SOL

O canto da sereia

Publicação: 16 Abril 10 10:00

Em Angola há sereias.

Cada rio, cada lagoa e até os próprios charcos têm a sua sereia, a sua Kianda, como são chamadas em quimbundo, uma das línguas nacionais.

O mar, já se vê, está cheio delas.

 

 

-‘Eu não acredito muito nelas, mas lá que as há, há! ‘

Assegura-nos a senhora Liberdade de Jesus que vive perto de Luanda em frente ao mar, pertinho do Miradouro da Lua.

 

-‘ O senhor quer saber se as ianda (plural de kianda) são boas? Olhe não são boas, nem são más. Tudo depende dos ouvidos que os homens lhes dão. ‘

 

Ontem saímos de Lobito e fizemos cerca de 700Km até aqui aos arredores da capital Angolana.

A estrada é linda. Desenhada junto à costa, permite-nos jogar às escondidas com o Atlântico que ora se revela, ora se esconde, numa promessa de frescura e de alívio para o intenso calor que se faz sentir. A vegetação é generosa e proporciona amplas sombras que tornam a viagem agradável e oferecem repouso ao olhar

É uma estrada nova e bem alcatroada que contrasta fortemente com os lamacentos trilhos que enfrentámos no Sul do país.

A via é muito movimentada, está cheia de veículos novos e potentes.

O único problema é que, a maior parte deles, não circula. Antes estão meio desfeitos na beira da estrada -  rodas para o céu - num arraial de vidros partidos, chapa amolgada, portas arrancadas e interiores escancarados.

Começo por contá-los – um, vinte e cinco, setenta e dois…desisto. Não circulamos mais de cem metros sem que passemos por veículo sinistrado.

Cinco jipes novinhos, a caminho do stand, ultrapassam-nos a grande velocidade. Vão em direcção de Luanda.

Eu continuo a minha actividade estatística e conto os veículos acidentados – 94, 95…

- Filipa este último jipe que estava capotado tinha uma roda a girar!

- ‘A girar? Tens a certeza?

- Sim, acho que sim…quer dizer, pareceu-me. O melhor é ir ver.’

    

 

Travo, inverto a marcha. Voltamos para trás.

E aí está ela, a roda a girar. Só uma, a roda esquerda da frente, como que a escarnecer do resto do veículo capotado, todo amolgado, transformado numa massa disforme de ângulos mortais.

Saímos do jipe. Da ladeira para onde o veículo sinistrado escorregou chegam-nos gemidos. À nossa aproximação os gemidos transformam-se num grito:

-‘Ai! Socorro que eu morro aqui!‘

 

Breves segundos de indecisão. Depois precipitamo-nos para a estrada, mãos erguidas a pedir aos outros condutores que parem e venham ajudar, porque o certo é que nós não sabemos o que fazer. Pára um, depois outro. Em breve cinco ou seis veículos estão alinhados na beira da estrada. Alguns homens saltam de imediato para a ladeira e começam a tentar desencarcerar o condutor. Todos parecem saber exactamente como agir. A porta não abre, o jipe está entalado entre dois abetos. Oferecemos a nossa pá e com ela conseguem por fim cortar um dos abetos e abrir a porta. Do seu interior o jipe vomita o corpo ensanguentado de um desorientado, mas vivo, jovem que parece não perceber bem o que é que se está a passar.

 

Da soleira da porta da D. Liberdade avista-se a estrada que liga o Lobito a Luanda. Vêm-se também dois ou três carros acidentados.

- ‘Vêm como eles correm? É isso que as kianda fazem aos homens. Prometem-lhes riqueza, prometem fortuna. Eles acreditam e correm para Luanda, onde a promessa se irá cumprir. Vão com tanta pressa que se matam.‘

 

Perto daqui, do Miradouro da Lua, diz-nos elas que em tempos houve uma aldeia a quem as sereias ofereceram riquezas e prosperidade sem igual. Avaros os homens guardaram para si toda a riqueza, ocultando-a das aldeias vizinhas, não partilharam a fortuna. Como castigo as ianda submergiram a aldeia inteirinha que ainda hoje vive no fundo do lago. Ao entardecer, garante a D. Liberdade, ouvem-se, vindos do fundo do lago, as vozes das crianças, as mulheres a pilar, o ladrar dos cães e as vozes dos homens que mutuamente se culpam pelo castigo que lhes foi infligido.

 

 

Paramos no Miradouro da Lua, mas apesar do silêncio que emoldura a estranha paisagem, não distinguimos qualquer voz. Ra cheira curiosamente o vento que sopra do mar, que avistamos ao longe.

Seguimos para Luanda. A cidade dos búzios.

É deste molusco que nasce o nome antigo da capital – lu-ndando- sendo que ndando nomeia os pequenos búzios, que em tempos enchiam a baía, servindo de moeda de troca corrente em boa parte da costa ocidental africana.

Parece que toda a cidade vive encantada pelo canto das sereias angolanas. Guiados pela sua voz milhões de angolanos precipitaram-se para a capital. Muitos vivem nos gigantescos musseques, bairros de lata, que a circundam.

Quando em 1575 Paulo Dias de Novais fundou aqui a primeira povoação viviam cá alguns milhares de nativos, aos quais se juntaram cerca de setecentos colonos. Luanda acolhe agora cerca de cinco milhões de almas e gente de todos os continente. É uma metrópole cosmopolita e fatigantemente dinâmica.

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Há medida que nos aproximamos do centro da cidade e do mar compreendemos que, em breve, nada restará da antiga cidade. Por todo o lado se constrói. Há mais guindastes que postes de electricidade. Não vimos rua que não esteja a ser transformada, bairro que não sofra obras.

Há desejo de progresso e parece haver dinheiro bastante para matar a sede de todos os desejos de transformação que existem na sociedade angolana.

Na cintura da cidade, na fronteira entre o núcleo urbano e o mar de musseques, nascem dezenas de bairros sociais que se destinam a alojar os milhões que vivem em barracas e que comprometem seriamente a imagem da cidade. No centro despontam luxuosos edifícios de escritórios, lojas e bancos. A Ilha do Cabo tem vistosas moradias e está cheia de bares e restaurantes de luxo.

A capital é proibitivamente cara.

De uma Luanda mais antiga sobram as vendedoras de fruta, de peixe e de legumes que, vindas do mercado Roque Santeiro, descem à cidade para vender mangas, ananases e carapaus. No caminho passam por um moderno centro comercial com cinemas, e centenas de lojas que anuncia, a breve prazo, o fim da actividade destas feirantes.

 

 

Um dia, conclui a D. Liberdade, uma sereia saiu das ondas e foi ter com um pobre pescador a quem revelou a existência de um tesouro. Subitamente enriquecido, o homem passa a comportar-se de forma egoísta, gastando toda a riqueza em proveito pessoal, nada partilhando. Como castigo a sereia faz desaparecer o tesouro e o homem fica na mais completa miséria e atormentado pela memória da sua antiga riqueza.

 

Oxalá Angola não esqueça as suas antigas histórias.

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About Vagamundos

Estamos em viagem há três anos, num jipe, com um cão, muitas malas e alguns mapas. Já percorremos mais de 60 mil km e não sabemos quantos mais vamos fazer. Todas as semanas na revista TABU do jornal SOL contamos-lhe a história.