SOL
digo viajar
23 Junho 10 04:20

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.” (Amyr Klink)

"A viagem é uma sucessão de irreparáveis desaparições." (Paul Nizan)

"Viajar! Perder países! Ser outro a cada dia." (Fernando Pessoa)

"Eu viajo não para ir a lugar algum, mas para ir. Eu viajo pelo propósito de viajar. A grande sedução é se mover." (Robert Louis Stevenson)

"Viajar é a maneira mais agradável, menos prática e mais custosa de instruir-se." (Paul Morand)

A verdadeira arte de viajar...
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando! (Mário Quintana)

A felicidade não é uma estação onde chegamos, mas uma maneira de viajar. (Margareth Lee Rimbeuk)

Perder-se também é caminho. (Clarice Lispector)

Publicadopor Vagamundos | 2 Comentário(s)    
O canto da sereia
16 Abril 10 10:00

Em Angola há sereias.

Cada rio, cada lagoa e até os próprios charcos têm a sua sereia, a sua Kianda, como são chamadas em quimbundo, uma das línguas nacionais.

O mar, já se vê, está cheio delas.

 

 

-‘Eu não acredito muito nelas, mas lá que as há, há! ‘

Assegura-nos a senhora Liberdade de Jesus que vive perto de Luanda em frente ao mar, pertinho do Miradouro da Lua.

 

-‘ O senhor quer saber se as ianda (plural de kianda) são boas? Olhe não são boas, nem são más. Tudo depende dos ouvidos que os homens lhes dão. ‘

 

Ontem saímos de Lobito e fizemos cerca de 700Km até aqui aos arredores da capital Angolana.

A estrada é linda. Desenhada junto à costa, permite-nos jogar às escondidas com o Atlântico que ora se revela, ora se esconde, numa promessa de frescura e de alívio para o intenso calor que se faz sentir. A vegetação é generosa e proporciona amplas sombras que tornam a viagem agradável e oferecem repouso ao olhar

É uma estrada nova e bem alcatroada que contrasta fortemente com os lamacentos trilhos que enfrentámos no Sul do país.

A via é muito movimentada, está cheia de veículos novos e potentes.

O único problema é que, a maior parte deles, não circula. Antes estão meio desfeitos na beira da estrada -  rodas para o céu - num arraial de vidros partidos, chapa amolgada, portas arrancadas e interiores escancarados.

Começo por contá-los – um, vinte e cinco, setenta e dois…desisto. Não circulamos mais de cem metros sem que passemos por veículo sinistrado.

Cinco jipes novinhos, a caminho do stand, ultrapassam-nos a grande velocidade. Vão em direcção de Luanda.

Eu continuo a minha actividade estatística e conto os veículos acidentados – 94, 95…

- Filipa este último jipe que estava capotado tinha uma roda a girar!

- ‘A girar? Tens a certeza?

- Sim, acho que sim…quer dizer, pareceu-me. O melhor é ir ver.’

    

 

Travo, inverto a marcha. Voltamos para trás.

E aí está ela, a roda a girar. Só uma, a roda esquerda da frente, como que a escarnecer do resto do veículo capotado, todo amolgado, transformado numa massa disforme de ângulos mortais.

Saímos do jipe. Da ladeira para onde o veículo sinistrado escorregou chegam-nos gemidos. À nossa aproximação os gemidos transformam-se num grito:

-‘Ai! Socorro que eu morro aqui!‘

 

Breves segundos de indecisão. Depois precipitamo-nos para a estrada, mãos erguidas a pedir aos outros condutores que parem e venham ajudar, porque o certo é que nós não sabemos o que fazer. Pára um, depois outro. Em breve cinco ou seis veículos estão alinhados na beira da estrada. Alguns homens saltam de imediato para a ladeira e começam a tentar desencarcerar o condutor. Todos parecem saber exactamente como agir. A porta não abre, o jipe está entalado entre dois abetos. Oferecemos a nossa pá e com ela conseguem por fim cortar um dos abetos e abrir a porta. Do seu interior o jipe vomita o corpo ensanguentado de um desorientado, mas vivo, jovem que parece não perceber bem o que é que se está a passar.

 

Da soleira da porta da D. Liberdade avista-se a estrada que liga o Lobito a Luanda. Vêm-se também dois ou três carros acidentados.

- ‘Vêm como eles correm? É isso que as kianda fazem aos homens. Prometem-lhes riqueza, prometem fortuna. Eles acreditam e correm para Luanda, onde a promessa se irá cumprir. Vão com tanta pressa que se matam.‘

 

Perto daqui, do Miradouro da Lua, diz-nos elas que em tempos houve uma aldeia a quem as sereias ofereceram riquezas e prosperidade sem igual. Avaros os homens guardaram para si toda a riqueza, ocultando-a das aldeias vizinhas, não partilharam a fortuna. Como castigo as ianda submergiram a aldeia inteirinha que ainda hoje vive no fundo do lago. Ao entardecer, garante a D. Liberdade, ouvem-se, vindos do fundo do lago, as vozes das crianças, as mulheres a pilar, o ladrar dos cães e as vozes dos homens que mutuamente se culpam pelo castigo que lhes foi infligido.

 

 

Paramos no Miradouro da Lua, mas apesar do silêncio que emoldura a estranha paisagem, não distinguimos qualquer voz. Ra cheira curiosamente o vento que sopra do mar, que avistamos ao longe.

Seguimos para Luanda. A cidade dos búzios.

É deste molusco que nasce o nome antigo da capital – lu-ndando- sendo que ndando nomeia os pequenos búzios, que em tempos enchiam a baía, servindo de moeda de troca corrente em boa parte da costa ocidental africana.

Parece que toda a cidade vive encantada pelo canto das sereias angolanas. Guiados pela sua voz milhões de angolanos precipitaram-se para a capital. Muitos vivem nos gigantescos musseques, bairros de lata, que a circundam.

Quando em 1575 Paulo Dias de Novais fundou aqui a primeira povoação viviam cá alguns milhares de nativos, aos quais se juntaram cerca de setecentos colonos. Luanda acolhe agora cerca de cinco milhões de almas e gente de todos os continente. É uma metrópole cosmopolita e fatigantemente dinâmica.

.

Há medida que nos aproximamos do centro da cidade e do mar compreendemos que, em breve, nada restará da antiga cidade. Por todo o lado se constrói. Há mais guindastes que postes de electricidade. Não vimos rua que não esteja a ser transformada, bairro que não sofra obras.

Há desejo de progresso e parece haver dinheiro bastante para matar a sede de todos os desejos de transformação que existem na sociedade angolana.

Na cintura da cidade, na fronteira entre o núcleo urbano e o mar de musseques, nascem dezenas de bairros sociais que se destinam a alojar os milhões que vivem em barracas e que comprometem seriamente a imagem da cidade. No centro despontam luxuosos edifícios de escritórios, lojas e bancos. A Ilha do Cabo tem vistosas moradias e está cheia de bares e restaurantes de luxo.

A capital é proibitivamente cara.

De uma Luanda mais antiga sobram as vendedoras de fruta, de peixe e de legumes que, vindas do mercado Roque Santeiro, descem à cidade para vender mangas, ananases e carapaus. No caminho passam por um moderno centro comercial com cinemas, e centenas de lojas que anuncia, a breve prazo, o fim da actividade destas feirantes.

 

 

Um dia, conclui a D. Liberdade, uma sereia saiu das ondas e foi ter com um pobre pescador a quem revelou a existência de um tesouro. Subitamente enriquecido, o homem passa a comportar-se de forma egoísta, gastando toda a riqueza em proveito pessoal, nada partilhando. Como castigo a sereia faz desaparecer o tesouro e o homem fica na mais completa miséria e atormentado pela memória da sua antiga riqueza.

 

Oxalá Angola não esqueça as suas antigas histórias.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: ,
Angolar
09 Abril 10 10:00

 

Não viajamos  de forma tradicional. Não desembarcamos em aeroportos, não vamos para hotéis previamente reservados. Não temos roteiros a seguir. Não dependemos dos transportes locais, de estradas ou de guias turísticos.

Usufruímos de uma certa liberdade, que advém da circunstância de nos deslocarmos em transporte próprio e de possuirmos um tempo que, ainda que limitado, é elástico e nos permite caprichosos desvios, demoras e paixões por este ou aquele local. Um tempo que nos possibilita seguir esta ou aquela rota dependendo da vontade do momento, do capricho ou da intuição.

 

 

 

Quando um país aceita que nós o percorramos, aceita que dois estrangeiros vagueiem, com grande autonomia, pelos caminhos da sua intimidade. E, assim, escancara-nos a vida dos seus cidadãos.

Aceita a diferença do nosso olhar e a eventual injustiça da nossa observação.

Este facto, sendo banal na Europa, não o é em grande parte do mundo. A liberdade de circulação de que gozamos aí, no velho continente, é uma bendita excepção.

Os chineses, por exemplo, não nos permitiram entrar, nem acharam estranha a proibição. Ao fim e ao cabo, um país é a casa dos que lá vivem –  e só aceitamos em nossa casa quem queremos. Os russos permitiram-nos a entrada mas, a cada cem quilómetros, faziam questão de nos lembrar que não éramos bem-vindos.

 

A África subsaariana é, ainda, o território da desconfiança; onde há velhas contas por saldar, onde o mais fraternal sorriso convive com velhos ressentimentos sedimentados em anos de abusos, de incompreensão, exclusão, soberba e indecorosa injustiça. 

Enquanto colonos, nós, portugueses, miscigenámos os sangues. Agora, enquanto homens livres, temos de aprender a miscigenar as almas. Temos de descobrir que parte do nosso caminho passa por aqui, pela mãe África. Seremos tontos se o não fizermos.

Cada homem é uma raça, cada nação define-se pelo que é, mas também pelo que sofreu para o ser. É na forja das suas adversidades que se tempera a sua identidade e a sua força.

É fundamental que o recordemos quando nos passeamos por novas nações.

 

 

Vamos entrar em Angola. Não vamos passear, vamos angolar; tornar o nosso olhar e o nosso sentir angolano.

É isso que eu, português, sinto quando entro em Angola – tal como o havia sentido em Moçambique. Não vou visitar um país estrangeiro – vou ver a família.

Depois de passar três continentes e de ter percorrido mais de sessenta países, já não tenho qualquer dúvida: quando entro num país com o qual partilhamos a língua, a história e muitas emoções, ninguém me convence que estou no estrangeiro. A minha cabeça diz-me que sim, mas tudo o resto a nega. Isso torna-me, simultaneamente, mais tolerante e mais exigente.

Em Moçambique garantiram-me: os angolanos são confusos.

– Iiich, vais ver brada, só pensam em jobar e em dólares e tal... São confusos!

E a primeira abordagem à embaixada de Angola em Maputo parece confirmar a análise:  muita estranheza por querermos entrar por terra e não ir de avião como toda a gente, muitos papéis a preencher, muitas justificações a dar.

– Por que é que, sendo portugueses, estão a pedir o visto aqui e não em Lisboa?

Por fim, uma carta-convite enviada por um velho amigo angolano resolve todos os problemas e lá nos dão o visto.

 

Entramos em Angola pelo Sul, vindos da Namíbia. Os primeiros quilómetros são desoladores.

Antes de partirmos de Moçambique tínhamos ouvido na rádio que um português tentara, há poucas semanas, realizar a ligação Maputo-Luanda, ao serviço de um órgão de comunicação social. Fracassou, poucos quilómetros depois da fronteira angolana, derrotado pelas picadas do Sul de Angola.

É fácil perceber porquê! 

Mal entramos em Angola, acabam-se as estradas de macadame a que nos tínhamos habituado na Namíbia e que, sendo desconfortáveis e extraordinariamente poeirentas, eram transitáveis. Aqui entramos em densa mata cortada por uma vaga impressão de trilho. Terreno abrupto, imprevisível e escorregadio – e que só conseguimos vencer graças à longa experiência adquirida na Tanzânia. Não há placas nem qualquer sugestão de direcção a seguir.

 

Arrastamo-nos por aqui a uma velocidade média de 40 km por hora, aos solavancos e – acreditamos – em direcção a Ondjiva e Lubango, que estará a cerca de 500 Km. Ou seja, esperam-nos cerca de dez ou doze horas neste terreno!

