Afecto versus Capital
Meio ao abandono, este blog de crónicas, resolvi hoje reatá-lo com um assunto espoletado por uma história que, embora com cerca de um mês, é actual por ser um dos possíveis retratos dos tempos que correm.
Há coisa de um mês os Rolling Stones cancelaram mais um concerto, desta feita em New Jersey, por laringite do seu líder Mick Jagger. Mais do que o cancelamento, o que fez notícia foi o pedido milionário de indemnização, feito por uma certa Rosalie Druyan, da módica quantia de 51 milhões de dólares, pretendendo o ressarcimento do bilhete ($ 375), reserva do hotel ($300), assim como respectivas viagens (suponho que o excesso cobriria danos morais pela expectativa de um magnífico concerto que – oh ignomínia! – se veio a gorar).
Os Stones são uma banda milionária, os seus sinais exteriores de riqueza são mundialmente conhecidos, fruto de uma carreira de sucesso pautada por muitos discos vendidos, estádios cheios, bilhetes caros, etc., etc., etc. Tudo isto se deve, em última análise, aos fãs que são quem, na verdade, permite que aufiram essa vida de nababos.
Porém, o que salta à vista no pedido desta dita “fã”, é a supremacia do capital sobre o afecto. Não duvido que além do bilhete (cujo valor é sempre devolvido nos cancelamentos), os preços das viagens e do hotel tenham sido penosos e até passíveis de ressarcimento para Rosalie, mas o valor de 51 milhões só se explica como uma tentativa de retaliação à banda por ser tão rica, uma espécie de vingança invejosa.
Na música – e eu entendo a música como uma coisa muito orgânica – espera-se a criação de especial cumplicidade entre os heróis que sobem ao palco e a massa que os admira da arena. Cria-se um enleio encantatório entre os artistas e os seus fãs. Enquanto que em espectáculos de desporto se nutrem inimizades e se exteriorizam ódios, próprios da competição, os espectáculos de música tendem a exacerbar sentimentos de ternura. Os concertos podem ser orgásticos ou orgiásticos até e saldam-se – quando valem a pena – por magia e encantamento.
Os Stones têm história e Mick Jagger caracteriza-se por uma espantosa energia em palco que mantém desde a juventude, tem, no entanto, sessenta e tal anos e um passado de drogas que talvez lhe fragilize o corpo. No lugar de uma admiradora da banda que viu o artista cancelar o espectáculo por doença, questionar-me-ia sobre quanto mais tempo este continuará sobre os palcos e com a energia que tem sido seu apanágio, perguntar-me-ia a quantos mais concertos poderia ainda assistir dos velhos Stones, talvez isso me entristecesse e sentisse preocupação com a saúde do vocalista.
A música é uma arte de afectos e o que assusta nesta história é a substituição do afecto pelo prazer apenas superficial ou, na sua impossibilidade, a inexorável busca do capital. É indiferente para a “fã” que os artistas que sobem ao palco sejam pessoas e, por isso, passíveis de doença, envelhecimento, degenerescência e morte; gente com sentimentos, risos e lágrimas. À espectadora interessa apenas que a uma dada quantidade de dinheiro despendida no bilhete e viagens corresponda um momento de música que dá prazer – um prazer que perceberá apenas de forma superficial – e, em não havendo espectáculo, saia-se a choruda indemnização, como convém, que os Stones são, afinal, uma banda rica!
Onde para o afecto?
Somos cada vez mais, em todos os lugares, em todas as actividades, peças de uma diabólica engrenagem, peças sem outra importância que não o correcto funcionamento da máquina, predestinada às pequenas coisas, neste caso, aos pequenos prazeres.
O vocalista está doente – a máquina empena, não trabalha – o espectáculo é cancelado – prazer imediato não conseguido – indemnização correspondente ao prazer que se esperava obter – situação sanada.
Resultado: Capital: 51 milhões; Afectividade: zero!