O beijo da Mulata
A expectativa é grande. Afinal fizemos 59.672 km e andámos na estrada durante muito, muito tempo até aqui chegar.
Os moçambicanos nunca estão atrasados – estão sempre «a vir». Quando temos um encontro com alguém e, trinta minutos depois da hora marcada, lhe telefonamos a perguntar se se esqueceu, ele responde que não: que «está a vir».
De uma mercearia em Korgas, na China, liguei para o meu amigo Gilberto Mendes, em Moçambique, e disse-lhe que íamos a Maputo. Chegámos 16 meses depois. Ele não estranhou, pois sabia que nós estávamos «a vir» – e que, quanto mais tempo levássemos, mais histórias teríamos para contar. Não há pressa.
Chegámos a Moçambique!
Quantas vezes ao longo da viagem – quando atravessávamos o inclemente Cazaquistão, a interminável Rússia, o Sudão ou a Etiópia – me pareceu um projecto impossível de realizar, um sonho ébrio de inconsciência, uma temeridade absurda.
E afinal aqui estamos, à frente desta rubicunda guarda de fronteira sul-africana, última barreira ao nosso regresso à língua portuguesa.
Entrar em Moçambique não é entrar num país estrangeiro.
Não me interpretem mal. Não há ponta de saudosismo nem sonhos de impérios perdidos nesta afirmação.
Falo apenas do que sente a alma.
Depois de conviver com tão diversas e, por vezes, hostis línguas (sim, às vezes há hostilidade numa língua), poder falar com alguém que se ri como nós e com quem partilhamos tanto mar não é entrar no desconhecido.
São as pessoas que fazem as paisagens.
E depois, para um moçambicano, um português não é bem um estrangeiro. Sim, somos brancos e fomos colonos. E temos de ter ‘vistos’ e tudo o mais, como os estrangeiros. Mas o facto é que não estabelecem connosco as mesmas relações que com os outros europeus, ou sequer com outras nacionalidades africanas. A familiaridade e a cumplicidade são quase automáticas.
Ao fim de dez minutos, um sisudo guarda de fronteira está a dar-nos palmadas nas costas, a tratar-nos por tu e a falar do resultado do último jogo do Benfica. Ou seja, há os moçambicanos, há os portugueses e há... os outros.
E eu sinto o mesmo.
Quando vejo um boer a interpelar, com a arrogância rácica que os caracteriza, um moçambicano negro, não vejo só um ser humano a humilhar outro – vejo um ogre a maltratar alguém que nasceu português.
Imagino-o a tratar assim o senhor Vasco. O senhor Vasco é um homem de 64 anos que guarda carros no parque de estacionamento do Teatro Matchedje, na rua do Varietá.
– É para acrescentar a reforma – explica-me.
Foi português durante 30 anos e é moçambicano há 34.
Como todos os moçambicanos, o senhor Vasco tem um enorme orgulho na sua pátria.
– Mas também tenho saudades da década de 60 – adianta.
– Do tempo colonial? Porquê? – pergunto.
– É que houve aí um ano em que o Benfica e o Sporting disputaram aqui a final da Taça de Portugal. Na baliza era o… – e a seguir desfia o nome dos 22 jogadores desse jogo que tinha presenciado há 40 anos.
Já o senhor Mausse, colega do senhor Vasco, de 61 anos, acrescenta:
– Ele é todo benfiquista. Eu cá, como sou da Beira [a norte de Maputo e segunda cidade do país], sou do Porto!
E depois Maputo…
Maputo é uma cidade maravilhosa.
Assim sente quem atravessou África e pode comparar esta capital com Cartum, com Adis-Abeba, Nairobi, Dar-es-Salam, Joanesburgo ou tantas outras. E não falo de conquistas económicas, de saneamento ou de índices de desenvolvimento industrial e tecnológico. Falo de pessoas, de povos e do convívio cordial que se estabelece entre eles. Falo de uma cidade que goza o mar e a relação privilegiada que tem com ele, enchendo de cor, vida e amor uma belíssima marginal. Falo de uma cidade cheia de cafés e de esplanadas onde se misturam todas as cores. Em que negros, brancos e indianos partilham as mesas e as conversas. Onde há ardinas e vendedores ambulantes de DVD, de música, de mangas de papaias e de lichias, de jeans e de computadores. Tudo o que o leitor possa imaginar se vende na rua em Maputo.
É vendido por gente que não deixa que a miséria económica lhe torne a vida miserável e faz questão de sorrir para o sublinhar. Os moçambicanos têm uma imaginação prodigiosa e uma energia inesgotável na busca da sobrevivência.
Falo ainda de uma cidade de mesquitas, de igrejas e templos hindus erigidos lado a lado.
Falo de civilização, não de economia.
É quase impossível encontrar em Dar ou em Nairobi uma mesa de um restaurante ou de um café (os raros que existem) partilhada por negros e brancos. Aqui essa é a regra.
Em Maputo (cujo nome parece derivar de Ka Mpfumu, antigo régulo desta região), na esplanada da Cervejaria Sagres, frente ao Índico, partilhando a mesa com dois negros – um indiano e uma mulata – reflicto como Moçambique parece misturar em si o conjunto de povos, religiões, culturas e tradições com os quais Portugal foi contactando ao longo de séculos de navegação.
O sangue das Beiras, dos Alentejos e do Algarve misturou-se com o sangue dos Changanas, dos Chopes, dos Nianja e dos Iao – e, por fim, ensinou-nos a conviver.
Aos filhos demos o nome de mulatos. Há quem defenda a ascendência árabe do termo, construído a partir da palavra muwallad que designa a união entre um árabe e um não árabe.
A outra origem possível é mais cruel e remete para algo que não se pode reproduzir – a mula – e parece querer insinuar a esterilidade dos frutos das uniões entre ‘raças’.
Moçambique é a refutação viva do absurdo etimológico,
Há por todo o país uma bela e pequena flor que cresce na orla marítima e parece ter particular apetência por se desenvolver nas muralhas dos velhos monumentos portugueses. Vejo-a nas paredes da fortaleza de Maputo, no adro da catedral, nas torres do forte da Ilha de Moçambique.
Leona – filha de pai de Viseu e mãe da tribo Iao no Niassa – diz-me o seu nome.
Chama-se a flor ‘O beijo da mulata’. E esclarece-me que não é uma flor – são almas.
As almas de milhares de crianças mulatas que nunca conheceram o seu pai português – e que, depois de mortas, o buscam ainda na forma de flor que se agarra às memórias do império.
Escalam as paredes para, tentando chegar ao céu, se juntarem enfim ao pai.
Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas.
Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer.
Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.