Paramos no mato para aliviar o corpo e a fome.

– Telmo, cuidado, chama o Ra! – grita-me a Filipa, ao mesmo tempo que me indica uma pequena placa metálica de cor vermelha com uma caveira desenhada a branco. São minas!

À nossa volta todo o mato está cheio das mesmas placas. Estamos no meio de um enorme campo de minas – e é impossível afastarmo-nos meio metro do trilho sem o risco de pisarmos uma. Acabou o passeio para o Ra. Assustados, regressamos ao jipe.

 

Seguimos viagem – e por horas e horas o panorama não muda. Quarenta anos de guerra e o receio de possíveis incursões do exército da África do Sul deixaram uma pesada herança de centenas de quilómetros de terrenos minados.

Nos campos, por entre os sinais de minas, vêem-se cabanas e mesmo pequenas aldeias. Crianças brincam audaciosamente no terreno mortífero, homens pastoreiam cabras, mulheres desfilam com ramos na cabeça. Todos indiferentes ao perigo que os rodeia. Conhecerão por certo os caminho seguros e como evitar a morte escondida; mas, para nós, a visão é arrepiante – e esperamos a qualquer momento escutar a detonação de um dos traiçoeiros engenhos.

Foi uma longa e nervosa viagem até Lubango, onde finalmente deixámos para trás a ameaça subterrânea.

 

Lubango é uma pequena vila de passagem. Aqui e além há vestígios de velhas casas coloniais, quase todas em ruínas. Na pequena pensão, sem água corrente nem electricidade, pedem-nos dez mil kwanzas (cerca de 80 euros) por uma cama. 

Hoje de manhã seguimos para Lobito. A chegada a esta cidade lava-nos de todas as fadigas e mostra-nos uma outra Angola.

Lobito é bela, amena e relaxante. O mais aprazível abrigo que encontramos no nosso périplo angolano.

A cidade parece ter já recuperado totalmente da guerra: as vivendas estão restauradas e habitadas, as ruas estão limpas e os jardins viçosos. Apetece passear na mornidão da noite e usufruir das esplanadas e do mar. O que não se percebe são os preços praticados. Não há hotéis a menos de 150 euros€ e duas pessoas não comem por menos de 60.

Em Angola só o combustível é barato. Um litro de gasóleo custa cerca de 30 cêntimos. Tudo o resto é proibitivo.

 

Apesar disso não parece haver angolanos mal dispostos. Pelo menos connosco, todos se desfazem em cortesia e vontade de ajudar. Mimam-nos com simpatia, falam com prazer sobre Portugal e os portugueses. Não os encontrei ‘confusos’, como os caracterizaram os meus ciumentos amigos moçambicanos, antes convictos e orgulhosos.

Talvez mais formais e sérios do que os seus irmãos do Índico, mas igualmente solidários e fraternos.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Tribalistas
01 Abril 10 10:00

       

Para mim a beleza é a riqueza ocre da terra, o vermelho do sangue que é vida.  

 

Mukuro é deus. Sagrado é o fogo com que comunico com os que já morreram. Carrego a cinza de onganda (acampamento) em onganda, só assim o fogo vive sempre. Desde os tempos mais antigos a cinza sagrada acompanha-me, desde que viemos para estes territórios com os povos Bantu. A minha família está viva aqui, na minha mão cinza.

Eu sou pastor, isso sou eu. É o meu talento. Vivo com a natureza, imito os meus animais, que são os meus amigos, a minha companhia, a minha família. Cada cabeça de gado tem um nome, e quando os chamo eles respondem-me.

Eu cubro a minha pele com uma mistura de gordura de vaca com pigmento avermelhado da terra e ervas que conheço pelo seu perfume. Assim limpo a minha pele, as minhas mãos, com cinzas que conheço bem.

Eu brilho ao sol.

Brilho na minha pele nua de roupas, decorada apenas de peles de vaca e de ornamentos que me embelezam e salvam dos perigos, como as tornoseleiras que me protegem as pernas de mordeduras de cobras.

Eu sigo o meu caminho, os meus seguem-me.

 

Conheço os campos, os animais venenosos e os comestíveis, os perigosos e os dóceis. Conheço o céu e as chuvas, a terra e as secas. Conheço os segredos das ervas medicinais.

Eu durmo sob as estrelas em acampamentos de lama e palha. O meu gado é gordo e forte, as minhas crianças e mulheres são saudáveis.

Bebo o leite das vacas, educo os meus filhos e os do meu grupo. Bebo a água que carregamos dos poços e vivo nas casas que as mulheres constroem.

Eu vagueio nas áreas mais remotas, onde não chegam as máquinas dos homens. Eu pasto com as minhas vacas de cornos retorcidos, com elas procuro as nascentes e os poços de água, os lagos e os rios. Com elas encontro a vida.

Desde que nasci que olho o deserto, desde os tempos mais antigos que é o deserto que me dá tudo, as minhas sandálias de pele de vaca, as minhas casas de lama, o cobre e o chumbo, as conchas, o pigmento e as ervas.

 

Eu caminho nos territórios que são Namíbia e Angola, eu não posso caminar para outros lugares, os meus antepassados estão enterrados aqui, nós não podemos deixá-los sozinhos.

Vivo sem nação. O governo destes lugares talvez se envergonhe de mim, do meu viver livre (bruto, selvagem, retrógrado, ignorante, incivilizado). As agências turísticas querem conservar as minhas tradições (como num museu).

Ninguém me pergunta dos meus desejos.

As barragens e as cidades, os hospitais e as escolas crescem por muitos dos lugares que passo, mas ainda caminho. Mudando de lugar de acordo com as minhas necessidades, como faziam os meus pais e os pais antes deles. Eu honro o meu nome.

Eu sou Himba.

 

Estou em Kaokoland, depois de não sei quantos quilómetros de dunas e deserto, aqui, no Norte da Namíbia, a vegetação é tão luxuriante e fértil que custa a acreditar que esteja no mesmo país.

Visito as cascata Epupa, e as Ruacana. Mas é pelo terreno seco que me aproximo do acampamento.

As mulheres rodeiam-me de imediato, falam entre si. Ele olha-me, tingido de ocre, o cheiro é intenso, a pele macia, o toque de borracha, vem para o meu colo e brinca com o meu colar de missangas branco, fixa-me, olhos grandes que param nos meus. Elas continuam sempre a conversar, riem, tocam-me, comparam as minhas pulseiras de prata egípcia com o cobre Himba, conversamos nesta língua de contacto e olhares. A conversa é feminina, Telmo é deixado de fora.

Contam que um grupo de Himba em Angola, poupado ao contacto com a civilização pela guerra, se espantou com um cabelo loiro, tomando-o por crina de cavalo, e perguntou a uma jornalista ocidental se era mulher ou homem.

Lá, o único contacto que procuram com o mundo exterior é no caso de doença grave, aí atravessam longas distâncias de território seco e rios infestados de crocodilos, acompanhados de uma cabeça de gado que deixarão com o médico, como pagamento.

 

Mas isso é lá, do outro lado da fronteira. Aqui, na Namíbia, as Himba correm para mim, visivelmente interessadas no meu aspecto, mas não tanto quanto nos dólares, que pedem de imediato, acertando o valor para uma fotografia de grupo.

 

Sim, incomodam-me os caminhos que fazem o mundo chamado civilizado chocar com este, na nossa visão romântica o mundo puro, perdido, intocado. Sinto que aqui não é bem assim, mas não sei. Até hoje nunca comprei uma foto, nunca me fotografei desta forma, na companhia das tribos de África. Agora exibo as fotos exóticas, retrato de um momento intenso e bom. Mas acompanham-me as dúvidas.

 

Aqui os Himba fazem fila no multibanco e na charcutaria do supermercado SPAR.

No mercado procuro as jóias das mulheres, tento as negociações em línguas impossíveis, quando reconheço a maneira como comunicam entre si: o português! Muitos povos de Angola, angolanos e portugueses vivem aqui, no norte da Namíbia.

Seguimos para Angola. Num cruzamento, a 30 km/h uma tracker velha bate contra o nosso jipe, frente amassada e um farol partido. Do interior sai um homem mais velho, na cabeça o corte de cabelo Himba, no corpo a mistura criativa das peles de animais com as roupas ocidentais. O Telmo vai perguntando:

– Seguro, quero ver o seguro.

Eu fico tão espantada como o dono do veículo. Seguro?! Serão os dias na confortável Maputo que o fazem esquecer que estamos nos lugares isolados de África?

Ele está atrapalhado, eu também, aos mais velhos devemos o respeito, a gratidão, a vida. Aqui cada um dos mais velhos tem em si os meus pais, os meus avós, todos os nossos antepassados. Telmo insiste, eu sinto-me mal:

– Deixa, é óbvio que não tem seguro.

Telmo volta as costas, furioso. Sim a viagem corre cheia de quedas, mas é sempre assim quando nós criamos para o nosso caminho obstáculos. Eu tento na língua local:

Tjike – tudo o que sei é um olá gago. Os olhos do homem procuram Telmo mas encontram os meus, vejo nos seus o receio nervoso, não é comigo que deve fazer as honras do encontro, da discussão, do perdão, das despedidas… mas ele fixa-me, junta as mãos em agradecimento, de novo se desculpa, separamo-nos.

Seguimos viagem e temos um, dois, três, quatro furos… o macaco deixa de funcionar e o que comprámos por segurança também, dependemos de novo da ajuda do outro, de quem passa.

Dependemos sempre.

O motor do jipe pára, queimam-se peças, fundem-se mecanismos eléctricos, furam-se radiadores e parte-se a correia da ventoinha… Não, nada conspira contra nós, somos nós que o fazemos. Eu já não acredito, a protecção foi.

 

 Canta a música que oiço no leitor de cd que «as memórias não vivem como as pessoas». Sim, sei que é assim.

África está cheia de estórias de tribos assim, perdidas, e todas têm para mim o sabor doce dos contos de fadas.

Os Himba vivem esquecidos nestes caminhos sem diamantes ou petróleo, caminhos que o Homem não procura, pelos quais não luta, que não invade nem transforma. E nas sangrentas estórias de guerra e confrontos é poupada esta vivência tribal, tão antiga quanto a Idade da Pedra, das mais intocadas do continente. Para mim, comparadas com esta realidade, são as nações desumanizadas, pisadas pela guerra, cegas de ganância e submersas em pobreza, que parecem perdidas.

Eles caminham sozinhos, pastando cabras e vacas, eles não precisam de nós.

Mas eu preciso deles. Para sonhar, para acreditar de novo.

E hoje, agora, neste mesmo momento eu gostava de ser Himba.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , , ,
O canto do vento
26 Março 10 10:00

       

Por que razões se sobem montanhas, se cruzam oceanos, se exploram desertos ou se atravessa a África? Porque eles estão lá, existem e atormentam a nossa imaginação.

Lembro-me bem de como começou: era pequeno e a casa onde passava férias ficava entre o mar e a falésia. Eu olhava para a falésia – alta, empinada, misteriosa, ameaçadora - e perguntava ao meu avô o que é ficava por detrás dela, o que se avistava do seu cimo. Ele falava-me de grutas, de árvores grandes como prédios, de raposas e coelhos e, naquela manhã em que regressávamos da praia e em que de novo o inquiria, ele – talvez exausto de descrever árvores e de me narrar a vertiginosa fuga do coelho – diz-me:

‘Olha, o que se vê bem de lá de cima é o outro lado do Mundo. Ficas a ver o pôr-do-sol e, mesmo antes de ele desaparecer, consegues ver o outro lado do Mundo!

 

Foi demais para mim. Dois dias depois, no fim do almoço e com o coração a latejar nos ouvidos, declarei solenemente, do topo da minha impertinência infantil, que no dia seguinte de madrugada iria escalar a falésia e que o Álvaro – um amigo que se destacava por trepar às árvores como ninguém – não só me acompanharia como, argumento claramente decisivo e susceptível de vencer qualquer oposição materna, até já tinha uma corda!

