvel e, pago a pronto ou a prestações, foi-se alargando o número de proprietários de automóveis. A própria indústria, através da publicidade, transformou o automóvel num objecto desejado por todos os que procuravam afirmação social.

As grandes cidades cresceram em função da lógica do transporte próprio, aliado ao transporte rodoviário de passageiros. Os subúrbios foram aparecendo como cogumelos, ocupando áreas cada vez mais extensas, e multiplicaram-se as vias rápidas para chegar ao centro das cidades onde ainda se concentra a maior parte do emprego.  A vida das pessoas passou a ser pontuada por estas migrações pendulares entre a casa e o trabalho. Chegou-se à situação que hoje é paradigmática, de fluxos enormes de automóveis que confluem para o centro, completamente congestionado. Diz-se até que as vias rápidas servem para chegar mais depressa aos engarrafamentos. O IC 19, na região de Lisboa, é exemplo muito elucidativo desta situação. 

Mais recentemente assistiu-se a outro fenómeno que foi a atracção pelas áreas rurais. Muita gente da classe média se deixou atrair pela ideia de ter uma casa no campo ou numa aldeia, mesmo que ficasse relativamente distante do local de trabalho. O transporte próprio resolvia o problema das deslocações.

Com o fim do petróleo barato, a situação tornou-se muito complicada para muitas pessoas. Em muitos casos, não é fácil os transportes colectivos poderem substituir o uso do transporte individual. Sobretudo devido ao caótico urbanismo que os poderes instituídos consentiram durante décadas. No próximo ano haverá eleições autárquicas. Esperemos que este seja um dos temas prioritários dos candidatos.

18

A crise dos combustíveis veio chamar a atenção para a dependência, no que respeita ao transporte rodoviário, de Portugal e de outros países onde se verificaram movimentos de protesto de camionistas.

Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, desenvolveram-se as redes de transporte ferroviário. A evolução tecnológica e os interesses ligados à exploração do petróleo, começaram a impor as regras. Em Portugal, a via férrea entrou em decadência por falta de modernização das linhas existentes e do material circulante, com excepção para a linha do Norte que une as duas principais cidades do país, Lisboa e Porto, e para algumas linhas suburbanas destas cidades. O transporte ferroviário, pela morosidade das deslocações, foi sendo substituído pelo transporte rodoviário, quer de mercadorias, quer de passageiros.

Assiste-se então à progressiva construção da redes de estradas e, com a entrada na então Comunidade Económica Europeia e com a vinda de dinheiro no contexto das ajudas estruturais, fizeram-se várias auto-estradas que diminuiram significativamente os tempos de deslocação. 

Os transportes rodoviários de mercadorias depressa se impuseram porque são mais rápidos e mais flexíveis, embora para grandes deslocações sejam mais caros que o transporte ferroviário. Enquanto o petróleo e os seus derivados foram baratos, o problema da opção pela rodovia não se colocou, embora em termos ambientais fosse muito mais prejudicial que a ferrovia. Agora, com o petróleo caro, verifica-se que dependência do transporte rodoviário é um risco que põe em causa o frágil e sensível equilíbrio da economia do nosso país.

Uma das consequências imediatas é a repercussão no preço dos produtos de primeira necessidade. Dada a facilidade das ligações, o local de produção de certos bens tem vindo a afastar-se progressivamente do local de consumo. A maior parte dos produtos frescos, antes produzidos na proximidade dos centros urbanos, é agora transportado de locais às vezes bastante distantes, inclusivamente da vizinha Espanha.

As dificuldades que as pessoas já estão a sentir só podem agravar-se com a perspectiva que os especialista apontam para a questão do petróleo, cujo preço não irá parar de subir não se sabe até que valor.

Toda esta situação reclama medidas que possam inverter a base em que assenta toda a organização económica. As crises só podem ser vencidas com energia e com soluções inovadoras, mas claramente entendidas por todos. E, neste contexto, não passam apenas pelo nosso país, mas pela organização de que fazemos parte: a União Europeia.

