SOL

Esperança a caminho

Publicação: 22 Janeiro 10 10:00

Para mim o Zimbabué tem pêlo dourado e grosso, tem bafo quente, patas fortes e um olhar…

As estórias aqui são duras. A estória política, económica, social… essas quase todos conhecemos. Das notícias, dos jornais, dos documentários. E pensamos que conhecemos tudo.

Estamos na cidade de fronteira com Zâmbia, aqui o turismo é forte e importante mas nas prateleiras das lojas não há nada, nos restaurantes não aceitam dinheiro local e todo o tipo de negócio é feito em dólares. Passeamos no jipe dispendioso e muitas vezes os olhares são… magoados.

Mas para mim ziimba remabwe, a grande casa feita de pedras, conta outra estória.

Caminhamos pelo mato, em grupos pequenos, e caminhamos em suspense, podemos não ver nada de início mas o mato é sempre surpresa, agora isso já sei. Recebemos informações e por isso pensamos que caminhamos informados, seguros, sabendo o que fazer.

Caminho pelo mato e sei que Zimbabué espreita… estou no território dos animais. Eles estão aqui. E vêem-me. Eu não os vejo.

Caminhamos em fila. Viemos todos com o mesmo propósito, vê-lo, tocá-lo, sentir o seu poder. Há regras, sabemos, não podemos deixar que nos olhe de frente, não podemos deixar por um momento que seja ele a tomar iniciativa. Mantemos na mão um pau magrinho, simbólico objecto de poder, e concentramo-nos na força a pôr na voz, na determinação e segurança que precisa um “não!”. Nós somos os visitantes e controlamos o encontro. Caminhamos, os homens sábios das leis e coisas da natureza caminham à nossa frente, eles não olham, eles vêem. Nós olhamos, direccionamos vagamente o olhar, apenas.

Um arbusto mais forte, uma árvore mais alta, erva, erva, pedras. Isto é o que eu olho. Eles vêem as pegadas, os ramos marcados, os ninhos, as tocas. Eles educam-nos pelo caminho. Nós avançamos como crianças que não sabem nada. E pelo caminho assim respondemos às lições sobre esta casa, falam-nos dos pequenos pássaros que fazem os ninhos escondidos nos ramos dos arbustos, falam-nos das folhas e paus que se apanham e se usam para desinfectar, para lavar os dentes, para fazer tudo aquilo que nós, as crianças, só sabemos fazer se vier em embalagens e com explicações no exterior sobre o que é, para que serve, como se usa. Aqui as regras são outras. E eu não as controlo, eu oiço e olho, na esperança que à força da repetição possa verdadeiramente escutar, observar e aprender.

Avançamos, a maioria de nós nem se detém nestes pormenores do caminho, estamos demasiado apressados e gostamos de receber o que mais nos motiva de forma rápida, clara, directa. Avançamos mais um pouco pela grande casa deita de pedra e perante a inquietação de alguns aceleramos o encontro, os homens sábios do mato oferecem-nos o presente e vemo-lo chegar devagar… o rei. São dois, avançam. E para nós chegaram os brinquedos. Aqui sabemos que nos podemos aproximar, embora com regras de segurança, que embora tenhamos assinado um documento que prova que sabemos dos perigos, estamos livres para experimentar. Que embora seja selvagem posso tocá-lo, e embora seja um ser posso usá-lo como um brinquedo, que embora tenha pago para isso o encontro com ele é genuíno, e embora leve boas fotos para casa estou de facto a ajudar. Esta é a maior esponja de intenções e peso de consciência da Europa – as causas humanitárias.

Eles avançam, são dois os reis. Um rei uma rainha, ou dois príncipes, jovens. Nós, as crianças humanas acabadas de chegar da civilização, vestidas em kaki de look safari, olhamos deslumbradas: “posso tocar? Mesmo?”. Não queremos acreditar que a natureza está tão perto, ou melhor, que a fantasia sobre África está assim, tão perto de ser realizada. Porque o desejo não é de natureza, essa está ali, na árvore, na flor, no piar do pássaro. Vai á janela, não há natureza aí onde tu estás? Mesmo que seja um toque, um verde, a presença tímida de uma erva daninha, tudo isso é natureza. Não precisamos de nos deslocar os lugares sagrados para fazer o culto, o sagrado existe, está por todo o lado. Mas da mesma forma que me toca e comove um templo, uma mesquita, uma catedral, um encontro assim, de perto, com um leão, é assim mesmo… sagrado.

Eles avançam, os príncipes, e sinto-lhes a força, a serenidade, o poder.

São dois, um leãozinho de 18meses, ainda sem juba e uma leoa de 12meses.

Eles avançam, deitam-se, abrem as patas e esfregam as costas no chão, para se refrescar. Olham-nos de vez em quando mas parecem identificar em nós uma única função, mimos. O macho está deitado de barriga para cima e os sabedores das coisas da natureza dizem-me que posso avançar e fazer-lhe festas, eu avanço. Olho o pêlo, toco-o e afago-o como um gato. É bom, é estranho, sinto dentro do leão a força, como se o sangue corresse mais veloz nas veias, como se os músculos estivessem mais acordados, os ossos mais activos e flexíveis. Um segundo em que desvio os olhos e a boca do leão avança para a minha mão, eu reajo por instinto, ele olha-me, de frente, uma das regras a não quebrar, eu levanto-me com o meu pauzinho na mão e solto o não da praxe, ele volta a deitar-se com um ar absolutamente entediado. Apetece-me brincar, mas avisam-nos, o toque da língua é o suficiente para a pele ficar vermelha e um momento de brincadeira pode ser fatal. São animais selvagens estes leões com quem caminhamos pelo mato.

Pensa “agora”, amanhã pode ser tarde demais.

Vê, toca. Visita-nos agora. África é destino único e está a ser transformada, o rei está em vias de extinção. O número de leões em África está a diminuir drasticamente, números recentes indicam de dentro de pouco tempo não haverá mais leões. A caça, as doenças, a redução do seu habitat natural põem em perigo a vida destes animais. E eu estou aqui! Toco-os. Tocar um animal selvagem é regressar à origem de todas as coisas.

Este momento, da caminhada com os leões, é parte das várias fases de uma ONG que protege o rei. Criando as melhores condições para o acasalamento e a sobrevivência dos leões nos primeiros meses de vida. Entre o seu nascimento e sua total libertação na vida selvagem está um elemento, o homem. O homem que caça, que ocupa território, que invade, é o mesmo que se preocupa, que protege, que permite a vida.

Regressamos do mato e de novo ouvimos Nyaminyami, o espírito do rio Zambeze, muitas vezes falo aqui sobre a poesia e a morte da poesia, sobre as boas intenções as más utilizações mas eu… eu tenho esperança, e apetece-me ficar.

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.