Diamantes são pedras
Viajamos na vasta planície seca. Olhar tudo como se fosse a primeira vez é um exercício… refrescante.
O meu olhar já se habituou à estrada plana e longa, de gravilha clara, ao horizonte seco… e quando de longe nele noto uma marca - uma planta sobrevivente, uma manada de cavalos selvagens, uma casa – todos os sentidos se apuram como se a experiência fosse nova e há muitos anos eu estivesse entregue a este existir solitário dos territórios quase desabitados. E a imagem destes elementos no solo estéril é… estranha. Parecem deslocadas as construções, os animais, as plantas… tão sós.
Pessoas invadem os lugares dos animais, águas invadem a pedra, areias invadem as casas, gritos invadem as doçuras e as cidades sobrevivem, fantasmagóricas.
Entro pelas casas abandonadas da cidade fantasma nos arredores de Luderitz, sento-me na areia quente e lisa, como se nunca tivesse sido pisada.
A paisagem reforça as filosofias do desprendimento, as coisas não são nossas, são-nos apenas emprestadas por um período limitado de tempo. O vento traz, o vento leva. A areia engole, parte os vidros, devassa as portas, leva os móveis, perfura os tectos, fende os soalhos e sobe, sobe até à liberdade sinuosa de uma duna.
Na Namíbia há diamantes, muitos. Por muito tempo garimparam diamantes aqui, por todo o lado, dentro das areias claras. Desde há muito tempo e até hoje, cidades foram construídas, cinemas inaugurados, igrejas abençoadas, hospitais erguidos, teatros estreados e casas… as casas nasceram como ninhos, esconderijos dos Homens, protecções dos frios nocturnos, das manhãs quentes, dos olhares… E nas casas dormiram, comeram, amaram, discutiram, jogaram, beberam…
E agora… agora a areia que todos os dias escrutinavam em buscas de preciosidades, essa mesma areia veio, os habitantes da cidade viviam das pedrinhas que encontravam na areia, ela avançou. Avançou. Os homens ingratos abandonaram as pedras, apenas porque entre elas se encontravam cada vez menos aquelas a que dão o nome de diamantes. As mais famosas, as mais dispendiosas, as poderosas pedras. As mais brilhante, as mais duras, as nada mais.
E enceno. Ou melhor, o meu corpo avança entrando pelas janelas, escorregando pelos telhados, agachando-me nas portas. Sento-me nas janelas de vidros partidos, no chão coberto. Subo pelas pequenas dunas interiores até aos tectos de madeira partida, de tinta cascada. Vivo as estórias, imagino as pessoas nas varandas, as olhares por estas janelas, as visitas nestas portas, as despedidas nas janelas de sacada, as lágrimas nas banheiras de esmalte. Oiço os lamentos, ou imagino-os… o teatro é coisa que vicia a imaginação.
- Esta mina fechou porquê?
- Deixou de haver diamantes.
- Mas parece… triste, houve alguma guerra aqui?
- Acabaram os diamantes.
Olho o cartaz “Ghost Town” inspiro o ar seco cheio de fantasmas, sim, talvez seja eu que imagino coisas. Tenho uma estranha atracção por ruínas, contam sempre tantas estórias. Olho as janelas entreabertas surpreendidas no seu movimento pela areia invasora.
- Tenho sede. – os olhos acompanham a paisagem e parece que as imagens passam na minha garganta, areia, areia, areia. Seca, áspera, angulosa, clara.
- Imagina caminhar aqui e perder o caminho? Se o jipe se avaria… - e, olhando os sinais de proibido. Proibido parar, virar, estacionar. Parece que é proibido sequer olhar o chão, ou aproximar os dedos da areia empoeirada…
- E se encontrássemos aqui um diamante?
- Provavelmente pagavas a audácia com uns anos na prisão. Ou provavelmente não o identificarias.
- Bom, provavelmente trocava-o por uma garrafa de água! Tenho sede.
De vez em quando um cacto destaca-se na paisagem absolutamente inóspita, um cacto com aspecto de árvore, que não parece real. Novas lendas nos oferece a natureza, como sobrevive neste clima? Neste solo aparentemente tão estéril?
