"Rivolição"
Como que por maldição, a cidade do Porto, a cada dez anos, vê-se a braços com tentativas de usurpação das suas poucas salas de espectáculos.
Há dez anos a entidade privada que presidia aos destinos do Coliseu do Porto preparava-se para o vender a uma igreja, de propósitos mal esclarecidos, que o pretendia destinar a local de culto. Os portuenses saíram à rua e, com a ajuda da Câmara Municipal, compraram a sala, devolvendo à cidade aquilo que, por direito, sempre lhe pertencera. Uma manifestação que encheu Passos Manuel com palavras de ordem, um Abrunhosa algemado às grades e uma mole de povo acotovelando-se, algemando-se a ele de tão coesa na vontade de ali permanecer. Valeu a pena!
Dez anos depois o agravo é diferente. Desta feita é a Câmara que pretende entregar à concessão privada o Teatro Municipal Rivoli, recuperado com dinheiros públicos (nos idos em que a edilidade tinha preocupações culturais) e reaberto como teatro municipal vocacionado para a prestação de serviço público. Se, ao contrário do que aconteceu com o Coliseu, não se duvida que este espaço se mantenha direccionado para o espectáculo – sendo isso uma exigência – já se duvida do serviço público que um teatro municipal, como é este, possa prestar encontrando-se gerido por entidades privadas, cujo objectivo é, naturalmente, o lucro.
O Teatro Municipal Rivoli tem, e bem, recebido nas suas portas uma diversidade de grupos e artes, não apenas teatro mas também música e bailado. Sendo que a arte deve ser plural, o serviço público que cabe a um teatro municipal passa por manter essa pluralidade, pelo apoio a companhias “sem casa” e a alguns espectáculos ditos mais marginais, para públicos mais restritos e, sobretudo, ser abrigo à criação e à formação de novos públicos.
Ao entregar este teatro a privados, sob a desculpa do prejuízo – fácil de perceber tomando em conta o progressivo desinvestimento a que foi votado – propicia-se a ocupação deste por um tipo único de produção, visando exclusivamente a rentabilidade, onde se divisa apenas espectáculos de índole mais popular, de fácil adesão de público, garantindo sala cheia. Arredadas ficarão produções para as chamadas “imensas minorias”. Obrigados, pelo caderno de encargos, a quatro produções anuais mas com 300 noites de espectáculos, não consigo vislumbrar que produtos nos podem ser “servidos” senão uma espécie de enlatados a repetir iterativamente, ficando cerceada a capacidade de inovar e sonhar.
Assim, embora não perdendo uma sala de espectáculos, o Porto perde uma sala polivalente, perde um teatro verdadeiramente municipal, de serviço público, onde todos pudessem ter voz.
A cultura não pretende o lucro financeiro mas o da alma, o do conhecimento, o do sonho e da conquista de mais e melhor mundo. A edilidade, provou-o já várias vezes – e parece ateimar em prosseguir provando-o – não conhece a cultura nem quer vir a conhecê-la. É pena, perdemos todos! Um povo demarca-se dos outros pelos seus valores culturais e é esse o seu grande valor intrínseco.
No momento em que escrevo este artigo um grupo de corajosos ocupou, como protesto, no final de uma peça, o pequeno auditório do Teatro Rivoli. Sem luz, encerrados do mundo que espreitam por uma fímbria onde mal cabe uma mão e, ao que parece, sem água, hão-de sair certamente vencidos pela fome ou pelo cansaço. Não creio que consigam mudar o rumo traçado pela Câmara, caracterizada por profundo autismo e total insensibilidade a tudo o que cheire a cultura, mas pela coragem, pelo esforço e por, de uma forma ou de outra, ajudarem a agitar consciências, bem hajam!