‘Ai Jesus, Deus te livre! Queres apanhar uma bofetada?‘

      

 

Exclamou a minha mãe indiferente à solidez do argumento. Do outro lado da mesa chega-me o olhar intimidante do meu pai.

Mas, antes que ele tivesse tempo de pronunciar o veredicto final, eis que da cabeceira da mesa se ergue a voz, cúmplice mas autorizada, do meu avô-

Deixa lá o miúdo, ir. Mais vale saberes quando ele vai do que ele ir sem tu saberes.‘ Depois chamou-me, solene, e disse–

- ‘Vai e volta. Se conseguires ver o que te disse, ofereço-te uma bicicleta!‘

No topo da falésia expliquei a um desiludido Álvaro que não, que o meu avô não estava seguramente enganado – que aliás ele nunca se enganava – e que a única e exclusiva razão pela qual não víamos o outro lado do Mundo com clareza, era porque o vento tinha arrastado as nuvens e encoberto o horizonte. Não fora tal desfaçatez, concluí, estaríamos agora ambos a ver a África e os leões e essas coisas.

 

Fui e voltei. Dois dias depois tive a minha primeira bicicleta.

Foi o meu avô quem ma ofereceu. A bicicleta e a vontade de um dia conseguir chegar ao sítio de onde se via o ‘outro lado do Mundo’.

 

Uns anos depois lia o relato de Serpa Pinto e sonhava em, como ele Ivens e Capelo, um dia poder atravessar a África.

Foi pois uma improvável aliança entre o meu avô e os exploradores portugueses do século XIX, que me trouxe aqui. Claro que não sou um explorador - já tudo parece estar descoberto - não passo de um mediano intérprete de caminhos. Tive apenas um desejo imperioso de, mal chegado a Maputo e de aí ver o Índico, ir até Luanda para rever o Atlântico; atravessando a África Austral e procurando refazer parte da rota de Serpa Pinto no processo.

Diz ele do continente africanos que ‘Difficil é comprehendel-o a quem o não experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o’.  

Cento e trinta anos depois quase tudo mudou em África. Mas estas palavras não perderam actualidade.

       

 

A nossa rota entre Maputo e Luanda leva-nos a atravessar a Namíbia. De novo fomos nós, portugueses, os primeiros europeus a desembarcar e a reconhecer as costas deste país. Diogo Cão alcançou-o em 1485 e Bartolomeu Dias no ano seguinte.

 

Aqui tudo parece ter sido tomado pelo vento. O país é um grande deserto. Uma enorme porção de nada aberta a um vento que sopra do Atlântico e se espalha pelos desertos laranjas desta terra. É singularmente belo. Despovoado, desequilibrado, injusto na forma como divide as suas riquezas, mas belo.

Windohek, a capital, significa aliás ‘canto do vento’ e, como a maioria das cidades deste país, é uma réplica de uma cidade alemã.

Tal como a capital, também Luderitz ou Keetmanshoop parecem ter parado no tempo e mudado no espaço. A sensação é a de que estamos na Alemanha dos anos 30 do século XX. Do tecto das cervejarias – frequentadas exclusivamente por brancos – pendem estandartes dos antigos principados alemães, mas também da Catalunha e de Andorra, do Liechtenstein, da Bósnia e de dois ou três cantões suíços. O elogio do espírito independentista típico do século XIX europeu mistura-se com a cerveja que corre abundante soltando as línguas. Aqui, asseguram-me, a II Guerra Mundial não passa de uma hipótese, de uma teoria anglo-saxónica. Nenhuma bala aliada perturbou as ébrias noites brancas de Windohek. Na capital cheia de centros comerciais, livrarias e teatros, não consigo deixar de me surpreender quando vejo um grupo de mulheres Himba, vestidas de lama da cabeça aos pés, a passearem a sua diferença.

 

Um profundo silêncio acolhe-nos na nossa chegada às Portas do Inferno. Assim chamavam à costa Norte da Namíbia os marinheiros portugueses do século XVI. Costa dos Esqueletos, lhe chamam agora.

Lugar de morte, cemitério de baleias e de centenas de embarcações que, atraiçoadas pelos densos nevoeiros causados pela corrente do Golfo de Benguela, aqui encalharam depositando, ao longo dos séculos, milhares de almas.

 

Sobre as águas corre um vento gelado. Sobe pelas areias e assobia nas carcaças das embarcações. Murmura-nos indecifráveis lamentos e arrepia-me.

Parto. Tenho pressa de me aquecer em Angola.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Diamantes são pedras
19 Março 10 10:00

Viajamos na vasta planície seca. Olhar tudo como se fosse a primeira vez é um exercício… refrescante.

O meu olhar já se habituou à estrada plana e longa, de gravilha clara, ao horizonte seco… e quando de longe nele noto uma marca - uma planta sobrevivente, uma manada de cavalos selvagens, uma casa – todos os sentidos se apuram como se a experiência fosse nova e há muitos anos eu estivesse entregue a este existir solitário dos territórios quase desabitados. E a imagem destes elementos no solo estéril é… estranha. Parecem deslocadas as construções, os animais, as plantas… tão sós.

Pessoas invadem os lugares dos animais, águas invadem a pedra, areias invadem as casas, gritos invadem as doçuras e as cidades sobrevivem, fantasmagóricas.

Entro pelas casas abandonadas da cidade fantasma nos arredores de Luderitz, sento-me na areia quente e lisa, como se nunca tivesse sido pisada.

A paisagem reforça as filosofias do desprendimento, as coisas não são nossas, são-nos apenas emprestadas por um período limitado de tempo. O vento traz, o vento leva. A areia engole, parte os vidros, devassa as portas, leva os móveis, perfura os tectos, fende os soalhos e sobe, sobe até à liberdade sinuosa de uma duna.

Na Namíbia há diamantes, muitos. Por muito tempo garimparam diamantes aqui, por todo o lado, dentro das areias claras. Desde há muito tempo e até hoje, cidades foram construídas, cinemas inaugurados, igrejas abençoadas, hospitais erguidos, teatros estreados e casas… as casas nasceram como ninhos, esconderijos dos Homens, protecções dos frios nocturnos, das manhãs quentes, dos olhares… E nas casas dormiram, comeram, amaram, discutiram, jogaram, beberam…

E agora… agora a areia que todos os dias escrutinavam em buscas de preciosidades, essa mesma areia veio, os habitantes da cidade viviam das pedrinhas que encontravam na areia, ela avançou. Avançou. Os homens ingratos abandonaram as pedras, apenas porque entre elas se encontravam cada vez menos aquelas a que dão o nome de diamantes. As mais famosas, as mais dispendiosas, as poderosas pedras. As mais brilhante, as mais duras, as nada mais.

E enceno. Ou melhor, o meu corpo avança entrando pelas janelas, escorregando pelos telhados, agachando-me nas portas. Sento-me nas janelas de vidros partidos, no chão coberto. Subo pelas pequenas dunas interiores até aos tectos de madeira partida, de tinta cascada. Vivo as estórias, imagino as pessoas nas varandas, as olhares por estas janelas, as visitas nestas portas, as despedidas nas janelas de sacada, as lágrimas nas banheiras de esmalte. Oiço os lamentos, ou imagino-os… o teatro é coisa que vicia a imaginação.

- Esta mina fechou porquê?

- Deixou de haver diamantes.

- Mas parece… triste, houve alguma guerra aqui?

- Acabaram os diamantes.

Olho o cartaz “Ghost Town” inspiro o ar seco cheio de fantasmas, sim, talvez seja eu que imagino coisas. Tenho uma estranha atracção por ruínas, contam sempre tantas estórias. Olho as janelas entreabertas surpreendidas no seu movimento pela areia invasora.

- Tenho sede. – os olhos acompanham a paisagem e parece que as imagens passam na minha garganta, areia, areia, areia. Seca, áspera, angulosa, clara.

- Imagina caminhar aqui e perder o caminho? Se o jipe se avaria… - e, olhando os sinais de proibido. Proibido parar, virar, estacionar. Parece que é proibido sequer olhar o chão, ou aproximar os dedos da areia empoeirada…

- E se encontrássemos aqui um diamante?

- Provavelmente pagavas a audácia com uns anos na prisão. Ou provavelmente não o identificarias.

- Bom, provavelmente trocava-o por uma garrafa de água! Tenho sede.

De vez em quando um cacto destaca-se na paisagem absolutamente inóspita, um cacto com aspecto de árvore, que não parece real. Novas lendas nos oferece a natureza, como sobrevive neste clima? Neste solo aparentemente tão estéril?

Seis cavalos caminham a passo, cabeça baixa e patas lentas, num lugar onde o clima é tão seco e as distâncias tão vastas que o saciar da sede não é acção, é milagre, este caminhar é luta pela vida. Pela liberdade de viver só, sem dono, pelo deserto quente.

Estes cavalos são fascinantes, não existem cavalos na África subsaariana por isso há várias teorias que tentam explicar a origem dos que vemos avançar a passo lento, de cabeça baixa e patas flectidas. Uns falam dos holandeses que foram os primeiros a trazer cavalos para a zona do Cabo da Boa Esperança no século 17, outros do naufrágio de algum barco carregado, e da possibilidade de os mais fortes terem nadado até à costa, outros defendem que são descendentes dos trazidos pelos alemães no século 19, outros que são sobreviventes da cavalaria sul-africana na primeira guerra mundial…

Os cavalos do Namib avançam alheios às questões dos homens. Comem enquanto andam, ficam pouco tempo no mesmo local, têm de percorrer distâncias entre 15 e 20 km para beber, para pastar. Por vezes têm de passar sem água mais de 30 horas no verão e mais de 60 no inverno. Observo os sobreviventes, tenho sede.

Em Luderitz exploramos as ruas, as praias de água atlântica gelada, o ventoso “Diaz point” - é uma visão de Alemanha em África, desconcertante.

Saímos preparados para seguir viagem, e quando passamos a cidade fantasma:

- Sabes, sinto-me triste, gosto deste lugar…

- m****, o jipe não anda!

Abrimos o capo, as baterias estão descarregadas, as duas!

Preparo-me para fazer a pé o quilómetro que nos separa dos fantasmas – que tanto me encantam – passa um jipe, as pinças nas baterias alheias ligam o motor, voltamos para trás.

Na cidade procuramos os mecânicos, é feriado, não há pessoas nas ruas, tudo está fechado, voltamos ao hotel. No parque de estacionamento, entre engenheiros bem vestidos e overlanders empoeirados todos investigam o nosso jipe, todos se debruçam no capo aberto. Vêm os motoristas, os guardas, os amigos e os conhecidos, a dona, o gerente… e finalmente recebemos o contacto de Adolf, o mecânico alemão. Durante horas monta e desmonta peças, o alternador, as baterias… tudo parece estar bem, mas funcionar mal. Finalmente entrega-nos o jipe pronto, seguimos viagem, e… quando passamos a cidade fantasma:

- Esta cidade tem qualquer estória… gosto mesmo de…

- Ainda bem, porque o jipe não pega. Vou ligar ao Adolf. – baterias recarregadas e somos escoltados até à cidade dos postais do Norte da Europa…

Azares ou energias da terra. Sorte ou protecção das estrelas, dos amores…

Cada um é para o que nasce e eu não nasci para planear, antecipar, elaborar muito um futuro, ainda que próximo. Para mim a viagem são surpresas e o caminho será… como acontecer. Não resisto, mais uma noite em Luderitz, a estrada decide, avançamos no seu passo misterioso.

Caminhamos à beira-mar, do outro lado a pequena ilha tubarão. Parece que a sua estória foi esquecida pela Namíbia mas aqui, durante a guerra (1904-1908) os alemães mantiveram cativos homens, mulheres e crianças como prisioneiros de guerra… as estórias são de frio, fome, sede, espancamentos, violações, doença, morte.

Estes presos em trabalhos forçados construíram a bonita cidade que tanto se assemelha a Alemanha.

Sim, são fantasmas esquecidos, o brilho de pedras polidas e duras como os diamantes ofusca as estórias, aqui como em toda a parte. Os homens lutaram, e ainda lutam, quanto a mim investigo as estórias de sobrevivência nas grutas e entre as pedras, nas areias e entre diamantes. E para mim está nas lições da natureza, nas estórias da minha viagem, na história do Homem, os diamantes são pedras. E é isso que pesadamente canta a areia que rodeia Luderitz.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Vejo a lenda
12 Março 10 10:00

Isso não é preciso! A viagem não é assim tão grande... – Achas? – Bem, se calhar tens razão. É melhor levarmos tudo.

