SOL

O beijo da Mulata

Publicação: 19 Fevereiro 10 10:00

A expectativa é grande. Afinal fizemos 59.672 km e andámos na estrada durante muito, muito tempo até aqui chegar.

Os moçambicanos nunca estão atrasados – estão sempre «a vir». Quando temos um encontro com alguém e, trinta minutos depois da hora marcada, lhe telefonamos a perguntar se se esqueceu, ele responde que não: que «está a vir».

De uma mercearia em Korgas, na China, liguei para o meu amigo Gilberto Mendes, em Moçambique, e disse-lhe que íamos a Maputo. Chegámos 16 meses depois. Ele não estranhou, pois sabia que nós estávamos «a vir» – e que, quanto mais tempo levássemos, mais histórias teríamos para contar. Não há pressa.

Chegámos a Moçambique!

Quantas vezes ao longo da viagem – quando atravessávamos o inclemente Cazaquistão, a interminável Rússia, o Sudão ou a Etiópia – me pareceu um projecto impossível de realizar, um sonho ébrio de inconsciência, uma temeridade absurda.

E afinal aqui estamos, à frente desta rubicunda guarda de fronteira sul-africana, última barreira ao nosso regresso à língua portuguesa.

Entrar em Moçambique não é entrar num país estrangeiro.

Não me interpretem mal. Não há ponta de saudosismo nem sonhos de impérios perdidos nesta afirmação.

Falo apenas do que sente a alma.

Depois de conviver com tão diversas e, por vezes, hostis línguas (sim, às vezes há hostilidade numa língua), poder falar com alguém que se ri como nós e com quem partilhamos tanto mar não é entrar no desconhecido.

São as pessoas que fazem as paisagens.

E depois, para um moçambicano, um português não é bem um estrangeiro. Sim, somos brancos e fomos colonos. E temos de ter ‘vistos’ e tudo o mais, como os estrangeiros. Mas o facto é que não estabelecem connosco as mesmas relações que com os outros europeus, ou sequer com outras nacionalidades africanas. A familiaridade e a cumplicidade são quase automáticas.

Ao fim de dez minutos, um sisudo guarda de fronteira está a dar-nos palmadas nas costas, a tratar-nos por tu e a falar do resultado do último jogo do Benfica. Ou seja, há os moçambicanos, há os portugueses e há... os outros.

E eu sinto o mesmo.

Quando vejo um boer a interpelar, com a arrogância rácica que os caracteriza, um moçambicano negro, não vejo só um ser humano a humilhar outro – vejo um ogre a maltratar alguém que nasceu português.

Imagino-o a tratar assim o senhor Vasco. O senhor Vasco é um homem de 64 anos que guarda carros no parque de estacionamento do Teatro Matchedje, na rua do Varietá.

É para acrescentar a reforma – explica-me.

Foi português durante 30 anos e é moçambicano há 34.

Como todos os moçambicanos, o senhor Vasco tem um enorme orgulho na sua pátria.

Mas também tenho saudades da década de 60 – adianta.

– Do tempo colonial? Porquê? – pergunto.

É que houve aí um ano em que o Benfica e o Sporting disputaram aqui a final da Taça de Portugal. Na baliza era o… – e a seguir desfia o nome dos 22 jogadores desse jogo que tinha presenciado há 40 anos.

Já o senhor Mausse, colega do senhor Vasco, de 61 anos, acrescenta:

– Ele é todo benfiquista. Eu cá, como sou da Beira [a norte de Maputo e segunda cidade do país], sou do Porto!

E depois Maputo…

    Maputo é uma cidade maravilhosa.

Assim sente quem atravessou África e pode comparar esta capital com Cartum, com Adis-Abeba, Nairobi, Dar-es-Salam, Joanesburgo ou tantas outras. E não falo de conquistas económicas, de saneamento ou de índices de desenvolvimento industrial e tecnológico. Falo de pessoas, de povos e do convívio cordial que se estabelece entre eles. Falo de uma cidade que goza o mar e a relação privilegiada que tem com ele, enchendo de cor, vida e amor uma belíssima marginal. Falo de uma cidade cheia de cafés e de esplanadas onde se misturam todas as cores. Em que negros, brancos e indianos partilham as mesas e as conversas. Onde há ardinas e vendedores ambulantes de DVD, de música, de mangas de papaias e de lichias, de jeans e de computadores. Tudo o que o leitor possa imaginar se vende na rua em Maputo.

É vendido por gente que não deixa que a miséria económica lhe torne a vida miserável e faz questão de sorrir para o sublinhar. Os moçambicanos têm uma imaginação prodigiosa e uma energia inesgotável na busca da sobrevivência.

Falo ainda de uma cidade de mesquitas, de igrejas e templos hindus erigidos lado a lado.

Falo de civilização, não de economia.

É quase impossível encontrar em Dar ou em Nairobi uma mesa de um restaurante ou de um café (os raros que existem) partilhada por negros e brancos. Aqui essa é a regra.

Em Maputo (cujo nome parece derivar de Ka Mpfumu, antigo régulo desta região), na esplanada da Cervejaria Sagres, frente ao Índico, partilhando a mesa com dois negros – um indiano e uma mulata – reflicto como Moçambique parece misturar em si o conjunto de povos, religiões, culturas e tradições com os quais Portugal foi contactando ao longo de séculos de navegação.

O sangue das Beiras, dos Alentejos e do Algarve misturou-se com o sangue dos Changanas, dos Chopes, dos Nianja e dos Iao – e, por fim, ensinou-nos a conviver.

Aos filhos demos o nome de mulatos. Há quem defenda a ascendência árabe do termo, construído a partir da palavra muwallad que designa a união entre um árabe e um não árabe.

A outra origem possível é mais cruel e remete para algo que não se pode reproduzir – a mula – e parece querer insinuar a esterilidade dos frutos das uniões entre ‘raças’.

Moçambique é a refutação viva do absurdo etimológico,

Há por todo o país uma bela e pequena flor que cresce na orla marítima e parece ter particular apetência por se desenvolver nas muralhas dos velhos monumentos portugueses. Vejo-a nas paredes da fortaleza de Maputo, no adro da catedral, nas torres do forte da Ilha de Moçambique.

Leona – filha de pai de Viseu e mãe da tribo Iao no Niassa – diz-me o seu nome.

Chama-se a flor ‘O beijo da mulata’. E esclarece-me que não é uma flor – são almas.

As almas de milhares de crianças mulatas que nunca conheceram o seu pai português – e que, depois de mortas, o buscam ainda na forma de flor que se agarra às memórias do império.

Escalam as paredes para, tentando chegar ao céu, se juntarem enfim ao pai.

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.