SOL

Espiralada

Publicação: 05 Março 10 10:00

       

É estranho, não é? Mas é verdade. Há uma estrada que liga a minha Casa ao Mundo, basta ousar percorrê-la. Nós atravessámos o globo. De jipe, de mapa na mão. Na viagem por terra, o olhar acompanha a metamorfose suave da paisagem. Em muitos lugares não há estradas nem placas. Viaja-se de aldeia em aldeia ao sabor das direcções dos locais. Em Portugal sonhava em viajar na Rússia. Sonhava com os destinos de cheiros intensos e cores fortes. Durante todo o caminho, lá do topo, o mais veloz dos companheiros de Orionte, observou-me. Sempre vivi acompanhada por eles, pelos pequenos deuses. Tantas vezes que anoiteceu e nós ainda procurámos alojamento. Parece mania, já sabemos que aqui não se viaja de noite, mas insistimos! Aprendo que sem a dádiva da terra ninguém vive. Que é ela que permite a vida e que gera todos os seres, de todas as vezes que novos seres nascem. Aprendo que as estórias aqui são duras. Vivemos o mundo dos homens e dos camelos nos oásis das mulheres de olhos negros. O tempo passa lentamente aqui. Discutimos as questões dos quilómetros e do câmbio, dos horários e das estradas, da língua e dos mapas. Pensamos, repensamos e optamos. Sim, a vida é feita de escolhas, todos ouvimos dizer, e são as escolhas que fazem o nosso caminho. Há coisas na vida para as quais só nos é dada uma oportunidade, disso tenho a certeza. Quando era muito pequena alguém me disse que temos direito a um desejo por dia. Todos nós, todos os dias. Ao anoitecer basta procurar no céu a primeira estrela, Vénus, e, dizendo a fórmula mágica - “Primeira estrela que eu vejo, realiza o meu desejo” - ter direito à atenção dos deuses. Há uma espécie de nostalgia em mim, o dia acabou, ergo os olhos, canto a fórmula, peço só que tudo corra bem. De novo a sensação de fragilidade - a visão da luta pela imortalidade faz-me sentir assim. Parece tão inútil. Tenho pensamentos negros, esta viagem pode ser a última. Seguimos por uma das mais antigas estradas do mundo, a auto-estrada do Rei, sem olhar para trás…

 

Agora não sei nada, mas sigo segura, desta protecção.

Passo os olhos pelo passado, os mecanismos da memória são misteriosos.

Hoje escrevo em deadline, no último minuto, no limite do tempo para publicar estas palavras que todas as semanas deixo sair para o espaço virtual, que as leva delicadamente, por caminhos vagos até essa que foi um dia a minha casa.

Casa é onde o coração está e a minha é aqui. Agora é.

Escrevo tarde, arrasto as datas de entrega e a finalização de registos. Imagino, sonho, vaguei-o. Nem todos os que vagueiam estão perdidos (Tolkein) e eu não estou. Nunca soube o caminho, mas só quando deixei de o questionar encontrei um rumo. O meu rumo.

Segui pelos caminhos que a estrada desenhou, que a estrela iluminou, que o amor aqueceu e que agora… já não existem.

Bom, ninguém diz adeus sem uma lágrima ou uma dor. Mesmo quando terminou, quando se resolveu, quando se afastou o caminho, se perdeu o brilho, se desligou a conexão, se desequilibrou a balança, se naufragou, se afundou, se afogou, se desistiu, se saltou no vazio, se suicidou, se acidentou, se perdeu, se deu, se ignorou, se esqueceu, se tropeçou…

Para mim a viagem foi feita de sabedoria de provérbios, palavras de poesia dos poetas, estórias, contos, lendas, boatos. Foi feita de carinho, de afectos, de encontros, de descobertas, de partilhas… foi feita de pânicos e prazeres, de medos, de dúvidas.

A beleza do primeiro amor é a de imaginarmos que não acabará nunca. Este acabou. Com esse terminar fecho um ciclo, um momento, uma fase, um capítulo.

Dizem-me que os círculos não se fecham, mas que crescem em espirais, enroladas e desenroladas de movimentos que se abrem para o exterior; que entram, invadindo, explorando, descobrindo o interior.

Hoje sinto-me assim, espiralada.

Escrevo em frente ao mar, janelas sobre o Índico, sombra de coqueiros, vento nos cabelos soltos. Escrevo com os fios dourados a passar nos meus olhos, gosto de ver a vida assim, com o brilho suave e lírico do ouro.

