Tribalistas
Para mim a beleza é a riqueza ocre da terra, o vermelho do sangue que é vida.
Mukuro é deus. Sagrado é o fogo com que comunico com os que já morreram. Carrego a cinza de onganda (acampamento) em onganda, só assim o fogo vive sempre. Desde os tempos mais antigos a cinza sagrada acompanha-me, desde que viemos para estes territórios com os povos Bantu. A minha família está viva aqui, na minha mão cinza.
Eu sou pastor, isso sou eu. É o meu talento. Vivo com a natureza, imito os meus animais, que são os meus amigos, a minha companhia, a minha família. Cada cabeça de gado tem um nome, e quando os chamo eles respondem-me.
Eu cubro a minha pele com uma mistura de gordura de vaca com pigmento avermelhado da terra e ervas que conheço pelo seu perfume. Assim limpo a minha pele, as minhas mãos, com cinzas que conheço bem.
Eu brilho ao sol.
Brilho na minha pele nua de roupas, decorada apenas de peles de vaca e de ornamentos que me embelezam e salvam dos perigos, como as tornoseleiras que me protegem as pernas de mordeduras de cobras.
Eu sigo o meu caminho, os meus seguem-me.
Conheço os campos, os animais venenosos e os comestíveis, os perigosos e os dóceis. Conheço o céu e as chuvas, a terra e as secas. Conheço os segredos das ervas medicinais.
Eu durmo sob as estrelas em acampamentos de lama e palha. O meu gado é gordo e forte, as minhas crianças e mulheres são saudáveis.
Bebo o leite das vacas, educo os meus filhos e os do meu grupo. Bebo a água que carregamos dos poços e vivo nas casas que as mulheres constroem.
Eu vagueio nas áreas mais remotas, onde não chegam as máquinas dos homens. Eu pasto com as minhas vacas de cornos retorcidos, com elas procuro as nascentes e os poços de água, os lagos e os rios. Com elas encontro a vida.
Desde que nasci que olho o deserto, desde os tempos mais antigos que é o deserto que me dá tudo, as minhas sandálias de pele de vaca, as minhas casas de lama, o cobre e o chumbo, as conchas, o pigmento e as ervas.
Eu caminho nos territórios que são Namíbia e Angola, eu não posso caminar para outros lugares, os meus antepassados estão enterrados aqui, nós não podemos deixá-los sozinhos.
Vivo sem nação. O governo destes lugares talvez se envergonhe de mim, do meu viver livre (bruto, selvagem, retrógrado, ignorante, incivilizado). As agências turísticas querem conservar as minhas tradições (como num museu).
Ninguém me pergunta dos meus desejos.
As barragens e as cidades, os hospitais e as escolas crescem por muitos dos lugares que passo, mas ainda caminho. Mudando de lugar de acordo com as minhas necessidades, como faziam os meus pais e os pais antes deles. Eu honro o meu nome.
Eu sou Himba.
Estou em Kaokoland, depois de não sei quantos quilómetros de dunas e deserto, aqui, no Norte da Namíbia, a vegetação é tão luxuriante e fértil que custa a acreditar que esteja no mesmo país.
Visito as cascata Epupa, e as Ruacana. Mas é pelo terreno seco que me aproximo do acampamento.
As mulheres rodeiam-me de imediato, falam entre si. Ele olha-me, tingido de ocre, o cheiro é intenso, a pele macia, o toque de borracha, vem para o meu colo e brinca com o meu colar de missangas branco, fixa-me, olhos grandes que param nos meus. Elas continuam sempre a conversar, riem, tocam-me, comparam as minhas pulseiras de prata egípcia com o cobre Himba, conversamos nesta língua de contacto e olhares. A conversa é feminina, Telmo é deixado de fora.
Contam que um grupo de Himba em Angola, poupado ao contacto com a civilização pela guerra, se espantou com um cabelo loiro, tomando-o por crina de cavalo, e perguntou a uma jornalista ocidental se era mulher ou homem.
