SOL

Vejo a lenda

Publicação: 12 Março 10 10:00

Isso não é preciso! A viagem não é assim tão grande... – Achas? – Bem, se calhar tens razão. É melhor levarmos tudo.

Juntamos a bússola, o mapa, o diário de bordo, a máquina fotográfica, o saco com algumas roupas, as botas, os botins, a tenda, os pneus suplentes, a bomba, o macaco…

O Ra salta para o banco de trás – e iniciamos uma nova viagem.

 

Saímos de Maputo de manhã. Temos uma fronteira conhecida para atravessar, um país com estradas, um bom mapa, um acesso fácil ao Estado vizinho.

Para quem está habituado a estrada sem fim, esta rota sabe a férias. Mas a verdade é que o plano de fazer Maputo – Luanda em 40 dias não é o que se pode chamar um projecto modesto. Continuamos, porém, com a coragem própria dos inconscientes. E o facto de, sobre Angola, só encontrarmos registos dos sonhos imperialistas do antigamente e relatos vagos do presente não nos preocupa. A viagem faz-se quilómetro a quilómetro, não pensamos muito.

Mas desta vez até planeámos as coisas. Calculámos distâncias e antecipámos dificuldades – o que aumenta as possibilidades de sucesso.

Puro engano, porém! Mais uma vez se confirma quanto é vaga a relação entre o planeamento e o sucesso.

Nesta viagem, a chamada ‘protecção’ –  que era resultado da intuição quente das relações de amor – foi-se, e já não sabemos como agir. Perdemos a capacidade de  improvisar. O que eram os caminhos da sorte são agora os do azar.

Nos primeiros desafios, as fronteiras são pacíficas, a estrada alcatroada, a língua conhecida, as placas legíveis, os lugares turísticos sinalizados, as distâncias confortáveis, as estações de serviço recheadas. Os hotéis simpáticos, acessíveis, com água corrente, pequeno-almoço, lençóis limpos, ventilação.

Atravessamos a África do Sul e aproximamo-nos cada vez mais do Kalahari, o falso deserto. E digo ‘falso’ para os que acreditam que o deserto são dunas de areia fina e formas arredondadas. Para os que vivem lendo na paisagem real o sonho fantasiado dos filmes e das lendas. Como eu.

 

Entramos na Namíbia.

Namíbia é uma lenda de terra seca, de vastas planícies, de povos nómadas que sempre mudam de lugar. Uma história de espaço vazio, de possibilidades, de terrenos proibidos. O país que tem uma das menores populações do mundo – mas se chama ‘vasto’. E ostenta dois oryx no brasão de armas.

Eu deslumbro-me com a vastidão.

Entramos pelo Sul, aproximamo-nos do Canyon, A paisagem anuncia-o há muito tempo e a máquina dos registos efémeros do pestanejar já dispara há muito. Todas as formações rochosas são belíssimas aqui: gigantescas, cheias de contornos e colorações surpreendentes. Um fio de rio chamado peixe fende a terra formando o maior Canyon de África: 160 km de comprimento, 27 km de largura e, por vezes, 550 metros de profundidade.

 

Avançamos, apenas seguindo as placas. A estrada termina no precipício disfarçado pela planície. Paramos o jipe, eu e o Ra saltamos para o exterior. Olhamos o Canyon de um miradouro.

Lá em baixo, ficam as montanhas rochosas e o rio serpenteante como uma cobra. Um fio de água verde brilha: como é possível a água fender assim a pedra?

Tenho uma sensação morna de pequenez, como se a natureza me embalasse carinhosamente ao colo. Sinto o calor e o deslumbramento do colo da Mãe. A respiração sossega, o batimento cardíaco diminui, os olhos semicerram-se, desfocando a visão serena e forte do Canyon.

Inspiro. Guardo o momento no espaço secreto das emoções. Este Canyon agora também é meu.

 

Rodamos em estrada recta, de gravilha, a perder de vista. Plana, plana… Eu vou saudosa da sensação da areia a rodear-me.

De olhos húmidos e coração seco, avanço.

E chegamos ao deserto. Noutros lugares, esta frase não faria sentido. Mas aqui há uma estrada, há uma placa e, surpresa das surpresas, há uma porta! O terreno desértico ocupa quase todo o país – mas o sonho exótico das dunas e depressões de areia finíssima sem sinal de construções ou vida é aqui – depois de passar esta porta.

E este deserto é… cor de laranja!

Terreno rico em ferro, em minas de sal, tungsténio, diamantes. Seco, seco, seco. A terra abre-se em gretas de linhas labirínticas, o vento não traz alívio.

As lendas contam que aqui vivem elefantes, leões, oryx. Mas todos sentimos que é impossível sobreviver aqui.

 

Caminhamos. E a lição da minha primeira subida de duna, na Jordânia, regressa às minhas pernas. E não subo a direito – sigo a crista ondulada da duna, como uma onda.

Aqui, em Sossusvlei, estão as dunas mais altas do mundo, com mais de 300 metros. Como é que sei? Este deserto tem placas. Com direcções, com explicações, com informações sobre parques de estacionamento para veículos 4X4 e de tracção às duas rodas. Confesso que me sinto um pouco como num parque de diversões. Para mim, deserto é a vastidão… selvagem.

Arrasto-me pelas dunas. E quanto mais alto subo mais vezes me sento. Esvazio garrafas de água e encho-as desta areia ocre, fina, quente. Levo-a comigo para protecção, como os vampiros levam terra para conservarem os seus poderes.

 

Caminhamos pela areia vermelha. Tinha saudades do cheiro seco que invade as narinas e o peito, da visão falsamente estéril e monótona.

Caminhamos até aos vales de florestas secas, árvores nuas, escuras de morte, enterradas na brancura do sal.

O chão gretado do calor entre as montanhas de areia ocre esconde resorts onde a água não falta no chuveiro e mariscos compõem a ementa.

Ficamos aqui.

Vejo o deserto pela janela aberta na casa feita de lona de tenda. É bonito.

O ano também aqui começa. Aqui recebo o que é novo, deixo o que passou. Passei tantos lugares acompanhada pelo Telmo e pelo Ra.

Viajamos.

Não desperdices oportunidades, só aparecem uma vez. Não confies que é tua a sorte, a audácia, a companhia, a protecção, a vida. Tudo muda, tudo passa, tudo pode acabar. Não tomes nada por garantido – nem as leis e as regras dos homens, nem os instintos e os caminhos da natureza.

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.