Seis cavalos caminham a passo, cabeça baixa e patas lentas, num lugar onde o clima é tão seco e as distâncias tão vastas que o saciar da sede não é acção, é milagre, este caminhar é luta pela vida. Pela liberdade de viver só, sem dono, pelo deserto quente.
Estes cavalos são fascinantes, não existem cavalos na África subsaariana por isso há várias teorias que tentam explicar a origem dos que vemos avançar a passo lento, de cabeça baixa e patas flectidas. Uns falam dos holandeses que foram os primeiros a trazer cavalos para a zona do Cabo da Boa Esperança no século 17, outros do naufrágio de algum barco carregado, e da possibilidade de os mais fortes terem nadado até à costa, outros defendem que são descendentes dos trazidos pelos alemães no século 19, outros que são sobreviventes da cavalaria sul-africana na primeira guerra mundial…
Os cavalos do Namib avançam alheios às questões dos homens. Comem enquanto andam, ficam pouco tempo no mesmo local, têm de percorrer distâncias entre 15 e 20 km para beber, para pastar. Por vezes têm de passar sem água mais de 30 horas no verão e mais de 60 no inverno. Observo os sobreviventes, tenho sede.
Em Luderitz exploramos as ruas, as praias de água atlântica gelada, o ventoso “Diaz point” - é uma visão de Alemanha em África, desconcertante.
Saímos preparados para seguir viagem, e quando passamos a cidade fantasma:
- Sabes, sinto-me triste, gosto deste lugar…
- m****, o jipe não anda!
Abrimos o capo, as baterias estão descarregadas, as duas!
Preparo-me para fazer a pé o quilómetro que nos separa dos fantasmas – que tanto me encantam – passa um jipe, as pinças nas baterias alheias ligam o motor, voltamos para trás.
Na cidade procuramos os mecânicos, é feriado, não há pessoas nas ruas, tudo está fechado, voltamos ao hotel. No parque de estacionamento, entre engenheiros bem vestidos e overlanders empoeirados todos investigam o nosso jipe, todos se debruçam no capo aberto. Vêm os motoristas, os guardas, os amigos e os conhecidos, a dona, o gerente… e finalmente recebemos o contacto de Adolf, o mecânico alemão. Durante horas monta e desmonta peças, o alternador, as baterias… tudo parece estar bem, mas funcionar mal. Finalmente entrega-nos o jipe pronto, seguimos viagem, e… quando passamos a cidade fantasma:
- Esta cidade tem qualquer estória… gosto mesmo de…
- Ainda bem, porque o jipe não pega. Vou ligar ao Adolf. – baterias recarregadas e somos escoltados até à cidade dos postais do Norte da Europa…
Azares ou energias da terra. Sorte ou protecção das estrelas, dos amores…
Cada um é para o que nasce e eu não nasci para planear, antecipar, elaborar muito um futuro, ainda que próximo. Para mim a viagem são surpresas e o caminho será… como acontecer. Não resisto, mais uma noite em Luderitz, a estrada decide, avançamos no seu passo misterioso.
Caminhamos à beira-mar, do outro lado a pequena ilha tubarão. Parece que a sua estória foi esquecida pela Namíbia mas aqui, durante a guerra (1904-1908) os alemães mantiveram cativos homens, mulheres e crianças como prisioneiros de guerra… as estórias são de frio, fome, sede, espancamentos, violações, doença, morte.
Estes presos em trabalhos forçados construíram a bonita cidade que tanto se assemelha a Alemanha.
Sim, são fantasmas esquecidos, o brilho de pedras polidas e duras como os diamantes ofusca as estórias, aqui como em toda a parte. Os homens lutaram, e ainda lutam, quanto a mim investigo as estórias de sobrevivência nas grutas e entre as pedras, nas areias e entre diamantes. E para mim está nas lições da natureza, nas estórias da minha viagem, na história do Homem, os diamantes são pedras. E é isso que pesadamente canta a areia que rodeia Luderitz.
Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas.
Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer.
Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.