Será que temos líderes com capacidade para enfrentar estes tempos difiíceis? Os burocratas da UE não me deixam particularmente entusiasmado.

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Adenda ao post 16:

Vi hoje num noticiário da TV que, no Norte, estão a ser recuperadas casas e solares, sobretudo por estrangeiros, destacando-se belgas e alemães.

Uma boa parte destina-se a turismo de habitação ou turismo em espaço rural.

16

Desde há muito tempo me interrogo sobre a relação que existe entre o número de casas novas que se constroem e as necessidades do mercado. Não é só nas grandes cidades que se observa um autêntico frenesim de construção civil. Mesmo nas pequenas e médias cidades, a sua área construída não pára de aumentar. As terras que antes eram ocupadas por actividades agrícolas, sobretudo pelas hortas, vão sendo preenchidas por torres mais ou menos altas de betão. E a questão que se levanta é onde existem pessoas para ocupar todas estas casas.

Num noticiário de hoje referia-se que as casas de luxo são as que melhor se vendem. É um mercado que não está em crise. Este facto revela bem as grandes desigualdades que caracterizam o nosso país. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos continua a aumentar. Os mais pobres, por seu lado, têm cada vez mais dificuldade em encontrar casa compatível com os seus magros salários. Os leilões de casas pelas entidades credoras são um sinal do incumprimento de muitas famílias.

Entretanto, no centro de muitas cidades, a degradação avança a passos largos. As casas mais modestas, com muito más condições de habitabilidade, vão sendo abandonadas quando os seus moradores adquirem melhores níveis de salários que lhes permitem pagar uma casa mais moderna. A recuperação das casas dos centros históricos é complicada e, muitas vezes, dificultada pelos poderes locais, além de ser muito cara. Não é raro verem-se palácios em avançado estado de degradação porque os seus proprietários não têm capacidade financeira para os recuperar. Alguns vão sendo comprados pelas autarquias, restaurados e ocupados pelos serviços. Outros vão avançando no seu estado de ruína.

No meio disto tudo, não há incentivos para a recuperação de casas antigas dos centros urbanos. E as autarquias continuam alegremente a licenciar urbanizações na periferia.

Achei muita piada às intervenções dos autarcas dos concelhos que vão ser afectados pela construção do novo aeroporto de Lisboa, reclamando contra o condicionamento da construção nas áreas próximas do equipamento aeroportuário. Provavelmente gostariam de editar uma nova Portela, com os aviões a passarem quase a rasar os prédios de Lisboa e de outras localidades da sua periferia. 

15

Depois de uma ausência bloguística por motivos profissionais, volto com a convicção de que muito se passou desde o último post. Isto no caso dos acontecimentos internacionais, porque no panorama nacional, parece que há poucas novidades.

1. A situação do PSD complicou-se com o número de candidatos a líderes. Afinal, Manuela Ferreira Leite decidiu avançar mas as perspectivas para a chamada "dama de ferro" da política caseira não parecem muito animadoras. Segundo uma sondagem realizada, apesar de aparecer em primeiro lugar nas preferências dos inquiridos (que não são todos militantes do PSD), separa-a de Santana Lopes uma margem muito magra de 6%. E parece que Pedro Passos Coelho espreita a sua oportunidade de baralhar os cálculos mais optimistas dos designados "barões" do partido, todos a apoiar Manuela Ferreira Leite. Por outro lado, Alberto João Jardim mais uma vez manifesta a sua antiga ambição de não ser apenas um líder regional, mas impor o seu estilo político ao "contenente". Há quem considere que ele poderia fazer no Continente o mesmo que fez na Madeira. Estes julgam que chega cá apenas a notícia das obras de fachada feitas pelo AJJ. Esquecem da outra face da moeda: as bolsas de miséria e as grandes desigualdades económicas e sociais. Infelizmente nenhum dos candidatos poderá ser oposição a sério ao Partido Socialista. Manuela Ferreira Leite aparece como a mais credível, mas ainda estão frescas na memória as suas actuações como ministra da educação e das finanças, em ambos os casos, autênticos desastres.

