Em tempos foram homens
Entramos finalmente na África do Sul, concluímos a travessia Norte-Sul do continente. Foram mais de 12.000Km e doze países que atravessámos - só em África - e, o que não é despiciendo, sobrevivemos!
África do Sul é um nome desconchavado para um país. Quem é que gostaria que Portugal se chamasse ‘Europa do Ocidente’?
Passada a fronteira a primeira vila que encontramos chama-se…Belfast!
É desde logo um aviso para o que vamos encontrar neste país.
Estamos, de facto, a Sul da África negra. Ou assim parece. Belfast tem um núcleo urbano em nada distinto de uma vila do Norte da Europa e até faz frio. Como na Europa tem também uma periferia miserável de bairros habitados por negros.
Nada neste país é como no resto da África que atravessámos: há estradas, há electricidade, as cidades são organizadas, há recolha de lixo, têm jardins e iluminação pública, teatros e cinemas, escolas, hospitais e universidades. Há megapolis como Joanesburgo com cerca de 8 milhões de habitantes. O PIB per capita é cerca de doze vezes superior ao do vizinho Moçambique.
A vida selvagem não foi dizimada nas lutas intestinas e é tão abundante e variada que é possível ir a um café com um jardim onde há gazelas, avestruzes, ónix e cavalos. Também há muito espaço -o país tem doze vezes o tamanho de Portugal e só quatro vezes mais população. Por isso as vilas estão cheias de vivendas descomunais – quase sempre propriedade de brancos – com jardins luxuriantes, com carros, barcos e por vezes helicópteros estacionados no seu interior.
Os boers gostam de viajar de jipe, por isso o país está cheio de belos lodges onde por 30 ou 40 Euros se dorme.
É justamente a um deles que nos dirigimos para pernoitar. Somos recebidos por uma simpática senhora:
-‘Boa noite, gostávamos de dormir aqui, mas temos um cão. Aceitam cães?’
- ‘Cães? Sim não há problema, adoro cães. Mas há uma dificuldade: temos gente negra cá a dormir, percebem? Não há como evitar! Querem ficar mesmo assim? ’
Palavras para quê?
Penso apenas em que outro sítio do mundo esta cena seria possível?
A senhora parte do princípio que, por sermos brancos, nos pode colocar a questão, assim, sem pudores nem reticências. Ou seja para ela é normal perguntar e nem se lhe coloca a dúvida se para nós também o é, antes conclui, baseada na cor da nossa pele, que só pode ser.
Ficámos apesar de tudo.
No dia seguinte, já de saída de Belfast, paramos numa pequena barraca, já nos arredores, para comprar água. O bairro é de negros e os olhares que nos lançam são desconfiados e por vezes hostis. Só na Rússia me lembro de ter sentido uma sensação semelhante
Seguimos viagem.
- Estão sempre a cumprimentar-nos!
- Pelos vistos aqui é hábito, parece que toda a gente nos conhece.
Saímos de Belfast esta manhã e desde então, sempre que algum veículo se cruza connosco na estrada, o condutor ergue a mão direita em sinal de saudação. O gesto é muito específico, não é um ocasional e displicente aceno; não é um acto distraído nem circunstancial.
Palma da mão bem aberta, dedos unidos mas com o polegar bem separado e ligeiramente arqueado para cima, levantar e baixar lento do braço.
- Se calhar é por causa da matrícula…
Mas não, não é da matrícula. É da cor, da cor da pele entenda-se.
Todos os condutores que nos cumprimentam são brancos e os brancos deste país cumprimentam-se. Trocam gestos de identificação formais e codificados, tipo sociedade secreta, e mesmo sendo óbvio que nem eu nem Filipa possuímos as características físicas dos boers – enormes, obesos, peles nórdicas e olhos claros - mesmo assim a Filipa é loura e eu, ainda que muito escurecido, ainda entro na categoria de branco.
Somos do clube portanto.
Já tinha sentido coisa parecida na Tanzânia, mas aí a situação era diferente: todos os brancos com quem convivíamos eram expatriados europeus na sua maioria, tínhamos algo em comum.
Mas aqui a única coisa que tenho em comum com estes condutores, que não conheço, com os quais não tenho qualquer relação e que ademais são naturais deste país, é a cor da pele.
De início ainda acreditamos que é simpatia e espírito pioneiro: temos um furo, de imediato um jipe carregadinho de boers para e de lá saltam uns dois ou três para nos ajudarem a mudar o pneu.
Uns quilómetros depois um jipe está atolado mesmo no meio de um cruzamento. Nos trilhos que vão dar ao cruzamento estão parados cinco ou seis veículos, aguardam que o condutor consiga desatolar-se. O condutor do veículo atolado é negro, os condutores dos jipes são brancos. Nem um só foi ajudar. Saímos do nosso jipe e oferecemos auxílio ao condutor, que está muito aflito. Os boers olham-nos atónitos. O condutor negro não está menos surpreendido.
Horas depois é a nossa vez de ficar atolados. Passam dois veículos conduzidos por negros, não param. Passa um jipe conduzido por um branco, pára e reboca-nos.
Não conheço continente tão racista como o africano. Os meus amigos africanos explicam-me que há muitas ‘raças’: negros, amarelos, vermelhos, brancos, mulatos, mulatos apurados, monhés, mistos, canecos… E desconfiam muito quando eu digo que só existe a raça humana.
E neste continente de raças não há país tão segregacionista como este.
O clube dos brancos sul-africanos age como se fosse uma espécie em vias de extinção. Isolam-se, não convivem com os negros, vivem em fortalezas, frequentam cafés onde não entram outras cores. Os negros vivem em bairros onde não entram brancos, têm os seus redutos e desconfiam de qualquer branco que se aproxime. Não convivem, antes vivem em zonas bem delimitadas que a prudência aconselha a respeitar. As relações entre eles, que se pressentem quando se respira o ambiente das cidades, não são mais do que contratuais. O contrato parece ser:
– ‘Não te vou matar mas não sou obrigado a viver ao pé de ti!’
Não encontrei a nação arco-íris que Mandela generosamente proclamou. Não encontrei, de facto, sul-africanos. Encontrei boers e zulus, indianos e xhosas, sothos e chineses.
Todos eles, em tempos, foram homens mas aqui respondem por outros nomes.
Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas.
Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer.
Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.