SOL

Da montra do meu café...

Crónicas do tudo e do nada... paisagens da cidade.

O amor é um lugar incerto

A história é tão simples quanto infeliz, conta-se em três penadas. Um homem nasce no sexo errado e passa o resto a vida a tentar mudá-lo, uma vida entre a lascívia e o luxo seguida da doença e da marginalidade extrema. Gisberta era emigrante ilegal, transexual, toxicodependente, infectado por SIDA e Hepatite, sem-abrigo, vivendo nas ruínas de uma obra inacabada abandonada há anos. Um bando de adolescentes residindo numa instituição, eles também fruto da miséria, espancam o transexual, dia após dia, até à inanição deste após o que o atiram a um poço, ainda vivo, onde este acaba por perecer por afogamento.

Julgados como criancinhas indefesas e inculpados não de homicídio (pois não seria certo que perto da morte Gisberta teria já asas de anjo para se livrar do poço onde caiu?) mas apenas do linchamento da indefesa vítima, sendo o crime aligeirado por as lesões inflingidas só terem sido fatais dada a fragilidade de que Gisberta já padeceria em virtude das doenças de que sofria (portanto é menos grave seviciar um enfermo do que um saudável, curioso não?) aplicam-se penas entre 11 e 13 meses em regime aberto.

É obvio que não se esperava, nem seria desejável, pena de prisão perpétua nem essa pena existe no nosso país nem os réus seriam imputáveis a esse ponto, mas o crime em causa além de redundar num homicídio, revestiu-se da mais penosa e degradante crueldade. Esperava-se que se aplicasse a Lei Tutelar Educativa na sua medida mais gravosa e sob regime fechado.

Se é certo que o grupo de jovens decerto desconhece o carinho e a ternura, talvez eles próprios vítimas de atropelos físicos ou psicológicos ao longo das suas vidas, eles também nascidos do lado errado do amor, não é menos certo que se se pretende reeducá-los para a sociedade, se se pretende torná-los cidadãos íntegros não é passando-lhes a mão pela cabeça como se esta morte ocorrida da mais dolorosa e degradante forma, nada tivesse sido senão um acidente de percurso, pouco mais do que se tivessem roubado fruta num supermercado, que se conseguirá tal proeza. Que cidadãos serão estes no futuro? Que podemos esperar deles senão mais marginalidade? Quem lhes vai mostrar o bem do mal, o certo do errado? Para eles como para Gisberta o amor é um lugar incerto, não creio que seja com um laxismo de encolher de ombros que o Estado que somos nós todos consiga conciliar a justiça com a protecção destes infelizes e cruéis marginais.

Publicação: sexta-feira, 22 de Setembro de 2006 22:12 por sistermoonshine

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Comentários

# re: O amor é um lugar incerto @ sábado, 23 de Setembro de 2006 0:44

Love happens

aphextwin

# re: O amor é um lugar incerto @ sábado, 23 de Setembro de 2006 1:07

Tenho a certeza que, de entre estes jovens, há uns com maior responsabilidade no assassinato da vítima e outros que aderiram, por influência dos restantes.

Há certamente quem tenha dado um pontapé e não tenha passado disso. Outros terão sido bem mais cruéis, demonstrando total desprezo pela vida.

Gostei muito daquele comentário sobre o paradoxo de ser menos grave seviciar um enfermo do que um saudável.

HelderFraguas

# Há muitas crianças e jovens em perigo @ segunda-feira, 25 de Setembro de 2006 2:35

  Talvez as penas aplicadas pelo juiz tenham sido benevolentes. No entanto, parece-me que mais importante que a justiça do caso "Gisberta", que infelizemente já faleceu, é o que se pode ainda fazer pelas centenas ou milhares de crianças e jovens em perigo, cujo dramático quotidiano e falta de esperança no futuro, levará provavelmente à ocorrência de mais casos análogos ao "Gisberta".

zerozero

# re: O amor é um lugar incerto @ terça-feira, 26 de Setembro de 2006 1:29

Concordo em absoluto que o mais importante é descobrir o que se pode fazer pelas crianças e jovens em perigo.

Pela minha parte, logo que as minhas completem dezasseis anos de idade, tenciono levá-las a visitar uma cadeia e mostrar-lhes o que as espera se violarem a lei.

Por enquanto, tenho apenas dado a conhecer algumas celas e já as coloquei em contacto com presos.

Mas também conheço imensos jovens que passaram as maiores dificuldades e que são adultos de sucesso.

Quanto às "penas benevolentes" aplicadas pelo juiz, eu sei que a matéria é difícil de aceitar. Mas os menores tinham, todos, menos de 16 anos.

Portanto, na verdade, não cometeram um crime. Praticaram um acto que é qualificado como crime, mas, em virtude da sua idade, não podem ser punidos, mas sim educados.

Daí que não lhes tenha sido aplicada nenhuma pena.

Foram aplicadas medidas tutelares educativas.

Eu sei que é insatisfatório.

Mas não culpem o juiz.

HelderFraguas

# re: O amor é um lugar incerto @ quinta-feira, 5 de Outubro de 2006 1:19

Não me parece que se apliquem medidas tão benevolentes por homicídio a menores de 16 fora de Portugal.

