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Falta de anticorpos emocionais


Falta de anticorpos emocionais pode conduzir a casos de 'stress' traumático



 
Acidentes de viação, assaltos, atentados terroristas, guerras, incêndios ou catástrofes naturais como sismos, inundações ou tempestades. Situações potencialmente traumáticas que deverão afectar, ao longo da vida, dois terços da população mundial. E que causarão stress traumático a 3% dessas pessoas. É para debater o tema da psiquiatria em catástrofe, ainda pouco explorado, que se juntam hoje, e até sábado, vários especialistas em Coimbra.

Em Portugal, o único estudo epidemiológico data de 2002 e estima que 8% dos portugueses possam vir a sofrer stress traumático. "Doença despoletada por uma situação limite que põe em causa a integridade física e psicológica de alguém", explicou ao DN Luísa Sales, chefe do serviço de psiquiatria do Hospital Militar de Coimbra, e da organização do congresso "Psiquiatria de Catástrofe e Intervenção na Crise".

Confrontados com essa situação extrema, que pode ser pontual ou continuada, uns conseguem integrar este episódio e seguir com a vida para a frente. Outros não, ficando marcados psico-patologicamente. "É normal que a pessoa fique marcada pelo que viveu. Mas as pessoas têm de conseguir ultrapassar. O trauma tem de ficar lá atrás e têm de ser capazes de olhar o futuro." Como num baú de recordações, exemplifica a psiquiatra. "Têm que ter capacidade para o abrir e fechar quando quiserem e não ser ele a abrir-se quando quer, invadindo o dia-a-dia da pessoa." Luísa Sales dá o exemplo de um ex-combatente que, durante 25 anos, não teve coragem para abrir a mala de viagem, depositária de memórias difíceis de recordar.

Os sintomas do stress traumático podem surgir meses após a crise: dificuldade em dormir, ansiedade ou sinais psicossomáticos como dores no peito ou abdominais e disfunções sociais. Ou se cura nos primeiros tempos ou pode passar a ser crónico, ressurgindo ao longo da vida.

Interrogações

O que leva uns a desenvolverem patologia e outros não, quando todos são submetidos à mesma pressão? É uma questão ainda por responder, embora haja pistas. Há grupos mais vulneráveis como crianças e idosos ou pessoas com dependências. Sara Rosado, psicóloga do INEM, acrescenta os que têm perturbações anteriores que podem ser agravadas se forem sujeitos a situações limite.

Há ainda o caso dos doentes com traumas adormecidos que são reactivados por algum gatilho. Por exemplo, após os fogos do ano passado que cercaram Coimbra, muitas pessoas procuraram apoio psiquiátrico. Ex-combatentes que, apenas por ouvirem o som dos helicópteros que combatiam os incêndios, entraram em pânico e descompensaram. Mas as questões em aberto são várias: há algum marcador biológico a determinar que uns sejam mais vulneráveis do que outros? Uma coisa é certa, acredita Luísa Sales, há cada vez mais bem-estar nas sociedades desenvolvidas e as pessoas têm dificuldade em suportar o sofrimento. "Os médicos dizem que as crianças, por não brincarem tanto na terra, desenvolvem mais alergias, pois adquirem menos anticorpos. Nestas sociedades assépticas acontece o mesmo: temos menos anticorpos emocionais." E, confrontados com situações limite, temos menos capacidade de resistência. Um problema grave, tendo em conta a actual diversidade de ameaças.

Publicação: sexta-feira, 11 de Julho de 2008 17:18 por STRESSdeGUERRA

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