Juntamos a bússola, o mapa, o diário de bordo, a máquina fotográfica, o saco com algumas roupas, as botas, os botins, a tenda, os pneus suplentes, a bomba, o macaco…

O Ra salta para o banco de trás – e iniciamos uma nova viagem.

 

Saímos de Maputo de manhã. Temos uma fronteira conhecida para atravessar, um país com estradas, um bom mapa, um acesso fácil ao Estado vizinho.

Para quem está habituado a estrada sem fim, esta rota sabe a férias. Mas a verdade é que o plano de fazer Maputo – Luanda em 40 dias não é o que se pode chamar um projecto modesto. Continuamos, porém, com a coragem própria dos inconscientes. E o facto de, sobre Angola, só encontrarmos registos dos sonhos imperialistas do antigamente e relatos vagos do presente não nos preocupa. A viagem faz-se quilómetro a quilómetro, não pensamos muito.

Mas desta vez até planeámos as coisas. Calculámos distâncias e antecipámos dificuldades – o que aumenta as possibilidades de sucesso.

Puro engano, porém! Mais uma vez se confirma quanto é vaga a relação entre o planeamento e o sucesso.

Nesta viagem, a chamada ‘protecção’ –  que era resultado da intuição quente das relações de amor – foi-se, e já não sabemos como agir. Perdemos a capacidade de  improvisar. O que eram os caminhos da sorte são agora os do azar.

Nos primeiros desafios, as fronteiras são pacíficas, a estrada alcatroada, a língua conhecida, as placas legíveis, os lugares turísticos sinalizados, as distâncias confortáveis, as estações de serviço recheadas. Os hotéis simpáticos, acessíveis, com água corrente, pequeno-almoço, lençóis limpos, ventilação.

Atravessamos a África do Sul e aproximamo-nos cada vez mais do Kalahari, o falso deserto. E digo ‘falso’ para os que acreditam que o deserto são dunas de areia fina e formas arredondadas. Para os que vivem lendo na paisagem real o sonho fantasiado dos filmes e das lendas. Como eu.

 

Entramos na Namíbia.

Namíbia é uma lenda de terra seca, de vastas planícies, de povos nómadas que sempre mudam de lugar. Uma história de espaço vazio, de possibilidades, de terrenos proibidos. O país que tem uma das menores populações do mundo – mas se chama ‘vasto’. E ostenta dois oryx no brasão de armas.

Eu deslumbro-me com a vastidão.

Entramos pelo Sul, aproximamo-nos do Canyon, A paisagem anuncia-o há muito tempo e a máquina dos registos efémeros do pestanejar já dispara há muito. Todas as formações rochosas são belíssimas aqui: gigantescas, cheias de contornos e colorações surpreendentes. Um fio de rio chamado peixe fende a terra formando o maior Canyon de África: 160 km de comprimento, 27 km de largura e, por vezes, 550 metros de profundidade.

 

Avançamos, apenas seguindo as placas. A estrada termina no precipício disfarçado pela planície. Paramos o jipe, eu e o Ra saltamos para o exterior. Olhamos o Canyon de um miradouro.

Lá em baixo, ficam as montanhas rochosas e o rio serpenteante como uma cobra. Um fio de água verde brilha: como é possível a água fender assim a pedra?

Tenho uma sensação morna de pequenez, como se a natureza me embalasse carinhosamente ao colo. Sinto o calor e o deslumbramento do colo da Mãe. A respiração sossega, o batimento cardíaco diminui, os olhos semicerram-se, desfocando a visão serena e forte do Canyon.

Inspiro. Guardo o momento no espaço secreto das emoções. Este Canyon agora também é meu.

 

Rodamos em estrada recta, de gravilha, a perder de vista. Plana, plana… Eu vou saudosa da sensação da areia a rodear-me.

De olhos húmidos e coração seco, avanço.

E chegamos ao deserto. Noutros lugares, esta frase não faria sentido. Mas aqui há uma estrada, há uma placa e, surpresa das surpresas, há uma porta! O terreno desértico ocupa quase todo o país – mas o sonho exótico das dunas e depressões de areia finíssima sem sinal de construções ou vida é aqui – depois de passar esta porta.

E este deserto é… cor de laranja!

Terreno rico em ferro, em minas de sal, tungsténio, diamantes. Seco, seco, seco. A terra abre-se em gretas de linhas labirínticas, o vento não traz alívio.

As lendas contam que aqui vivem elefantes, leões, oryx. Mas todos sentimos que é impossível sobreviver aqui.

 

Caminhamos. E a lição da minha primeira subida de duna, na Jordânia, regressa às minhas pernas. E não subo a direito – sigo a crista ondulada da duna, como uma onda.

Aqui, em Sossusvlei, estão as dunas mais altas do mundo, com mais de 300 metros. Como é que sei? Este deserto tem placas. Com direcções, com explicações, com informações sobre parques de estacionamento para veículos 4X4 e de tracção às duas rodas. Confesso que me sinto um pouco como num parque de diversões. Para mim, deserto é a vastidão… selvagem.

Arrasto-me pelas dunas. E quanto mais alto subo mais vezes me sento. Esvazio garrafas de água e encho-as desta areia ocre, fina, quente. Levo-a comigo para protecção, como os vampiros levam terra para conservarem os seus poderes.

 

Caminhamos pela areia vermelha. Tinha saudades do cheiro seco que invade as narinas e o peito, da visão falsamente estéril e monótona.

Caminhamos até aos vales de florestas secas, árvores nuas, escuras de morte, enterradas na brancura do sal.

O chão gretado do calor entre as montanhas de areia ocre esconde resorts onde a água não falta no chuveiro e mariscos compõem a ementa.

Ficamos aqui.

Vejo o deserto pela janela aberta na casa feita de lona de tenda. É bonito.

O ano também aqui começa. Aqui recebo o que é novo, deixo o que passou. Passei tantos lugares acompanhada pelo Telmo e pelo Ra.

Viajamos.

Não desperdices oportunidades, só aparecem uma vez. Não confies que é tua a sorte, a audácia, a companhia, a protecção, a vida. Tudo muda, tudo passa, tudo pode acabar. Não tomes nada por garantido – nem as leis e as regras dos homens, nem os instintos e os caminhos da natureza.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Espiralada
05 Março 10 10:00

       

É estranho, não é? Mas é verdade. Há uma estrada que liga a minha Casa ao Mundo, basta ousar percorrê-la. Nós atravessámos o globo. De jipe, de mapa na mão. Na viagem por terra, o olhar acompanha a metamorfose suave da paisagem. Em muitos lugares não há estradas nem placas. Viaja-se de aldeia em aldeia ao sabor das direcções dos locais. Em Portugal sonhava em viajar na Rússia. Sonhava com os destinos de cheiros intensos e cores fortes. Durante todo o caminho, lá do topo, o mais veloz dos companheiros de Orionte, observou-me. Sempre vivi acompanhada por eles, pelos pequenos deuses. Tantas vezes que anoiteceu e nós ainda procurámos alojamento. Parece mania, já sabemos que aqui não se viaja de noite, mas insistimos! Aprendo que sem a dádiva da terra ninguém vive. Que é ela que permite a vida e que gera todos os seres, de todas as vezes que novos seres nascem. Aprendo que as estórias aqui são duras. Vivemos o mundo dos homens e dos camelos nos oásis das mulheres de olhos negros. O tempo passa lentamente aqui. Discutimos as questões dos quilómetros e do câmbio, dos horários e das estradas, da língua e dos mapas. Pensamos, repensamos e optamos. Sim, a vida é feita de escolhas, todos ouvimos dizer, e são as escolhas que fazem o nosso caminho. Há coisas na vida para as quais só nos é dada uma oportunidade, disso tenho a certeza. Quando era muito pequena alguém me disse que temos direito a um desejo por dia. Todos nós, todos os dias. Ao anoitecer basta procurar no céu a primeira estrela, Vénus, e, dizendo a fórmula mágica - “Primeira estrela que eu vejo, realiza o meu desejo” - ter direito à atenção dos deuses. Há uma espécie de nostalgia em mim, o dia acabou, ergo os olhos, canto a fórmula, peço só que tudo corra bem. De novo a sensação de fragilidade - a visão da luta pela imortalidade faz-me sentir assim. Parece tão inútil. Tenho pensamentos negros, esta viagem pode ser a última. Seguimos por uma das mais antigas estradas do mundo, a auto-estrada do Rei, sem olhar para trás…

 

Agora não sei nada, mas sigo segura, desta protecção.

Passo os olhos pelo passado, os mecanismos da memória são misteriosos.

Hoje escrevo em deadline, no último minuto, no limite do tempo para publicar estas palavras que todas as semanas deixo sair para o espaço virtual, que as leva delicadamente, por caminhos vagos até essa que foi um dia a minha casa.

Casa é onde o coração está e a minha é aqui. Agora é.

Escrevo tarde, arrasto as datas de entrega e a finalização de registos. Imagino, sonho, vaguei-o. Nem todos os que vagueiam estão perdidos (Tolkein) e eu não estou. Nunca soube o caminho, mas só quando deixei de o questionar encontrei um rumo. O meu rumo.

Segui pelos caminhos que a estrada desenhou, que a estrela iluminou, que o amor aqueceu e que agora… já não existem.

Bom, ninguém diz adeus sem uma lágrima ou uma dor. Mesmo quando terminou, quando se resolveu, quando se afastou o caminho, se perdeu o brilho, se desligou a conexão, se desequilibrou a balança, se naufragou, se afundou, se afogou, se desistiu, se saltou no vazio, se suicidou, se acidentou, se perdeu, se deu, se ignorou, se esqueceu, se tropeçou…

Para mim a viagem foi feita de sabedoria de provérbios, palavras de poesia dos poetas, estórias, contos, lendas, boatos. Foi feita de carinho, de afectos, de encontros, de descobertas, de partilhas… foi feita de pânicos e prazeres, de medos, de dúvidas.

A beleza do primeiro amor é a de imaginarmos que não acabará nunca. Este acabou. Com esse terminar fecho um ciclo, um momento, uma fase, um capítulo.

Dizem-me que os círculos não se fecham, mas que crescem em espirais, enroladas e desenroladas de movimentos que se abrem para o exterior; que entram, invadindo, explorando, descobrindo o interior.

Hoje sinto-me assim, espiralada.

Escrevo em frente ao mar, janelas sobre o Índico, sombra de coqueiros, vento nos cabelos soltos. Escrevo com os fios dourados a passar nos meus olhos, gosto de ver a vida assim, com o brilho suave e lírico do ouro.

Bebo um copo de Ginja d’ Óbidos. Qual é o espanto? Sim, casa é isto, sentimento cheio de incongruências, temperado de sentimentos agridoces.

Não sei de onde vêm os humores e os ódios, as paciências e os amores, mas desde há algum tempo que este que me acompanhou na loucura de uma partida não é o meu companheiro em nenhuma chegada. Desde há muito que ao seu lado não é o meu lugar.

Partilhei sempre aqui as paixões, as hesitações, as irritações, assim partilho os fins.

Afastamo-nos, sou afastada, afasto-me.

Saio de casa de manhã com um saco ao ombro. Levo o celular, um passaporte, um cartão de crédito sem saldo e algumas roupas. Vou embora. Não sei para onde, ou como, mas sei porquê. Vou.

Começamos de novo, todos os dias, e quando o começo leva a teimosia de um capricho e a leveza de uma intuição ganha poderes de determinação. Assim vou. E tal como saí de Portugal, da minha casa africana saio sem nada, deixando tudo. Deixando aquele nada que guardamos com os cuidados de quem guarda tudo. Mas o tudo sou eu.

Estou em maputo, e desde que cheguei que me sinto em casa, entendo as ruas e a organização da cidade, frequento as esplanadas, os restaurantes, os cafés no passeio, na marginal, nos parques. Comunico as emoções livremente com as gentes, sinto os sorrisos, perco-me nas ilusões da partilha da língua – nas delícias do português criativo.

