Os ?voyeurs? e os ?bitaiters?
Escrevo este artigo quando o famigerado casal McCann foi constituído arguido sem que, contudo, se conheça ainda o desfecho da triste história de Madeleine. Não sabendo que mais novidades, quiçá desgraças, se poderão conhecer entretanto, a única resolução desejável seria uma que fizesse encontrar sã e salva a criança desaparecida, coisa que parece cada vez menos provável que venha a acontecer.
A razão deste artigo prende-se com o circo mediático a que esta história foi sujeita. Tomada pela imprensa de forma histriónica, rapidamente se juntaram entusiásticos “bitaiters” profissionais opinando sobre tudo o que era do conhecimento público e tudo o que apenas seria conhecimento policial e que a PJ, e bem, nunca revelou. Trata-se da investigação do desaparecimento, que se supõe criminoso, de uma criança e não do reality show a que os media e o próprio casal McCann (sejam eles culpados ou não) se prontificaram a realizar para gáudio de um público sedento do voyeurismo da desgraça alheia. Durante dias a fio vimos o folclore da vida dos pais da criança, com muitas idas à igreja à mistura e até, vejam só, com uma digressão ao Papa. Não pondo em causa a fé que estas pessoas possam ter não se me afigura como muito importante na investigação do desaparecimento uma ida ao Papa e menos ainda a sua transmissão televisiva, em horário nobre nos telejornais, como se isso fosse assunto que nos influenciasse as finanças ou fosse mudar o futuro do ambiente. Notícias de primeira página esmoreceram por pouco tempo, eis senão quando os pais tornam-se suspeitos do crime e, como tal, de retorno às parangonas passam de vítimas a carrascos aos olhos do povo, fazendo-se sumário julgamento em praça pública com direito a vaias e apupos. Portugal no seu melhor!
Desde o início tudo esteve errado, sobretudo se se admitia a inocência dos pais, estes e os irmãos mais novos da criança desaparecida deveriam ter-se resguardado e permanecido longe dos incómodos holofotes. Foi a própria família que jogou a seu bel-prazer com a fome de notícia de quem vive desse métier. Agora, suspeitos de parte activa no desaparecimento da criança (já que passivamente sempre foram culpados por negligência), os McCann refugiam-se em Inglaterra, seja por culpa ou apenas como protecção à intimidade que deveriam ter procurado desde o início. Os media portugueses começam a ser repudiados pela família, mas tarde demais: “Quem com ferros mata, com ferros morre”, os manipuladores dos media são agora suas vítimas, é o normal, é assim que acabam todos os heróis de reality-shows (por regra menos violentos e fatais do que este parece ser). O que verdadeiramente choca nesta história mediática (além do que, de facto, possa ter acontecido à criança) é quem protege a dor? Quem lhe dá guarida? Até onde pode chegar a avidez pela notícia (mesmo quando não há notícia já que esta só existiria se fosse descoberto o paradeiro da criança ou a verdade sobre o seu homicídio)? Quantos mais julgamentos em praça pública terão a nossa complacência e até onde seremos coniventes com “bitaiters profissionais” nas mesas redondas televisivas onde só falta apostas a dinheiro?