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?As minas eram o nosso pior inimigo?

  O furriel Dias (na foto é o terceiro a contar da esq. dos 
militares sentados na fila de trás), com a sua secção, junto a um posto 
de vigia em Miandica, Niassa, 1967O furriel Dias (na foto é o terceiro a contar da esq. dos militares sentados na fila de trás), com a sua secção, junto a um posto de vigia em Miandica, Niassa, 1967
14 Março 2010 - 00h00

A Minha Guerra

“As minas eram o nosso pior inimigo”

Estive à beira da loucura após dez dias praticamente subalimentado. Fomos salvos de um ataque por uma catarpiler. Na guerra, consolei camaradas.

Em Abril de 1966 parti no paquete ‘Pátria’ para a guerra. A 30 de Abril, como me podia esquecer? Tinha 22 anos. Já me achava velho para a guerra. O resto era rapaziada de 19 ou 20 anos. Tive muito tempo à espera. Quando cheguei a Moçambique, com 17 dias de mar, fui para a Zambézia. O tempo da chuva e do calor já se estava a dissipar.

A Companhia de Caçadores 1559, onde eu era o furriel Dias, foi a primeira unidade militar a fixar-se no Molumbo, tendo encontrado para alojamento um tosco campo de futebol. Instalámos tendas de campanha e ali ficámos 15 dias. Depois fomos transferidos para uma velha prisão, cedida pela administração local. Basicamente passou a ser a nossa "prisão" – o nosso quartel –, construída no sopé de um majestoso monte.

A população tratava-nos muito bem. Mas nós fazíamos por isso. Eles tinham carências de saúde, alimentação, transportes. Cheguei a dar-lhes parte da minha comida, essencialmente às crianças, que pareciam enxames à nossa volta.

Custou-me horrores passar a noite de Natal de 66 no meio da picada com a viatura atascada, sem poder juntar-me à minha secção. Eu tinha ido ao quartel buscar alimentos para a Consoada, que acabei por passar à chuva com mais quatro homens. Foi uma noite muito triste. Demos um abraço e assim se passou.

Só em Maio de 1967, um ano depois de ter chegado ao Molumbo, já destacado no chamado "inferno de Miandica", vivi o primeiro episódio de guerra. A Secção dos Milhinhos, ao regressar ao destacamento através da pista de aterragem em construção, por isso, em campo aberto, sofreu um forte ataque. Em simultâneo, o inimigo atacou também o destacamento onde eu me encontrava. Seguiram-se momentos de grande angústia e perigo. Salvou-nos uma Catarpiler das obras que estava estacionada. Ouvíamos os tiros a bater na máquina. Naqueles momentos não se tem medo – temos que nos proteger. Ali não morreu ninguém nem houve feridos.

Estive dois meses no ‘ inferno’. Os praças dormiam em buracos no chão. Nós vivíamos numa casa de tijolo cheia de parasitas. O reabastecimento fazia-se através da avioneta que largava as sacas. Partilhávamos a comida com macacos, que nos roubavam. Passámos dez dias subalimentados. E sem tabaco. Estava prestes a chegar à loucura.

Mortos das nossas tropas, não quis ver. No meu batalhão (600 homens), morreram nove. Na minha companhia (160) tivemos apenas um morto por acidente com arma, o alferes Cartaxo. Mas senti também o pesar quando me disseram que morreu o cabo Leão, com o accionamento de uma mina antipessoal. Na guerra, as minas eram o nosso maior inimigo. Eu estava num local que lhe chamavam "Estado de Minas Gerais".

Quando saí do "inferno" de Miandica, em direcção ao Cóbuè, participámos na operação ‘Novo Rumo’ à base do Mepache. No caminho detectámos um posto avançado da Frelimo e houve um confronto. Obviamente alertaram logo a base principal. Nós continuámos. Estava combinado a aviação bombardear o acampamento do Mepache ao meio-dia. Com todos os percalços, quando lá chegámos já não estava ninguém. Por azar, um furriel da minha Companhia caiu numa ravina e abriu um buraco numa perna e ficou imobilizado. Eram três da tarde e a aviação já não o evacuou. Tivemos que passar a noite perto do aquartelamento que tínhamos atacado. E, de madrugada, fomos nós atacados. Ficámos caladinhos. Disparávamos sobre quem? Ao fim de dez minutos de fogo intenso desistiram. No dia seguinte, o helicóptero levou o furriel ferido e nós seguimos para Cóbuè.

Recordo-me que em Miandica fiquei três semanas sem correio. Quando o saco lá chegou, também atirado pelo ar, tinha 22 cartas. Escrevia sempre à minha namorada e aos meus irmãos. Para os meus pais, quando andava no mato, eu tinha um esquema montado para que a cada saída do correio seguisse sempre uma carta minha. A minha mãe tinha que estar sempre iludida. Para ela, era como se eu estivesse nas Seicheles ou no paraíso. À minha namorada, com quem casei depois, só escrevia cartas de amor. Havia momentos de solidão em que chorei. E outros houve que dei consolo a muitos camaradas.

Em Fevereiro de 68 voltei ao Molumbo. A parte final foi pacífica. Eu tinha um rapaz que andava comigo, era o meu ‘mainato’. O Joaquim. No dia da despedida, ele, com 15 anos, agarrou-se às minhas pernas, chorava e pedia-me para o levar comigo. Dei-lhe dinheiro, roupa – sempre lhe dei – e lá o deixei entregue a outro furriel. Nunca soube mais nada dele.

O REGRESSO 36 ANOS DEPOIS

Em 2004 Manuel Pedro Dias tornou realidade o sonho de regressar a Moçambique, aos locais por onde passou na Guerra do Ultramar. "Não sei o que nos leva, a nós, ex-combatentes, a querer voltar ao local onde tanta coisa boa e tanta coisa má se passou". Mas ir, concretamente ao Molumbo, foi uma experiência única. "Ao olhar para aquele morro por trás do nosso antigo quartel, senti tanta adrenalina como aquele alpinista conhecido, o João Garcia, deve sentir ao subir a qualquer montanha". Manuel (o antigo furriel Dias) encontrou lá pessoas do tempo da guerra.

PERFIL

Nome: Manuel Pedro Dias

Comissão: Moçambique (1966/1968)

Actualidade: Aos 65 anos, vive em Odivelas e é bancário aposentado

Publicação: domingo, 21 de Março de 2010 8:21 por STRESSdeGUERRA

Comentários

# re: ?As minas eram o nosso pior inimigo? @ domingo, 21 de Março de 2010 13:23

Olá Manuel Gosto de ler estes testemunhos da guerra de África. Bom Domingo!

OlindaGil

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