Brindo a coragem da ruptura, como brindei sempre.

Brindo, e o vinho torna mais imaginativas as conversas.

- Confesso, chamo-me Fartaria.

- Ahahahaha!

- Sim, é nome complicado, dá azo a confusões, chalaças e trocadilhos pouco dignificantes. Ninguém sabe de onde vem este nome estranho sei apenas que existe na zona de onde a minha família é originária uma terra com o mesmo nome. E conta-se na minha família uma estória: que um bisavô em dia de feira escolhia maçãs numa banca:

- De onde vêm estas maçãs?

- Da Fartaria – e como o meu avô as começasse a comer sem as pagar e a menina reclama o bisavô responde:

- Mas se são da Fartaria são minhas, não preciso de as pagar.

Confesso as imaturidades. Durante muito tempo não descobri o meu caminho, lutava. Desenhava percursos, inspirados - ou desinspirados - por proximidades e afastamentos. E o que dizia, que defendia, que fazia, que escrevia hoje poderia detestar amanhã, e discordar frontalmente, e sentir vergonha, e fechar a concha da personalidade por mais meses ou anos. Temia: “Se a abrir que poderá sair?”

Chovisca, caminho sozinha pela rua e vou pensando para mim que se o sol tivesse brilhado mais ultimamente há muito teria tomado este passo.

Chove, o comodismo que me adormecia os membros foi sacudido pelo safanão da desilusão. A vida adulta é feita delas. A estrela protege-me os passos e hoje mesmo eu, que nos acessos naturais dos amantes magoados ainda duvido, de novo recebo as certezas, os caminhos insondáveis abrem-me os olhos e o que contei um dia como “desfocado”, foca-se agora. Agora vejo-me. Só.

Viajo por Moçambique. Só, pelas ruas de lixos de Quelimane, com as crianças com deficiências de Nampula, no clima seco de Tete, pelo mar azul de Inhaca... Voltando sempre à personalidade forte e exótica de Maputo.

Aqui misturam-se tão bem as influências da Índia, de Portugal, da África do Sul. Aqui sentem-se os ritmos e os calores de África bem temperados de especiarias e brilhantes, comodamente instalados na sofisticação organizada da, ainda sonhada, nação arco-íris.

Caminho sozinha. Por dois meses entrego-me à filosofia budista que exalta o valor do pouco em oposição ao vazio da fartura. Vivo em casa alheia, durmo em colchão emprestado, e entrego-me à cidade. Sinto África pelos meus poros brancos de mulher. E sinto prazer.

De novo me apaixono. De novo brilha a luz em todas as coisas e tocam melodias doces em todos os sons.

E continuo minha viagem, tenho mais estórias e lendas e provérbios e imagens e sentimentos para contar. Mas não estou de volta. Escrevi no início “Adeus, até ao meu regresso” e ainda repito “adeus”.

E ninguém o diz sem uma lágrima, ou pelo menos uma dor. Eu não sou excepção, abro o coração e já não me escondo em conchas, para quê? Nem todos temos pérolas escondidas sabes, Joana?

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: ,
O beijo da Mulata
19 Fevereiro 10 10:00

A expectativa é grande. Afinal fizemos 59.672 km e andámos na estrada durante muito, muito tempo até aqui chegar.

Os moçambicanos nunca estão atrasados – estão sempre «a vir». Quando temos um encontro com alguém e, trinta minutos depois da hora marcada, lhe telefonamos a perguntar se se esqueceu, ele responde que não: que «está a vir».

De uma mercearia em Korgas, na China, liguei para o meu amigo Gilberto Mendes, em Moçambique, e disse-lhe que íamos a Maputo. Chegámos 16 meses depois. Ele não estranhou, pois sabia que nós estávamos «a vir» – e que, quanto mais tempo levássemos, mais histórias teríamos para contar. Não há pressa.

Chegámos a Moçambique!

Quantas vezes ao longo da viagem – quando atravessávamos o inclemente Cazaquistão, a interminável Rússia, o Sudão ou a Etiópia – me pareceu um projecto impossível de realizar, um sonho ébrio de inconsciência, uma temeridade absurda.

E afinal aqui estamos, à frente desta rubicunda guarda de fronteira sul-africana, última barreira ao nosso regresso à língua portuguesa.

Entrar em Moçambique não é entrar num país estrangeiro.

Não me interpretem mal. Não há ponta de saudosismo nem sonhos de impérios perdidos nesta afirmação.

Falo apenas do que sente a alma.

Depois de conviver com tão diversas e, por vezes, hostis línguas (sim, às vezes há hostilidade numa língua), poder falar com alguém que se ri como nós e com quem partilhamos tanto mar não é entrar no desconhecido.

São as pessoas que fazem as paisagens.

E depois, para um moçambicano, um português não é bem um estrangeiro. Sim, somos brancos e fomos colonos. E temos de ter ‘vistos’ e tudo o mais, como os estrangeiros. Mas o facto é que não estabelecem connosco as mesmas relações que com os outros europeus, ou sequer com outras nacionalidades africanas. A familiaridade e a cumplicidade são quase automáticas.

Ao fim de dez minutos, um sisudo guarda de fronteira está a dar-nos palmadas nas costas, a tratar-nos por tu e a falar do resultado do último jogo do Benfica. Ou seja, há os moçambicanos, há os portugueses e há... os outros.

E eu sinto o mesmo.

Quando vejo um boer a interpelar, com a arrogância rácica que os caracteriza, um moçambicano negro, não vejo só um ser humano a humilhar outro – vejo um ogre a maltratar alguém que nasceu português.

Imagino-o a tratar assim o senhor Vasco. O senhor Vasco é um homem de 64 anos que guarda carros no parque de estacionamento do Teatro Matchedje, na rua do Varietá.

É para acrescentar a reforma – explica-me.

Foi português durante 30 anos e é moçambicano há 34.

Como todos os moçambicanos, o senhor Vasco tem um enorme orgulho na sua pátria.

Mas também tenho saudades da década de 60 – adianta.

– Do tempo colonial? Porquê? – pergunto.

É que houve aí um ano em que o Benfica e o Sporting disputaram aqui a final da Taça de Portugal. Na baliza era o… – e a seguir desfia o nome dos 22 jogadores desse jogo que tinha presenciado há 40 anos.

Já o senhor Mausse, colega do senhor Vasco, de 61 anos, acrescenta:

– Ele é todo benfiquista. Eu cá, como sou da Beira [a norte de Maputo e segunda cidade do país], sou do Porto!

E depois Maputo…

    Maputo é uma cidade maravilhosa.

Assim sente quem atravessou África e pode comparar esta capital com Cartum, com Adis-Abeba, Nairobi, Dar-es-Salam, Joanesburgo ou tantas outras. E não falo de conquistas económicas, de saneamento ou de índices de desenvolvimento industrial e tecnológico. Falo de pessoas, de povos e do convívio cordial que se estabelece entre eles. Falo de uma cidade que goza o mar e a relação privilegiada que tem com ele, enchendo de cor, vida e amor uma belíssima marginal. Falo de uma cidade cheia de cafés e de esplanadas onde se misturam todas as cores. Em que negros, brancos e indianos partilham as mesas e as conversas. Onde há ardinas e vendedores ambulantes de DVD, de música, de mangas de papaias e de lichias, de jeans e de computadores. Tudo o que o leitor possa imaginar se vende na rua em Maputo.

É vendido por gente que não deixa que a miséria económica lhe torne a vida miserável e faz questão de sorrir para o sublinhar. Os moçambicanos têm uma imaginação prodigiosa e uma energia inesgotável na busca da sobrevivência.

Falo ainda de uma cidade de mesquitas, de igrejas e templos hindus erigidos lado a lado.

Falo de civilização, não de economia.

É quase impossível encontrar em Dar ou em Nairobi uma mesa de um restaurante ou de um café (os raros que existem) partilhada por negros e brancos. Aqui essa é a regra.

Em Maputo (cujo nome parece derivar de Ka Mpfumu, antigo régulo desta região), na esplanada da Cervejaria Sagres, frente ao Índico, partilhando a mesa com dois negros – um indiano e uma mulata – reflicto como Moçambique parece misturar em si o conjunto de povos, religiões, culturas e tradições com os quais Portugal foi contactando ao longo de séculos de navegação.

O sangue das Beiras, dos Alentejos e do Algarve misturou-se com o sangue dos Changanas, dos Chopes, dos Nianja e dos Iao – e, por fim, ensinou-nos a conviver.

Aos filhos demos o nome de mulatos. Há quem defenda a ascendência árabe do termo, construído a partir da palavra muwallad que designa a união entre um árabe e um não árabe.

A outra origem possível é mais cruel e remete para algo que não se pode reproduzir – a mula – e parece querer insinuar a esterilidade dos frutos das uniões entre ‘raças’.

Moçambique é a refutação viva do absurdo etimológico,

Há por todo o país uma bela e pequena flor que cresce na orla marítima e parece ter particular apetência por se desenvolver nas muralhas dos velhos monumentos portugueses. Vejo-a nas paredes da fortaleza de Maputo, no adro da catedral, nas torres do forte da Ilha de Moçambique.

Leona – filha de pai de Viseu e mãe da tribo Iao no Niassa – diz-me o seu nome.

Chama-se a flor ‘O beijo da mulata’. E esclarece-me que não é uma flor – são almas.

As almas de milhares de crianças mulatas que nunca conheceram o seu pai português – e que, depois de mortas, o buscam ainda na forma de flor que se agarra às memórias do império.

Escalam as paredes para, tentando chegar ao céu, se juntarem enfim ao pai.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: ,
A terra prometida
12 Fevereiro 10 10:00

Expectativa. Caminho com expectattiva.

Nas voltas e revoltas que deu a nossa rota de viagem - a cada passo, a cada fronteira, a cada alteracao de clima, de burocracia legal ou regra cultural - em todas essas voltas nalgum momento apareceu Mocambique. Como um porto, de investigacao, de experiência, de viagem interior sim, sempre. Mas mais do que isso como sonho de identificação, de encontro.

Lembro-me de pensar que gostaria de viver num hotel, não ter nada senão o que cabe num quarto, nem preocupações domésticas senão a de entregar uma chave. Mas agora confesso, apetece-me uma casa.

Todos pensamos nele, o “outro” mundo. Tememos, sonhamos, desejamos, sem pensar muito sobre como é o “aqui”.

Quantas vezes nos acontece encontrar pessoas a viajar, a conhecer o nosso país de formas muito mais profundas e intensas que aquelas que conseguimos, que investimos, que vivemos na nossa vida ? O exotismo cativa, ou é pelo menos tema de conversa.

Para mim, hoje, Moçambique é exótico, desconhecido e misterioso, mas eu sonho, com as identificações culturais do que foi um dia Portugal.

E há mais de um ano ano que sonho assim.

A expectativa aumenta... a cada passo. Estamos a chegar lá... sei que quero antes viver o “aqui”, mas confesso que neste momento aprecio um pouco menos o presente e me apoio na expectativa do amanhã, bom, as filosofias da experimentação são assim mesmo: variáveis.

Atravessamos África, o Sul do continente. E é verdade, há muitos quilómetros que a paisagem mudou.

Olho pela janela e em cada quintal os sul africanos estao sentados a fazer o seu brai, descalços, acenam para mim.

Na Africa do Sul sinto o mesmo que senti no Botswana, há natureza selvagem, densa, bruta e há... estradas, e essa relação é... estranha.

E em mim a acção de turista fica de novo deslocada, não fotografo as cidades, o orgulho da civilização, fotografo as planicies e nelas as árvores, os ninhos, a imensidão do horizonte.

Há viagens cujo único destino é o desejo de partir novamente. E nesse desejo um prazer contínuo da novidade, aqui, as coisas que me são familiares é como se nem as visse.

Estou de regresso à diversidade descaracterizada das cidades, tudo se mistura na mesma rua, no mesmo prédio, na mesma esplanada de um centro comercial.

Vejo os europeus bronzeados, os americanos passeiam-se em fatos kaki e botas anti-cobra. Grupos de japoneses silenciosos fotografam com Nikon último modelo. Famílias de olhos em bico em kaftans batik , procuram chás de canela nas cafetarias.

