Os fumadores, coitadinhos!
Desde 1 de Janeiro deste ano está instalada no nosso país uma nova raça de pobres e perseguidos – os fumadores-coitadinhos. Não se trata de fumadores-normais-cidadãos-civilizados-e-tolerantes mas sim de fumadores-coitadinhos, vítimas do escárnio, da repressão, tristemente votados a terríveis guetos (leia-se as portas de cafés, lojas e empresas) nefandos antros mal frequentados, decerto perigosíssimos para a sua frágil saúde tão atreita à pneumonia que se apanha, como se sabe cientificamente, directamente da corrente de ar, monstro bem mais nefando do que o cancro da laringe ou do pulmão a que estes seres parecem ter especial imunidade. Esta raça de fumadores, os coitadinhos, são conhecidos por denodadamente lutarem pelas liberdades cívicas apenas desconhecendo a velha máxima que é “a minha liberdade termina onde começa a do outro” tendo particular dificuldade em perceber que a liberdade do outro passa por não ter de conviver com o fumo alheio no seu prato de comida ou na chávena de chá. Bastiões da liberdade individual, a sua utopia consiste em que cada um pudesse exercer qualquer “liberdade” a seu bel-prazer, por exemplo um fumador-coitadinho que seja adepto de falar alto entraria urrando em qualquer biblioteca ou no meio de uma sessão de cinema ou teatro; os Fittipaldis correriam a 200 à hora nas cidades, os empregos nunca começariam antes das dez (sim que ninguém tem o direito de me cercear a liberdade de dormir até tarde!) e qualquer um teria um Grand Danois num T0 a ladrar furiosamente toda a noite, varreria o seu lixo para o pátio do vizinho e andaria
armado não fosse alguém pôr em causa a sua inestimável liberdade de se defender. Belo mundo este onde qualquer um poderia fazer o que lhe desse na real veneta desde que usasse como argumento a sua liberdade para fazer, precisamente, tudo o que lhe desse na real veneta!
Os fumadores-coitadinhos gostam de se expor ao ridículo enchendo páginas de jornais e revistas, sendo muitos deles notáveis cronistas, com o imbecil argumento de confundir fundamentalismo com respeito cívico pelos circundantes (sejam eles fumadores ou não, porque mesmo os que optam por fumar não carecem que os importune o fumo alheio em espaços fechados).
Menos barulhentos, os fumadores civilizados aceitam fumar nas esplanadas e vão aproveitando o sol que tão generosamente abraça o nosso país. No entretanto metem conversa com o colega da loja ao lado que também saiu para fumar, falam do tempo e de futebol e no regresso à confeitaria têm a liberdade de lanchar com os filhos num ar não poluído.
In "Jornal Público" - 26 de Janeiro de 2008