SOL

Flor de Chuva

Havia um qualquer sentimento de inconformidade naquele autismo a que se obrigava. Não sabia se por medo, se por incapacidade de comunicar. Sentia-o, apenas e sofria deixada, displicentemente, ao abandono de si própria. Nesses instantes de angústia e de desentendimento, o egoísmo falava mais alto e cercava-se de muros de solidão e de pactos de silêncio. Consumia-a aquela inépcia para desatar pontas aos nós que as partidas da vida lhe pregavam. Era um sentimento letal, abrasivo que raiava o intolerável. Mas também, que conforto poderia existir quando o frio, chegado de mansinho, se aninhava, sem decoro, no sofá da própria vida?

Num jogo de toca e foge perscrutava o espelho mas não havia forma de encontrar o sorriso. Tudo quanto distinguia era um rosto baço, um olhar sem brilho e um rol de pedaços desfeitos dos sonhos que se permitira sonhar. Confinada à exiguidade daquele reflexo, esquadrinhava porquês. Todavia, não se detinha. Era um esforço inútil, pensava. Conhecia, de antemão, todas as respostas…

O inferno, nunca seria a urbe. O inferno era ela própria. Ela e aquela coisa enorme e funda, sem nome nem sentido, que abjurava mas que a incendiava, que ardia e se propagava dentro dela, como um tenebroso foco de infecção…

À beira do abismo, vacilava, entregue aos seus pensamentos. Os olhos cerrados cediam sob o peso das pálpebras. Sentia-se uma flor de chuva plantada no topo mais íngreme de uma falésia violentamente açoitada pelo mar. A partir da praia, era um minúsculo ponto sem importância, muitos poderiam observá-la mas só com um enorme esforço alguém a poderia alcançar…

Tendergirl

(In “Ilhas de Solidão – Estórias da Vida de Uns e Outros”)

Publicação: 11 Maio 09 12:55 por tendergirl

Comentários

# tendergirl said on Maio 11, 2009 13:05:

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Tender

# Nasasasdosonho said on Maio 11, 2009 14:15:

Mizé

A única coisa verdadeira que existe é o agora. Todos os nossos pensamentos perdidos no passado ou no futuro, não pedaços de vida que deixamos passar ao lado ( porque já não existem) sem viver, não achas? :)

Até as flores fustigadas pelo vento e pela chuva, colhem o prazer de serem acariciadas pelo sol...quando este sorrir. É nas tempestades que se dá valor à bonança quando ela aparece.

Um beijo com carinho .

PS. Mando do meu coração um raio de sol para iluminar a tua flor. :)

# pepelegal said on Maio 12, 2009 21:23:

Tender

Amiga?

Mastiguei cada palavra, mas o nó não se abriu?a dor, é mais forte que a razão? a chuva? apaga ?por isso, é tão pouco!

Beijo

Pepe

# Neno said on Maio 14, 2009 17:55:

Tender,

Um narrativa que nos absorve da primeira à última palavra.

Parabéns.

Beijo.

# AlfredoRamosAnciaes said on Maio 19, 2009 15:27:

Tender

Um lugar verdadeiramente repousante e com sabor que sabe a poesia e amor,

fred

# trottoir said on Maio 24, 2009 22:34:

Maria José,

Tantas vezes construímos o inferno dentro de nós, alimentado-o com aquilo que deveríamos expelir todos os dias ao vento, que quando o tentamos exalar nos atormenta o medo de ficarmos vazios...

Sendo que o inferno e o céu, não simbolicamente (religiosamente) apreciados, dependem somente de uma questão de perspectiva... o gosto a que nos habituámos, muitas vezes também com gosto, passamos a interpretar a normalidade do bem e do mal de uma outra maneira, quem sabe, inversa...

Pior do que a solidão, só não ter ninguém com quem partilhá-la... sendo que a solidão, em si mesma, não é algo de pejorativo à alma... tudo depende da forma como a usamos, tudo depende na forma como a vivemos...

Um beijo para si, Trottoir

# Meduarda said on Maio 27, 2009 11:19:

Tender,

Cada palavra absorvida, cada gesto partilhado.

O abismo existe em todos nós e por vezes não o sentimos, assim como a chuve que passa por nós.

bjs

Eduarda

# AlfredoRamosAnciaes said on Junho 19, 2009 21:59:

Vim sentir um pouco a chuva nestes dias de calor. A música tb é adequada ao recolhimento.

Desejo um bom Verão pq tb é passageiro e há q aproveitar.

fred

# SOLANTOLOGIAS said on Julho 1, 2009 16:29:

Gostei de aqui passar e dei por bem empregue estes minutos que me detive a ler alguns postes.

É como diz a Eduarda....)

E nós, tantas vezes passamos pela qualidade das palavras e do resultado do seu entrosamento e vamos andando sem reparar...

Voltarei e espero que continue a publicar e a partilhar aqui o seu talento.

Abraço

# AlfredoRamosAnciaes said on Julho 30, 2009 15:47:

Mais uma visitinha a este lugar que transmite arrepio e calma ao mesmo tempo.

Abr

Boas Férias se for caso disso.

fred

# laranjeira said on Dezembro 15, 2010 22:38:

Tender,

Feliz Natal.

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About tendergirl

Escrevinho emoções, exorcizo mágoas e ressentimentos, traço rotas de esperança e de paixão no fulgor e no deslumbre dos olhos, faço amor com as palavras na ardência secreta e estilística das metáforas, exalando a doce e febril fragrância da poesia que me lavra nas veias? Sem veleidades, sem pretensões, apenas no terno embalo da alma e pelo puro e indelével prazer da escrita!

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