SOL

Da montra do meu café...

Crónicas do tudo e do nada... paisagens da cidade.

A topografia dos meus afectos

Um amigo emprestou-me “A ideia de Europa” de George Steiner. Melhor dizendo “obrigou-me” a lê-lo, tal era o seu entusiasmo e vontade de o discutir, fazendo fé que a sua leitura havia de alterar a minha visão da Europa e o do ser Europeu.

No fim do livro fiquei a achar que acabara de colocar mais uma peça no puzzle da compreensão da minha ligação umbilical ao Porto e do amor infinito que nutro por esta cidade cinzenta.

À luz de Steiner o Porto é a minha Europa em miniatura onde eu, peripateticamente, divago entre café e café, sorvendo o cheiro dos que antes de mim lá se sentaram, ali amaram e sofreram, desenharam conspirações e revoluções ou… apenas deixaram que o mundo fosse lá fora enquanto o café lhes aquecia o frio e chuvoso fim-de-tarde. Da montra do meu café é onde eu vejo o mundo acontecer e nunca vi luz mais bela que a do sol abrindo frestas na neblina numa manhã do Porto.

Aqui tudo é perto, tudo fica à distância de uma caminhada e, talvez por isso, nas ruas os transeuntes trocam olhares íntimos. Encontramos as mesmas pessoas nos mesmos sítios, às mesmas horas, nos mesmos lugares. Somos uma espécie de família implícita, uma voz una que se ergue em defesa da cidade e se alimenta de tripas se disso for preciso.

O horizonte alarga-se frente ao rio e ao mar, da cantareira à Foz. Numa esplanada beira-mar, não há horizonte fechado que cerceie a liberdade do pensamento, aqui todas as ousadias são admissíveis e admiráveis.

Ainda à luz de Steiner, a toponímia da cidade segue segundo os artífices da história: pintores, escritores, cientistas e estadistas, cruzando tendências e fados, reis e republicanos partilham a mesma cidade entrecruzando-se por ruas e vielas.

A filiação de Atenas advém dos renascentistas que encontramos em artistas e homens de ciência como Abel Salazar ou Bento de Jesus Caraça. Esta cidade é, ainda hoje, alfobre de alguns dos melhores cientistas, pintores, escritores, poetas e músicos. Aqui há, ainda, livrarias como a “Latina” ou a “Lello” onde os livros se conhecem pelas mãos e pelo odor e onde a palavra livreiro não é igual a balconista de livraria.

Paradoxal, a Invicta é burguesa e independente mas municiada de um conjunto de igrejas onde “a cidade da virgem” se persigna.

Escrevi um dia que “esta cidade tem mais passado que futuro”, não por um tétrico pessimismo que me levasse a crer no seu fim próximo nem, tão pouco, por a achar já morta, mas antes porque sentando-me no presente tenho um tão vasto horizonte de passado e história que é difícil não ficar avassalada por essa memória que, sendo tão imponente, acaba tomando-me num maternal colo de onde consigo erguer-me e conhecer-me como um Eu que existe e faz parte da cidade, tanto quanto estas pedras que piso e outros pisaram antes de mim. Cidade onde as marcas que deixo se misturam com as dos que me precederam.

Assim, da montra do meu café, fico a sonhar em Português, trocando os vês pelos bês (fruto da herança galega), tão mais macios e menos agressivos ao ouvido, deixando que o azul celta dos meus olhos fique imaginando uma gaita de foles como banda sonora ao cimbalino que arrefece sobre a mesa.

 

Café Majestic, Porto, 4 de Outubro de 2006

Publicação: quinta-feira, 5 de Outubro de 2006 0:16 por sistermoonshine

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Comentários

# re: A topografia dos meus afectos @ sexta-feira, 6 de Outubro de 2006 21:44

Gostei do que li. Parabéns.

nunopoiares

# re: A topografia dos meus afectos @ domingo, 8 de Outubro de 2006 22:58

Bonita escrita, faz-me sentir a mim também essa topografia dos teus afectos.

Se alguma vez eu poder, irei viver no Porto.

Já lá passei algumas vezes. Quando caminhava por entre a sua arquitectura ancestral ficava com a impressão que estava mais a norte, no Norte de Europa.

Mas ao que parece a vida que havia se vai perdendo, fruto do envelhecimento da população residente e do êxodo dos novos para os concelhos vizinhos.

Penha tenho eu de que não se faça a requalificação atempada para voltar a dar a vida à cidade. A cidade com monumentos e sem povo perde a sua alma.

Antoniorbtavares

# re: A topografia dos meus afectos @ segunda-feira, 9 de Outubro de 2006 21:47

Sim "Senhoura"! "Bais" longe rapariga!

Agarra-te às letras carago! Faz delas o ar que respiras e "bê" lá se a expiração é um livro, para um dia eu ler, quem sabe, no Majestic.

Biba!

Amonium

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