Numa mesa um grupo de pessoas veste o traje tradicional árabe.Homens com o thawb, a túnica branca de algodão e o keffiyeh na cabeça. Tudo extravagantemente conjugado com óculos escuros Police. As mulheres vestem burkas decoradas a ouro, longos vestidos negros, de seda opaca.

Quando passo as volumosas mulheres riem. De mim.

Sentamo-nos, na mesa à minha frente uma rapariga jovem. Parece indiana, tem pele escura, olhos grandes, sobrancelhas densas e buço. É pequena e magra. É bonita.

Olha-me.

Está sentada em padmasana a posição de lótus do yoga. Está descalça.

Usa umas calças muito largas, turquesa, e uma túnica preta decorada com pedras coloridas. Os olhos espreitam-me por baixo de um véu de veludo preto e dourado. Tem pulseiras feitas de pequenos guizos de prata nos pés e muitas pulseiras vermelhas nos pulsos.

Olhamo-nos. Não sei qual de nós está mais entregue à curiosidade.

Mas o olhar dela parece comentar mais do que o meu exotismo.

Olha os meus olhos frontalmente, com o tipo de intensidade vazia que nos denuncia quando a nossa atenção está deslocada. É misteriosa e não resisto a observar mais.

Observo.

Ao lado dela estão sentados quatro homens jovens, tem feições indianas ou árabes, é difícil precisar.

Todos olham a rapariga indiana. Nao entendo porquê.

Ela olha para mim, o olhar parece de algum modo comentar a cena. Desafia-me com um leve sorriso, os olhos pestanejam lentamente, como em código. Observo mais.

Os homens estão todos sentados da mesma maneira, de pernas abertas, o mesmo ângulo no rosto voltado para a rapariga.

Ela finge não dar por isso mas é ela quem os domina.

É muito jovem, 12, 13 anos. Tem vestígios de henna nas mãos e nas unhas, será já casada? O batôn que usa, rosa forte, desadequado, dá-lhe um ar de jovem cortesã. A posição em que está sentada parece-me agora de promessas de Kama Sutra.

A rapariga olha só o espectador, eu, em doce cumplicidade. Parece uma encenação cuidadosa. Todos tão convictos do seu papel na cena erótica.

Os rapazes olham-na com lascívia. Afagam repetidamente os seus próprios joelhos, como em leve masturbação.

Os olhos da rapariga sorriem. Olha-me como se me oferecesse o privilégio de poder reconhecer Kama (a deusa Hindu do amor) entre os mortais e de lhe poder observar os jogos.

Como se esta menina fosse o símbolo do prazer e da sedução.

A cada leve movimento que faz sinto o seu cheiro forte, a incenso doce...

Passeiam as familias africanas.

As mulheres caminham atrás do marido, carregando as crianças e os sacos. Vestem cangas coloridas, tradicionais da costa oriental de África. Num dos panos que abraça uma cintura voluptuosa posso ler a frase Swahili: Hifadhi utamaduni wetu. “Preserva a nossa cultura”.

Chegamos ao Sul de África já há alguns dias, e o contexto urbano destes paises nada tem a ver com o da África Oriental, mas ainda me surpreendo. Passamos numa papelaria, pego numa edição da Vogue, eu, meio anestesiada pelo efeito desta droga chamada aldeia global, leio. Na capa anunciam o artigo principal sobre as melhores técnicas para diversificar o seu guarda-roupa e usar mais cores vivas... a mim parece que a revista vem de Marte...

Ainda há uma semana atrás tinha um encontro com uma mamba verde oriental, uma das maiores e mais letais cobras de África, e estou agora neste sitio onde parece que os bichos não chegam, onde estão presentes mas parecem colocados pela mão humana, que cuidadosamente lhes escolheu o lugar. Aqui toco os leões, pego ao colo os crocodilos, alimento as chitas e posso apadrinhar chimpanzés. A estrada que atravessa todo o parque Kruger, uma das maiores reservas de vida selvagem de africa, é melhor do que a estrada nacional da Tanzânia!

O olho turístico fica de novo deslocado, não fotografo as cidades, o orgulho da civilização, fotografo as planícies e nelas as árvores, os ninhos, a imensidão do horizonte.

Seguimos, e penso para mim que será amanha, amanhã mesmo chegaremos. Lá, à terra prometida, Moçambique.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Em tempos foram homens
05 Fevereiro 10 10:00

Entramos finalmente na África do Sul, concluímos a travessia Norte-Sul do continente. Foram mais de 12.000Km e doze países que atravessámos - só em África - e, o que não é despiciendo, sobrevivemos!

 

 

África do Sul é um nome desconchavado para um país. Quem é que gostaria que Portugal se chamasse ‘Europa do Ocidente’?

Passada a fronteira a primeira vila que encontramos chama-se…Belfast!

É desde logo um aviso para o que vamos encontrar neste país.

Estamos, de facto, a Sul da África negra. Ou assim parece. Belfast tem um núcleo urbano em nada distinto de uma vila do Norte da Europa e até faz frio. Como na Europa tem também uma periferia miserável de bairros habitados por negros. 

Nada neste país é como no resto da África que atravessámos: há estradas, há electricidade, as cidades são organizadas, há recolha de lixo, têm jardins e iluminação pública, teatros e cinemas, escolas, hospitais e universidades. Há megapolis como Joanesburgo com cerca de 8 milhões de habitantes. O PIB per capita é cerca de doze vezes superior ao do vizinho Moçambique.

A vida selvagem não foi dizimada nas lutas intestinas e é tão abundante e variada que é possível ir a um café com um jardim onde há gazelas, avestruzes, ónix e cavalos. Também há muito espaço -o país tem doze vezes o tamanho de Portugal e só quatro vezes mais população. Por isso as vilas estão cheias de vivendas descomunais – quase sempre propriedade de brancos – com jardins luxuriantes, com carros, barcos e por vezes helicópteros estacionados no seu interior.

 

Os boers gostam de viajar de jipe, por isso o país está cheio de belos lodges onde por 30 ou 40 Euros se dorme.

É justamente a um deles que nos dirigimos para pernoitar. Somos recebidos por uma simpática senhora:

 

 

-‘Boa noite, gostávamos de dormir aqui, mas temos um cão. Aceitam cães?’

- ‘Cães? Sim não há problema, adoro cães. Mas há uma dificuldade: temos gente negra cá a dormir, percebem? Não há como evitar! Querem ficar mesmo assim? ’

 

Palavras para quê?

Penso apenas em que outro sítio do mundo esta cena seria possível?

A senhora parte do princípio que, por sermos brancos, nos pode colocar a questão, assim, sem pudores nem reticências. Ou seja para ela é normal perguntar e nem se lhe coloca a dúvida se para nós também o é, antes conclui, baseada na cor da nossa pele, que só pode ser.

Ficámos apesar de tudo.

 

No dia seguinte, já de saída de Belfast, paramos numa pequena barraca, já nos arredores, para comprar água. O bairro é de negros e os olhares que nos lançam são desconfiados e por vezes hostis. Só na Rússia me lembro de ter sentido uma sensação semelhante

Seguimos viagem.

 

 

- Estão sempre a cumprimentar-nos!

- Pelos vistos aqui é hábito, parece que toda a gente nos conhece.

 

Saímos de Belfast esta manhã e desde então, sempre que algum veículo se cruza connosco na estrada, o condutor ergue a mão direita em sinal de saudação. O gesto é muito específico, não é um ocasional e displicente aceno; não é um acto distraído nem circunstancial.
Palma da mão bem aberta, dedos unidos mas com o polegar bem separado e ligeiramente arqueado para cima, levantar e baixar lento do braço.

 

 

- Se calhar é por causa da matrícula…

 

Mas não, não é da matrícula. É da cor, da cor da pele entenda-se.

Todos os condutores que nos cumprimentam são brancos e os brancos deste país cumprimentam-se. Trocam gestos de identificação formais e codificados, tipo sociedade secreta, e mesmo sendo óbvio que nem eu nem Filipa possuímos as características físicas dos boers – enormes, obesos, peles nórdicas e olhos claros - mesmo assim a Filipa é loura e eu, ainda que muito escurecido, ainda entro na categoria de branco.

Somos do clube portanto.

 

Já tinha sentido coisa parecida na Tanzânia, mas aí a situação era diferente: todos os brancos com quem convivíamos eram expatriados europeus na sua maioria, tínhamos algo em comum.

Mas aqui a única coisa que tenho em comum com estes condutores, que não conheço, com os quais não tenho qualquer relação e que ademais são naturais deste país, é a cor da pele.

 

De início ainda acreditamos que é simpatia e espírito pioneiro: temos um furo, de imediato um jipe carregadinho de boers para e de lá saltam uns dois ou três para nos ajudarem a mudar o pneu.

Uns quilómetros depois um jipe está atolado mesmo no meio de um cruzamento. Nos trilhos que vão dar ao cruzamento estão parados cinco ou seis veículos, aguardam que o condutor consiga desatolar-se. O condutor do veículo atolado é negro, os condutores dos jipes são brancos. Nem um só foi ajudar. Saímos do nosso jipe e oferecemos auxílio ao condutor, que está muito aflito. Os boers olham-nos atónitos. O condutor negro não está menos surpreendido.

Horas depois é a nossa vez de ficar atolados. Passam dois veículos conduzidos por negros, não param. Passa um jipe conduzido por um branco, pára e reboca-nos.

 

Não conheço continente tão racista como o africano. Os meus amigos africanos explicam-me que há muitas ‘raças’: negros, amarelos, vermelhos, brancos, mulatos, mulatos apurados, monhés, mistos, canecos… E desconfiam muito quando eu digo que só existe a raça humana.

E neste continente de raças não há país tão segregacionista como este.

 

O clube dos brancos sul-africanos age como se fosse uma espécie em vias de extinção. Isolam-se, não convivem com os negros, vivem em fortalezas, frequentam cafés onde não entram outras cores. Os negros vivem em bairros onde não entram brancos, têm os seus redutos e desconfiam de qualquer branco que se aproxime. Não convivem, antes vivem em zonas bem delimitadas que a prudência aconselha a respeitar. As relações entre eles, que se pressentem quando se respira o ambiente das cidades, não são mais do que contratuais. O contrato parece ser:

 – ‘Não te vou matar mas não sou obrigado a viver ao pé de ti!’

 

Não encontrei a nação arco-íris que Mandela generosamente proclamou. Não encontrei, de facto, sul-africanos. Encontrei boers e zulus, indianos e xhosas, sothos e chineses.

 

Todos eles, em tempos, foram homens mas aqui respondem por outros nomes.

Publicadopor Vagamundos | 1 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
O ciclo sagrado
29 Janeiro 10 10:00

Não procures os deuses, eles estão por todo o lado. Nas águas, nos nenúfares, no bambo, no papiro, nas águias e nas pequenas rãs, nos louva-deus, nos crocodilos, nas areias. O ciclo da natureza, esse é o divino.

 

O braço de rio vem das montanhas de Angola, e corre. Espalha-se pelas areias claras apenas para se evaporar e ser sugado para o céu onde de novo vai chover nas montanhas.

 

Visto numa imagem de satélite o delta é como uma mão feita do braço do rio Okavango, que desaparece na areia seca do deserto kalahari. Estamos aqui.

 

Aproximamo-nos da água, mas não a vemos. Sentimo-la presente, no verde da vegetação de ervas altas, no zigue zaguear do caminho que fazemos. Continuamos sempre, mesmo não seguindo em frente. E vemos a água, vemos nela as canoas, parecem-me pequenas demais para o nosso plano, três pessoas dentro da madeira instável? Aproximamo-nos da margem, mas não se pode chamar margem à areia ensopada de água, em movimento irregular e mutável.

Tudo se move aqui, as ervas, as águas, as areias, o ar, os seres que o meu olhar distraído ainda não consegue ver.

Saio do jipe, na irregular margem espera-nos John, o barqueiro. De calças arregaçadas e pernas enterradas na areia pantanosa aguenta perto de si o mokoro – a canoa tradicional – recebe a minha mão, os meus pés destreinados enterram-se e mal me equilibro para subir. Subo, sento-me na fina cama de capim seco que cobre o fundo da canoa quase chato.

