SOL

Angolar

Publicação: 09 Abril 10 10:00

 

Não viajamos  de forma tradicional. Não desembarcamos em aeroportos, não vamos para hotéis previamente reservados. Não temos roteiros a seguir. Não dependemos dos transportes locais, de estradas ou de guias turísticos.

Usufruímos de uma certa liberdade, que advém da circunstância de nos deslocarmos em transporte próprio e de possuirmos um tempo que, ainda que limitado, é elástico e nos permite caprichosos desvios, demoras e paixões por este ou aquele local. Um tempo que nos possibilita seguir esta ou aquela rota dependendo da vontade do momento, do capricho ou da intuição.

 

 

 

Quando um país aceita que nós o percorramos, aceita que dois estrangeiros vagueiem, com grande autonomia, pelos caminhos da sua intimidade. E, assim, escancara-nos a vida dos seus cidadãos.

Aceita a diferença do nosso olhar e a eventual injustiça da nossa observação.

Este facto, sendo banal na Europa, não o é em grande parte do mundo. A liberdade de circulação de que gozamos aí, no velho continente, é uma bendita excepção.

Os chineses, por exemplo, não nos permitiram entrar, nem acharam estranha a proibição. Ao fim e ao cabo, um país é a casa dos que lá vivem –  e só aceitamos em nossa casa quem queremos. Os russos permitiram-nos a entrada mas, a cada cem quilómetros, faziam questão de nos lembrar que não éramos bem-vindos.

 

A África subsaariana é, ainda, o território da desconfiança; onde há velhas contas por saldar, onde o mais fraternal sorriso convive com velhos ressentimentos sedimentados em anos de abusos, de incompreensão, exclusão, soberba e indecorosa injustiça. 

Enquanto colonos, nós, portugueses, miscigenámos os sangues. Agora, enquanto homens livres, temos de aprender a miscigenar as almas. Temos de descobrir que parte do nosso caminho passa por aqui, pela mãe África. Seremos tontos se o não fizermos.

Cada homem é uma raça, cada nação define-se pelo que é, mas também pelo que sofreu para o ser. É na forja das suas adversidades que se tempera a sua identidade e a sua força.

É fundamental que o recordemos quando nos passeamos por novas nações.

 

 

Vamos entrar em Angola. Não vamos passear, vamos angolar; tornar o nosso olhar e o nosso sentir angolano.

É isso que eu, português, sinto quando entro em Angola – tal como o havia sentido em Moçambique. Não vou visitar um país estrangeiro – vou ver a família.

Depois de passar três continentes e de ter percorrido mais de sessenta países, já não tenho qualquer dúvida: quando entro num país com o qual partilhamos a língua, a história e muitas emoções, ninguém me convence que estou no estrangeiro. A minha cabeça diz-me que sim, mas tudo o resto a nega. Isso torna-me, simultaneamente, mais tolerante e mais exigente.

Em Moçambique garantiram-me: os angolanos são confusos.

– Iiich, vais ver brada, só pensam em jobar e em dólares e tal... São confusos!

E a primeira abordagem à embaixada de Angola em Maputo parece confirmar a análise:  muita estranheza por querermos entrar por terra e não ir de avião como toda a gente, muitos papéis a preencher, muitas justificações a dar.

– Por que é que, sendo portugueses, estão a pedir o visto aqui e não em Lisboa?

Por fim, uma carta-convite enviada por um velho amigo angolano resolve todos os problemas e lá nos dão o visto.

 

Entramos em Angola pelo Sul, vindos da Namíbia. Os primeiros quilómetros são desoladores.

Antes de partirmos de Moçambique tínhamos ouvido na rádio que um português tentara, há poucas semanas, realizar a ligação Maputo-Luanda, ao serviço de um órgão de comunicação social. Fracassou, poucos quilómetros depois da fronteira angolana, derrotado pelas picadas do Sul de Angola.

É fácil perceber porquê! 

Mal entramos em Angola, acabam-se as estradas de macadame a que nos tínhamos habituado na Namíbia e que, sendo desconfortáveis e extraordinariamente poeirentas, eram transitáveis. Aqui entramos em densa mata cortada por uma vaga impressão de trilho. Terreno abrupto, imprevisível e escorregadio – e que só conseguimos vencer graças à longa experiência adquirida na Tanzânia. Não há placas nem qualquer sugestão de direcção a seguir.

 

Arrastamo-nos por aqui a uma velocidade média de 40 km por hora, aos solavancos e – acreditamos – em direcção a Ondjiva e Lubango, que estará a cerca de 500 Km. Ou seja, esperam-nos cerca de dez ou doze horas neste terreno!

Paramos no mato para aliviar o corpo e a fome.

– Telmo, cuidado, chama o Ra! – grita-me a Filipa, ao mesmo tempo que me indica uma pequena placa metálica de cor vermelha com uma caveira desenhada a branco. São minas!

À nossa volta todo o mato está cheio das mesmas placas. Estamos no meio de um enorme campo de minas – e é impossível afastarmo-nos meio metro do trilho sem o risco de pisarmos uma. Acabou o passeio para o Ra. Assustados, regressamos ao jipe.

 

Seguimos viagem – e por horas e horas o panorama não muda. Quarenta anos de guerra e o receio de possíveis incursões do exército da África do Sul deixaram uma pesada herança de centenas de quilómetros de terrenos minados.

Nos campos, por entre os sinais de minas, vêem-se cabanas e mesmo pequenas aldeias. Crianças brincam audaciosamente no terreno mortífero, homens pastoreiam cabras, mulheres desfilam com ramos na cabeça. Todos indiferentes ao perigo que os rodeia. Conhecerão por certo os caminho seguros e como evitar a morte escondida; mas, para nós, a visão é arrepiante – e esperamos a qualquer momento escutar a detonação de um dos traiçoeiros engenhos.

Foi uma longa e nervosa viagem até Lubango, onde finalmente deixámos para trás a ameaça subterrânea.

 

Lubango é uma pequena vila de passagem. Aqui e além há vestígios de velhas casas coloniais, quase todas em ruínas. Na pequena pensão, sem água corrente nem electricidade, pedem-nos dez mil kwanzas (cerca de 80 euros) por uma cama. 

Hoje de manhã seguimos para Lobito. A chegada a esta cidade lava-nos de todas as fadigas e mostra-nos uma outra Angola.

Lobito é bela, amena e relaxante. O mais aprazível abrigo que encontramos no nosso périplo angolano.

A cidade parece ter já recuperado totalmente da guerra: as vivendas estão restauradas e habitadas, as ruas estão limpas e os jardins viçosos. Apetece passear na mornidão da noite e usufruir das esplanadas e do mar. O que não se percebe são os preços praticados. Não há hotéis a menos de 150 euros€ e duas pessoas não comem por menos de 60.

Em Angola só o combustível é barato. Um litro de gasóleo custa cerca de 30 cêntimos. Tudo o resto é proibitivo.

 

Apesar disso não parece haver angolanos mal dispostos. Pelo menos connosco, todos se desfazem em cortesia e vontade de ajudar. Mimam-nos com simpatia, falam com prazer sobre Portugal e os portugueses. Não os encontrei ‘confusos’, como os caracterizaram os meus ciumentos amigos moçambicanos, antes convictos e orgulhosos.

Talvez mais formais e sérios do que os seus irmãos do Índico, mas igualmente solidários e fraternos.

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.