Mas aqui não se pode por em causa o juiz. Não é Helder Fraguas?

Antoniorbtavares

# re: O amor é um lugar incerto @ segunda-feira, 9 de Outubro de 2006 5:16

Este caso vem apenas revelar uma vez mais quão podre está  nosso sistema de ?justiça?.

A incompetência gritante e a falta de prepação dos nossos juízes, não auguram nada de bom para o futuro do País e dos nossos filhos. Está tudo errado na ?justiça?. Nada funciona como devia. Os juízes são os funcionários públicos mais bem pagos de Portugal. Ganham mais que os médicos, que os engenheiros, que os economistas, que os arquitectos, que os militares, etc., etc. Portanto a incompetncia gritante que diáriamente revelam no exercício das suas funções não se deve a baixos salários. Muito pelo contrário! Talvez o problema resida no facto de terem salários demasiado elevados. Tal facto, parece atrair para a magistratura os cidadãos que menos formação e escrúpulos têm. A principal e a mais urgente reforma que o governo tem a obrigação de fazer é a da ?justição?. E o governo tem de entrar a matar, ignorando pura e simplesmente as lamúrias dos incompetentes actores da ?justiça? Portuguesa.

Parabens à autora por ter tido a corajem e a frontalidade de dar a cara na denuncia de mais este triste caso da justiça Portuguesa.

Zeus

# re: O amor é um lugar incerto @ terça-feira, 10 de Outubro de 2006 23:36

 Tudo isto é terrívelmente triste,e com tendência a piorar...aliás,nós somos a prova do estado das coisas..."falamos"pela internet,

mas cruzamo-nos na rua,sem falarmos,nem desejar

conhecermos-nos.Lembram-se da"Laranja Mecânica"

(Kubrick`s)?Estava(?)lá quase tudo...

Jonas

# re: O amor é um lugar incerto @ segunda-feira, 30 de Outubro de 2006 9:42

Gisberta foi assassinada. O crime não podia ficar impune. Mas, se calhar mais "alguém, para além dos rapazes, deveria ser também considerado culpado e pagar por isso. Quem? A própria instituição que os acolheu, o Estado que vai esquecendo o seu papel de reintegração social.

sexussemnexus

# re: O amor é um lugar incerto @ sábado, 1 de Março de 2008 21:51

oioi...

É terrivel!

Estas crianças vão ficar para sempre marcadas.

Deveriam ser integradas em algum programa de re-educação.

São responsáveis pela morte dum ser humano.

Que raio de pena é esta?

Será que alguém já pensou que daqui a uns anos pode esta impunidade custar a vida a mais alguém?

E ai...como vai ser?

Já se manda os rtapazes para a cadeia?

Então se podem matar em  pequenos,porque não o fazer já em adulto?

Foi um descuido?

Não.

Foi um crime propositado.

Ninguém bate assim num ser humano, e depois enviam-no tipo pacote para o poço...

Não.

Sabiam prefeitamente o que estavam a fazer.

Pena de prisão efectiva...e de muitos anos...

Era a minha sentença.

Jitos

Maris

maris

# re: O amor é um lugar incerto @ sábado, 1 de Março de 2008 21:55

oioi...

Permite-me emitir uma opinião ao comentário do Zeus.

Discordo.

O ano passado a pessoa que ficou em primeiro lugar no concurso de magistratura é uma profissional competentissima,e das pessoas mais inteligentes que conheço.

Acrescento mesmo pessoa correctissima.

E de mão pesada.

Não sei quem foi o magistrado que ficou com o caso...

Mas sei que as leis por vezes atam as mãos a estes profissionais!

Jitos

Maris

maris

# re: O amor é um lugar incerto @ segunda-feira, 1 de Setembro de 2008 22:19

sr: H.F.

Espero sinceramente,que voce nunca seja juiz.

Quanto à sua tese tutelare

ela nao é completamente falsa mas,

jà foi muitas vezes mencionada nas cronicas e

revistas educativas,e o resultado foi (gisberta)

tem mérito pelo facto que possa discutido e assim abrir novos caminhos,

Nem todos vivem felizmente ao lado de uma prisao

nunca farei assistir aos meus filhos de 16 anos

a execusao final de um condenado a morte

para completar a vossa terapia.

A justiça jà vive um mau bocado hà bastante tempo,mas nao é so em portugal,

aqui onde habito (num pais desenvolvido)

também hà probelemas devido,nao so à falta de meios,mas também ao afastamento, incapacidade e

falta de vontade politica em se aproximar dos cidadaos,

Neste arcaismo consentido as reformas teimam em  

marcar o passo aos reais problemas que a sociedade atravessa,mundializaçao,jovens na duvida,incerteza no futuro, educaçao,justiça,politica futebol e telenovela IDEM:gisberta.

Nao critico juizes,critico sistemas

se eles sao incompetentes!?

queixem-se aos politicos que voces durante 34 anos ajudaram a meter no poleiro,

as leis existem,a constituiçao portuguesa é das

melhores do mundo!

mas ela ata as maos a muita gente

que nao a cumpre e nao a faz cumprir.

ou sera que é mesmo verdade, que os politicos

em portugal sao todos corruptus,

desejovos boa continuaçao e sobretudo

CORAGEM.

:LAZARO

lazaro

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