Lá, o único contacto que procuram com o mundo exterior é no caso de doença grave, aí atravessam longas distâncias de território seco e rios infestados de crocodilos, acompanhados de uma cabeça de gado que deixarão com o médico, como pagamento.
Mas isso é lá, do outro lado da fronteira. Aqui, na Namíbia, as Himba correm para mim, visivelmente interessadas no meu aspecto, mas não tanto quanto nos dólares, que pedem de imediato, acertando o valor para uma fotografia de grupo.
Sim, incomodam-me os caminhos que fazem o mundo chamado civilizado chocar com este, na nossa visão romântica o mundo puro, perdido, intocado. Sinto que aqui não é bem assim, mas não sei. Até hoje nunca comprei uma foto, nunca me fotografei desta forma, na companhia das tribos de África. Agora exibo as fotos exóticas, retrato de um momento intenso e bom. Mas acompanham-me as dúvidas.
Aqui os Himba fazem fila no multibanco e na charcutaria do supermercado SPAR.
No mercado procuro as jóias das mulheres, tento as negociações em línguas impossíveis, quando reconheço a maneira como comunicam entre si: o português! Muitos povos de Angola, angolanos e portugueses vivem aqui, no norte da Namíbia.
Seguimos para Angola. Num cruzamento, a 30 km/h uma tracker velha bate contra o nosso jipe, frente amassada e um farol partido. Do interior sai um homem mais velho, na cabeça o corte de cabelo Himba, no corpo a mistura criativa das peles de animais com as roupas ocidentais. O Telmo vai perguntando:
– Seguro, quero ver o seguro.
Eu fico tão espantada como o dono do veículo. Seguro?! Serão os dias na confortável Maputo que o fazem esquecer que estamos nos lugares isolados de África?
Ele está atrapalhado, eu também, aos mais velhos devemos o respeito, a gratidão, a vida. Aqui cada um dos mais velhos tem em si os meus pais, os meus avós, todos os nossos antepassados. Telmo insiste, eu sinto-me mal:
– Deixa, é óbvio que não tem seguro.
Telmo volta as costas, furioso. Sim a viagem corre cheia de quedas, mas é sempre assim quando nós criamos para o nosso caminho obstáculos. Eu tento na língua local:
– Tjike – tudo o que sei é um olá gago. Os olhos do homem procuram Telmo mas encontram os meus, vejo nos seus o receio nervoso, não é comigo que deve fazer as honras do encontro, da discussão, do perdão, das despedidas… mas ele fixa-me, junta as mãos em agradecimento, de novo se desculpa, separamo-nos.
Seguimos viagem e temos um, dois, três, quatro furos… o macaco deixa de funcionar e o que comprámos por segurança também, dependemos de novo da ajuda do outro, de quem passa.
Dependemos sempre.
O motor do jipe pára, queimam-se peças, fundem-se mecanismos eléctricos, furam-se radiadores e parte-se a correia da ventoinha… Não, nada conspira contra nós, somos nós que o fazemos. Eu já não acredito, a protecção foi.
Canta a música que oiço no leitor de cd que «as memórias não vivem como as pessoas». Sim, sei que é assim.
África está cheia de estórias de tribos assim, perdidas, e todas têm para mim o sabor doce dos contos de fadas.
Os Himba vivem esquecidos nestes caminhos sem diamantes ou petróleo, caminhos que o Homem não procura, pelos quais não luta, que não invade nem transforma. E nas sangrentas estórias de guerra e confrontos é poupada esta vivência tribal, tão antiga quanto a Idade da Pedra, das mais intocadas do continente. Para mim, comparadas com esta realidade, são as nações desumanizadas, pisadas pela guerra, cegas de ganância e submersas em pobreza, que parecem perdidas.
Eles caminham sozinhos, pastando cabras e vacas, eles não precisam de nós.
Mas eu preciso deles. Para sonhar, para acreditar de novo.
E hoje, agora, neste mesmo momento eu gostava de ser Himba.
Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas.
Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer.
Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.