SOL

O lago nascente

Publicação: 08 Janeiro 10 10:00

 

O Homem toma conta do mundo? Nós, os humanos somos responsáveis pela criação? É verdade? Como? Tenho as dúvidas. E adensam-se a cada passo.

Mas o sol nasce. Ainda. E aqui nasce no lago. Malawi - o lago nascer do sol.

No início vivia apenas deus Mulling e os animais. Tudo vivia em paz. Um dia decide pescar no lago. No primeiro dia ele apanha uma boa pesca e come bem, no segundo dia ele não apanha mais nada na sua ratoeira senão um homem e uma mulher minúsculos. Ele liberta-os e deixa-os caminhar pela terra, eles crescem até terem o tamanho que tem hoje. Esfregam dois paus, um no outro, e fazem o fogo. O fogo cresce descontroladamente e devora a floresta ameaçando todos os animais. Depois matam um búfalo e cozinham-no.

Mulling está furioso com os humanos, todos os animais fugiram, mesmo a aranha sobe até a árvore mais alta e desaparece no céu, tece um fio longo e forte que lança para Mulling, o deus, ele foge da sua própria criação, os humanos quase destroem tudo.

Avançamos. E como sempre invento os caminhos, sei que não existem. Os caminhos secretos de África são os caminhos doces dos afectos. Não sei o que seguimos, nem sei se é um caminho os riachos que passamos, as pontes, os troncos, os caminhos entre as cabanas, pelo meio das cabras e sob os olhares das crianças. Avançamos pela vegetação luxuosamente verde, escandalosamente verde. De bananeiras, de coqueiros. Os macacos observam-nos das bermas das estradas, as crianças afastam-se, as mulheres param e controlam pelo canto do olho o jipe que avança.

Não sabemos o caminho mas seguimos o caminho. Procuramos o lago. E vemos no mapa o tamanho e, ainda hoje nos deixamos enganar pelos papéis desenhados a cores, pensamos nós que o lago se vê! De certeza se vê ao longe! Hum…. Nem sinal dele. Mas vê-se. No verde da vegetação, no vermelho da terra.

Aqui há água. Que cai do céu, que vem da terra. Estamos no território do lago, aqui é ele que reina.

Está sol. A luz reflecte de certo o lago, mas não o vemos, parece cada vez mais escondido.

No início o sol e a lua eram amigos e brilhavam ambos com a mesma intensidade. Um dia forma tomar banho no lago com as suas famílias e o sol sugeriu que ocupassem zonas diferentes do lago para que tivessem maior privacidade, combinam um sinal, quando a água estiver a ferver é sinal de que ele já tomou banho. Logo que a lua e a família se afastam ele arranca ramos de uma árvore, incendeia-os e atira-os para a água, a lua vê o vapor a sair da água entra na água. Quando a lua sai da água ela está bastante pálida e perdeu a maior parte do seu calor. O sol aparece de surpresa e ri da lua, porque ele está mais brilhante do que ela. A lua decide vingar-se.

Há uma grande seca na terra e a lua sugere que matem os seus filhos porque não é possível alimentar tantos seres. A lua combina que usem zonas diferentes do lago para terem privacidade, quando o sol vir sangue na água saberá que a lua já matou a família. A lua não o faz, o filho mais novo deita giz vermelho na água, quando o sol vê a água tingida ele mata todos os seus filhos. Agora ele vive de dia e brilha intensamente, mas a lua, pálida, brilha de noite, acompanhada por toda a sua família.

Aqui preparo-me para resistir às tentadoras águas, tem fama de ser letais.

Aqui, no vale Rift, o lugar que será poupado mesmo no dia em q o mundo acabar.

Aqui nesta parte do mundo viviam os pigmeus.

Caminhamos a superfície da terra e num encontro com um pigmeu pergunta ele:

- Quando é que pela primeira vez me viste? – e só existe uma resposta

– Lá muito ao longe! - Respondendo assim o pequeno ser correrá a saltar gritando

- Afinal sou grande! Afinal sou grande! - Se a esta recorrente pergunta responder a verdade

- Só agora te avistei - o pagamento será um apenas, uma seta impregnada de veneno, espetada no rabo.

As pequenas crianças apontam para nós:

-  Tu, mzungo (branco) peni (caneta)?

Procuramos o lago lago, Niassa.

O lago que é Malawi e Niassa, que é Tanzânia e Moçambique. Para quê dar-lhe nomes e dividi-lo em fronteiras que se afundam. É O Lago.

Avançamos, avançamos, avançamos e finalmente conseguimos vê-lo… é imenso. Parece que chegámos ao mar! Cerca de 560k de cumprimento, 80km de largura, 700m de profundidade… uau!

Do meio do lago é impossível ver as margens, e pela cor, a ondulação, as correntes, é difícil não sentir que estamos à beira de um mar.

As águas estão infestadas de bilharzia mas… confesso que sei o quão refrescantes são… há perigos de este parasita entrar no nosso organismo mas poucas hipóteses de que seja invasão letal… eu nem hesito, comecei por molhar os pés e depois assumir o risco, mergulhando de cabeça! Hum….

Aqui há só uma hipótese para ficar, uma missão luterana. Estacionamos. Avançamos pelas escadas de cimento do edifício de telhado de zinco. E apesar das diferenças a memória viaja para os colégios da infância, o cheiro a cera, que aqui não existe, sobe-me ao nariz, e instintivamente baixo o tom de voz. O crucifixo na parede leva-me para os colégios onde estudei… religiosos da fé que não me assiste.

Anoiteceu já. O lago parece sinalizado por luzes de velas flutuantes, os pescadores aguardam a mordedura dos peixes, a luz é o isco, os peixes aproximam-se e são apanhados.

Aqui as lendas falam de monstros como cobras, que saem das águas e vão pelas aldeias devorando o sangue e os cérebros das suas vítimas.

Aqui vivem os crocodilos e os hipopótamos.

Contam a estória de um homem que vivia nas margens do lago e pedia a deus por sorte e fortuna, um dia saiu das águas uma mulher feia com um só olho e o homem desposou-a. De imediato enriqueceu. O homem recebeu muito gado e a fortuna foi aumentando cada dia, um dia numa fúria o homem cansou-se da sua esposa e bateu-lhe dizendo que por ser um homem rico e poderoso já não precisava de uma mulher tão feia. A mulher voltou as costas para ele e começou a avançar para as águas e para espanto do homem cada uma das suas vacas e cabras a seguiu, afogando-se nas águas do lago.

Nas margens do lago senta-se uma pedra q todos acreditam ser sagrada e misteriosa, um ser que de noite se levanta e vai às águas beber.

No lago acreditam viver ainda as almas dos pigmeus dizimados pelos Bantu, fumos que ao longe sobem para os céus.

O lago nasceu da mãe terra. Nasceu para a Tanzânia, para o Malawi, para Moçambique, para nós. Cuidamos dele?

Arquivado em: , , ,

Comentários

Sem Comentários
Para comentar necessita de estar registado

About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.