SOL

Da montra do meu café...

Crónicas do tudo e do nada... paisagens da cidade.

Eu importo-me e você?

A 4 de Dezembro último completaram-se onze anos desde a elevação do Centro Histórico do Porto a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. Contra o perene esquecimento a que esta data tem vindo sistematicamente a ser votada, nos últimos anos, um grupo de onze cidadãos, na sua maioria arquitectos, encabeçaram uma festa que, de forma espontânea, reuniu cerca de mil pessoas que se importam para comemorar a cidade e a data. O slogan “imPORTO-me”, da autoria do jornalista Carlos Magno, faz sobressair a cidade olhada como uma marca a explorar e ao mesmo tempo importuna-nos fazendo-nos pensar sobre as coisas que nos importam na cidade, espécie de alfinetada na consciência dos portuenses que vivem, sentem e sofrem a sua cidade.

Eu estive lá, disse “Eu imPORTO-me” e que coisas são estas com as quais me imPORTO?

Importo-me com a massiva desertificação da cidade, particularmente o seu centro histórico; importo-me com a degradação das casas devolutas de traça antiga; importo-me com o plano de transformação do Mercado do Bolhão num supermercado com meia dúzia de vendedores tradicionais decerto incapazes de competir com a massificação, prováveis elementos decorativos condenados a definhar até se tornarem apenas uma memória do passado, tal como o extinto Palácio de Cristal.

Importo-me com a total ausência de um projecto cultural para a cidade, importo-me que os ícones da cultura, sejam ele monumentos ou pessoas, sejam votados ao desprezo ou “censurados” na cidade apenas por não serem convergentes com o poder vigente.

São estas algumas das inquietações que com as quais me imPORTO, como cidadã do Porto, tripeira até à medula!

Fica a deixa ao Jornal Público: que desafie os seus leitores do Porto a pronunciarem-se sobre as coisas com as quais se importam.

Eu ImPORTO-me e você?

In "Jornal Público" - 21 de Janeiro de 2008

Publicação: quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008 0:00 por sistermoonshine

Arquivado em:

Comentários

# re: Eu importo-me e você? @ quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008 17:22

Somos dois!

Também eu me imPorto, apesar de ser um rapaz da capital. Estou e estarei sempre interessado em pedir contas aos responsáveis pela degradação desse capital importante que  é o bem estar das populações.

ImPorto-me com a política economicista dos poderes instituídos, central e autárquico, que teimam em colocar o dinheiro à frente dos interesses reais das pessoas.

Está falido o sistema. O capitalismo está moribundo.

Vamos lá discutir o futuro, que passe por uma economia ao serviço do Homem.

Escreve mais, estarei atento

venerando-te

antoniomaia

antoniomaia

# re: Eu importo-me e você? @ quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008 4:18

Lisboa ou Porto, tanto faz, porque no somatório de ambas é reflectida a realidade do país, que se divide em círculos de parolos com importância e na procura da salvaguarda dos seus privilégios e da sua conveniência e que aceitam convocar a plebe, sempre que é necessário fazer força. Foi esta a génese do 25 de Abril, ou o país teria despertado a 26 com um esboço, no mínimo, de projecto.

Acreditará que não pretendo ofendê-la, na medida em que, não a conhecendo, devo admitir que possa pertencer ao número dos bem-intencionados, e que desconhecerá o que move a rapaziada. E, sobre o Porto ou sobre o país, isto está como está, porque os investidores são homens de comprar feito. Ninguém planta um alho sem que antes lhe tenham dado uma cabeça; e, para agravar a situação, acabam a governar indirectamente, pelo apoio, interessado, que prestam a mentecaptos, para que estes, a soldo, lhes concretizem os sonhos.

Se reparar, os lugares em que, quem os ocupa, pode contribuir para alguma coisa estão ocupados por humildes moços de recados e por descendentes de famílias com "pedigree": na Imprensa, na Justiça, na Administração Pública, etc, etc..., estão todos os que preenchem vagas que foram a concurso já preenchidas... Como acha que isto se resolveria? Com senso, digo eu. Mas isso não se compra, procura-se e encontra-se, e cabamos, de novo, a falar de investimento, o que, em Portugal, é contranatura, para além de que, neste momento, então é que só atrapalha.

Veja o que aconteceu com o Porto Capital da Cultura, em que nunca tanto anormal esteve reunido na planificação de coisa nenhuma. Bem fez o Dr. Artur Santos Silva, batendo com a porta,quando rapidamente percebeu que seria pasto da matilha.

A reformulação da Av. dos Aliados. Quantas vozes se ergueram contra um projecto árido, de autores aos quais se continua a louvar a arquitectura, como se a Arquitectura, de facto, enquanto arte de pensamento, de adequação de pessoa e de meio,tenha conhecimento de que, como arquitectos, existam? Quem as ouviu?... Aquele tanque, maravilhoso, mesmo à frente do Almeida Garrett... Fala-se, agora ou já, que, um destes dias, tudo vai ser modificado. Pelos mesmos? Não me admiraria.  

Que acha que há para ser discutido, quando o mau-gosto, a falta de educação, a ignorância e, sobretudo, a perversão são tudo o que decide nesta coisa a que continuam a chamar país? Discutir o óbvio?

Continuo a pensar que o país é o mais indicado para aqueles passeios dominicais, em que uma ou outra figua da "situação" se presta a dissertar, em palestra, numa daquelas excursões das "caixas de 20 amigos" em visita a Serralves ou a outro monumento ou museu.

Peço desculpa pelo meu pessimismo, mas é o melhor que consigo, numa terra que penso conhecer bastante bem.

Cumprimenta,

Rodrigo costa

rodrigoco

Para comentar necessita de estar registado