A Mulher das Peças
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Poderei ter sido uma felizarda quando, há vinte e cinco anos, fui a uma entrevista para um novo emprego. Naquela altura, jamais me passaria pela cabeça ter que aceitar um serviço numa bomba de gasolina. Mas teve que ser. A minha filha queria mamar e eu nem ponta de leite tinha no peito para a calar. Hoje, ela nem sonha o que tive que fazer por ela e por mim para que não morrêssemos à fominha. O pouco que ganhava não chegava para atestar o arranque do mês e sei lá quantas vezes tive que me sujeitar a fazer horas extraordinárias, longe da bomba de gasolina, não fosse inflamar os ouvidos do patrão. Eu, na altura, era mais franzininha, mas força não me faltava. Vergada, empurrei muitos carros a pegarem de mansinho e limpava-os como podia. Por onde as minhas mãos passavam tudo ficava a brilhar. Agarrei-me a ursos e ursinhos, a tabliers e volantes, e cheguei a ficar pregada no pára-brisas, pelos cabelos, nos pendericalhos que enfeitavam as frentes dos automóveis. Felizmente, quando a minha filha nasceu, andava eu metida noutros balanços. Antes de pegar em mangueiras de gasolina, fui cabeleireira. Nunca me faltou jeito para lavar e pentear, e foi em conversa com uma cliente, que dei as minhas primeiras tesouradas. Escovava os seus cabelos louros como se fosse a boneca mais bela do parapeito da cidade. Tinha um corpo invejável. Toda ela parecia ter sido torneada pelos maiores sonhos dos homens. Contava cada história vivida que, se eu fosse P***, continuaria virgem só para a ouvir. Mas naquele dia eu estava capaz de adivinhar todas as palavras que lhe saíam da boca. A descrição era tão familiar que eu continuava a penteá-la, pensando que era eu que estava sentada na cadeira. O cabrão do pai da minha filha andava a despenteá-la e nem o nome lhe escondeu. As minhas mãos gelaram sem que a cliente notasse. Uma invasão de raiva proliferou no meu corpo. Mantive-me silenciosa, deixei fugir uma lágrima até à ponta do nariz e, discretamente, troquei a escova pela tesoura. Agarrei todos os cabelos que pude numa mão e, em segundos, os longos cabelos loiros caíram no chão. A cliente gritou, mas não havia mais nada a fazer, só deixá-los crescer novamente. Não esperei por mais nada. Larguei a tesoura, despi a bata e saí desvairada. Comecei a andar pelas ruas e todos os rostos eram iguais. Os homens tinham as trombas do cabrão do pai da minha filha e as mulheres eram louras de cabelo curto. Hoje posso rir-me … Aliás, podemos nos rir no dia seguinte ou uns dias depois de uma tragédia, seja ela boa ou má. Rimos porque envelhecemos. Muita coisa ficou para trás, mas a minha filha não. Quando ela começou a andar, já eu tinha deixado o serviço na bomba de gasolina. Consegui livrar-me do cheiro da transpiração do bar. Sim, são com certeza os bares mais procurados, com a bebida que mais se destila no mundo. Aqui, estou estacionada há vinte e cinco anos, na secção de peças. Na época não tinha grandes dotes para vender automóveis, mas ainda encontrei calendários de estampa única, mas de doze meses, nas gavetas para oferecer aos clientes. Faltava-me um peito vistoso. Mandaram-me para as peças e tenho vindo a integrar peça por peça com os mecânicos da marca. Até os próprios carros ganharam atributos e acompanham, cada vez mais, as linhas arredondadas. Hoje, substituir qualquer parte do automóvel, é mais simples, basta falarem comigo que eu trato das peças. Este local podia ser mais atraente, e ao longo dos anos, os engenheiros que têm por cá passado, têm-se esforçado. Foram feitas várias remodelações, cheguei a ficar virada para a parede, mas desde que fiz o meu implante de silicone mamário ganhei destaque no catálogo da empresa. Já a minha filha não sai a mim, tem mamas que enfartam qualquer homem e não queria que eu fizesse a operação estética. Ela é apenas enfermeira, mas avisou-me do risco de haver incompatibilidades futuras. Logo eu, uma mulher das peças, percebi onde ela queria chegar. Eu sei que sou mais velha, mas garanto-lhe que nunca enferrujei por ter sido uma tábua à deriva. Não me lembro de me ter safado com as peças dos seus namorados, a menos que não soubesse que o eram. Já lhe disponibilizei encontros com máquinas que a perseguem. Tenho sido uma boa mãe, mas não lhe posso garantir protecção eterna e ela tem que perceber isso. Afinal, a vida é composta por peças tão naturais como eu. Tenho momentos que me atraiçoam quando o erro persiste na engrenagem mais simples. Aquilo era um encaixe perfeito, era só bater com convicção, mas apareciam sempre com a mesma peça estilhaçada. Não quero pensar nas vezes que tive que sair para o exterior do Edifício Auto e explicar que o engano fazia parte de mais ou menos força consoante a descoberta dos passos seguintes. O ano dos carros que ainda circulam não tem qualquer relação com o descuido. Talvez tenha sido a banalização de tantas opções. As opções estão lá todas. Resolvem tanto que deixam de optar. As histórias dos sobreviventes dão carradas de entulho onde ninguém quer viver, mas a morbidez em que vivem dá para cobiçar qualquer pormenor mecânico. Eu sou a mulher das peças apenas. Vivo menos que elas. Nem mais ou menos sinistros me mobilizam para os ouvir. Sinto-me um verdadeiro calendário, sem sentir o final do mês. As remunerações com o serviço que presto aumentaram. A minha filha não pode saber, cravava-me logo para trocar de carro ou fazer a viagem de mais uns sonhos. Há dias o engenheiro veio felicitar-me pelo aumento das vendas na secção das peças. Nada de extraordinário. Saíram daqui mais ponteiras de escape, apêndices em embalagem, do que no ano passado, mas infelizmente nem todos conseguem, desviam-se do que é superficial e perdem a atenção à estrada nos espelhos. Eu que estou nas peças é que sei o que está a ser mais consumido, mas o engenheiro sempre que aqui passa tenta fugir ao assunto.