2. Em termos internacionais, as maiores preocupações vão para a crise alimentar que ameaça tornar-se um problema à escala global, com consequências imprevisíveis. Depois de décadas em que foram levadas à prática políticas agrícolas que visavam sobretudo o controle dos preços, evitando uma produção "excessiva", chega-se a esta situação de escassez de produtos alimentares. Na Europa, a famigerada PAC (política agrícola comum) teve como resultado o abandono dos campos, sendo os agricultores subsidiados para deixarem de cultivar determinados produtos. Ainda está bem próxima a questão levantada com os produtores de leite dos Açores que, por terem ultrapassado a quota que estava atribuída a Portugal, foram condenados a pagar compensações por este "delito". No caso de Portugal Continental, muitas terras deixaram de ser cultivadas e condicionadas as culturas nas que ainda estão em produção. Chegámos a uma situação em que temos de importar grande parte do que consumimos. É altura de repensar toda a política agrícola e impor aos burocratas da Comissão Europeia uma visão menos estrita das questões da produção.

3. Nos Estados Unidos da América, continua a luta pela nomeação do candidato dos democratas. Obama ou Clinton, eis a questão.

14

A situação agrava-se no PSD-PP. Agora, Luís Filipe Menezes, resolveu demitir-se e convocar novas eleições para resolver o problema da contestação à sua liderança. A situação não pode ser mais confusa.

1. Luís Filipe Menezes demite-se afirmando que não vai ser candidato; num momento posterior já deixa aberta a porta para a sua recanditarura.

2. Manuela Ferreira Leite é o "D. Sebastião" do PSD. É a sempre desejada, mas que nem numa manhã de nevoeiro se resolve a aparecer. Não é crível que surja ainda para liderar o partido, dada a provável dificuldade em vencer as próximas eleições. Suponho que ela só jogará pelo seguro.

3. Aguiar Branco e outros parecem ser mais do mesmo. Pessoas sem qualquer perfil para liderar a oposição, numa altura em que isso era mesmo necessário. Sócrates encontra-se a navegar a toda a vela, sem oposição credível.

4. Santana Lopes gostaria de avançar, mas talvez tenha o bom-senso de não o fazer. Ainda nos lembramos muito bem das trapalhadas em que se meteu.

5. Marcelo Rebelo de Sousa. Já se terá esquecido da anterior experiência como presidente do partido? É muito mais fácil e cómodo perorar do alto da sua cátedra de domingo na RTP do que enfrentar as confusões de um partido completamente caótico.

Entretanto, Paulo Portas procura crescer pondo-se em bicos dos pés.

13

A situação no PPD-PSD situa-se entre o trágico e o cómico.

O Dr. Luis Filipe Menezes é uma figura que não me inspira qualquer confiança. A sua atitude física é de uma pessoa pouco segura e tem sempre uma expressão muito sofrida como se estivesse para lhe cair o céu, a qualquer momento, em cima da cabeça.

É um homem que tão depressa procura imitar Obama, o candidato democrata à nomeação para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, como o Presidente da República da França, Sr. Sarkozy. Com isto revela uma falta de personalidade e de ideias próprias.

A grande iniciativa que teve até agora, na minha opinião, foi mudar a cor do partido, de laranja para azul. Esta mudança é muito estranha, já que o azul é a cor do CDS-PP. Poderá antever-se a criação de um partido PPD-PP?

Procura, desesperadamente, constituir-se como alternativa a José Sócrates, propondo medidas contrárias às defendidas pelo 1º Ministro. Uma das últimas foi prometer, se ganhar as eleições, nivelar os impostos com a vizinha Espanha. Isto até parece uma boa ideia que só nos pode agradar, porque está pressuposto nas palavras de LFM que a carga fiscal é maior em Portugal. Só que ele, ou é totalmente ignorante, ou anda a enganar-nos. O IVA é, de facto, menor em Espanha, mas outros impostos (IRS, IRC) são mais altos.