 

Sinto que pela primeira vez flutuo.

Não sei se é a forma da embarcação, a cor da água, a temperatura do ar ou a visão da vegetação, mas sinto um flutuar... diferente, como se fosse de facto a primeira vez.

A canoa parece não ter peso, a água não existe, tudo o que delimita os elementos são apenas linhas ténues. Tudo se mistura sem peso ou forma. Sim, a sensação é assim mesmo, mágica, e logo que a canoa avança sinto como se entrasse noutro mundo. E é assim mesmo que acontece.

John conduz a barca de pé! E o seu remo é um pau longíssimo e muito fino, que toca o fundo do delta ou se apoia nos enlaçados nenufares que habitam o interior das águas.

Está calor, mas não se imaginem a navegar suavemente de pés e mãos dentro de água, aqui habitam os seres, os crocodilos, os hipopótamos, os peixes letais.

 

Entre Junho e Agosto, os meses mais secos do Botswana, o delta incha e chama para si enorme quantidade de vida selvagem, e sacia os seres.

 

Navegamos, deslizamos suavemente, tão suavemente, o equilíbrio é impossível, o movimento imperceptível, a sobrevivêcia milagrosa e o caminho? Esse gesto já conheço, é inventado.

O mokoro avança deslizando, às vezes na água transparente, pintada das cores das folhas e das flores, outras vezes pela vegetação, desafiando a altura e a densidade das ervas. A “proa” da canoa, pontiaguda, separa as ervas e o som da madeira pela vegetação é... musical. Como o som do toque do vento num canavial de canas muito finas, como o arrastar áspero das camisas de milho numa eira de pedra, como o som sensual da seda de um vestido tocando uma parede de cal.

 

No delta as concentrações de sal da evaporação das águas em conjunto com as enormes térmitas criam ilhas, dentro do delta visitamos a ilha do chefe, reservada como seu único espaço de caça. A canoa pára na areia mais seca, saltamos para a ilha. Acompanhamos John, que nos vai educando sobre as pegadas de animais, de hipopótamos, de elefantes, de hienas...

 

Viajamos, e nem sempre sabemos para onde nos deslocamos de facto, onde está o longe ou a distância, pode estar sentada ao meu lado no autocarro ou lá longe nos destinos exóticos do oriente, ou aqui, em áfrica. E de novo pensamos que há coisas que são universais.

Em Portugal estou sentada com amigos num jantar feito de saudades, de afectos, e falamos das distâncias. No calor das discussões uma amiga levanta-se de rompante, a pele roborizada pela certeza, os gestos tensos das verdades:

- Há coisas que são universais! Que são iguais aqui e em todo o mundo – eu replico que não é verdade mas penso um pouco e respondo apenas que não sei.

Não sei.

A minha experiência diz-me que não, mas, na verdade, que sei eu das verdades? Nada.

Mas sei, isso sim, que basta afastar-me o suficiente da minha rua que tudo fica diferente. Tudo é relativo.

E argumentam comigo que as coisas universais são o instinto maternal, o valor da vida...

 

Nenhuma das nossas certezas se mantém no confronto com a realidade que vemos da nossa janela.

 

Seguro na mão uma moeda do Botswana – um pula. Pula significa chuva.

Ao preço da chuva. Já pensaram no significado desta expressão? Não exactamente do que exprime mas porque o exprime assim?

Em portugal chove, muito. Há água (pelo menos por enquanto).

Mas imaginem a mesma expressão usada em países como o Egipto ou a Namíbia, formados por enormes desertos? No Botswana 70% do país é deserto, o deserto kalahari.

Aqui a água é preciosa.

Na tribo dos Hambukushu há uma crença, um ritual, uma prática. Na tribo dos Hambukushu existe desde tempos imemoriais o fazedor de chuva. Este homem quando chega à idade de casar escolhe uma mulher, esta mulher é escolhida para dar à luz sacrifícios. O fazedor de chuva e a mugrodi, a mãe da chuva, fazem filhos que oferecem para que nunca falte a água para as criaturas da terra. O bebé nasce, o bebé é enterrado nas margens pantanosas do delta, apenas a cabeça está de fora, o crâneo aberto recebe as primeiras gotas. Mantido o sacrifício a chuva continuará.

Não, nada é universal.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Esperança a caminho
22 Janeiro 10 10:00

Para mim o Zimbabué tem pêlo dourado e grosso, tem bafo quente, patas fortes e um olhar…

As estórias aqui são duras. A estória política, económica, social… essas quase todos conhecemos. Das notícias, dos jornais, dos documentários. E pensamos que conhecemos tudo.

Estamos na cidade de fronteira com Zâmbia, aqui o turismo é forte e importante mas nas prateleiras das lojas não há nada, nos restaurantes não aceitam dinheiro local e todo o tipo de negócio é feito em dólares. Passeamos no jipe dispendioso e muitas vezes os olhares são… magoados.

Mas para mim ziimba remabwe, a grande casa feita de pedras, conta outra estória.

Caminhamos pelo mato, em grupos pequenos, e caminhamos em suspense, podemos não ver nada de início mas o mato é sempre surpresa, agora isso já sei. Recebemos informações e por isso pensamos que caminhamos informados, seguros, sabendo o que fazer.

Caminho pelo mato e sei que Zimbabué espreita… estou no território dos animais. Eles estão aqui. E vêem-me. Eu não os vejo.

Caminhamos em fila. Viemos todos com o mesmo propósito, vê-lo, tocá-lo, sentir o seu poder. Há regras, sabemos, não podemos deixar que nos olhe de frente, não podemos deixar por um momento que seja ele a tomar iniciativa. Mantemos na mão um pau magrinho, simbólico objecto de poder, e concentramo-nos na força a pôr na voz, na determinação e segurança que precisa um “não!”. Nós somos os visitantes e controlamos o encontro. Caminhamos, os homens sábios das leis e coisas da natureza caminham à nossa frente, eles não olham, eles vêem. Nós olhamos, direccionamos vagamente o olhar, apenas.

Um arbusto mais forte, uma árvore mais alta, erva, erva, pedras. Isto é o que eu olho. Eles vêem as pegadas, os ramos marcados, os ninhos, as tocas. Eles educam-nos pelo caminho. Nós avançamos como crianças que não sabem nada. E pelo caminho assim respondemos às lições sobre esta casa, falam-nos dos pequenos pássaros que fazem os ninhos escondidos nos ramos dos arbustos, falam-nos das folhas e paus que se apanham e se usam para desinfectar, para lavar os dentes, para fazer tudo aquilo que nós, as crianças, só sabemos fazer se vier em embalagens e com explicações no exterior sobre o que é, para que serve, como se usa. Aqui as regras são outras. E eu não as controlo, eu oiço e olho, na esperança que à força da repetição possa verdadeiramente escutar, observar e aprender.

Avançamos, a maioria de nós nem se detém nestes pormenores do caminho, estamos demasiado apressados e gostamos de receber o que mais nos motiva de forma rápida, clara, directa. Avançamos mais um pouco pela grande casa deita de pedra e perante a inquietação de alguns aceleramos o encontro, os homens sábios do mato oferecem-nos o presente e vemo-lo chegar devagar… o rei. São dois, avançam. E para nós chegaram os brinquedos. Aqui sabemos que nos podemos aproximar, embora com regras de segurança, que embora tenhamos assinado um documento que prova que sabemos dos perigos, estamos livres para experimentar. Que embora seja selvagem posso tocá-lo, e embora seja um ser posso usá-lo como um brinquedo, que embora tenha pago para isso o encontro com ele é genuíno, e embora leve boas fotos para casa estou de facto a ajudar. Esta é a maior esponja de intenções e peso de consciência da Europa – as causas humanitárias.

Eles avançam, são dois os reis. Um rei uma rainha, ou dois príncipes, jovens. Nós, as crianças humanas acabadas de chegar da civilização, vestidas em kaki de look safari, olhamos deslumbradas: “posso tocar? Mesmo?”. Não queremos acreditar que a natureza está tão perto, ou melhor, que a fantasia sobre África está assim, tão perto de ser realizada. Porque o desejo não é de natureza, essa está ali, na árvore, na flor, no piar do pássaro. Vai á janela, não há natureza aí onde tu estás? Mesmo que seja um toque, um verde, a presença tímida de uma erva daninha, tudo isso é natureza. Não precisamos de nos deslocar os lugares sagrados para fazer o culto, o sagrado existe, está por todo o lado. Mas da mesma forma que me toca e comove um templo, uma mesquita, uma catedral, um encontro assim, de perto, com um leão, é assim mesmo… sagrado.

Eles avançam, os príncipes, e sinto-lhes a força, a serenidade, o poder.

São dois, um leãozinho de 18meses, ainda sem juba e uma leoa de 12meses.

Eles avançam, deitam-se, abrem as patas e esfregam as costas no chão, para se refrescar. Olham-nos de vez em quando mas parecem identificar em nós uma única função, mimos. O macho está deitado de barriga para cima e os sabedores das coisas da natureza dizem-me que posso avançar e fazer-lhe festas, eu avanço. Olho o pêlo, toco-o e afago-o como um gato. É bom, é estranho, sinto dentro do leão a força, como se o sangue corresse mais veloz nas veias, como se os músculos estivessem mais acordados, os ossos mais activos e flexíveis. Um segundo em que desvio os olhos e a boca do leão avança para a minha mão, eu reajo por instinto, ele olha-me, de frente, uma das regras a não quebrar, eu levanto-me com o meu pauzinho na mão e solto o não da praxe, ele volta a deitar-se com um ar absolutamente entediado. Apetece-me brincar, mas avisam-nos, o toque da língua é o suficiente para a pele ficar vermelha e um momento de brincadeira pode ser fatal. São animais selvagens estes leões com quem caminhamos pelo mato.

Pensa “agora”, amanhã pode ser tarde demais.

Vê, toca. Visita-nos agora. África é destino único e está a ser transformada, o rei está em vias de extinção. O número de leões em África está a diminuir drasticamente, números recentes indicam de dentro de pouco tempo não haverá mais leões. A caça, as doenças, a redução do seu habitat natural põem em perigo a vida destes animais. E eu estou aqui! Toco-os. Tocar um animal selvagem é regressar à origem de todas as coisas.

Este momento, da caminhada com os leões, é parte das várias fases de uma ONG que protege o rei. Criando as melhores condições para o acasalamento e a sobrevivência dos leões nos primeiros meses de vida. Entre o seu nascimento e sua total libertação na vida selvagem está um elemento, o homem. O homem que caça, que ocupa território, que invade, é o mesmo que se preocupa, que protege, que permite a vida.

Regressamos do mato e de novo ouvimos Nyaminyami, o espírito do rio Zambeze, muitas vezes falo aqui sobre a poesia e a morte da poesia, sobre as boas intenções as más utilizações mas eu… eu tenho esperança, e apetece-me ficar.

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , ,
Onde há fumo há água!
15 Janeiro 10 10:00

A África não tem belas catedrais como as da Europa.

Nem a sua pintura me comove como o faz a europeia, nem a sua escultura e nem sequer a sua música.

Aqui o belo escolheu a natureza para residir. Ela tem o dom de me preencher, de satisfazer por si toda a necessidade de fruição estética de que careço.

O belo e o infinito juntam-se numa só imagem e oferecem-se, sem apuro mas com refinada elegância, ao meu olhar.

Se fosse crente diria que Deus escolheu esta parte do mundo para mostrar ao homem que, por mais que se esmere, não poderá  competir com ele na criação da beleza.

 

 

“É um grande incêndio!” – Diz-me a Filipa, apontando uma enorme mancha de fumo branco que se eleva, gigantesca, no horizonte, sobre a floresta.

Viajamos em direcção a Livingstone, cidade situada na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabué, e a nenhum de nós ocorreu que a gigantesca nuvem mais não é que milhões de partículas de água lançadas a largas dezenas de metros de altura pela força da corrente das Cataratas Vitória. A nuvem que daí resulta é visivel a mais de 40km, distância a que nos encontramos da catarata.

