SOL

O ciclo sagrado

Publicação: 29 Janeiro 10 10:00

Não procures os deuses, eles estão por todo o lado. Nas águas, nos nenúfares, no bambo, no papiro, nas águias e nas pequenas rãs, nos louva-deus, nos crocodilos, nas areias. O ciclo da natureza, esse é o divino.

 

O braço de rio vem das montanhas de Angola, e corre. Espalha-se pelas areias claras apenas para se evaporar e ser sugado para o céu onde de novo vai chover nas montanhas.

 

Visto numa imagem de satélite o delta é como uma mão feita do braço do rio Okavango, que desaparece na areia seca do deserto kalahari. Estamos aqui.

 

Aproximamo-nos da água, mas não a vemos. Sentimo-la presente, no verde da vegetação de ervas altas, no zigue zaguear do caminho que fazemos. Continuamos sempre, mesmo não seguindo em frente. E vemos a água, vemos nela as canoas, parecem-me pequenas demais para o nosso plano, três pessoas dentro da madeira instável? Aproximamo-nos da margem, mas não se pode chamar margem à areia ensopada de água, em movimento irregular e mutável.

Tudo se move aqui, as ervas, as águas, as areias, o ar, os seres que o meu olhar distraído ainda não consegue ver.

Saio do jipe, na irregular margem espera-nos John, o barqueiro. De calças arregaçadas e pernas enterradas na areia pantanosa aguenta perto de si o mokoro – a canoa tradicional – recebe a minha mão, os meus pés destreinados enterram-se e mal me equilibro para subir. Subo, sento-me na fina cama de capim seco que cobre o fundo da canoa quase chato.

 

Sinto que pela primeira vez flutuo.

Não sei se é a forma da embarcação, a cor da água, a temperatura do ar ou a visão da vegetação, mas sinto um flutuar... diferente, como se fosse de facto a primeira vez.

A canoa parece não ter peso, a água não existe, tudo o que delimita os elementos são apenas linhas ténues. Tudo se mistura sem peso ou forma. Sim, a sensação é assim mesmo, mágica, e logo que a canoa avança sinto como se entrasse noutro mundo. E é assim mesmo que acontece.

John conduz a barca de pé! E o seu remo é um pau longíssimo e muito fino, que toca o fundo do delta ou se apoia nos enlaçados nenufares que habitam o interior das águas.

Está calor, mas não se imaginem a navegar suavemente de pés e mãos dentro de água, aqui habitam os seres, os crocodilos, os hipopótamos, os peixes letais.

 

Entre Junho e Agosto, os meses mais secos do Botswana, o delta incha e chama para si enorme quantidade de vida selvagem, e sacia os seres.

 

Navegamos, deslizamos suavemente, tão suavemente, o equilíbrio é impossível, o movimento imperceptível, a sobrevivêcia milagrosa e o caminho? Esse gesto já conheço, é inventado.

O mokoro avança deslizando, às vezes na água transparente, pintada das cores das folhas e das flores, outras vezes pela vegetação, desafiando a altura e a densidade das ervas. A “proa” da canoa, pontiaguda, separa as ervas e o som da madeira pela vegetação é... musical. Como o som do toque do vento num canavial de canas muito finas, como o arrastar áspero das camisas de milho numa eira de pedra, como o som sensual da seda de um vestido tocando uma parede de cal.

 

No delta as concentrações de sal da evaporação das águas em conjunto com as enormes térmitas criam ilhas, dentro do delta visitamos a ilha do chefe, reservada como seu único espaço de caça. A canoa pára na areia mais seca, saltamos para a ilha. Acompanhamos John, que nos vai educando sobre as pegadas de animais, de hipopótamos, de elefantes, de hienas...

 

Viajamos, e nem sempre sabemos para onde nos deslocamos de facto, onde está o longe ou a distância, pode estar sentada ao meu lado no autocarro ou lá longe nos destinos exóticos do oriente, ou aqui, em áfrica. E de novo pensamos que há coisas que são universais.

Em Portugal estou sentada com amigos num jantar feito de saudades, de afectos, e falamos das distâncias. No calor das discussões uma amiga levanta-se de rompante, a pele roborizada pela certeza, os gestos tensos das verdades:

- Há coisas que são universais! Que são iguais aqui e em todo o mundo – eu replico que não é verdade mas penso um pouco e respondo apenas que não sei.

Não sei.

A minha experiência diz-me que não, mas, na verdade, que sei eu das verdades? Nada.

Mas sei, isso sim, que basta afastar-me o suficiente da minha rua que tudo fica diferente. Tudo é relativo.

E argumentam comigo que as coisas universais são o instinto maternal, o valor da vida...

 

Nenhuma das nossas certezas se mantém no confronto com a realidade que vemos da nossa janela.

 

Seguro na mão uma moeda do Botswana – um pula. Pula significa chuva.

Ao preço da chuva. Já pensaram no significado desta expressão? Não exactamente do que exprime mas porque o exprime assim?

Em portugal chove, muito. Há água (pelo menos por enquanto).

Mas imaginem a mesma expressão usada em países como o Egipto ou a Namíbia, formados por enormes desertos? No Botswana 70% do país é deserto, o deserto kalahari.

Aqui a água é preciosa.

Na tribo dos Hambukushu há uma crença, um ritual, uma prática. Na tribo dos Hambukushu existe desde tempos imemoriais o fazedor de chuva. Este homem quando chega à idade de casar escolhe uma mulher, esta mulher é escolhida para dar à luz sacrifícios. O fazedor de chuva e a mugrodi, a mãe da chuva, fazem filhos que oferecem para que nunca falte a água para as criaturas da terra. O bebé nasce, o bebé é enterrado nas margens pantanosas do delta, apenas a cabeça está de fora, o crâneo aberto recebe as primeiras gotas. Mantido o sacrifício a chuva continuará.

Não, nada é universal.

Arquivado em: , ,

Comentários

Sem Comentários
Para comentar necessita de estar registado

About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.