Cola-se a todas as contestações ao governo, mesmo aquelas em que devia agir com alguma prudência. No caso do Ministério da Educação, ainda estou bem lembrado de que, nestes 30 anos de democracia, a responsabilidade deste sector esteve, em grande parte do tempo, nas mãos de ministros da área do PPD-PSD.

Até entendo o Pacheco Pereira quando diz que ele tem de sair da presidência do partido nem que seja "à bomba"...

12

O poder autárquico é apontado como uma das grandes conquista de Abril. Os presidentes de câmara municipal nomeados foram substituídos por uma vereação eleita pelos munícipes. Pressupunha-se que esta mudança iria acabar com o caciquismo que campeava em muitos concelhos.

Passados estes anos todos, desde 1974, assistimos a casos verdadeiramente escandalosos em municípios deste país. Olha-se para o território e vemos autênticos atentados em termos da sua ocupação. Nalgumas regiões, como no Algarve e na área metropolitana de Lisboa, entre outras, o betão avançou, muitas vezes de modo completamente anárquico, ocupando áreas que deveriam ter sido preservadas, como é o caso das margens de cursos de água. A grande densidade de construção trouxe novos problemas, sobretudo no que respeita à circulação.

Têm-se gasto rios de dinheiro em obras de fachada, como as famosas rotundas, muitas delas  decoradas com "esculturas" que são autênticos atentados ao bom-gosto e ao bom-senso. Das autarquias que conheço, os responsáveis preocupam-se mais em saber o que lhes pode dar mais votos, mesmo que seja gastar dinheiro em coisas supérfluas, do que ter um programa de desenvolvimento local e uma perspectiva clara para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os chamados "programas culturais" absorvem verbas avultadas, mas atingem apenas uma pequena parte da população. Por outro lado, os serviços estão cheios de gente que não faz absolutamente nada, mas assegura um número de votos que não é de desprezar, ou seja, os dos próprios e dos familiares.

Há presidentes e vereadores que se comportam como os antigos caciques. Só que, agora, são caciques eleitos. Só ouvem aquilo que lhes convém e recusam aceitar qualquer tipo de crítica ou de sugestão que não coincida com as suas "verdades absolutas". São demagogos e populistas, procurando convencer as pessoas através de promessas que, eventualmente, nunca chegarão a cumprir. Por vezes, conseguem os seus objectivos de serem reeleitos porque os adversários não são melhores e, na altura de votar, as pessoas escolhem sempre o chamado "mal-menor".

Por todas estas razões fico muito preocupado quando ouço responsáveis do Governo declarar a intenção de passar para as autarquias muitas das responsabilidades que estão agora no poder central. Supunha que os ministros e os secretários de estado conheciam melhor a realidade do poder local.

11

A minha perplexidade tem vindo a aumentar com as declarações de professores sobre a questão da avaliação. Do que tenho ouvido destaco:

1. Os professores avaliadores não têm competência técnica para avaliar os colegas.

2. Os professores não sabem autoavaliar-se.

3. Os professores têm muita dificuldade em transformar uma menção qualitativa em quantitativa (ouvido hoje, em discurso directo na RDP, do presidente do conselho executivo da Escola Secundária José Gomes Ferreira).

Já li que o Ministério da Educação vai organizar cursos de formação para os professores aprenderem a avaliar.

Mas, tudo isto me sugere as seguintes interrograções:

A - Mas será que, na formação inical, os professores eles não aprendem a avaliar? Também me consta que se gastaram milhões de euros em formação contínua. Então, se os professores não dominam as técnicas e as metodologias da avaliação, porque não foi organizada formação para colmatar essa deficiência?

B - Se é verdade que os professores não dominam as técnicas e as metodologias de avaliação, o que andaram a fazer estes anos todos com os seus alunos? Que, por acaso, somos nós e os nossos filhos.

Curiosamente, o oportunismo de alguns partidos políticos leva-os a apresentar hoje, na Assembleia da República, propostas para suspender a avaliação dos professores.

Continuamos no país do faz de conta, infelizmente.

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