Eu importo-me e você?
A 4 de Dezembro último completaram-se onze anos desde a elevação do Centro Histórico do Porto a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. Contra o perene esquecimento a que esta data tem vindo sistematicamente a ser votada, nos últimos anos, um grupo de onze cidadãos, na sua maioria arquitectos, encabeçaram uma festa que, de forma espontânea, reuniu cerca de mil pessoas que se importam para comemorar a cidade e a data. O slogan “imPORTO-me”, da autoria do jornalista Carlos Magno, faz sobressair a cidade olhada como uma marca a explorar e ao mesmo tempo importuna-nos fazendo-nos pensar sobre as coisas que nos importam na cidade, espécie de alfinetada na consciência dos portuenses que vivem, sentem e sofrem a sua cidade.
Eu estive lá, disse “Eu imPORTO-me” e que coisas são estas com as quais me imPORTO?
Importo-me com a massiva desertificação da cidade, particularmente o seu centro histórico; importo-me com a degradação das casas devolutas de traça antiga; importo-me com o plano de transformação do Mercado do Bolhão num supermercado com meia dúzia de vendedores tradicionais decerto incapazes de competir com a massificação, prováveis elementos decorativos condenados a definhar até se tornarem apenas uma memória do passado, tal como o extinto Palácio de Cristal.
Importo-me com a total ausência de um projecto cultural para a cidade, importo-me que os ícones da cultura, sejam ele monumentos ou pessoas, sejam votados ao desprezo ou “censurados” na cidade apenas por não serem convergentes com o poder vigente.
São estas algumas das inquietações que com as quais me imPORTO, como cidadã do Porto, tripeira até à medula!
Fica a deixa ao Jornal Público: que desafie os seus leitores do Porto a pronunciarem-se sobre as coisas com as quais se importam.
Eu ImPORTO-me e você?
In "Jornal Público" - 21 de Janeiro de 2008