-Sr. Engenheiro, os modelos híbridos são ou não uma variante nas vantagens energéticas? Ele responde economizando palavras, acaricia o meu rosto e diz: -A tua filha é bela.
Senti-me um pneu desalinhado. Sem furar, aguentei a novidade até chegar a casa, e sem furar a nossa relação, tentei retirar-lhe o ar quando lhe perguntei:
-Conheces o engenheiro do Edifício Auto onde trabalho? A filha riu-se.
-Ó mãe, é um trabalhinho e peras, mas anda com a tensão muito em baixo.
-Como é que o conheceste?
-Ele foi fazer uns exames de rotina.
-Não te esqueças que para sustentar esta casa eu tenho de manter o meu emprego.
-A mãe está com ciúmes?
-Contrariamente ao que possas pensar, não tenho ciúmes, perdi-os quando tu eras ainda bebé.
-Como é que a mãe fazia para estar com um homem quando eu era pequenina, olhe que eu nunca me apercebi de nada.
-Olha, não foi preciso deixar-te dentro do marco do correio aqui da rua para ficar mais à vontade com os raros homens que se cruzaram comigo, mas também não usava essas minúsculas peças de roupa que trazes vestidas para despertar a atenção.
-Mas ficam-me bem?
-Se te sentes bem assim, não tenho nada a dizer, mas repara que, para usufruir de uns breves minutos do calor de um homem, não é necessário dilatar tanta vaidade. Sinto-me arrependida de ter gasto tanto dinheiro nestas mamas, acredita.
-Não diga disparates, a mãe anda a transbordar em amor.
-Filha, podemos divergir em muitas coisas, mas quero que aceites um afastamento rápido do engenheiro.
-Porquê, ele é seu?
-As pessoas não nos pertencem. Não, aquele não. Não quero partilhá-lo contigo, és minha filha.
Embarreiradas por um homem comum, os olhos de ambas cuspiam fogo.
-Mãe, não me olhe assim, a minha pele já está a arder.
-Eu não estou a brincar. Tu estiveste com o engenheiro?
-Ó mãe, mal o conheço. Apenas lhe medi a tensão.
A filha abraça-a e sossega o coração da mãe que estava prestes a sair-lhe pela boca.
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Templo

Joseba Elorza
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Sempre que podia, Belarmino procurava um local ermo, longe da cidade, para espairecer da desordem em que vivem os conterrâneos da soberania. Num aparente sossego, o dia radioso calou-se das conversas afiadas da passarada, dando asas aos roncos dos jactos que largavam os primeiros assobios da manhã. Naquele ambiente surge uma mulher que se alia ao espectáculo. Não se conhecem e ambos começam a conversar, sem se estranharem ou reconhecerem qual a razão ou filiação de cada um na específica guerra.
-Já começou há muito tempo? pergunta a mulher.
-A qual delas é que se refere?
-Estas bombas todas… Deve ser a terceira guerra.
-Começaram a cair agora mesmo, mas eu não sei onde você estava quando terminou a segunda, mas pelos vistos tem sobrevivido a muitas e não tem reparado.
-Eu estou de férias e fui impedida de passar nas estradas lá em baixo e vim aqui parar, senhor, mas vai demorar muito?
-Como é que se chama?
-Filomena.
-Filomena, esta, como todas as guerras, quando começam resultam dos atritos das palavras que não cedem à reflexão do verdadeiro diálogo. Aprender a saber perder é um acto que não dá dinheiro, percebe?
-Sim, mas onde estavam os intermediários das negociações de paz?
-Esses estão divididos em fórmulas e não podem interferir directamente nos conflitos, porque senão estariam a mostrar também a sua virilidade, o seu conhecimento tecnológico de medir quem, atrás de si, transporta a maior traição, mas os negócios das armas sabem inflamar as vias da diplomacia. Para alcançarem maiores períodos de paz, ignoram-se os inimigos, mas há homens mais vulneráveis ao crime do que outros.
-Repare, senhor, vivem pessoas lá em baixo.
-Vivem… angustiados herdeiros do luto, sedentos de vingança, que nunca lhes trará a justiça.
-Ai, senhor, aquela foi grande.
-São todas grandes de mais e aprofundam as fundações da violência.
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Templo