 

“Sem dúvida os anjos reúnem-se  nos céus para, das alturas, contemplarem tamanha beleza”. Escreve Livingstone quando aqui chega, em 1855. O viajante terá sido o primeiro europeu a contemplá-las e, comparando-as em majestade à soberana do império onde ‘o Sol nunca se punha’, baptizou-as com o nome de Vitória.

 

O que o missionário nunca disse foi que os Koloko ( tribo local) tinham crismado a catarata com  um nome mais antigo e poderoso: ‘Mosi-oa-Tunya’ – o fumo que troveja.

Nem, impedido talvez pelo seu fervor cristão, falou do deus do Zambeze: Nyaminyami, o deus do rio.

Aqui, na África austral, diz-se sempre o nome do rio antecedido do adjectivo ‘poderoso’. E o poder do Zambeze é atordoante – o seu comprimento é praticamente igual à distância que separa Moscovo de Lisboa e a sua bacia ocupa uma região semelhante às áreas somadas de Portugal, Espanha, França, Suiça, Bélgica e Holanda.

Esta descomunal massa de água precipita-se, aqui, de uma altura de mais de cem metros dando forma e justificando o seu nome ancestral.

 

E quem governa o poderoso Zambeze é Nyaminyami, o senhor das águas.

Como o deus Nilo é ele que tem poder sobre os crocodilos, os hipopótamos, sobre as cheias, sobre as secas, sobre a vida e a morte. É um deus com forma de serpente que vive sob uma grande rocha no lago Kariba, a jusante daqui. Os Tonga (tribo do lago) dizem que a grande barragem que foi construída no rio – Cabora Bassa, em Moçambique – separou Nyaminyami de sua mulher. Desde então a ira do deus sente-se amíude e à noite as águas, contam-nos, correm vermelhas quando ele passa à procura da sua noiva.

 

 

A depressão que forma as cataratas começa na Zâmbia e termina, capricho da política, 1708 metros depois, já no Zimbabué.

Paramos em Livingstone, ainda na Zâmbia para ir buscar um passageiro: o nosso amigo e ex-patrão Brian Currie, o presidente da Trade Aid para quem trabalhámos na Tanzânia dirigindo as actividades dessa ONG.

Brian foi peremptório: “Não consigo convencê-los a ficar mais um ano a tomar conta do Boma, mas nem pensem que se livram de mim assim. As Vic Falls ficam na vossa rota, eu voo para lá, vocês apanham-me e passamos uns dias no Victoria Falls Hotel. Eu pago!”

 

A verdade é que Brian, não só nos pagou a estadia no hotel, como antes já tinha insistido em financiar parte da nossa viagem, desde a Tanzânia até Moçambique : “É o vosso bónus, mesmo assim acho que ainda vos devo dinheiro.”

Por isso à hora marcada do dia combinado reunimo-nos de novo com ele.

Não vinha só: trazia o novo administrador da TA a quem vinha mostrar África. Metemos os dois no jipe apesar da firme oposição de Ra.

 

Na fronteira com o Zimbabué Filipa eu e Ra passamos sem problemas. Já a Brian e a Neill, à laia de represália pelas difíceis relações que o reino Unido mantém com a antiga colónia desde o inicio da actual crise zimbabueana, exigem o dobro do dinheiro, e levantam todo o tipo de dificuldades

Brian tinha dito que o hotel era um local agradável. Esquecera-se de dizer que é um dos mais luxuosos hotéis da Africa austral.

Construído em 1904 Situado em frente às cataratas beneficia da mais extraordinária vista sobre elas.

Não é um local que escolhêssemos para passar a noite se fossemos nós a pagar: o quarto custa cerca de 500€.

Estamos no país de Mugabe, a dez quilómetros daqui não há electricidade, nem comida ou água e desde há meses que não há combustível.

No hotel existe uma bomba de combustível privativa, um lago artificial, a carne vem da Argentina, a pastelaria é francesa ( incluindo os pasteis de nata misturados com as ‘french delicatessen’) o vinho da África do Sul e da Europa, o  champanhe e os queijos de França e o caviar do Irão. A clientela, predominantemente do norte da Europa e dos EUA, esquece durante uns tempo as agruras da política e partilha a requintada sala de jantar com ministros do governo de Mugabe. Todos são bem vindos, mesmo os britânicos.

E, milagres só possíveis às moedas fortes, Brian foi tão persuasivo na exibição dos seus cartões de crédito que convenceu o gerente a aceitar que Ra ficasse connosco no quarto. Foi a primeira vez que ele dormiu num tapete persa.

 

Estar de viagem com Brian é como se tivéssemos dez anos, andássemos com o nosso pai e fosse sempre Natal: ele paga tudo e está sempre a oferecer presentes. Além disso tem o hábito de distribuir notas expressivas a toda a gente que ele acha que precisa. Durante a sua curta estadia arranjou ainda forma de pagar a educação do filho de um empregado de uma das lojas do hotel.

No final, antes de partir, disse-nos que já tinha pago mais uma noite de hotel para que pudéssemos ficar sós.

 

 

É noite e a Lua está cheia.

O rio ruge quando se despenha no abismo e das águas ascende o fumo que, antes de se evolar nas alturas, qual farol guia os viajantes até à grande queda de água.

Adormeço no meio dos maiores confortos que o dinheiro pode comprar.

Nem sonho com a profunda miséria que me rodeia.

Publicadopor Vagamundos | 1 Comentário(s)    
O lago nascente
08 Janeiro 10 10:00

 

O Homem toma conta do mundo? Nós, os humanos somos responsáveis pela criação? É verdade? Como? Tenho as dúvidas. E adensam-se a cada passo.

Mas o sol nasce. Ainda. E aqui nasce no lago. Malawi - o lago nascer do sol.

No início vivia apenas deus Mulling e os animais. Tudo vivia em paz. Um dia decide pescar no lago. No primeiro dia ele apanha uma boa pesca e come bem, no segundo dia ele não apanha mais nada na sua ratoeira senão um homem e uma mulher minúsculos. Ele liberta-os e deixa-os caminhar pela terra, eles crescem até terem o tamanho que tem hoje. Esfregam dois paus, um no outro, e fazem o fogo. O fogo cresce descontroladamente e devora a floresta ameaçando todos os animais. Depois matam um búfalo e cozinham-no.

Mulling está furioso com os humanos, todos os animais fugiram, mesmo a aranha sobe até a árvore mais alta e desaparece no céu, tece um fio longo e forte que lança para Mulling, o deus, ele foge da sua própria criação, os humanos quase destroem tudo.

Avançamos. E como sempre invento os caminhos, sei que não existem. Os caminhos secretos de África são os caminhos doces dos afectos. Não sei o que seguimos, nem sei se é um caminho os riachos que passamos, as pontes, os troncos, os caminhos entre as cabanas, pelo meio das cabras e sob os olhares das crianças. Avançamos pela vegetação luxuosamente verde, escandalosamente verde. De bananeiras, de coqueiros. Os macacos observam-nos das bermas das estradas, as crianças afastam-se, as mulheres param e controlam pelo canto do olho o jipe que avança.

Não sabemos o caminho mas seguimos o caminho. Procuramos o lago. E vemos no mapa o tamanho e, ainda hoje nos deixamos enganar pelos papéis desenhados a cores, pensamos nós que o lago se vê! De certeza se vê ao longe! Hum…. Nem sinal dele. Mas vê-se. No verde da vegetação, no vermelho da terra.

Aqui há água. Que cai do céu, que vem da terra. Estamos no território do lago, aqui é ele que reina.

Está sol. A luz reflecte de certo o lago, mas não o vemos, parece cada vez mais escondido.

No início o sol e a lua eram amigos e brilhavam ambos com a mesma intensidade. Um dia forma tomar banho no lago com as suas famílias e o sol sugeriu que ocupassem zonas diferentes do lago para que tivessem maior privacidade, combinam um sinal, quando a água estiver a ferver é sinal de que ele já tomou banho. Logo que a lua e a família se afastam ele arranca ramos de uma árvore, incendeia-os e atira-os para a água, a lua vê o vapor a sair da água entra na água. Quando a lua sai da água ela está bastante pálida e perdeu a maior parte do seu calor. O sol aparece de surpresa e ri da lua, porque ele está mais brilhante do que ela. A lua decide vingar-se.

Há uma grande seca na terra e a lua sugere que matem os seus filhos porque não é possível alimentar tantos seres. A lua combina que usem zonas diferentes do lago para terem privacidade, quando o sol vir sangue na água saberá que a lua já matou a família. A lua não o faz, o filho mais novo deita giz vermelho na água, quando o sol vê a água tingida ele mata todos os seus filhos. Agora ele vive de dia e brilha intensamente, mas a lua, pálida, brilha de noite, acompanhada por toda a sua família.

Aqui preparo-me para resistir às tentadoras águas, tem fama de ser letais.

Aqui, no vale Rift, o lugar que será poupado mesmo no dia em q o mundo acabar.

Aqui nesta parte do mundo viviam os pigmeus.

Caminhamos a superfície da terra e num encontro com um pigmeu pergunta ele:

- Quando é que pela primeira vez me viste? – e só existe uma resposta

– Lá muito ao longe! - Respondendo assim o pequeno ser correrá a saltar gritando

- Afinal sou grande! Afinal sou grande! - Se a esta recorrente pergunta responder a verdade

- Só agora te avistei - o pagamento será um apenas, uma seta impregnada de veneno, espetada no rabo.

As pequenas crianças apontam para nós:

-  Tu, mzungo (branco) peni (caneta)?

Procuramos o lago lago, Niassa.

O lago que é Malawi e Niassa, que é Tanzânia e Moçambique. Para quê dar-lhe nomes e dividi-lo em fronteiras que se afundam. É O Lago.

Avançamos, avançamos, avançamos e finalmente conseguimos vê-lo… é imenso. Parece que chegámos ao mar! Cerca de 560k de cumprimento, 80km de largura, 700m de profundidade… uau!

Do meio do lago é impossível ver as margens, e pela cor, a ondulação, as correntes, é difícil não sentir que estamos à beira de um mar.

As águas estão infestadas de bilharzia mas… confesso que sei o quão refrescantes são… há perigos de este parasita entrar no nosso organismo mas poucas hipóteses de que seja invasão letal… eu nem hesito, comecei por molhar os pés e depois assumir o risco, mergulhando de cabeça! Hum….

Aqui há só uma hipótese para ficar, uma missão luterana. Estacionamos. Avançamos pelas escadas de cimento do edifício de telhado de zinco. E apesar das diferenças a memória viaja para os colégios da infância, o cheiro a cera, que aqui não existe, sobe-me ao nariz, e instintivamente baixo o tom de voz. O crucifixo na parede leva-me para os colégios onde estudei… religiosos da fé que não me assiste.

Anoiteceu já. O lago parece sinalizado por luzes de velas flutuantes, os pescadores aguardam a mordedura dos peixes, a luz é o isco, os peixes aproximam-se e são apanhados.

Aqui as lendas falam de monstros como cobras, que saem das águas e vão pelas aldeias devorando o sangue e os cérebros das suas vítimas.

Aqui vivem os crocodilos e os hipopótamos.

Contam a estória de um homem que vivia nas margens do lago e pedia a deus por sorte e fortuna, um dia saiu das águas uma mulher feia com um só olho e o homem desposou-a. De imediato enriqueceu. O homem recebeu muito gado e a fortuna foi aumentando cada dia, um dia numa fúria o homem cansou-se da sua esposa e bateu-lhe dizendo que por ser um homem rico e poderoso já não precisava de uma mulher tão feia. A mulher voltou as costas para ele e começou a avançar para as águas e para espanto do homem cada uma das suas vacas e cabras a seguiu, afogando-se nas águas do lago.

Nas margens do lago senta-se uma pedra q todos acreditam ser sagrada e misteriosa, um ser que de noite se levanta e vai às águas beber.

No lago acreditam viver ainda as almas dos pigmeus dizimados pelos Bantu, fumos que ao longe sobem para os céus.

O lago nasceu da mãe terra. Nasceu para a Tanzânia, para o Malawi, para Moçambique, para nós. Cuidamos dele?

Publicadopor Vagamundos | 0 Comentário(s)    
Arquivado em: , , ,
More Posts Next page »