O canto do vento
Por que razões se sobem montanhas, se cruzam oceanos, se exploram desertos ou se atravessa a África? Porque eles estão lá, existem e atormentam a nossa imaginação.
Lembro-me bem de como começou: era pequeno e a casa onde passava férias ficava entre o mar e a falésia. Eu olhava para a falésia – alta, empinada, misteriosa, ameaçadora - e perguntava ao meu avô o que é ficava por detrás dela, o que se avistava do seu cimo. Ele falava-me de grutas, de árvores grandes como prédios, de raposas e coelhos e, naquela manhã em que regressávamos da praia e em que de novo o inquiria, ele – talvez exausto de descrever árvores e de me narrar a vertiginosa fuga do coelho – diz-me:
‘Olha, o que se vê bem de lá de cima é o outro lado do Mundo. Ficas a ver o pôr-do-sol e, mesmo antes de ele desaparecer, consegues ver o outro lado do Mundo!
Foi demais para mim. Dois dias depois, no fim do almoço e com o coração a latejar nos ouvidos, declarei solenemente, do topo da minha impertinência infantil, que no dia seguinte de madrugada iria escalar a falésia e que o Álvaro – um amigo que se destacava por trepar às árvores como ninguém – não só me acompanharia como, argumento claramente decisivo e susceptível de vencer qualquer oposição materna, até já tinha uma corda!
‘Ai Jesus, Deus te livre! Queres apanhar uma bofetada?‘
Exclamou a minha mãe indiferente à solidez do argumento. Do outro lado da mesa chega-me o olhar intimidante do meu pai.
Mas, antes que ele tivesse tempo de pronunciar o veredicto final, eis que da cabeceira da mesa se ergue a voz, cúmplice mas autorizada, do meu avô-
‘Deixa lá o miúdo, ir. Mais vale saberes quando ele vai do que ele ir sem tu saberes.‘ Depois chamou-me, solene, e disse–
- ‘Vai e volta. Se conseguires ver o que te disse, ofereço-te uma bicicleta!‘
No topo da falésia expliquei a um desiludido Álvaro que não, que o meu avô não estava seguramente enganado – que aliás ele nunca se enganava – e que a única e exclusiva razão pela qual não víamos o outro lado do Mundo com clareza, era porque o vento tinha arrastado as nuvens e encoberto o horizonte. Não fora tal desfaçatez, concluí, estaríamos agora ambos a ver a África e os leões e essas coisas.
Fui e voltei. Dois dias depois tive a minha primeira bicicleta.
Foi o meu avô quem ma ofereceu. A bicicleta e a vontade de um dia conseguir chegar ao sítio de onde se via o ‘outro lado do Mundo’.
Uns anos depois lia o relato de Serpa Pinto e sonhava em, como ele Ivens e Capelo, um dia poder atravessar a África.
Foi pois uma improvável aliança entre o meu avô e os exploradores portugueses do século XIX, que me trouxe aqui. Claro que não sou um explorador - já tudo parece estar descoberto - não passo de um mediano intérprete de caminhos. Tive apenas um desejo imperioso de, mal chegado a Maputo e de aí ver o Índico, ir até Luanda para rever o Atlântico; atravessando a África Austral e procurando refazer parte da rota de Serpa Pinto no processo.
Diz ele do continente africanos que ‘Difficil é comprehendel-o a quem o não experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o’.
Cento e trinta anos depois quase tudo mudou em África. Mas estas palavras não perderam actualidade.
A nossa rota entre Maputo e Luanda leva-nos a atravessar a Namíbia. De novo fomos nós, portugueses, os primeiros europeus a desembarcar e a reconhecer as costas deste país. Diogo Cão alcançou-o em 1485 e Bartolomeu Dias no ano seguinte.
Aqui tudo parece ter sido tomado pelo vento. O país é um grande deserto. Uma enorme porção de nada aberta a um vento que sopra do Atlântico e se espalha pelos desertos laranjas desta terra. É singularmente belo. Despovoado, desequilibrado, injusto na forma como divide as suas riquezas, mas belo.
Windohek, a capital, significa aliás ‘canto do vento’ e, como a maioria das cidades deste país, é uma réplica de uma cidade alemã.
Tal como a capital, também Luderitz ou Keetmanshoop parecem ter parado no tempo e mudado no espaço. A sensação é a de que estamos na Alemanha dos anos 30 do século XX. Do tecto das cervejarias – frequentadas exclusivamente por brancos – pendem estandartes dos antigos principados alemães, mas também da Catalunha e de Andorra, do Liechtenstein, da Bósnia e de dois ou três cantões suíços. O elogio do espírito independentista típico do século XIX europeu mistura-se com a cerveja que corre abundante soltando as línguas. Aqui, asseguram-me, a II Guerra Mundial não passa de uma hipótese, de uma teoria anglo-saxónica. Nenhuma bala aliada perturbou as ébrias noites brancas de Windohek. Na capital cheia de centros comerciais, livrarias e teatros, não consigo deixar de me surpreender quando vejo um grupo de mulheres Himba, vestidas de lama da cabeça aos pés, a passearem a sua diferença.
Um profundo silêncio acolhe-nos na nossa chegada às Portas do Inferno. Assim chamavam à costa Norte da Namíbia os marinheiros portugueses do século XVI. Costa dos Esqueletos, lhe chamam agora.
Lugar de morte, cemitério de baleias e de centenas de embarcações que, atraiçoadas pelos densos nevoeiros causados pela corrente do Golfo de Benguela, aqui encalharam depositando, ao longo dos séculos, milhares de almas.
Sobre as águas corre um vento gelado. Sobe pelas areias e assobia nas carcaças das embarcações. Murmura-nos indecifráveis lamentos e arrepia-me.
Parto. Tenho pressa de me aquecer em Angola.
Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas.
Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer.
Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.