Bebo um copo de Ginja d’ Óbidos. Qual é o espanto? Sim, casa é isto, sentimento cheio de incongruências, temperado de sentimentos agridoces.

Não sei de onde vêm os humores e os ódios, as paciências e os amores, mas desde há algum tempo que este que me acompanhou na loucura de uma partida não é o meu companheiro em nenhuma chegada. Desde há muito que ao seu lado não é o meu lugar.

Partilhei sempre aqui as paixões, as hesitações, as irritações, assim partilho os fins.

Afastamo-nos, sou afastada, afasto-me.

Saio de casa de manhã com um saco ao ombro. Levo o celular, um passaporte, um cartão de crédito sem saldo e algumas roupas. Vou embora. Não sei para onde, ou como, mas sei porquê. Vou.

Começamos de novo, todos os dias, e quando o começo leva a teimosia de um capricho e a leveza de uma intuição ganha poderes de determinação. Assim vou. E tal como saí de Portugal, da minha casa africana saio sem nada, deixando tudo. Deixando aquele nada que guardamos com os cuidados de quem guarda tudo. Mas o tudo sou eu.

Estou em maputo, e desde que cheguei que me sinto em casa, entendo as ruas e a organização da cidade, frequento as esplanadas, os restaurantes, os cafés no passeio, na marginal, nos parques. Comunico as emoções livremente com as gentes, sinto os sorrisos, perco-me nas ilusões da partilha da língua – nas delícias do português criativo.

Brindo a coragem da ruptura, como brindei sempre.

Brindo, e o vinho torna mais imaginativas as conversas.

- Confesso, chamo-me Fartaria.

- Ahahahaha!

- Sim, é nome complicado, dá azo a confusões, chalaças e trocadilhos pouco dignificantes. Ninguém sabe de onde vem este nome estranho sei apenas que existe na zona de onde a minha família é originária uma terra com o mesmo nome. E conta-se na minha família uma estória: que um bisavô em dia de feira escolhia maçãs numa banca:

- De onde vêm estas maçãs?

- Da Fartaria – e como o meu avô as começasse a comer sem as pagar e a menina reclama o bisavô responde:

- Mas se são da Fartaria são minhas, não preciso de as pagar.

Confesso as imaturidades. Durante muito tempo não descobri o meu caminho, lutava. Desenhava percursos, inspirados - ou desinspirados - por proximidades e afastamentos. E o que dizia, que defendia, que fazia, que escrevia hoje poderia detestar amanhã, e discordar frontalmente, e sentir vergonha, e fechar a concha da personalidade por mais meses ou anos. Temia: “Se a abrir que poderá sair?”

Chovisca, caminho sozinha pela rua e vou pensando para mim que se o sol tivesse brilhado mais ultimamente há muito teria tomado este passo.

Chove, o comodismo que me adormecia os membros foi sacudido pelo safanão da desilusão. A vida adulta é feita delas. A estrela protege-me os passos e hoje mesmo eu, que nos acessos naturais dos amantes magoados ainda duvido, de novo recebo as certezas, os caminhos insondáveis abrem-me os olhos e o que contei um dia como “desfocado”, foca-se agora. Agora vejo-me. Só.

Viajo por Moçambique. Só, pelas ruas de lixos de Quelimane, com as crianças com deficiências de Nampula, no clima seco de Tete, pelo mar azul de Inhaca... Voltando sempre à personalidade forte e exótica de Maputo.

Aqui misturam-se tão bem as influências da Índia, de Portugal, da África do Sul. Aqui sentem-se os ritmos e os calores de África bem temperados de especiarias e brilhantes, comodamente instalados na sofisticação organizada da, ainda sonhada, nação arco-íris.

Caminho sozinha. Por dois meses entrego-me à filosofia budista que exalta o valor do pouco em oposição ao vazio da fartura. Vivo em casa alheia, durmo em colchão emprestado, e entrego-me à cidade. Sinto África pelos meus poros brancos de mulher. E sinto prazer.

De novo me apaixono. De novo brilha a luz em todas as coisas e tocam melodias doces em todos os sons.

E continuo minha viagem, tenho mais estórias e lendas e provérbios e imagens e sentimentos para contar. Mas não estou de volta. Escrevi no início “Adeus, até ao meu regresso” e ainda repito “adeus”.

E ninguém o diz sem uma lágrima, ou pelo menos uma dor. Eu não sou excepção, abro o coração e já não me escondo em conchas, para quê? Nem todos temos pérolas escondidas sabes, Joana?

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.