SOL

Da montra do meu café...

Crónicas do tudo e do nada... paisagens da cidade.

O buraco do donut

Os urbanistas chamam-lhe o “efeito donut”. Trata-se de um fenómeno comum a cidades que vão perdendo centralidade em favor da sua periferia que vai “engordando”.

A cidade do Porto, dita a segunda do país, encontra-se no vago do donut, uma espécie de buraco negro, do qual parece incapaz de sair, tal é o marasmo da vida social e cultural (não) existente na cidade.

A edilidade parece apostada em fazê-la regredir à dimensão mais provinciana e triste de pequena freguesia, regulada pela máquina calculadora do senhor presidente que, qual pregador, faz saber que enquanto houver uma alma faminta na cidade esta não terá direito a outros eventos culturais senão aqueles que os seus fracos recursos cognitivos sejam capazes de digerir – nada que dê muito trabalho a pensar (isso gastaria muita energia calórica aos pobres esfaimados). De resto, nada lhes falta: as actuações de cançonetistas pimba promovidas nos bairros pela incansável Rádio Festival, os festivais de bandas de coreto e, claro, a única e imparável corrida de calhambeques – a tal que há-de fazer sombra ao Circuito do Mónaco.

Não é espantoso que não exista cinema na cidade? E teatro? Que é dos nossos festivais, agora que o Municipal fica entregue à gestão privada do “fast-profit”?

A cidade, enfim, atola-se no buraco do donut, provinciana, pobre, cinzenta e miudinha. Sobra Serralves, a Casa da Música (cujo parto, se bem nos lembramos, foi a ferros) e o quê mais? Tivéssemos tido este executivo camarário em 96 e o Coliseu teria, certamente, sido entregue a qualquer igreja ou loja dos trezentos que se candidatasse à sua gerência. Para quando a exploração da Torre dos Clérigos (a mesma que se encontra, qual embrulho de natal, envolvida pelo charme da cerveja e do Pierce Brosnan) por privados a fim de a tornar finalmente lucrativa?

Na festa da nossa aldeia – alegrem-se as hostes – haverá Quim Barreiros para festejar a passagem deste para outro ano, decerto tão farto como o que finda em autoritarismo ausência de diálogo, pobreza de espírito e um mutismo cultural que nos orgulha e ampliará o nome da cidade no país e no mundo.

Esta cidade, que já foi liberal e digna, antes batia-se pelo seu cunho burguês e pela liberdade de pensamento, mas isso… já foi há muito tempo. O tempo onde nela havia pessoas, decerto as mesmas que, entretanto, seguiram o êxodo para Gaia, Matosinhos, Maia e quejandos arredores onde existem cinemas, música, teatros, dança, e onde em breve, decerto, haverá feira-do-livro, FITEI, Fantasporto e as demais actividades de índole cultural que a limpeza intelectual instigada pelo poder vigente na cidade, conseguir afastar do buraco donutiano.

Publicação: segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006 23:08 por sistermoonshine

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